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Showing posts with the label Realejo Livros

AFOGADO EM PAPEIS (uma crônica de Marcus Vinicius Batista)

Não consigo fugir deles. Guardo cada vez menos. Imprimo o mínimo necessário. Repasso cada vez mais. Um país cartorial como o nosso, quando a papelada chegou nas caravelas antes da nação, não perdoa: tudo precisa de papel. E, com ele, vem os "donos" das pilhas de folhas, os reis do frente e verso: os burocratas. A burocracia é um esporte cotidiano brasileiro. Tudo passa por um carimbo, um código, um número, uma assinatura, uma sigla, um registro que se sobrepõe a outro registro, que anula o registro anterior, que renova o registro para que tudo esteja devidamente registrado. Por quem? Para quê? Sempre desconfiei da burocracia. Você aprende com o tempo que, quase sempre, é uma cena para qual você foi convocado, jamais convidado. Seu papel é providenciar e entregar papéis. Folhas que cumprem protocolo, que se avolumam e ganham importância pelo tamanho, quase nunca pelo conteúdo. Poucos leram ou lerão a papelada. Prevalece a conferência, olhar que a ordem é a corre...

EU E AS BOSTAS (por Marcus Vinícius Batista)

O cabelo tingido de preto não servia mais para esconder a idade, esculpida nas rugas a uns cinco centímetros da última linha de fios. Não era uma questão de estética. Era uma forma de carinho a si mesma. O andar curvado trazia o cartão de visitas dos 85 anos. Os resmungos manifestavam a ira curtida em cansaço do mesmo serviço desde o século passado. Trabalho que não conseguia abandonar. Temia ter que aguentar o marido em casa. Tinha pavor de ficar inútil como ele e morrer. — Puta que pariu! Eu e as bostas! Dona Nilva não se referia ao companheiro de moradia, embora o odiasse desde que aprontou feio com ela há duas décadas. Convivem porque a aposentadoria de ambos mantém a casa no morro de pé. O tempo fez com que o ódio mudasse de gente. O marido ganhou de bodas de ouro a indiferença. Elas, elas sim, são as sementes do cultivo diário do asco e da fúria. E seus frutos são a única forma de Dona Nilva se aproximar da vingança. — Essas pombas, essas filh...

MANOEL HERZOG LANÇA "DEC(AD)ÊNCIA", SEU NOVO ROMANCE, QUINTA NA REALEJO LIVROS

REPRODUZIDO DE A TRIBUNA DE SANTOS 31 DE JANEIRO DE 2017

O MEDO DE KENNY G (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)

publicado originalmente no blog Conversas e Distrações em 2 de agosto de 2010 Sempre acreditei que a música é o combustível da memória. A música marca os relacionamentos. Tranqüiliza os mais ansiosos. Nasce nos assobios dos sossegados. Sacode na ponta dos dedos que escondem a angústia. Invade os ouvidos dos desconfiados. Machuca os surpresos. Persegue pelos refrões. E ressuscita os traumas que nunca esperávamos ter. Estava na fila da cantina com dois amigos para o cafezinho do intervalo entre as aulas. Enquanto esperava pelo atendimento, virei o rosto para a TV. Ali estava, com seu instrumento em meio a uma plateia extasiada, o saxofonista norte-americano Kenny G. Era a propaganda do novo CD dele, recém-lançado no Brasil. As imagens sem áudio me pouparam da música que persegue nos eventos sociais. A música de Kenny G virou o coringa de todos os acontecimentos. Não importa o número de pessoas, o tom da solenidade, o sentimento dos presentes. Acredita-se que tudo ...

ENVELHECENDO (uma crônica de Marcus Vinícus Batista)

A cidade envelheceu comigo. Não é apenas meu corpo que se arrasta com mais lentidão ou meus reflexos que respondem tardiamente. O mundo ao redor mudou e, com ele, imagens se enrugaram em lembranças. Minha cidade, como qualquer outra, é dinâmica, que renasce pelos que chegam, pelos que a deixam por uma chance melhor, pelos que retornam em busca do que não retorna mais. A cidade se sacode pelo mito do progresso, pelas batalhas diárias entre o velho e o novo. Minha cidade se desfaz com a demolição de símbolos de experiências, com a cegueira de edifícios parecidos com penitenciárias de luxo que me impedem de sentir o vento marítimo ou enxergar o outro lado de suas fronteiras. Minha cidade ruiu quando vi a escola onde estudei por anos, por ironia no bairro de nome Pompéia, sobreviver em fotografias. Sua vizinha, a casa onde discursei na colação de grau, hoje é refém de torres pós-modernas, mas alicerçadas em velhos valores. A casa onde amigos de infância me acolheram,...

QUANDO OS MUDOS CONVERSAM (uma crônica de Marcus Vinícus Batista)

Duas pessoas em um local público ou numa conversa do dia-a-dia. O diálogo seria uma atitude previsível, com troca de experiências, de valores, de percepções de mundo. Se você não é uma delas, basta esticar as orelhas para captar o fenômeno. Ambas falam, gesticulam, contam suas vidas. Ambas fingem esperar uma reação do interlocutor. O diálogo, muitas vezes, é estéril. Jamais existiu. O que presenciamos são dois monólogos, nos quais o outro sujeito é público, audiência cativa, e não alguém com papel interativo. O homem atual fala demais. Fala tanto que falseia a necessidade de ser ouvido. Não se trata daquela tia tagarela ou do vizinho para quem não podemos perguntar se está tudo bem. O homem de hoje deseja uma caixa de ressonância, confirmadora de teses, uma cabeça que balance positivamente a cada frase exalada com veemência. Estamos interessados em ouvir outras pessoas? Realmente nos importamos com aquilo que elas têm a dizer sobre suas rotinas anônimas e ordinárias? Somos ca...

AFOGADO EM PAPEIS (uma crônica de Marcus Vinicius Batista)

Não consigo fugir deles. Guardo cada vez menos. Imprimo o mínimo necessário. Repasso cada vez mais. Um país cartorial como o nosso, quando a papelada chegou nas caravelas antes da nação, não perdoa: tudo precisa de papel. E, com ele, vem os "donos" das pilhas de folhas, os reis do frente e verso: os burocratas. A burocracia é um esporte cotidiano brasileiro. Tudo passa por um carimbo, um código, um número, uma assinatura, uma sigla, um registro que se sobrepõe a outro registro, que anula o registro anterior, que renova o registro para que tudo esteja devidamente registrado. Por quem? Para quê? Sempre desconfiei da burocracia. Você aprende com o tempo que, quase sempre, é uma cena para qual você foi convocado, jamais convidado. Seu papel é providenciar e entregar papéis. Folhas que cumprem protocolo, que se avolumam e ganham importância pelo tamanho, quase nunca pelo conteúdo. Poucos leram ou lerão a papelada. Prevalece a conferência, olhar que a ordem é a corre...

EU E AS BOSTAS (por Marcus Vinícius Batista)

O cabelo tingido de preto não servia mais para esconder a idade, esculpida nas rugas a uns cinco centímetros da última linha de fios. Não era uma questão de estética. Era uma forma de carinho a si mesma. O andar curvado trazia o cartão de visitas dos 85 anos. Os resmungos manifestavam a ira curtida em cansaço do mesmo serviço desde o século passado. Trabalho que não conseguia abandonar. Temia ter que aguentar o marido em casa. Tinha pavor de ficar inútil como ele e morrer. — Puta que pariu! Eu e as bostas! Dona Nilva não se referia ao companheiro de moradia, embora o odiasse desde que aprontou feio com ela há duas décadas. Convivem porque a aposentadoria de ambos mantém a casa no morro de pé. O tempo fez com que o ódio mudasse de gente. O marido ganhou de bodas de ouro a indiferença. Elas, elas sim, são as sementes do cultivo diário do asco e da fúria. E seus frutos são a única forma de Dona Nilva se aproximar da vingança. — Essas pombas, essas filhas da puta cagam todo san...