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BILL MURRAY: MAGNÍFICO EM "UM SANTO VIZINHO" (por Chico Marques)


Bill Murray é um ator único no cenário americano.

Como comediante, ele vem há exatos 40 anos dando aulas de cinismo e de deboche na pele de alguns dos personagens mais incertos e mais improváveis de Hollywood.

Já como ator dramático, ele incorpora esse mesmo cinismo a tipos desalinhados da sociedade e consegue fazer com que eles cresçam e apareçam -- para o desespero dos integrados nas normas sociais, que nutrem profundo desprezo por gente pitoresca assim.

Nos anos 70, por conta de sua enorme popularidade nas primeiras temporadas do programa de TV "Saturday Night Live", Bill era chamado apenas para fazer comédias -- e era um sucesso estrondoso.

Mas ele queria mais do que isso, e então, em 1983, mergulhou de cabeça na produção de "O Fio da Navalha", de John Byrum, um belo remake do filme de 1946 com Tyrone Power baseado no romance clássico de W. Somerset Maugham.

O lado ruim disso é o filme foi um fiasco de bilheteria e afundou financeiramente com ele, que teve que voltar a fazer comédias para conseguir sair do vermelho.

Mas teve um lado bom: todo mundo em Hollywood viu o filme, e, depois dele, Bill começou a ser chamado com frequência para papéis dramáticos e também para compor tipos muito estranhos em filmes independentes. 

A partir daí ficou claro que ele era um ator bem mais versátil do que aparentava ser a princípio. E assim, ele, pouco a pouco, foi virando quase uma unanimidade.

Hoje, aos 64 anos de idade, Bill Murray é o excêntrico que todos gostam de receber em casa, o "penetra de casamentos" mais querido da América -- existem dezenas de videos de casamentos de estranhos que ele invadiu e acabou brilhando mais do que os noivos na festa, está tudo no YouTube -- e um ator magnífico que escolhe seus papéis com um rigor artístico diametralmente oposto à recompensa financeira.

Em outras palavras: ele prefere mil vezes fazer um papel num filme de Wes Anderson do que embarcar num blockbuster altamente rentável que exija pouco ou quase nada dele.

A verdade e que Bill Murray adora desafios. 

Se não fosse tão palhaço, tão cínico e tão debochado, mais pessoas acreditariam nisso.


Em "Um Santo Vizinho", Bill Murray volta ao papel de protagonista. 


Ele faz Vincent, um sujeito completamente torto na vida, que vive com um gato numa casa imunda, dirige um velho conversível dos Anos 70 caindo aos pedaços, bebe muito, é viciado em corridas de cavalos e faz uso semanal dos serviços de uma prostituta russa -- interpretada de forma impagável por Naomi Watts -- que está grávida e não se conforma em ver todos os seus clientes contumazes parando de procurá-la, e só Vincent permanecendo fiel a ela.

Uma mulher atormentada (Melissa McCarthy) muda-se com o filho (Jaeden Lieberher) para a casa vizinha à dele, numa área meio derrubada do Brooklyn, e uma série de acontecimentos incertos acaba levando Vincent e virar babá do garoto. Mas uma babá que leva o garoto aos bares, ao Jóquey Club, e à Casa de Repouso onde sua mulher, que sofre de Alzheimer e nem se lembra mais dele, está internada.

A direção e o roteiro são do estreante Theodore Melfi --que os brasileiros conhecem mais como produtor de filmes como "Amor Por Acaso", longa de estréia de Márcio Garcia -- e sabe fazer uso do enorme talento de Murray, que deita e rola tanto nos momentos de comédia rasgada quanto nos momentos mais dramáticos. 

Por mais que a história flerte levemente com certas pieguices, Murray não permite em momento algum que elas tomem conta da cena, e não hesita em fazer uso de todos os antídotos que tem à mão para manter a dignidade de "Um Santo Vizinho" intacta.

E consegue.




"Um Santo Vizinho" só tem uma contra indicação: 

Não vai conseguir agradar quem não gosta do humor de Bill Murray. 

Mas... fica a pergunta: Será que existe alguém que não tenha apreço pelo humor impagável de Bill Murray?

Eu duvido.

"Um Santo Vizinho" é, provavelmente a melhor comédia em cartaz neste início de ano em que as salas de cinema estão tomadas por dramas ridículos que quebraram a cara na Cerimônia dos Oscars.

Eu recomendo como antídoto a tudo isso.

Funciona, eu garanto.






UM SANTO VIZINHO 
(sAint vincent)
2014

ROTEIRO E DIREÇÃO
Theodore Melfi

ELENCO 
Bill Murray
Chris O'Dowd
Jaeden Lieberher
Melissa McCarthy
Naomi Watts
Terence Howard

EM CARTAZ NO CINEMARK SANTOS






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