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Showing posts with the label Siri na Lata

PERGUNTAS INÚTEIS E SEM RESPOSTA (por Ademir Demaarchi)

Por que um recém-nascido, quando abre os olhos, não se assusta com o que vê, com pessoas que nunca viu, com coisas espantosas vistas pela primeira vez, muitas das quais nem ele mesmo tem, como bocas cheias de dentes, risos e palavras, olhos, narizes, em seres que lhe deveriam parecer estranhos?   Por que o tempo muda e tudo se altera quando um trem passa?   Por que uma mulher está feliz num dia e completamente infeliz e desesperada no outro?   Por que de manhã ela sorri e à noite chora como se passasse de uma dimensão a outra do espaço em que tudo se inverte?   Por que ninguém para a olhar as árvores se movendo vivas, dançando a música silenciosa do vento que as balança?   Por que um homem se deita na calçada tal como todos os outros homens em suas camas e acorda no dia seguinte para repetir seus passos até novamente à noite ir dormir na calçada e se entregar aos mesmos sonhos de todos os outros?   ------------------------------- P...

A VIDA ÀS VEZES É INSUPORTÁVEL (por Ademir Demarchi)

A vida às vezes é insuportável, assim como quando oferecem pela milésima vez uma sacolinha de plástico com um sorriso de código de barras. E bem depois que você viu fotos de montanhas delas, que nunca vão se degradar, pois é terrível, você vai morrer e elas vão continuar ali, coloridas, com a cor da felicidade que deram, num dia qualquer, para qualquer um. Não entendo nada da capacidade de sobrevivência da sacolinha, assim como também não entendo como tem quem consegue continuar fumando com aquelas fotos todas de gente perdendo pedaços de si própria estampadas nos maços. A velha que passou, por exemplo, devia acreditar que chegaria lá, pois veio e se foi, dando passos de tartaruga pela falta de ar, enquanto arfava como se estivesse nas pontas dos pés sobre algum abismo que não consegui vislumbrar, segurando um cigarro queimando mais vivo que ela entre os dedos. Onde achava que ia chegar? Com certeza não era no mesmo lugar que a outra, de botas, parecendo que ia montar...

NEM UM FOGUINHO (por Ademir Demarchi)

“Ao fim da vida, depois de dedicá-la à física e ganhar um Prêmio Nobel, o cientista Richard Feymann disse: ‘vivemos num universo misterioso e sem nenhum propósito’”. A frase, lida numa revista semanal, parecendo propositadamente misturada ao noticiário político, ficou ecoando na cabeça do ginecologista aposentado Dr. Aranha, atualmente ornitólogo e filósofo improvisado depois de dedicar-se uma vida à zoologia no consultório de madames. Também se vislumbrando uma espécie de inseto ainda não identificada por si próprio, no fim da vida tentava fazer a mesma constatação que Feymann, enquanto dava frutas e alpistes aos pássaros de sua gaiola tropical. Passou a tarde entre as duas funções. “O que intriga não é o mistério, que, afinal, move a curiosidade humana e dá um sentido à vida. Onde há mistério há um curioso. O problema está na falta de propósito do universo, da vida...” Banhara-se, ceara, dormira, acordara, fez o desjejum e eis ainda a remoer o mistério e a falta de sentido...

CUCARACHAS (por Ademir Demarchi)

Ir para os Estados Unidos pela primeira vez é algo que se deve planejar, pois se há uma coisa que americano tem é obstáculo pra marinheiro de primeira viagem. Começa que o pedido de visto tem que ser agendado num site confuso e cheio de janelas estranhas. Depois de se ler uma série de recomendações parte-se para o preenchimento de um interrogatório de fazer criança rir, pois há questões que nos soam tão ingênuas quanto “você tem algum desajuste mental?” ou “você cometeu abuso de drogas?” ou “você participou de algum tipo de tortura ou ato de violência?” E por aí vai, fazendo que o interrogado se perguntar se é a si próprio que se está considerando um tonto ou eles é que são mentalmente simplificados, digamos assim. Depois que se passa por várias páginas desse formulário que tem até tutorial de preenchimento, chega-se ao boleto salgado que chapa o sujeito em 160 dólares para obter o visto. Feito isso, faz-se um agendamento da primeira entrevista, pois é bom que se diga: há duas. En...

AS FOCAS AMESTRADAS DE NABOKOV (por Ademir Demarchi)

O enredo de "Gargalhada na Escuridão", romance de Nabokov, é descrito por ele mesmo, já de cara nos dois primeiros parágrafos, com uma banalidade atroz: “Era uma vez um homem chamado Albinus, que vivia em Berlim, Alemanha. Era rico, respeitável, feliz. Um dia abandonou a esposa por uma amante jovem. Amava-a; não era amado – e sua vida terminou em desastre." Eis aí toda a história, e bem poderíamos abandoná-la neste ponto, se não houvesse vantagem e prazer em contá-la. Embora haja espaço mais do que suficiente numa pedra tumular para conter, encadernada em musgo, a versão resumida da vida de um homem, os pormenores são sempre bem recebidos”. Nabokov, narrador sagaz, começa então a alinhavar o enredo, se detendo com ironia num meio intelectual de artistas, escritores e músicos medíocres, oportunizado pela pretensão da amante de Albinus virar atriz de cinema. Ingênua, ignorante, ambiciosa até mesmo em querer para si a casa da esposa de Albinus, ela atinge...

A MAIS BELA MULHER (por Ademir Demarchi)

As mulheres estão escravizadas pelos ditames da cultura contemporânea, que combina narcisismo e consumo com culto à superficialidade. São condenadas a se olharem ao espelho à procura de alguém parecida, por exemplo, com os traços esguios, os belos cabelos de lisas ondulações perfeitas, o sorriso, o charme de Giseles Bündchens. O espelho não mente e não é uma outra dimensão borgiana por onde se possa entrar. Ao se olharem e encontrarem uma “outra”, mesmo que com todas as qualidades, que recusam por não ser a idealizada, ganham seu bilhete para o inferno diário das seguidas trocas de roupas, estica-e-puxas, pinturas, penteados, tinturas, cremes, perfumes, e sabe-se lá mais o que andam inventando para tapar esse buraco sem fundo preenchido por coisas das quais paradoxalmente se tornaram apêndices – às quais se somam, é claro, quando há um homem por perto, seguidas perguntas de “está bom assim?” ou “fiquei bem?” O sintoma disso está presente nas ruas, no crescente e já exorb...

AS LUAS QUE SE PASSARAM (uma ficção por Ademir Demarchi)

A Lua Crescente passou e a Lua Cheia se acabou ontem à noite. Sobre muitos dos que habitam a Terra elas terão deixado seus rastros indeléveis, que não se pode apagar. Perdidos a esmo por aí, alguns ainda devem caminhar trôpegos e bêbados, sem sequer imaginar que trem os atropelou. E se há dúvida sobre isso, há para ver o episódio “O mal da Lua”, que está no filme Kaos, dos Irmãos Taviani, que acabaram de ganhar em Berlim um Urso de Ouro pelo já esperado filme César deve morrer. Eles adaptaram contos de Luigi Pirandello em Kaos, em cujo livro diz: “Ao virar-se para correr até a casa, Sidora percebeu, aterrorizada, a Lua Cheia, abrasada, violácea, enorme, recém-saída das lívidas alturas da Crocca”. Pois essa Lua temível que se vê fulgurante no filme é ainda mais poderosa quando está em seus tons avermelhados e com cornos e os espalha sobre os humanos, graças aos desnorteios físicos e psicológicos que provoca. Sob seus efeitos, quem recebe seus eflúvios perde as estribeira...

ALEGORIAS DO INTENSO RUMOR QUE SE OUVE (por Ademir Demarchi)

O vozerio está intenso, as notícias chegam mudando o sentido das coisas a cada hora, de tal modo que o que se entendia como uma realidade aceitável e possível na semana passada, hoje, visão envelhecida, deixou de valer totalmente ou sofreu uma mudança importante que altera o modo como podemos ver as coisas. Lendo os jornais constatamos que estamos no olho do furacão que está em todos os lugares, e isso vale para aqui, ali, lá e para o Planeta. Trata-se, verdadeiramente, sugere a mídia, de um furacão multifacetado e ambíguo, uma medusa andrógina e colorida de víboras ciclópicas e brilhantes que coloca a todos no limite da angústia e da opressão, a um passo de uma crise de nervosa e estresse. Daí talvez o pendor de muitos de buscar nas religiões das prateleiras de credos um conforto estofado e colorido como um sofá das casas Bahia. Todos odeiam apaixonadamente e amam odiosamente a ponto de alguém já ter constatado que todo esse ódio gerará muitos cânceres prolíficos, cujo tratamen...

DESCASAMENTOS (por Ademir Demarchi)

Sempre se fala que o brasileiro é o mais festeiro do mundo, apesar de ultimamente o mal humor estar causando a diminuição das festas. Que é festeiro, todos sabem, basta lembrar da imensa folia do carnaval, as festas coloridas das copas do mundo e uma infinidade de outras pelo país. Mas há um tipo de festa em que o brasileiro anda imbatível: as de casamento. Nesse quesito, os brasileiros arrombam, adoram um espetáculo e gastam os tubos nele. E a coisa cresceu tanto que as festas aspiram ser um grande espetáculo da Broadway ou uma apoteose do carnaval. Tem cenário, roteiro e uma equipe de técnicos e produtores que não para de crescer. Há casal que improvisa entrando nos cenários de motocicleta, arriscando cheirar a óleo, ou até de cavalo alazão branco, arriscando uma bela defecada verde vegetariana, mas ainda assim de cheiro questionável e bem no meio do salão. E há quem precise de técnico para encontrar helicóptero, avião, paraquedas, disco voador... Estes dias vi cenas de ...