Skip to main content

ANÚNCIO TEM DONO (uma crônica publicitária de Carlão Bittencourt)



“Errou na mosca!”
(Edmar Salles)


Esse episódio rolou numa tradicional agência paulista, nos anos 70. Uma que até hoje é das mais criativas.

Como era hábito na época, os caras da criação, quando podiam, ficavam batendo papo na sala de uma dupla.


Os assuntos eram os mais diferentes. E polêmicos. Variavam desde as clássicas fofocas de “quem está comendo quem” até a efervescente política, que o país estava em plena ditadura naquelas alturas dos acontecimentos. Mas, fosse qual fosse o tema, o denominador comum era sempre a inteligência e o humor das discussões.


Assim, do ataque do Corinthians Paulista (com Rivelino na meia- esquerda) à canalhice de Mário Andreazza (então, Ministro dos Transportes) discutia-se de tudo. Em alto nível.


A explicação é simples. Ali, eram raros os publicitários oriundos de escolas de comunicação, como hoje. Nada disso. Aquela turma tinha mais estofo, densidade intelectual e vivência do que qualquer criação de qualquer agência de agora. Só peso pesado.


Para começar, tratava-se de uma autêntica Legião Estrangeira. No melhor e mais amplo dos sentidos. Tinha russo, dinamarquês, argentino, italiano, judeu errante e suíço. Advogado, caçador, arquiteto, filósofo e jornalista. Ex-dono de circo, pintor, escultor, matemático, físico e antigo leão de vendas. Tinha gaúcho, mineiro, goiano, carioca, baiano, capixaba, paulista quatrocentão, santista e campineiro. Aquela criação, tinha, literalmente, o melhor que o DNA humano e a dura lida da vida podem produzir em parceria.


Portanto, você pode imaginar o nível das conversas que eles sustentavam. Não importava o mote. O que valia era a rapidez de raciocínio e a argumentação. E nesses quesitos, o mais bobinho era, no mínimo, brilhante.




Dito isso, vamos voltar àquela sala da criação, onde a rapaziada estava reunida. A sala do Noé.


Um dos mais criativos redatores de sua geração (e que geração!), Noé Sandino havia criado, alguns meses antes, um anúncio que, além de ganhar todos os prêmios da propaganda, no mundo, também mereceu a honra de ser traduzido para a língua inglesa.


Era o antológico “Lave e Use”, para o Fusca. O sucesso da peça foi tamanho que a DDB, a mítica agência americana da Volkswagen, fez a versão para o inglês. Muito bem. O anúncio virou clássico. E foi na sala de seu criador, o Noé, que esta historinha aconteceu.


A corriola estava reunida, jogando conversa fora, quando entrou Roberto, um redator. Vamos omitir o nome verdadeiro da peça porque dedurar não vale.


O fato é que ele entrou na sala, trazendo seu portfólio na mão. Alguém perguntou:


"E aí, Roberto, proposta boa?"


O cara sorriu e confirmou:


"É...tive mesmo uma proposta. Vamos ver se dá certo..."


Daí para alguém pedir para ver o trabalho dele foi rápido. Vaidoso, Roberto não se fez de rogado: abriu a pasta e mostrou as peças para os colegas de agência.


Anúncio vai, anúncio vem e, em determinado momento, pintou uma prova impressa do premiado “Lave e Use”. O silêncio foi constrangedor. Todo mundo sabia que a peça era do Noé. A massa ficou na moita, só esperando a reação do gaúcho que, por sinal, tinha fama de bravo. E era mesmo. Ao ver seu anúncio na pasta do outro redator, Noé disparou:


"Porra, Robertão, anúncio tem dono. Esse aí, é meu!"


Para surpresa geral, Roberto nem se abalou. Sorrindo, respondeu com aquela pouca vergonha que caracteriza o cara-de-pau nato:


"Não quero nem saber, Nóe, eu estava na sala quando você criou!"





Carlão Bittencourt
é redator publicitário
e cronista.
É autor de
"Pela Sete - Breves Histórias do Pano Verde"
(2003, Editora Codex),
um mergulho no universo
dos salões de bilhar de São Paulo
e escreve todas as quartas
em LEVA UM CASAQUINHO.



SO LONG FAREWELL
AUF WIEDERSEHEN
GOODBYE
VERÃO!
  

Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.