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A MENINA DO ESCRITÓRIO (uma crônica de Marcelo Rayel Correggiari)


“Sonhar, não custa nada”, ... “Relembrar é viver”... há um monte de frases espalhadas mundo afora que ilustram bem certos vínculos afetivos com tudo aquilo já visto, vivido, testemunhado.
Memórias são coisas intensas para o bem e para o mal: capazes de estampar sobre o rosto do(a) querido(a) freguês(a) o mais lindo sorriso, bem como trazer à baila os mais aterrorizantes traumas.
Tentamos quase sempre transformar nossa vida num néctar, num mel uniformemente acolhedor. Nem sempre isso acontece: ela própria vem e nos leva a lugares nunca d’ante imaginados, no melhor chavão popular de que, igual à cana: “... é doce, ... mas ‘num’ é mole, não!”.
Esse merceeiro, para quem ainda não sabe, é um tanto cobrado por conhecidos e estimados colegas da confecção de um romance cujos cenário e personagens datam do final dos anos 1990, início dos 2000: mais precisamente, o 9º andar do número 62 da Praça da República, centro de nossa querida ‘Fuga de Nova York’.
O Nono Andar! Uma comissária de despachos no 91, a Agesbec no 92, outra comissária no 93, a Schenker no 96 e mais um montão de ‘malucos do bem’ que garantiam cada presepada que, se for para o papel, vão dizer que é ficção.
Uma cidade que acabou, sumiu! Deu lugar a algo que até hoje não conseguimos nominar: tempos modernos caprichados na mais fina arte do impessoal, o que, nessa sobressaltada Mercearia, damos o nome de ‘coisas-fófis’.
O mundo pede ‘coisas-fófis’! Já se é impensável, por exemplo, elevadores com ascensoristas como naquela época. Mas vejam bem: não eram simples ‘ascensoristas’! Eram pessoas que entregariam a Chico Anysio, de bandeja, novos tipos para sua costumeira constelação de personagens.
E nada desse lance do “politicamente correto”, uma espécie de ‘modos finos para a canalha’ que se exaspera em ser ‘mudérna’ e nada mais produz do que tepidez e esterilidade: toooodo mundo entrava na porrada! Era a ode à choça, o apogeu da zoeira, e não sobrava ninguém: gordos, gays, pretos, sapatões, orientais, ajudantes de despachantes aduaneiros, office-boys/girls, magros, carecas, cabeludos, aleijados, brancos, católicos, nordestinos, ricos, pobres, protestantes, macumbeiros... enfim... bastasse respirar que havia uma zoada especialmente pronta para você.
Um dos mais formidáveis ascensoristas do prédio era o Maneco. Pensem num personagem do Chico Anysio (citado há pouco): era ele! Figuraça! Era entrar no elevador que lá vinha a célebre pergunta: “E, aí, chefe?! Muito trabalho, pouco dinheiro?!”.
Isso valia para boa parte dos que trabalhavam nessa região da cidade. Pensamos que ninguém escapava...
... nem mesmo os fiscais da Receita.
Na correria do dia-a-dia, eram comuns os erros com a documentação, o que atrasava sobremaneira o rito processual das importações e exportações, além de despesas adicionais por conta da firma. O cumprimento dos prazos ia ‘pro’ espaço.
No desespero, os despachantes e ajudantes procuravam apresentar alguma desculpa para o erro cometido, mas um troço jamais assumido: “Pô... (fulano!)... quebra essa, aí! A menina do escritório preencheu errado...”.
“A menina do escritório digitou o número errado... a gente já pediu correção. Quebra essa, aí, (sicrano)!”.
Como quem mente faz isso pela primeira vez e de forma exclusiva, quem recebe a mentira fica boladaço(a) quando se depara com a mesma desculpa lá pela 15ª vez, isso só no período da manhã. Não tem Cristo que aguente ‘a menina do escritório’ errar tanto! Haja...
Um fiscal, cujo nome não recordo, ao ver todo mundo dando aquela ‘tirada de corpo fora’, não pestanejou:
“Fica sossegado, companheiro! Já mandei uma petição para a Câmara dos Vereadores, falei pessoalmente com o prefeito, que na próxima reforma aqui na Praça da República é ‘pra’ tirar a estátua do Brás Cubas e erguer um monumento ‘pra’ “Menina do Escritório”...!

A gente sabe que mentira tem pernas curtas. Só não sabíamos que desculpas esfarrapadas podem até ganhar estátua. 


Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 48 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É avesso a hermetismos
e herméticos em geral,
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO




Comments

  1. a nossa cidade, despachada, morreu, nem as meninas do escritório sobreviveram...nem nada...

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