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Wednesday, February 15, 2017

QUINTA, 19hs, TEM "SHORT CUTS" NO CICLO ROBERT ALTMAN NO CINECLUBE PAGU - MISS


SHORT CUTS:
QUANDO ROBERT ALTMAN CONSEGUIU FAZER A VIDA CABER NUM FILME
por Rodrigo de Oliveira para PAPO DE CINEMA


Uma mosca na parede. Era como o diretor Robert Altman queria que os espectadores se sentissem ao acompanhar um de seus filmes. Éramos, afinal de contas, testemunhas de cenas tão particulares, tão corriqueiras e naturalistas, que não raro nos sentíamos intrusos. Como se não pudéssemos estar ali, ao lado de um casal em crise, ou de uma família disfuncional, sem chamar a atenção para nossa presença. Este sentimento de imersão em vidas tão próximas da realidade era um dos predicados mais destacáveis da carreira do cineasta norte-americano, conhecido até então por clássicos como o satírico M.A.S.H. (1970) e o múltiplo Nashville (1975). Na década de 1990, o diretor nos brindou com dois de seus melhores trabalhos: o crítico e divertido O Jogador (1992) e o magistral Short Cuts: Cenas da Vida. Ambos são excepcionais, ainda que seja inegável a contribuição maior deste último para o cinema vigente naquela década. Sua estrutura multiplot ressoou fortemente, muito embora já tivesse sido usada pelo próprio diretor anos antes, em Nashville.

A trama é assinada por Altman ao lado de Frank Barhydt, baseada nos contos de Raymond Carver, na qual acompanhamos a vida de mais de 20 personagens em um curto período de tempo. Enquanto aviões com pesticida sobrevoam a cidade em resposta à infestação de moscas de fruta, as vidas de tantas e tantas pessoas se complexifica a cada novo minuto. Stormy (Peter Gallagher) é um dos pilotos destes helicópteros e é o ex-namorado repulsivo de Betty (Frances McDormand), homem que vive a atrapalhando e a perseguindo, usando seu filho como desculpa. Betty tem um caso com o policial casado Gene (Tim Robbins), que dá desculpas cada vez mais furadas para sua esposa, Sherri (Madeleine Stowe). Ela é irmã da artista plástica Marian (Julianne Moore) que, por sua vez, é casada com o doutor Ralph (Matthew Modine). Durante o concerto da violoncelista Zoe (Lori Singer), o casal conhece Stuart (Fred Ward) e Claire (Anne Archer) e, muito espontaneamente, marca um jantar para dali alguns dias. Stuart vai sair para pescar com seus amigos Gordon (Buck Henry) e Vern (Huey Lewis) e prometeu um peixe para a ocasião. No entanto, a pescaria pode não dar muito certo quando eles encontram o corpo de uma mulher no ermo local onde acamparam.


Antes de partir para a viagem, no entanto, o trio faz uma parada obrigatória para um café da manhã na lanchonete onde Doreen (Lily Tomlin) atende como garçonete. Ela é namorada do motorista de limusine Earl (Tom Waits) e os dois vem aos trancos e barrancos com seu relacionamento. A filha deles, Honey (Lily Taylor), e seu namorado Bill (Robert Downey Jr.) ficaram de cuidar da casa dos vizinhos e se aproveitam do espaço para receber seus amigos, o cuidador de piscinas Jerry (Chris Penn) e sua esposa, a atendente de ligações eróticas Lois (Jennifer Jason Leigh). Dentre as piscinas que Jerry cuida está a do casal Anne (Andie McDowell) e Howard (Bruce Davidson), que estão preparando a festa de aniversário de oito anos de seu filho, Casey (Zane Cassidy). No entanto, um acidente grave com o garoto tende a mudar tudo. Até uma reaproximação com o avô da criança, o bonachão Paul (Jack Lemmon), acaba por acontecer. A vizinha do casal, a supracitada Zoe, se preocupa com a condição da criança, embora tenha problemas em sua vida com a desconexão com sua mãe, a cantora de boate Tess (Anne Ross).




Dar conta de todas as pontas da trama de Short Cuts: Cenas da Vida requer uma boa memória ou anotações precisas a respeito da ligação de cada uma dessas figuras. O brilhantismo do trabalho de Robert Altman está na construção desse emaranhado de ligações e nas características muito humanas de seus personagens. Para o diretor, importante é que o espectador enxergue em seu filme situações e pessoas que poderiam muito bem viver entre nós, com problemas mundanos, personalidades tortas e objetivos nada gloriosos. Veja Stormy, por exemplo. Ele é um sujeito que passa a trama toda azucrinando a vida de sua ex-mulher. Quem não conhece alguma história sobre alguém assim? Ou a errática situação de Doreen e Earl, um casal já na meia-idade que não consegue se acertar por conta do ciúme e do vício daquele homem. Ou a relação fria entre mãe e filha que poderá gerar um evento irreversível quando falamos de Zoe e Tess. Relação essa completamente inversa quando vemos na casa ao lado o carinho de Anne pelo seu filho Casey.


Robert Altman nos dá a oportunidade de acompanhar instantâneos da vida, como se fôssemos testemunhas oculares privilegiadas. Um exemplo perfeito disso são as discussões dos casais. Elas são viscerais, acaloradas, intensas. Em uma delas, Julianne Moore não se dá o trabalho de vestir suas roupas para brigar com seu marido, mostrando que já não existe muita sensualidade naquela relação. Ou a discussão que se dá entre Fred Ward e Anne Archer quando ela descobre a ação de seu marido quando ele encontra o corpo de uma mulher durante sua pescaria. Talvez a conversa pós-sexo menos corriqueira, mas que também mostra uma faceta nada glamorosa de um relacionamento longevo. Altman vai permeando sua história com momentos como estes, nos dando um vislumbre do que poderiam ser tantas e tantas vidas reais.




O elenco de Short Cuts: Cenas da Vida é de fazer inveja a qualquer um. São poucos os diretores que conseguiriam tantos nomes importantes para defender personagens que, em última análise, são pequenos no todo. Não existem protagonistas aqui. O microcosmo criado por Altman é o personagem principal, com cada um daqueles interessantes personagens vivendo naquele ambiente. Claro que existem histórias mais curiosas do que outras e atores mais notáveis. Um bom exemplo disso é a presença de Jack Lemmon, que surge no hospital onde seu neto está internado e mexe com o status quo de tudo. Há muitos anos sem falar com o filho, o comentarista de tevê Howard, Paul encontra naquele momento conturbado uma chance de reatar relações. Ele não vê, mas este está longe de ser um período propício para isso, colocando Howard em uma situação desconfortável, para dizer o mínimo. Outro núcleo destacável é protagonizado por Tim Robbins, como um policial mequetrefe que desejava paz em sua casa. Odiando o cachorro dos filhos, ele dá um jeito de abandoná-lo na rua, apenas para perceber que a ausência do mascote incendiou ainda mais os ânimos em seu lar. Suas ações são terríveis, com Robbins sendo detestável na medida.


Embora possam parecer exageradas, as três horas de duração de Short Cuts: Cenas da Vida passam muito rápido. Ajuda a trama dinâmica, que fragmenta a história nos deixando curiosos pelo desenrolar das situações. Também o elenco de alto nível e os personagens desenhados deliciosamente por Altman e por Frank Barhydt. A trilha sonora cheia de jazz é um atrativo a mais e o terceiro ato guarda surpresas interessantes, como um desastre natural que une ainda mais as tantas pontas da trama – e que Paul Thomas Anderson parece ter se inspirado para construir o igualmente imperdível Magnólia (1999). Depois de ter usado o recurso em Nashville e ter retornado a ele em Short Cuts, Altman trabalharia com multitramas em alguns de seus filmes seguintes como o subestimado Prêt-à-Porter (1994), o premiado Assassinato em Gosford Park (2001) e o derradeiro A Última Noite (2006). Para quem deseja ver um mestre em ação, conseguindo concatenar tantos personagens e histórias, Robert Altman é o nome a ser procurado. E Short Cuts um de seus trabalhos mais festejados.




SHORT CUTS: INUSITADO COMO A VIDA
por Bernardo Brum para CINECAFÉ


Short Cuts é o Uivo (o poema de Allen Ginsberg) do cinema. Sem querer comparar duas artes e mídias totalmente distintas entre si, a proposta, a visceralidade, a importância são bastante similares. Também, não dá para se espera mais nada em uma Los Angeles à beira do apocalipse, passando por pragas de proporções bíblicas. E o ser humano, enquanto isso, anda perdido pelas ruas em meio à pandemias de doenças transmitidas por insetos, cavalarias de helicópteros armadas com remédios e gases suspeitos e terremotos, tentando escapar da mediocridade, do tédio, da solidão, e só querendo ser feliz no meio de tanta loucura.



Não existe dramaturgia fácil, concessões, clímaxes ou redenção no filme. Pois Short Cuts é turbilhão vivo de narrativa fragmentada, de pessoas tristes e comuns sem rumo na vida em um mundo que sempre parece estar com os dias contados. Tudo é uma rotina no filme, as pessoas saindo para trabalhar, o confeteiro de bolo que fica passando trotes, o apresentador de televisão frio como pedra, a moça do telesexo que levanta uma grana mas não deita para uma safadeza com o marido, que é um limpador de piscina, tem a garçonete de meia idade tendo que lidar com o seu marido, um taxista beberrão, tem a palhaça e o seu marido pescador, o policial que trai a mulher toda hora, mulher esta que posa nua para sua amiga, artista plástica que tem um marido neurótico com a infidelidade de sua cônjuge, a cantora de jazz, uma perua velha e amarga, apreciada pelo taxista beberrão que não dá atenção para a sua filha, que joga basquete e toca violino…



É tudo tudo tão comum em certos momentos que parece difícil acreditar, nas nossas mentes sedentas por ilusionismos cinematográficos, que um filme de três horas com mais de 20 personagens desses tipos tão comuns consiga ser interessante. Mas é.



Mas há gritos, música e uma erupção de sentimentos todo o tempo e o tempo todo. Porque é, essencialmente, um filme com uma visão sombria da vida. Apesar de tanta mediocridade imperante, Short Cuts também é caótico. Há atropelamentos, há assassinatos, há defuntos sendo encontrados, há negligência, há reconciliações, há separações, há erros médicos, há muita bebedeira, há muita discussão com pessoas dizendo o que não queriam, enfim, em meio à cidade grande, são tantos que se esforçam para controlar a vida, mas ninguém consegue impedir uma das grandes verdades – que o mundo, além de ser indiferente, é incontrolável. O amor e a dor, a desgraça e a boa nova, tudo acontece ao mesmo tempo, interligando sentimentos, fatos e pessoas, numa cadeia complicadíssima e sempre progredindo, sem teoria que possam regê-la.


Por sua narrativa descontrolada e múltipla, Short Cuts não termina. É um filme cheio de arestas, cheio de perguntas, pontas soltas, confusão aos montes, guiadas por mão de mestre, que nunca fica entediante. A forma como Altman editou essa confusão não faz o espectador ficar atordoado, pelo contrário. Nós somos convidados a participar daquele mundo, acompanhar alegrias, tristezas, decepções, traumas, delitos, desgraças, sorte, azar, dar risada, chorar, sofrer… De forma tão profunda que fica difícil acreditar que, de fato, um filme que tenha uma visão sombria pode ser tão ou mais humano que filmes dito otimistas.



Assistir ao testemunho da vida de Altman é uma divina comédia do desajuste, uma verdadeira Odisséia não-épica. Nós descemos ao inferno várias vezes e sentimos o gosto de enxofre na língua porque, diabos, tantas dores juntas é simplesmente catártico, um verdadeiro delírio coletivo para uma só mente absorver. E não precisa nem de duas ou três telas passando diferentes histórias. É uma alternando com a outra, e de forma tão natural e itensa que quando tudo acaba, nós temos a sensação de termos sido completamente destruídos, atropelados pela energia vital e sensibilidade artística de Robert Altman.



E claro, assistir Short Cuts também é uma experiência de sublimação. Por tudo o que somos e por tudo o que podemos e queremos ser, pelo que poderíamos ter sido, pelo que esperamos da história, dos personagens, das suas frustrações e realizações, e do cinema. Por que, afinal, o que é Short Cuts senão um filme sobre a vida e tudo o que existe dentro dela? Dá para se sentir bêbado com Tom Waits. Dá para sentir Juliane Moore gritando, sem calças, na sua frente. Dá para se irritar com o egoísmo e covardia de Jack Lemmon como se a coisa toda fosse com a gente. Dá para se pintar de palhaço e passar o terromoto dentro de uma piscina de hidromassagem. Nos projetamos ali e sentimos o gosto agridoce de ser humano.



E claro, como não podia deixar de ser, mais do que vida, mais do que reflexão, mais do que inovação, mais do que uma descida sem volta na cabeça de uma (de Altman), duas (dele e do autor do livro que inspirou, Raymond Carver) e várias mentes (deles, dos personagens, da nossa…), também é cinema dos melhores. Aliás, diria eu, dá para dizer que o cinema existe para que obras como Short Cuts venham à luz. Mas, também, dá para dizer que é uma daquelas obras que justificam todo o cinema. Enfim, não dá pra chegar em um consenso ou resposta exata, especialmente afirmações tão subjetivas que nem essa. Ainda não tenho tanta moral assim. Mas quer saber? Que se dane. É assistir, absorver, beber, chorar, trepar e fazer merda junto com eles. Incomensuravelmente bom. Não dá pra definir nada aqui. Se não assistiu, caia pra dentro.



SHORT CUTS - CENAS DA VIDA
(Short Cuts, 1993, 187 minutos)

Direção
Robert Altman

Roteiro
Robert Altman
Frank Barhydt

Elenco
Andie McDowell
Bruce Davison
Jack Lemmon
Zane Cassidy
Julianne Moore
Matthew Modine
Anne Archer
Lyle Lovett
Fred Ward
Jennifer Jason Leigh
Chris Penn
Robert Downey Jr.
Madeleine Stowe
Tim Robbins
Lily Tomlin
Tom Waits
Frances McDormand
Peter Gallagher
Annie Ross








Thursday, February 9, 2017

QUINTA, 19hs, TEM "O JOGADOR" NO CICLO ROBERT ALTMAN NO CINECLUBE PAGU - MISS


O JOGADOR: AGULHA NO PALHEIRO
por José Carlos Avellar para EscreVerCinema


Como uma intromissão subversiva na tradição criada pelo filmes norte-americanos produzidos em torno de Hollywood, enquanto conta histórias movimentadas e muito diferentes entre si, o cinema de Robert Altman propõe ao espectador uma imagem excêntrica. Filmando em Hollywood, mas bem ao contrário do que se faz em Hollywood, ele não compõe imagens em que a câmera vê a cena diante dela de um ângulo central, sem perder nenhum detalhe e sem deixar que um gesto secundário desvie a atenção do olhar do que na verdade importa. O espaço dramático não é o de Hollywood, a cena mais dinâmica que a do teatro mas ainda assim devedora do teatro, espaço desenhado como um palco em que os personagens agem voltados para o direto representante da platéia ali ao lado, a câmera. No cinema de Altman nem a cena se volta especialmente para a câmera, nem a câmera parece voltada especialmente para a cena. Dispersa, ela se perde em anotações na aparência irrelevantes, desvia o olhar para um gesto que logo abandona no ar em busca de outro e, principalmente, estica o ouvido para um pedaço de conversa sobre uma questão qualquer que na aparência é mais ruído que fala, que, assim parece, nada tem a ver com o que se discute ali.

Como este gesto narrativo é uma presença constante nos filmes do diretor, como ele se impõe como organizador do processo narrativo independente das histórias contadas, talvez seja possível dizer que a verdadeira questão do cinema de Robert Altman está aqui, neste convite a que o espectador apreenda a imagem como uma forma aberta (sem paredes, e não apenas sem a quarta parede do teatro), e que por isso mesmo, porque aberta para todos os lados, exige um olhar pronto a ver tanto o que parece ser o centro da cena como o que parece estar fora do centro, deslocado como se apenas atrapalhasse a visão da cena.




É como se o cinema – não os filmes, os modos de produção ou uma qualquer particularidade do meio artístico, técnico e econômico da atividade cinematográfica, mas o cinema enquanto um instrumento sensível para melhor compreensão do mundo em que vivemos – é como se o cinema, a imagem essencialmente em movimento, fosse o verdadeiro tema dos filmes de Robert Altman. Se assim é, talvez O jogador (The player, 1992) ocupe uma posição de destaque entre os quase 90 filmes feitos para cinema e televisão, porque se passa em torno de um estúdio de cinema, e porque na cena de abertura, de modo simultâneo, enquanto distribuiu pela imagem os primeiros sinais do conflito que explode adiante, fala mesmo é de cinema.


É um plano longo, pouco mais de oito minutos, com uma câmera que se movimenta muito em torno de personagens que, por sua vez, cruzam o estúdio de um lado para outro. Começa num quadro (uma cena de filmagem do tempo do cinema mudo) na ante-sala do diretor do estúdio (na verdade começa na advertência “silêncio no estúdio!” e na claquete que anuncia “seqüência 1, tomada 10”): a recepcionista entra em cena para atender o telefone, depois de uma voz fora de quadro ordenar: “ação!”, e ser advertida pela secretária para jamais dizer que Joel Levison ainda não chegou, “ele está sempre aqui; diga que está em reunião, mas ele está sempre aqui”. A imagem, que recuara do quadro para ver a recepcionista e a secretária, recua ainda mais, sai da ante-sala para a rua que liga os vários escritórios do estúdio (porque a recepcionista deve sair correndo, ordena a secretária, para pegar os jornais e a correspondência antes da chegada do chefe. A imagem sai da ante-sala, e já no espaço aberto, na rua do estúdio, sobe, acompanha a secretária, muda de direção ao descobrir um carro que chega veloz e vem com ele até um outro escritório, o do produtor Griffin Mill, que a duras penas consegue se livrar de Adam Simon, roteirista ansioso, que na verdade tem uma reunião com ele na semana seguinte mas gostaria de adiantar a conversa.



Já em sua mesa de trabalho Griffin recebe gente que vem contar idéias para um filme: uma segunda parte de A primeira noite de um homem (The graduate, de Mike Nichols, 1967) Ben, Elaine e a senhora Robinson 25 anos mais tarde, Julia Roberts no papel da filha de Dustin Hoffman e Katherin Ross. A aventura de uma estrela da televisão na África: ela encontra uma tribu de anões que passam a adorá-la, uma mistura de Entre dois amores (Out of Africa de Sidney Pollack, 1985) e Garota bonita (Pretty woman, de Garry Marshal, 1990) com muito de Os deuses estão loucos (The Gods Must be Crazy, de Jamie Uys, 1980) e Dollly Parton ou Goldie Hawn no lugar da garrafa de Coca-cola. Um grupo de sobreviventes humanos num planeta distante, com dois sóis. Uma comédia cínica e política, levemente política e ao mesmo tempo com suspense, com Bruce Willis, história de um senador que viaja pelo país empobrecido gastando dinheiro a rodo até o dia em que, depois de um acidente, se transforma num vidente capaz de ler a mente das pessoas, uma mistura de Ghost (de Jerry Zucker, 1990) com Sob o domínio do mal (The Manchurian Candidate, de John Frankenheimer, 1962) e no final assassinam alguém porque é sempre assim nos filmes políticos.


No plano, ainda, entre muitas outros incidentes e observações dispersas, durante as caminhadas da câmera pelas ruas que ligam os diversos escritórios, um grupo de japoneses visita o estúdio, conduzidos por um guia que garante: “vamos continuar a usar produtos Sony” e observados por gerentes de produção que comentam a meia voz: como já ocorreu em outros estúdios, os japoneses estão comprando a produtora e vão fazer mudanças. Alguém que passa num carro branco confunde uma jovem de vermelho com Rebecca de Mornay. Um jovem mensageiro imagina ter visto Martin Scorsese entrar no escritório de Griffin e grita para ele: “adorei Cabo do Medo (Cape fear, 1991)” – o visitante diz que não é Scorsese mas conhece Harvey Keitel. O encarregado da entrega de correspondência é atropelado, sua bicicleta vai ao chão, a correspondência se espalha. E, principalmente, dois personagens conversam sobre o que não gostam no cinema, “os filmes de hoje parecem MTV: corta! corta! corta!”, e sobre o que apreciam, o longo plano de abertura de A marca da maldade (Touch of Evil, de Orson Welles, 1958), diz o primeiro. Absolute begginers do inglês Julien Temple, lembra o segundo. Festim diabólico (Rope, de Aldred Hitchcock, 1948) a história não era tão boa, mas a filmagem num plano contínuo sem o corta! corta! corta! é ótima, retorna o primeiro, que prefere falar de diretores americanos. E o longo plano com Debra Winger em O céu que nos protege (The Sheltering Sky, de Bernardo Bertolucci, 1990)? insiste o segundo. O primeiro não viu o filme de Bertolucci mas tem certeza: nada é como a abertura de Touch of Evil.



A oposição entre os filmes de planos longos e aqueles outros feitos como clipes musicais, corta! corta! corta! é especialmente divertida porque se dá numa cena em que os diálogos, as falas dos personagens, bem ao contrário da imagem, se faz por meio de uma série de corta! corta! corta! A conversa nem bem começou e muda de rumo ou é atropelada por uma outra fala que não tem nada a ver com o que se discute ou que tenta adivinhar e abreviar a fala do outro, como por exemplo as intervenções de Griffin em busca de uma palavra que defina logo a história que eles querem filmar. Neste longo plano de abertura a imagem é contínua, mas os diálogos são absolutamente descontínuos e fragmentados – inverte-se a ordem do audiovisual que (bem coerentemente com a construção da palavra, primeiro áudio depois visual) mantém a unidade do som sublinhada pela descontinuidade da imagem.


Assim, enquanto parece falar de tudo ao mesmo tempo e de nada em particular, enquanto parece querer fazer o mesmo que Welles na abertura de Touch of Evil, assim, como um bate papo disperso e sem rumo certo em torno de cinema, The Player coloca o espectador dentro da história que vai contar pouco antes de efetivamente começar a contá-la. Espalha pela cena pequenos sinais da questão com que Griffin terá de confrontar-se: a ameaça de perder o emprego (ao ver passar os japoneses alguém comenta, parece que vão demitir o Griffin) e a ameaça mais complicada de ser assassinado por um roteirista. Um cartão que o mensageiro deixou cair no chão ao ser atropelado (a câmera, sem que se saiba por que, se mostra mais interessada no detalhe do cartão do que no personagem atropelado) que tem escrito em destaque por baixa da figura “morte” (dead). No verso do cartão, visto adiante quando a câmera espiona pela janela o escritório de Griffin, a ameaça: “eu odeio você, seu canalha!” – a leitura do cartão coincide com a frase do roteirista que vende a idéia de uma comédia política cínica e com suspense: no final assassinam alguém porque é sempre assim.



Tudo está aqui, na cena de abertura. É verdade, as muitas voltas que a história dá não podem ser ante-vistas aqui, mas todos os elementos que a compõem já se encontram apontados aqui com clareza – talvez com clareza semelhante à que esconde uma agulha num palheiro, mas estão lá. Se o que se apresenta com clareza não parece tão claro assim, isto se deve ao fato de que o protagonista, Griffin Mill, como também toda a gente do estúdio, não conseguem ver a situação em que se encontram com clareza. Ou seja, o que espectador vê claramente é que se encontra diante de personagens perdidos numa comédia política com suspense e uma boa dose se não de cinismo com certeza de ironia, perdidos como quem procura uma agulha no palheiro.

Todo o filme está no longo plano de abertura – parte, todo, e um todo à parte. E mais que isto, talvez seja possível dizer que todo o cinema de Robert Altman se encontra resumido neste jeito elegante, divertido, irreverente, de dizer, nos muitos pequenos e incompletos flagrantes, incidentes e frases soltas que mostra simultaneamente, uma coisa só: o cinema é um palheiro de agulhas



José Carlos Avelar foi cineasta, e também curador e crítico de cinema,
Coordenou a área de cinema no IMS de 2008 até março de 2016, quando faleceu.



O JOGADOR
(The Player, 1992, 124 minutos)

Direção
Robert Altman

Roteiro
Michael Tolkin

Elenco
Tim Robbins
Greta Scacchi
Fred Ward
Whoopi Goldberg
Peter Gallagher
Brion James
Cynthia Stevenson
Vincent D'Onofrio
Dean Stockwell
Richard E. Grant
Sydney Pollack
Lyle Lovett
Dina Merrill
Gina Gershon
Jeremy Piven







Saturday, March 28, 2015

UM PASSEIO PELO ESPAÇO SIDERAL EM 4 DVDS QUE MERECEM SER VISTOS





Demorou um pouco, mas "Interestelar",
 belíssimo sci-fi de Christopher Nolan,
 finalmente chegou às locadoras
 nos formatos DVD e Blu-Ray. 

Se você não conseguiu ver nos cinemas,
 e ficou decepcionado(a) com a baixa qualidade
 visual e sonora da imensa maioria das cópias
 que circularam pela internet,
 o jeito vai ser dar uma chegadinha
 na sua locadora favorita e locar
 o DVD ou o Blu-Ray do filme.

De qualquer maneira, é sempre bom lembrar
 que nunca o gênero sci-fi esteve tão em voga
 no cinema americano quanto agora.

E que, além de "Interestelar",
 muitos outros filmes do gênero 
-- alguns realmente excepcionais -- 
foram lançados nesses últimos anos.
Pois bem: os três filmes que escolhemos
 para indicar neste final de semana
 são bem diferentes um do outro. 

O primeiro é um road movie sci-fi. 

O segundo, um drama de suspense passado na Lua. 

E o terceiro, um belo filme de aventuras em Marte.

Em comum entre os três,
apenas o fato de serem excelentes exemplos
 de filmes de ficção-científica.

E, claro, de estarem disponíveis para locação 
nas estantes da Vídeo Paradiso.

Vamos a eles:


SOB A PELE
(Under The Skin, 2013, Jonathan Glazer) 
Uma alienígena extremamente envolvente (Scarlett Johansson) seduz homens solitários por vários cantos da Escócia e os desintegra dentro de seu universo sobrio. Enigmático ao extremo e sempre fazendo uso de poucas palavras, o filme revela Glazer como um realizador maduro e inventivo, e Scarlett como uma atriz sempre pronta a encarar papéis corajosos como este. Baseado em romance de Michael Faber. Rodado em locações pelas montanhas e pelo litoral da Escócia.


LUNAR
(Moon, 2009, Duncan Jones)
Sam Bell (Sam Rockwell) é um astronauta que cumpre uma missão de três anos na Lua, para extrair do solo e enviar regularmente à Terra uma substância que ajuda a renovar a energia do planeta. Sam tem apenas a companhia do computador GERTY (voz de Kevin Spacey) e, repentinamente, começa a delirar, sofre um acidente e descobre um clone seu dentro da Estação Lunar. Qualquer semelhança com "2001" não é mera coincidência. Belíssima estréia de Duncan Jones, talentoso filho mais velho de David Bowie, como diretor e roteirista original.
  

MISSÃO: MARTE 
(Mission To Mars, 2000, Brian DePalma)
Quando a primeira missão tripulada a Marte sofre um catastrófico e misterioso desastre, uma missão de salvamento é enviada para investigar a tragédia e trazer de volta possíveis sobreviventes -- e o que eles descobrem é absolutamente surpreendente. Excelentes performances de Gary Sinise, Tim Robbins, Connie Nielsen, Kim Delaney e Dan Cheadle. Notável incursão de Brian DePalma no gênero.


endereço da VideoParadiso é 
Rua Nabuco de Araújo, 60, Boqueirão
Santos SP

(13) 3235-8135 

Delivery de DVDs
de Segunda a Sexta 
das 19 às 21 horas



Saturday, February 28, 2015

UM PRELÚDIO PARA "JACKIE BROWN" (por Chico Marques)



Quem conhece o romance "The Rum Punch" (1992), de Elmore Leonard, que foi adaptado por Quentin Tarantino e se transformou no filme "Jackie Brown", sabe bem que o resultado final do filme tem muito pouco a ver com o tom da literatura de Elmore Leonard.

Não que Tarantino não tenha sido fiel ao romance. 

Ele até tentou ser. 

Mas o tom às vezes sombrio, às vezes cômico dos personagens originais acabou trocado pela habitual sucessão de exageros estilísticos que Tarantino simplesmente não consegue evitar em seus trabalhos.

Fora isso, tem ainda a obsessão de Tarantino em celebrar os filmes da Era da Blaxploitation -- quase todos horrendos, extremamente caricatos, e de baixíssimo gabarito artístico -- que afastam "Jackie Brown" ainda mais do tom original de "The Rum Punch"

Sendo assim, pode-se até considerar que "Jackie Brown" seja um dos melhores filmes já realizados por Quentin Tarantino, mas dificilmente será uma das melhores adaptações para o cinema da obra cruel e extremamente divertida do grande e saudoso losangeleño Elmore Leonard.

Existem muitos outros filmes adaptados de seus romances que são menos ambiciosos que "Jackie Brown", que foram muito melhor sucedidos.







"Life Of Crime", lançado aqui no Brasil com o título ridículo "Sem Direito a Resgate", é uma adaptação fiel e muito bem realizada do romance "The Switch" (1978).

Não pretende ser exatamente um prelúdio de "Jackie Brown", mas a referência acaba sendo inevitável, já os personagens principais da trama são os sequestradores Odell e Louis, aqui interpretados por Mos Def e John Hawkes -- e que, em "Jackie Brown", haviam sido defendidos por Samuel L Jackson e Robert DeNiro.

A trama gira em torno de Mickey (Jennifer Aniston), que é casada com Frank Dawson (Tim Robbins), um empresário espertalhão que está envolvido em escândalos de desvio de dinheiro para paraísos fiscais, mas que é, ao mesmo tempo, extremamente chucro -- que, por sua vez, mantém um romance com uma garota tão fogosa quanto cretina e desclassificada, interpretada brilhantemente pela inglesa Isla Fischer.

Quando os sequestradores percebem que Frank Dawson não irá pagar o milhão de dólares que foi pedido pelo resgate de sua mulher Mickey -- Frank está com a papelada do divórcio pronta para entregar a Mickey, e ela descobre que está sendo enganada pelo marido há anos, tanto em termos conjugais quanto em termos financeiros -- decidem, ao invés de matá-la, unir forças a ela contra Frank.

A partir daí, a tensão inicial do filme se dissipa e dar lugar à comédia de erros que está presente em praticamente todos os textos de Elmore Leonard.


Jennifer Aniston está surpreendentemente contida e madura com atriz nesse filme. Todos os trejeitos que ela traz consigo desde os tempos de "Friends" parecem ter ficado definitivamente para trás. 

Já Tim Robbins está magnífico como o empresário espertalhão e grosseiro. Não lembro de vê-lo numa performance tão consistente há uns bons anos.

Mos Def e John Hawkes estão divertidíssimos, mulherengos, e proporcionam aos personagens dos sequestradores um tom bem humano, bem diferente das máquinas de matar em que se transformaram quando interpretados por Samuel L Jackson e Robert DeNiro.

Quanto ao roteiro impecável e à direção precisa de Daniel Schechter, pode-se dizer que toda a experiência que ele adquiriu em filmes independentes como "Supporting Characters" (2012), "Goodbye Baby" (2007) e "The Big Bad Swim" (2006) foi de grande serventia nesse seu primeiro filme com um orçamento mais vultoso.

Schechter foi muito feliz ao tentar reproduzir na tela o ritmo frenético dos romances de Leonard, que sempre encadeiam viradas à base de diálogos rápidos e econômicos.


Sendo assim, recomendo que esqueçam Quentin Tarantino e os excessos estilísticos de "Jackie Brown".

Lembrem apenas que a ação de "Life Of Crime" acontece alguns anos antes da de "Jackie Brown", e que os personagens recorrentes ainda são jovens e estão se iniciando no às vezes não tão rentável métier dos Sequestros.

Tudo funciona bem em "Life Of Crime": o tom menor da narrativa, o ritmo extremamente ágil e a acertada reconstituição dos Anos 1970. 

Diversão garantida.

Apenas uma ressalva: um filme desse gabarito merecia, com certeza, um título em português melhorzinho que esse ridículo "Sem Direito A Resgate".

Que horror, Senhores Distribuidores!



SEM DIREITO A RESGATE (2014)

TÍTULO ORIGINAL 
LIFE OF CRIME

DIREÇÃO e roteiro 
DANIEL SCHECHTER

DURAÇÃO 
1H38 MINUTOS

ELENCO 
JENNIFER ANISTON
YASIIN BEY
ISLA FISHER
WILL FORTE
MARK BOONE JUNIOR
TIM ROBBINS
JOHN HAWKES
CHARLIE TAHAN

EM CARTAZ NO ROXY GONZAGA