Skip to main content

A CONTA DO MOTEL (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)



O encontro semanal era religioso. As três podiam faltar à missa ou se esquecer do culto, mas o final da tarde de segunda era sagrado. Paula, Andréia e Jussara se encontravam no mesmo cafezinho do centro de comercial, meio do caminho para todas.

Entre uma bebida quente com adoçante, um salgado integral e uma sobremesa diet, as três atualizavam o papo, faziam confissões e acabavam sempre na mesma pauta: maridos, namorados, cachos, transas eventuais, nomes que variavam conforme o status atual do colaborador. Como trabalhavam no mundo corporativo, adoravam incorporar os termos na vida pessoal. Achavam que, assim, garantiriam os empregos e seriam pró-ativas.


Depois dos beijos e das perguntas mecânicas sobre família, trabalho e tal, sentaram-se, fizeram os pedidos e Jussara, sem cerimônia, despejou nas amigas:


— Terminei com o Paulão!


— Mas você não estava apaixonada? Disse que queria ter filhos com o cara, só enchia o saco com as histórias dele, - reagiu Paula.


— Enchia o saco? Estava apaixonada sim. Mas certos deslizes – vamos dizer assim – são imperdoáveis. Dói, mas não posso continuar com alguém que faz uma coisa dessas.


— Já sei. O filho da puta não agüentou dois meses sem te chifrar. Não acredito! Fez o que tinha que fazer. Amiga minha não assina atestado de corno.


Jussara olhou para Andréia como se não compreendesse a reação agressiva. De onde ela tirou essa ideia?, pensou. Paulão era perfeito. Ou quase.


— Não foi chifre. Neste ponto, ele era um santo. Marcava em cima, e ele nunca escorregou.


— Então, o cara é broxa. Ou pior: tem namorado. Gay só amigo, minha filha. Não dá para sonhar em mudar o fulaninho, não.


— Você piraram? Ele é ótimo de cama. Nunca tinha experimentado igual. E me pegava como macho.


— Você dizia a mesma coisa do seu ex-marido.


Jussara ignorou a provocação gratuita de Paula e resolveu entrar no joguinho delas. Quando precisava se valorizar, brincava – inconscientemente - de esconde-esconde.


— Quando se ama um homem, ele é sempre o melhor. Ainda que o brinquedo não funcione de vez em quando. Mas amor não é só sexo. É atitude, é a forma de tratar uma mulher.


As duas olharam arregaladas. Andréia, imediatamente, pegou nos braços de Jussara e procurou por marcas, manchas roxas, arranhões, o que pudesse provar a brutalidade daquele animal.


— O cara te bateu! Filho da puta! Você não foi à polícia? Eu vou contigo. Ele tem que preso pelo que fez. Homem que bate em mulher merece virar mulherzinha na cadeia.


Jussara não entendia porque as amigas estavam tão amargas. Crucificavam o Paulão. Os dois tinham passado mais um final de semana maravilhoso. Ele a levara para jantar comida japonesa, transaram quase a madrugada toda, mais cineminha no domingo e a madrugada de domingo para segunda no motel. Aí, o namoro levou o golpe de morte.


— Não é nada disso, Nunca teve violência, chifre ou broxada. Ele também não é gay. A única violência foram aquelas pegadas normais que todo homem deve ter. O problema é outro. Sexo e dinheiro.


— Garotas de programa? Sabia que o cara desviava. Saia com elas ou te propôs alguma coisa mais indecente? Nunca imaginei que você tivesse vocação para santinha e ficasse horrorizada com um convite assim.


Jussara levantou a voz, louca para contar o motivo da separação e aborrecida por tantas bolas fora das amigas. Contou até cinco, respirou fundo e disse pausadamente:


— Acabei com Paulão porque ele me propôs dividir a conta do motel.


— Como assim? Explica para a idiota aqui.


Paula traduzia em palavras as feições de Andréia, que passava a mão no rosto e nos cabelos. Então, Paula resolveu dar sermão. Nestas horas, falava como homem.


— Que palhaçada é essa? Terminou porque o cara não quis pagar o motel sozinho. Você não é mulher independente, não quer direitos e deveres iguais, não dizia que vocês dividiam tudo, até as despesas? Como é que larga um homem desses por causa do motel? Quer dizer, da conta do motel?


— Olha, topo dividir conta, cheguei a emprestar dinheiro para ele uma vez. Ele me pagou direitinho. Discutíamos tudo, mas motel não dá. Lá, não pago conta nenhuma.


— Mas por que, criatura de Deus?


— O motel é um momento de intimidade, de cumplicidade. E de liberdade, também. Onde se faz certas coisas que ficam por lá. Não é apenas sexo. O relacionamento começa quando se entra no motel e termina quando se sai dele. Quando a portinha da garagem se fecha. Se o homem é o ativo, tem que estar no comando até o final. Não tem essa história de troca. Dividir conta é troca. E, nessas horas, não gosto de homem sensível não.


— Sensível?


— É ... tem que cumprir o que promete. A ideia do motel foi dele.


— E se fosse sua?


— Não muda nada. Motel é território neutro. Mas alguém tem que assumir o controle da situação. Ele começou, que terminasse.


— Não adianta dizer o contrário. Está feito. Mas, me diga uma coisa, quanto deu a conta?, perguntou Paula.


— Quarto mais jantar, em torno de R$ 150.


— Então a sensibilidade do Paulão custou R$ 75, calculou Andréia.


— Paciência com homem assim não se divide não. E eu disse, duas vezes, para a gente dormir na minha casa.



(publicado originalmente em Conversas e Distrações em 5 de setembro de 2010)



 
Marcus Vinícius Batista
é o cronista santista número um, ponto.
É autor de "Quando Os Mudos Conversam"
Realejo Livros)
coletânea de crônicas escritas
entre 2007 e 2015
e mantém uma coluna semanal
no Boqueirão News
que é aguardada com avidez
por sua legião de leitores.
Atendendo a um pedido
de LEVA UM CASAQUINHO,
ele se dispôs a resgatar
algumas de suas crônicas favoritas
escritas nos últimos anos
para republicação no BAÚ DO MARCÃO.

Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.