Skip to main content

MIRISOLA NO AQUÁRIO (por José Luiz Tahan)


Nos idos de 90, mais pro começo da década, eu era um livreiro ainda calouro, na lendária livraria Iporanga, no coração do Gonzaga, aqui em Santos.

Atendia muitos clientes e absorvia muita informação vinda deles, que sempre – e até os dias atuais – mais me ensinavam do que o contrário.

Um desses clientes era um cara discreto. Suas visitas frequentes não passavam despercebidas por causa do gosto literário. Eu sacava rápido quem tinha identidade como leitor. Esse é um gosto vivido por livreiros: a gente pratica um voyeurismo intelectual. Sabemos as suas leituras, suas ideologias, e em parte o que você pensa.

Esse cliente se virava bem. Um dia foi Elias Canetti, "O Todo-Ouvidos". Numa outra visita, Henry James. Mais adiante, "Crazy Cock", do Henry Miller.

Esta última leitura o pegou de jeito. O homem se alimenta do que lê, e essa dieta de ficção gerou um escritor dos bons, eu vim a saber.

Só descobri que aquele cliente tinha se tornado escritor quando, um dia, folheava uma Playboy, cuja capa não me lembro (o que é um mau sinal).

Mais para o fim da revista, havia um pingue-pongue de três perguntas com Marcelo Mirisola, descrito como revelação das letras, recém-chegado ao mercado editorial. Numa das respostas, ele falou algo sobre a imagem da Lygia Fagundes Telles, que parecia uma raposa com uma piteira, ou algo assim. Não me lembro bem. O que me chamou a atenção foi a mistura da imagem do Mirisola e a lembrança de seu nome nos cheques que ele deixava na livraria. Pronto, era ele mesmo. Aquele cliente tinha virado escritor resenhado e entrevistado na Playboy.

Só depois fui ler seus livros, que para minha surpresa são ficções biográficas, lembranças e andanças e observações, tanto em contos como em romances. Bons leitores podem ser bons escritores. Mirisola tem uma metralhadora apontada para o lugar comum, para as pessoas públicas sem eira nem beira. Adoro ler seus textos e compartilho de uma porrada de coisas que estão lá, impressas em 14 ou 15 livros.

Como os livros do autor têm algo de memórias, fui citado também, primeiro em "O Azul do Filho Morto", e depois em "Charque", como alguém que salvou a sua vida – culpa mais do Henry Miller, já que fui apenas o vendedor do livro.

Mirisola virou um bom amigo e retorna sempre à minha livraria atual, a Realejo Livros, como tem feito em quase todos os lançamentos de seus livros.

Falaremos sobre o aquário e suas focas tristes – uma delas, parecida com Noel Rosa, mandou lembranças ao autor.



José Luiz Tahan, 41, é livreiro e editor.
 Dono da Realejo Livros e Edições em Santos, SP,
 gosta de ser chamado de "livreiro",
 pois acha mais específico do que
 "empresário" ou "comerciante",
 ainda mais porque gosta de pensar o livro
 ao mesmo tempo como obra de arte e produto.
 Nas horas vagas, transforma-se
 no blues-shouter Big Joe Tahan.



Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.