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A SONECA (uma crônica de Marcus Vinicius Batista)

ilustração: La Siesta (Pablo Picasso)


Se você resolveu ler este texto depois do almoço, um aviso: você poderá perder aquela necessidade incontrolável da soneca de 20 minutos, meia hora. Seus olhos não ficarão pesados. Seus pensamentos não voarão longe. Suas roupas não estarão pesadas, desconfortáveis. Nem adianta tirar os sapatos e esconder os pés debaixo da mesa. Prossiga!

O objetivo é que você se mantenha aceso o suficiente para alcançar o final da leitura. Assim, seu chefe continuará te considerando um ser produtivo e eficiente. Na tradução: escravo das metas estabelecidas por ele, que finge quando diz que a iniciativa foi sua.

O assunto é exatamente o sono. Dormir depois do almoço deveria ser obrigatório por lei. Com direito a indenizações por danos morais e materiais a serem pagas pelos empregadores que não concederem o benefício a seus empregados. As grandes cidades (e as grandes empresas) deveriam rever seus conceitos de qualidade de vida e se espelhar no modo de vida de muitas localidades interioranas, onde o tempo e a rotina são amáveis.

Há 11 anos, estive no interior do Rio Grande do Sul por conta de um congresso acadêmico. Ijuí, a cidade onde me hospedei, não era muito diferente de outras que visitei ao longo dos anos. Pessoas educadas, sem pressa, preocupadas (às vezes até demais) com a vida dos outros. Ali, não havia trânsito. Nem semáforos. Os carros paravam assim que alguém colocava um dos pés na faixa de pedestres.

A calmaria está na natureza do lugar, que se transforma em cidade-fantasma diariamente, entre meio-dia e duas horas da tarde. Neste período, era impossível comprar um sapato ou um desodorante, abastecer o carro, tomar um sorvete, beber uma cerveja. O comércio fechava as portas. Patrões e empregados se uniam na mesma tarefa: dormir depois do almoço.

Até os lugares que permaneciam abertos pareciam sofrer de catatonia. Funcionários seguiam em seus postos, sob efeito da picada da mosca do sono. Quem teria a infeliz ideia de procurar a Prefeitura uma hora daquelas? Por que pensar em pagar uma conta de banco? Ninguém teria um raciocínio estúpido como esse.

A cidade gaúcha, assim como outras centenas, estava anos à frente. Hoje, empresas perceberam que seus funcionários são mais produtivos se dormirem após o almoço. É parte da escravidão corporativa, mas ao menos o vassalo produz de maneira mais feliz, avaliam os especialistas em gerenciar pessoas, os capitães-do-mato deste modelo.

A proposta nasceu nas companhias vistas como flexíveis, embora seus funcionários dificilmente percebam que mal saem dela. Comem, treinam, trabalham, namoram e agora também dormem no escritório. Segundo reportagem da revista Época, no Google e na Nike, por exemplo, existem ambientes específicos (com puffs e até colchonetes) para que os “colaboradores” descansem depois do almoço.

Empresas brasileiras utilizam até redes para aproximar (ou enganar?) seus funcionários de casa. É como ficar na casa de praia de terno e gravata, ainda que o nó esteja frouxo.

A sesta deixou de ser transgressão. Como um amigo que trabalhava numa escola de informática e dormia na sala de estoques. Ninguém entendia porque demorava tanto para localizar um cartucho de impressora.

Ou uma colega jornalista que sempre demorava no banheiro. A privacidade garantia um soninho de 15 minutos, sentada no vaso sanitário.

Perdi o sono ao especular se meu local de trabalho poderia apostar no descanso institucionalizado. Perder o prazer de dormir sem a chefia perceber? Brincar com o colega que diz “fechar os olhos” durante as reuniões? Ver companheiros de trabalho envergonhados em tirar os sapatos para deitar nos sofás da sala dos professores?

Dormir virou regra. E negócio lucrativo. Não me refiro às clínicas de sono. Nem aos ingênuos que pagam para ver pessoas dormindo sob edredons em reality shows. Se as empresas ordenaram que dormíssemos, descansar no trabalho poderá ser prejudicial em algum momento, mesmo que os médicos digam o contrário.

Para justificar a novidade, as pesquisas científicas, antes ignoradas. A reportagem de Época menciona estudo da Nasa (isso mesmo! O tema é espacial!) que garante: a produtividade cresce um terço. A capacidade de atenção, 54%, se o sujeito dorme 26 minutos.

Em Nova Iorque, há spas que alugam espaço para o descanso após o almoço. Rio de Janeiro e São Paulo também têm empresas semelhantes.

Até restaurantes criaram ambientes para a soneca depois da refeição. Se não estiver incluído na conta, melhor para o cliente que – aliás – dormirá fora do ambiente de trabalho. Aí o sono volta a ser um pecado saudável. E sonhar sem pagar 10%.

Se chegou aqui, fico contente que este texto não te apagou. Durma um pouco. Meia hora, talvez. Sem culpa. Só não o faça, por favor, na frente do seu chefe. Por uma questão de privacidade. E de saúde!






Marcus Vinícius Batista
é o cronista santista número um, ponto.
É autor de "Quando Os Mudos Conversam"
Realejo Livros)
coletânea de crônicas escritas
entre 2007 e 2015
e mantém uma coluna semanal
no Boqueirão News
que é aguardada com avidez
por sua legião de leitores.
Atendendo a um pedido
de LEVA UM CASAQUINHO,
ele se dispôs a resgatar
algumas de suas crônicas favoritas
escritas nos últimos anos
para republicação no BAÚ DO MARCÃO.



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