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Sunday, January 8, 2017

CARLOS CIRNE RECOMENDA 2 ÓTIMOS FILMES: "O APARTAMENTO" E "ANIMAIS NOTURNOS"


O APARTAMENTO: UM FILME CHOCANTE
EM SUA LÓGICA

O casal de atores Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) é forçado a mudar-se de casa e, provisoriamente, aloja-se no apartamento recém-desocupado de um colega de elenco, Babak (Babak Karimi). Sem nada saber sobre os antigos ocupantes do local, Emad e Rana se instalam, e logo a seguir um incidente muda inexoravelmente a vida de ambos.

Clara metáfora sobre a ruína social e urbana iraniana, o filme foca nas reações de Emad à agressão sofrida por sua mulher, e a maneira como a sociedade o condiciona a agir (e espera que ele o faça). Um paralelo flagrante se percebe nas cenas em sala de aula (Emad é também professor), somente frequentada por rapazes, e na encenação teatral de “A Morte do Caixeiro-Viajante”, do dramaturgo norte-americano Arthur Miller (1915-2005), com Emad e Rana no elenco, onde uma personagem (feminina) deveria estar despida numa cena de banho e aparece completamente paramentada (incluindo gola-rolê e chapéu), pois mulheres não podem aparecer nem com a cabeça descoberta.

O brilhante roteiro de Asghar Farhadi, que em produções ocidentais poderia render um filme de perseguição e vingança estrelado por Liam Neeson, transforma o pacato ator / professor num obcecado investigador sem um mínimo de violência explícita, mas com um máximo de tensão. E quanto mais se aproxima do desfecho da história, mais claro fica que este não será impune. A relação do casal está completamente abalada pelo ocorrido.

Autor e diretor do premiado “A Separação” (2011, Oscar e Globo de Ouro de Filme Estrangeiro), Farhadi leva o espectador a um percurso sem retorno pelas caóticas ruas de Teerã, onde Emad tenta descobrir – mesmo contra a vontade de todos – o que realmente aconteceu em sua casa. O caminho fácil a se percorrer seria deixar o caso esfriar, afinal foi “apenas” uma violência contra sua mulher (a excelente Taraneh Alidoosti, que está desorientada na medida). Mas sua honra pede reparação. Pública, de preferência.

Já colecionando uma série de prêmios, incluindo de Melhores Ator (para Shahab Hosseini) e Roteiro (do próprio Asghar Farhadi) em Cannes 2016, e uma indicação ao Globo de Ouro 2017 (Filme Estrangeiro), assim como uma pré-seleção ao Oscar na mesma categoria, “O Apartamento” é um filme contundente e seco, chocante em sua lógica. Não perca!


O APARTAMENTO
(Forushande, 2016, 143 minutos)

Direção e Roteiro
Asghar Farhadi

Elenco
Shahab Hosseini
Taraneh Alidoosti
Babak Karimi
Mina Sadati
Farid Sajjadi Hosseini

Em cartaz no Cinespaço Miramar Shopping
com sessões às 13h30, 16h, 18h30 e 21h


ANIMAIS NOTURNOS: UM FILME CONTUNDENTE,
ELEGANTE E IMPERDÍVEL

Tom Ford tem uma curiosa carreira em cinema. Oriundo do mundo da moda, este texano que em absoluto aparenta os 55 anos de idade que tem, partiu de ser um dos grandes criadores das passarelas internacionais, para se tornar um dos mais refinados diretores de cinema em atividade. Haja vista seu primeiro filme, o belo e estilizado “Direito de Amar” (2009), onde o alterego do diretor, Colin Firth, e sua grande amiga, (na vida real), Julianne Moore, contam uma fábula de desencanto e amor, num dos mais elegantes filmes deste século, que inclusive rendeu (merecidas) indicações ao Oscar (Firth) e ao Globo de Ouro (Firth e Moore) a seus protagonistas.

E Ford retoma agora sua carreira cinematográfica com o surpreendente “Animais Noturnos”. E como Hitchcock tinha suas louras, Ford tem suas ruivas. Primeiro Moore e, agora, Amy Adams. É possível até que Julianne Moore tenha sido sua primeira opção para o papel, na época em que seu par no filme seria George Clooney. Mas, com a saída de Clooney do projeto, e a entrada de Jake Gyllenhaal, foi preciso reajustar os papeis, e Amy Adams foi certamente a escolha mais adequada para viver Susan.

Susan (Adams) é a dona de uma galeria de arte em Los Angeles que, apesar do sucesso profissional, sente-se cada vez mais só, dada a indiferença e as longas ausências do marido, o belo e gélido Hutton (Armie Hammer). Um dia, Susan recebe um manuscrito de seu ex-marido, o escritor Tony (Gyllenhaal), e começa a lê-lo, e a se envolver cada vez mais com a perturbadora história ali contada (que ele dedica a ela). E ela começa a perceber que, talvez, as escolhas que fez na vida não tenham sido as melhores possíveis.

O que mais impressiona em “Animais Noturnos” é a maneira como, repentinamente, começa-se a acompanhar uma “história dentro de uma história”, e elas são absolutamente complementares, apesar de totalmente desligadas. E é dentro desta segunda narrativa que despontam todos os elementos realmente vivos que justificam a primeira parte.

Neste emaranhado de ações e reações surgem as pequenas grandes performances de praticamente todo o elenco. Não há pequenos papeis. Laura Linney (substituindo Kim Bassinger), por exemplo, dá um show em uma pequena cena de cinco minutos, como a mãe de Susan. Michael Shannon está perfeito como o policial desencantado Bobby Andes. E Aaron Taylor-Johnson, na pele de Ray Marcus, está simplesmente asqueroso, como deve ser. Sem falar na dupla central de protagonistas, Adams e Gyllenhaal, ambos na intensidade perfeita, afinados.

O curioso da produção é perceber a dicotomia existente entre as duas histórias e suas concepções visuais, antagônicas, porém complementares. Diz a lenda que Ford queria realizar dois filmes separados, antes de chegar a este “Animais Noturnos”. Felizmente não o fez.

Outros destaques correm por conta de pequenas participações de Isla Fisher, Andrea Riseborough e Michael Sheen (todos trabalhando bem longe de suas áreas de conforto), a fotografia deslumbrante de Seamus McGarvey (de “Cinquenta Tons de Cinza”, 2015), e a trilha sonora de Abel Korzeniowski (de “Direito de Amar”, 2009), com ecos muito perceptíveis dos trabalhos de Bernard Herrmann para Hitchcock. Melhor influência, impossível. Um filme contundente e elegante. Imperdível!


ANIMAIS NOTURNOS
(Nocturnal Animals, 2016, 115 minutos)

Direção e Roteiro
Tom Ford

Elenco
Amy Adams
Jake Gyllenhaal
Michael Shannon
Aaron Taylor-Johnson
Isla Fisher
Ellie Bamber
Armie Hammer
Karl Glusman
Robert Aramayo
Laura Linney
Andrea Riseborough
Michael Sheen

Em cartaz no Cinespaço Miramar Shopping
com sessões às 13h30, 16h, 18h30 e 21h

Carlos Cirne é crítico de Cinema
e há 14 anos produz diariamente
com o crítico teatral Marcelo Pestana
a newsletter COLUNAS E NOTAS,
de onde o texto acima foi colhido.




Wednesday, December 7, 2016

FÁBIO CAMPOS COMENTA "ANIMAIS NOTURNOS", O NOVO FILME DE TOM FORD.



Quase todo mundo teve um relacionamento que começou muito intenso e acabou muito mal, normalmente com muito rancor de uma das partes. Animais Noturnos é um filme sobre isso. Na verdade, sobre como superar isso.

Se o tema não é exatamente original, a maneira como a história é contada é, além de original, muito bem conduzida. Susan -- a cada vez melhor Amy Adams -- é uma dona de galeria muito bem-sucedida que tem a vida ideal, dinheiro, elegância, luxo e uma marido troféu. Mas, olhando de perto, não da pra escapar da sensação de vazio. Essa rotina gélida vai ser abalada pela chegada de um livro, escrito pelo seu ex-marido Edward, o ótimo Jake Gyllenhaal, e dedicado a ela.


O livro narra um incidente vivido por um casal e sua filha numa viagem de carro pelo Texas. Enquanto Susan lê o livro, o filme exibe a narrativa do livro, criando uma história dentro da história. Além disso, temos outra linha narrativa no filme, onde Susan lembra do inicio de seu relacionamento com Edward enquanto vai lendo o livro. Parece confuso, mas é executado com perfeição. As três linhas têm execução completamente diferentes. A vida atual de Susan é filmada como se fosse um comercial de perfume, tudo é lindo, perfeito e vazio. A narrativa do livro é executada com um cuidado visual e uma tensão dignas de Hitchcock, até a trilha sonora lembra os filmes do mestre do suspense. Já o inicio de relacionamento é mostrado com intensidade, sempre com o mesmo esmero visual, que dá liga a histórias tão distintas.

No livro, os personagens são dignos de David Lynch, o detetive feito pelo também ótimo, Michael Shannon e o caipira, também maravilhosamente vivido por Aaron Taylor-Johnson, parecem saídos diretamente de um dos filmes dele. Conforme a história vai se desenrolando, fica claro que o livro é inspirado no relacionamento de Susan e Edward. Escrever foi a catarse para superar o final da relação, o livro é muito tenso e violento, como deve ter sido a separação para ele. Ler a história provoca em Susan sentimentos nostálgicos, justamente num momento em que seu relacionamento vai mal.


Há tempos não vejo tantos atores em tão boa forma como nesse filme. Jake e Amy estão soberbos nas três narrativas e, além dos além dos excelentes Shannon e Taylor-Johnson, temos uma ponta de Michael Sheen e a subestimada, porém sempre competente, Laura Linney, em apenas uma cena, mas digna de Oscar. Só essa cena já vale o ingresso.

Como o diretor Tom Ford é oriundo da moda, a cenografia, figurinos e direção de arte são impecáveis, somadas às ótimas atuações e a uma direção muito segura temos um filme excelente e coeso, que captura o espectador do inicio ao fim, muitas vezes chocando, mas nunca sendo vulgar.

Animais Noturnos é um filme complexo, cheio de nuances e metalinguagem, mas o sentimento mais forte ao final do filme é uma espécie de vingança contra alguém que nos machucou muito numa relação. Não é muito nobre, mas pode ser libertador...


ANIMAIS NOTURNOS
(Nocturnal Animals, 2016, 116 minutos)

Roteiro e Direção
Tom Ford

Elenco
Amy Adams
Jake Gyllenhaal
Michael Shannon
Aaron Taylor-Johnson
Laura Linney
Michael Sheen
Isla Fischer

estreia dia 29 de Dezembro
nos cinemas brasileiros




Fábio Campos convive com filmes e música
desde que nasceu, 50 anos atrás.
Seus textos sobre cinema passam ao largo
do vício da objetividade que norteia
a imensa maioria dos resenhistas.
Fábio é colaborador contumaz
de LEVA UM CASAQUINHO.




Saturday, February 28, 2015

UM PRELÚDIO PARA "JACKIE BROWN" (por Chico Marques)



Quem conhece o romance "The Rum Punch" (1992), de Elmore Leonard, que foi adaptado por Quentin Tarantino e se transformou no filme "Jackie Brown", sabe bem que o resultado final do filme tem muito pouco a ver com o tom da literatura de Elmore Leonard.

Não que Tarantino não tenha sido fiel ao romance. 

Ele até tentou ser. 

Mas o tom às vezes sombrio, às vezes cômico dos personagens originais acabou trocado pela habitual sucessão de exageros estilísticos que Tarantino simplesmente não consegue evitar em seus trabalhos.

Fora isso, tem ainda a obsessão de Tarantino em celebrar os filmes da Era da Blaxploitation -- quase todos horrendos, extremamente caricatos, e de baixíssimo gabarito artístico -- que afastam "Jackie Brown" ainda mais do tom original de "The Rum Punch"

Sendo assim, pode-se até considerar que "Jackie Brown" seja um dos melhores filmes já realizados por Quentin Tarantino, mas dificilmente será uma das melhores adaptações para o cinema da obra cruel e extremamente divertida do grande e saudoso losangeleño Elmore Leonard.

Existem muitos outros filmes adaptados de seus romances que são menos ambiciosos que "Jackie Brown", que foram muito melhor sucedidos.







"Life Of Crime", lançado aqui no Brasil com o título ridículo "Sem Direito a Resgate", é uma adaptação fiel e muito bem realizada do romance "The Switch" (1978).

Não pretende ser exatamente um prelúdio de "Jackie Brown", mas a referência acaba sendo inevitável, já os personagens principais da trama são os sequestradores Odell e Louis, aqui interpretados por Mos Def e John Hawkes -- e que, em "Jackie Brown", haviam sido defendidos por Samuel L Jackson e Robert DeNiro.

A trama gira em torno de Mickey (Jennifer Aniston), que é casada com Frank Dawson (Tim Robbins), um empresário espertalhão que está envolvido em escândalos de desvio de dinheiro para paraísos fiscais, mas que é, ao mesmo tempo, extremamente chucro -- que, por sua vez, mantém um romance com uma garota tão fogosa quanto cretina e desclassificada, interpretada brilhantemente pela inglesa Isla Fischer.

Quando os sequestradores percebem que Frank Dawson não irá pagar o milhão de dólares que foi pedido pelo resgate de sua mulher Mickey -- Frank está com a papelada do divórcio pronta para entregar a Mickey, e ela descobre que está sendo enganada pelo marido há anos, tanto em termos conjugais quanto em termos financeiros -- decidem, ao invés de matá-la, unir forças a ela contra Frank.

A partir daí, a tensão inicial do filme se dissipa e dar lugar à comédia de erros que está presente em praticamente todos os textos de Elmore Leonard.


Jennifer Aniston está surpreendentemente contida e madura com atriz nesse filme. Todos os trejeitos que ela traz consigo desde os tempos de "Friends" parecem ter ficado definitivamente para trás. 

Já Tim Robbins está magnífico como o empresário espertalhão e grosseiro. Não lembro de vê-lo numa performance tão consistente há uns bons anos.

Mos Def e John Hawkes estão divertidíssimos, mulherengos, e proporcionam aos personagens dos sequestradores um tom bem humano, bem diferente das máquinas de matar em que se transformaram quando interpretados por Samuel L Jackson e Robert DeNiro.

Quanto ao roteiro impecável e à direção precisa de Daniel Schechter, pode-se dizer que toda a experiência que ele adquiriu em filmes independentes como "Supporting Characters" (2012), "Goodbye Baby" (2007) e "The Big Bad Swim" (2006) foi de grande serventia nesse seu primeiro filme com um orçamento mais vultoso.

Schechter foi muito feliz ao tentar reproduzir na tela o ritmo frenético dos romances de Leonard, que sempre encadeiam viradas à base de diálogos rápidos e econômicos.


Sendo assim, recomendo que esqueçam Quentin Tarantino e os excessos estilísticos de "Jackie Brown".

Lembrem apenas que a ação de "Life Of Crime" acontece alguns anos antes da de "Jackie Brown", e que os personagens recorrentes ainda são jovens e estão se iniciando no às vezes não tão rentável métier dos Sequestros.

Tudo funciona bem em "Life Of Crime": o tom menor da narrativa, o ritmo extremamente ágil e a acertada reconstituição dos Anos 1970. 

Diversão garantida.

Apenas uma ressalva: um filme desse gabarito merecia, com certeza, um título em português melhorzinho que esse ridículo "Sem Direito A Resgate".

Que horror, Senhores Distribuidores!



SEM DIREITO A RESGATE (2014)

TÍTULO ORIGINAL 
LIFE OF CRIME

DIREÇÃO e roteiro 
DANIEL SCHECHTER

DURAÇÃO 
1H38 MINUTOS

ELENCO 
JENNIFER ANISTON
YASIIN BEY
ISLA FISHER
WILL FORTE
MARK BOONE JUNIOR
TIM ROBBINS
JOHN HAWKES
CHARLIE TAHAN

EM CARTAZ NO ROXY GONZAGA