PERGUNTAS INÚTEIS E SEM RESPOSTA (por Ademir Demaarchi)
Por
que um recém-nascido, quando abre os olhos, não se assusta com o que vê, com
pessoas que nunca viu, com coisas espantosas vistas pela primeira vez, muitas
das quais nem ele mesmo tem, como bocas cheias de dentes, risos e palavras,
olhos, narizes, em seres que lhe deveriam parecer estranhos?
Por
que o tempo muda e tudo se altera quando um trem passa?
Por
que uma mulher está feliz num dia e completamente infeliz e desesperada no
outro?
Por
que de manhã ela sorri e à noite chora como se passasse de uma dimensão a outra
do espaço em que tudo se inverte?
Por
que ninguém para a olhar as árvores se movendo vivas, dançando a música
silenciosa do vento que as balança?
Por
que um homem se deita na calçada tal como todos os outros homens em suas camas
e acorda no dia seguinte para repetir seus passos até novamente à noite ir
dormir na calçada e se entregar aos mesmos sonhos de todos os outros?
Por
que nas obras de arte as pessoas parecem estar sonhando?
Seríamos
todos estúpidos por não nos assustarmos com o que se forma quando fechamos os
olhos, assim como com tudo o que se insurge à frente quando os abrimos?
Por
que você está fazendo isso?
Não
teria afinal o capitalismo incorporado o comunismo em seu sistema, de modo que
hoje todos comem e compram as mesmas coisas e viajam para os mesmos lugares?
Seriam
estas perguntas completamente inúteis a ponto de se tornarem poesia?
Se o
homem enfim conquistar outro planeta, a Terra se tornará uma colônia?
Você
é livre? Por quê?
Por
que todas essas pessoas na rua andando de um lado para o outro parecem ir para
algum lugar e por que parece ser normal isso?
Como
se completa um estado de ser algo? Não se vai à igreja para se tornar
completamente fiel? Não se vai ao hospital para se tornar completamente doente?
Não se vai ao cemitério para se tornar completamente morto?
Por
que os quero-queros estão sempre irritados? E os bem-te-vis, por que todas as
manhãs aprontam confusão?
E
aquele homem, por que aprisiona um gavião e uma arara?
Por
que crianças fazem perguntas esquisitas e adultos não fazem perguntas?
Por
que domingo deu praia?
Por
que hoje o céu está nublado?
Por
que quando chove cai granizo e quando venta caem árvores, destelham casas?
Por
que a vida afetiva se manifesta nos objetos?
Por
que prazer e sofrimento estão no mesmo pacote?
Por
que diante de um semáforo nos encontramos com a eternidade?
Por
que um animal come outro animal?
Por
que você ainda está lendo este texto?
Chove
hoje?
Quem
garante que o céu que nos protege não cairá sobre nossas cabeças?
Por
que tanta beleza no mundo e tão poucos olhos para desfrutá-la?
De
que lado deve ser visto o óbvio?
Por
que a luz foge à velocidade da luz?
Por
quê?
Por
quê?
[publicado originalmente em 13/11/2008]
Ademir
Demarchi é santista de Maringá, no Paraná,
onde
nasceu em 7 de Abril de 1960.
Além
de poeta, cronista e tradutor,
é
editor da prestigiada revista BABEL.
Possui
diversos livros publicados.
Seus
poemas estão reunidos em "Pirão de Sereia"
e
suas crônicas em "Siri Na Lata",
ambos publicados pela Realejo Livros e Edições.




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