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POEMINHA DE DOMINGO (por Ivan Junqueira)


ESSA MÚSICA

Essa música que retorna
como o perfume de uma rosa,
essa música que se entorna
de uma ânfora por cujas bordas
escorre ainda o mel de outrora,
essa música insidiosa
numa antiquíssima harpa eólica:
seria o vento em suas cordas?
Seria Orfeu vindo das forjas
do inferno a que baixou, apóstata,
em busca da filha de Apolo,
Eurídice, a esposa morta
por quem até hoje ele chora?
Não é nada enfim. Tudo dorme.
Há, sim, alguém que à noite acorda
e vê-se em ruínas, sem memória
de um tempo que fugiu, mas volta
nessa música que se entorna,
e vai e vem, e vem e torna,
nessa música que retorna
como o perfume de uma rosa.



Ivan Junqueira nasceu na cidade do Rio
 em 3 de novembro de 1934.
 Estudou Medicina e Filosofia
 na Universidade do Brasil,
 mas não concluiu nenhum dos dois cursos.
 Como jornalista, passou por todas
 as redações de jornais cariocas,
 até virar diretor do Centro de Informações
 das Nações Unidas entre 1970 e 1977.
 Crítico literário, ensaísta, conferencista,
 tradutor e poeta extremamente respeitado,
 publicou dez volumes de poesia
 e outros dez volumes de ensaios,
 além das incontáveis antologias
 e dos livros clássicos que traduziu,
 entre eles "As Flores do Mal" de Baudelaire
 e toda a obra poética de T S Eliot.
Foi editor da revista Poesia Sempre,
 da Fundação Biblioteca Nacional,
 e em 2004 chegou à Presidência
 da Academia Brasileira de Letras.
 Morreu no dia 3 de Julho de 2014.




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