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MOACYR SCLIAR, O ACERTO DE CONTAS (por José Luiz Tahan)


Foi em 2004, num dos encontros promovidos pela minha livraria – a Realejo Livros – que conheci Moacyr Scliar. 

Sempre que recebo um escritor, passo o dia com ele. Pautamos entrevistas, almoçamos juntos, batemos perna pela cidade e, se tudo correr bem, quebramos o gelo como se diz. 

A maratona na grande maioria das vezes é muito divertida, ouço muito e me arrisco também a emitir opiniões. A idéia é sair de cima do muro, estarmos inteiros na conversa. Tudo caminha para o grande momento dos dias de evento, que é o papo com os leitores. 

A conversa com o público foi boa, Scliar contou causos da infância, histórias da mãe judia, como esquecer uma destas passagens? Ele falava de como seu irmão caçula era misterioso, como a sua rebeldia infantil o impressionava, e como a mãe não o dominava.

A mãe tentava oferecer o alimento ao menino, a colher voava num rasante em direção à boca fechada, assim, firme. O menino nunca comia, a mãe o espreitava. Nos fundos da casa o pai mantinha uma oficina, trabalhava com madeira, carpintaria. 

Os irmãos eram fascinados com o cheiro, as engenhocas e o som que brotava da oficina. Os dois boquiabertos, a mãe com a colher vencia e enfiava pela goela do menino a comida.

Numa manhã o mistério se desfez, o caçula filava as refeições traçadas pelos peões de uma obra nos arredores. 

Aí a maestria da mãe, que ao descobrir a manobra do filho foi ter uma conversa com os operários, a partir daquele dia a cozinheira era a mãe, que alimentava os trabalhadores só para cuidar do filho.

Scliar dedicou também parte da palestra para explicar mais sobre a cultura e religião judaicas. Falou da grande quantidade de médicos, advogados e de profissionais que absorvem conhecimento, que tem nele próprio o bem maior, pois o povo judeu tem de se adaptar ao fato de poder perder tudo, de ser nômade, de perder ou de não ter a sua terra, o seu lugar. 

A literatura de Scliar se mostrava pela maneira como ele organizava suas histórias, o tecido da trama, a preparação para os desfechos, seu ritmo e pausas dramáticas, imaginava fazer parte da família, ouvindo as histórias e parábolas, que constroem, moldam o caráter de quem as ouve, a tal da tradição oral, coisa séria, sim senhor.

Lembro que ao final da apresentação e dos longos aplausos, o nosso autor deu um monte de autógrafos, em vários de seus livros que estavam estrategicamente dispostos numa mesa, ao lado do palco. 

Como sempre, meu ritual era (e ainda é) esperar até que o último leitor seja atendido e aí me aproximo e peço o meu autógrafo. Brinco: “O meu é o com a letra mais tremida, mão cansada e o famoso abraço”. 

Sempre digo também para o escritor me dizer qual dos livros ele me sugere, na maioria das vezes os autores não se acanham, e neste caso me foi indicado o "Centauro no Jardim".


Este romance foi originalmente publicado no início dos anos 80, e foi reeditado pela Companhia das Letras, junto com a maioria dos livros recentes de Scliar.

Peguei o autógrafo, que aqui reproduzo: “Para José Luiz e Ana Cristina, para a sua biblioteca comum, do Moacyr Scliar”. Coloquei debaixo do braço e dali foi para a minha estante, e ali o livro me esperou pacientemente por mais de seis anos.

Tenho o hábito de carregar uma leitura para pequenas viagens de trabalho – para qualquer viagem, aliás. Percorrendo as prateleiras do meu canto de leitura parei os olhos no romance "O Centauro no Jardim" e lá fomos nós, eu e o centauro, para a nossa viagem.

O romance me ganhou, o clima de realismo mágico, aquela habilidade de sermos convencidos de que tudo aquilo que lemos é possível se dá em todos os momentos da obra. Vivemos os dilemas do nosso herói, uma criança centauro, nascida das mãos experientes de uma parteira com os olhos esbugalhados. Um centauro filho de uma família normal, viver a sua vida e sua dor, um livro intenso e ao mesmo tempo leve, saboroso. 

Moacyr carrega seus enredos e seus personagens com a cultura judaica somada à cultura dos pampas, sem ser didático ou panfletário. Convido o amigo ou amiga a conhecer a história de Guedali, o nosso sensível personagem, metade homem, metade cavalo.

Peguei o livro na segunda e terminei no sábado, conclui a leitura empolgado, e sempre indico aos amigos da livraria a minha mais recente leitura.

E então, no domingo, recebo a notícia de que o imortal Moacyr Scliar tinha morrido, exatamente um dia depois do nosso acerto de contas, num compromisso assumido com o próprio há mais de seis anos, de ler a obra autografada.

Tive um pensamento pretensioso e invasivo que vou dividir com vocês, um tanto constrangido, confesso. Pareceu que ele esperou a minha leitura, um acordo com um livreiro desconhecido que um dia o recebeu numa cidade litorânea paulista. Senti-me estranho. E o sentimento continua, até agora, sempre que penso nisso e relembrto esta história.

Obrigado pela dica, Moacyr. Adorei o seu "Centauro no Jardim". Grande abraço para você e obrigado.




José Luiz Tahan, 41, é livreiro e editor.
 Dono da Realejo Livros e Edições em Santos, SP,
 gosta de ser chamado de "livreiro",
 pois acha mais específico do que
 "empresário" ou "comerciante",
 ainda mais porque gosta de pensar o livro
 ao mesmo tempo como obra de arte e produto.
 Nas horas vagas, transforma-se
 no blues-shouter Big Joe Tahan.

(a ilustração acima é do Seri)



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