Skip to main content

A MAIS BELA MULHER (uma crônica de Ademir Demarchi)



As mulheres estão escravizadas pelos ditames da cultura contemporânea, que combina narcisismo e consumo com culto à superficialidade. São condenadas a se olharem ao espelho à procura de alguém parecida, por exemplo, com os traços esguios, os belos cabelos de lisas ondulações perfeitas, o sorriso, o charme de Giseles Bündchens. O espelho não mente e não é uma outra dimensão borgiana por onde se possa entrar.

Ao se olharem e encontrarem uma “outra”, mesmo que com todas as qualidades, que recusam por não ser a idealizada, ganham seu bilhete para o inferno diário das seguidas trocas de roupas, estica-e-puxas, pinturas, penteados, tinturas, cremes, perfumes, e sabe-se lá mais o que andam inventando para tapar esse buraco sem fundo preenchido por coisas das quais paradoxalmente se tornaram apêndices – às quais se somam, é claro, quando há um homem por perto, seguidas perguntas de “está bom assim?” ou “fiquei bem?”

O sintoma disso está presente nas ruas, no crescente e já exorbitante número de salões de beleza por todos os lugares – já há mais deles que bares, onde se desopila, ou farmácias, onde se encontraria um calmante para essa metafísica agônica. O que mais impressiona é que elas entram nesses lugares e saem com o penteado daquela personagem disneyana, a bruxa Madame Min: um cabelo esfiapado e alisado, que se tenta domar a todo custo para ficar liso segundo a onda desta época que também as tem enfiado em calças de cintura baixa, números abaixo do seu manequim, expondo de forma indiscreta o corpo, muitas vezes em dobras... esvaziando-o de sensualidade.

O fato é que não se abrem salões de beleza interior e se alguém o fizesse talvez encontrasse muito ócio para melhorar sua própria beleza interior lendo enquanto os fregueses não vêm, talvez nunca viessem como naquele já clássico poema de Kaváfis, “À espera dos bárbaros”.

Por isso, a mais bela mulher é uma personagem de romance, que existe apenas para quem lê – e não se trata aqui da tola Capitu (de Dom Casmurro, de Machado de Assis) ou da volúvel Emma (de Madame Bovary, de Flaubert), mas sim de Sheherazade, a notável narradora das Mil e uma noites. Beleza e sensualidade lhe eram próprias, mas acessórias, pois o que mais predominou nela foi a imaginação, logo transformada em narrativa e sedutora, que salvou o reino em que morava do ímpeto de um rei (assassino e machista, diríamos hoje) que matava a cada manhã (com a licença de sua cultura) a mulher com a qual noivara à noite, de forma que ela não o traísse. Sheherazade passou a ser, assim, um símbolo da mulher inteligente, culta e sensual que, com sua imaginação fabulatória, tendo o que dizer mais que mostrar, encantou e seduziu um homem transformando-o e transformando a si própria numa espécie de rainha para todos os homens.

[publicado originalmente em 20/11/2008]




Ademir Demarchi é santista de Maringá, no Paraná,
onde nasceu em 7 de Abril de 1960.
Além de poeta, cronista e tradutor,
é editor da prestigiada revista BABEL.
Possui diversos livros publicados.
Seus poemas estão reunidos em "Pirão de Sereia"
e suas crônicas em "Siri Na Lata",
ambos publicados pela Realejo Livros e Edições.
(basta clicar nos nomes para ser enviado
ao website da editora)

Comments

Popular posts from this blog

VINGANÇA (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.

A SURRA DE PICA QUE MEU IRMÃO DE DEU (um conto devasso de Emmanuelle Almada)

Meu nome é Sara e sempre fui uma menina muito caseira. Morava em um sítio no interior do Rio Grande do sul, e levava uma vidinha bem pacata. Cedo pela manhã eu tirava leite das vacas, alimentava os animais e fazia comida para meu pai e meus irmãos: um de 12 e outro de 14 anos. Sempre cuidei deles. Minha mãe morreu quando ainda eram muito pequenos, e eu assumi as responsabilidades da casa, mesmo sendo ainda uma menina. Nossa casa ficava longe da cidade mais próxima e para mim era praticamente impossível sair de lá para fazer qualquer coisa, daí vivia praticamente confinada naquele lugar. Meu pai é que saía, às vezes acompanhado por um dos meus irmãos, para levar leite para alguns mercadinhos da cidade, e passavam o dia inteiro fora. Eu ficava em casa cuidando do meu irmão menor, que era muito apegado a mim, me seguia onde quer que eu fosse. Era um menino franzino, de pele pálida e cabelos lisos, negros. Eu admirava a ingenuidade daquele anjo, sempre muito prestativo e car...

DOMADA PELO SEXO (um catecismo clássico de Carlos Zéfiro)

Carlos Zéfiro (1921-1992) é o pseudônimo do funcionário público carioca Alcides Aguiar Caminha, que ilustrou e publicou durante as décadas de 1950 a 1970 histórias eróticas em quadrinhos que ficaram conhecidas por "catecismos", educando sexualmente pelo menos três gerações de brasileiros das mais diversas faixas etárias. M uito antes do advento das revistinhas suecas, da Ilha do Sol de Luz del Fuego, e dos filmes de Ron Jeremy.