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CAFÉ E BOM DIA #22 (por Carlos Eduardo Brizolinha)


Dia lindo, dias perfeitos. 

Desocupadamente, entre um e outro bate papo abro, leio um texto curto de Bukowski intitulado "Notas de um Candidato a Suicídio"

(Charles Bukowski claro que não tem explicação para quem tem bom gosto e quem não tem)

"O que pra um homem é água, pra outro é fogo. Não consigo atinar com o motivo da popularidade de Faulkner, dos jogos de beisebol, Bob Hope, Henry Miller, Shakespeare, Ibsen, as peças de Tchekov. G. B. Shaw me faz bocejar do princípio ao fim. Tolstói, idem, Guerra e Paz, pra mim, é o maior fracasso desde O Capote, de Gogol. De Mailer, já falei. Bob Dylan me dá impressão de canastronice, ao passo que Donovan parece ter classe mesmo. Simplesmente não dá pra entender. boxe, futebol profissional, basquete, são coisas que têm dinamismo. O Hemingway do início era bom. Dos foi um garoto danado. Sherwood Anderson, de cabo a rabo. O Saroyan do início. Tênis e ópera, podem ficar pra vocês. Carros novos, quero que vão pro inferno. Calcinha de nylon, argh. anéis, relógios, argh. Gorky bem no início. D. H. Lawrence é legal. Celine, sem dúvida alguma. Ovos mexidos, porra. Artaud, quando fica inflamado. Ginsberg, às vezes. Luta-livre - o quê??? Jeffers, lógico. E assim por diante, vocês sabem. quem tem razão? Eu, claro. mas evidentemente que tenho."

(do livro "Fabulário Geral do Delírio Cotidiano - Ereções, Ejaculações, Exibicionismos Parte II", Charles Bukowski, Editora L&PM).


Há alguma coisa na terra de que não se pode duvidar além da morte, a única certeza deste mundo? Duvidar e continuar vivendo – eis um paradoxo, embora não um paradoxo trágico, desde que a dúvida é menos intensa, menos consumptiva do que o desespero. A dúvida abstrata, da qual se participa de maneira parcial, é mais freqüente, enquanto do desespero se participa total e organicamente. Nem mesmo as formas mais orgânicas e sérias da dúvida atingem a intensidade do desespero. Comparado ao desespero, o ceticismo se caracteriza por um certo volume de diletantismo e de superficialidade. Posso duvidar de tudo, posso sorrir com desdém para o mundo, mas isso não me impedirá de comer, de dormir pacificamente ou de me casar. No desespero, cujas profundidades só podemos sondar experimentando-o, tais ações são possíveis apenas com um grande esforço. Assim, um homem genuinamente desesperado não pode esquecer a sua própria tragédia: sua consciência preserva a atualidade dolorosa de seu tormento subjetivo. A dúvida é ansiedade quanto a problemas e coisas e tem suas origens na natureza insolúvel de todas as grandes questões. Se tais questões pudessem ser resolvidas, os céticos reverteriam para estados mais normais. A condição do desesperado, a esse respeito, é totalmente diferente: se todos os problemas se resolvessem, ele não se tornaria menos ansioso, já que sua ansiedade emerge de sua própria existência subjetiva. O desespero é o estado no qual a ansiedade e a inquietude são imanentes à existência. Ninguém, no desespero, sofre com “problemas”, mas com o seu próprio tormento e fogo interior. É uma lástima que nada possa ser resolvido neste mundo. No entanto, nunca houve, nem nunca haverá, alguém que se suicidasse por essa razão. E o mesmo vale para o poder que a ansiedade intelectual exerce sobre a ansiedade total de nosso ser! É por isso que prefiro a vida dramática, consumida por fogos íntimos e torturada pelo destino, à vida intelectual, enleada em abstrações que não engajam a essência de nossa subjetividade. Desprezo no pensamento abstrato a ausência de riscos, de loucura, de paixão. Quão fértil e vivo é o pensamento passional! O lirismo o alimenta como sangue bombeado para um coração! É interessante observar o processo dramático pelo qual os homens, originalmente preocupados com problemas abstratos e impessoais, tão objetivos a ponto de se esquecerem de si mesmos, passam a refletir sobre sua própria subjetividade e sobre questões existenciais, quando experimentam a doença e o sofrimento. Os homens ativos e objetivos não dispõem de suficientes recursos interiores para fazer do seu próprio destino um problema interessante. É necessário descer por todos os círculos de um inferno íntimo para converter o destino de alguém num problema subjetivo e também universal. Se não fores reduzido a cinzas, então serás capaz de filosofar liricamente. Somente quando não te dignas sequer de desprezar este mundo de problemas insolúveis alcançarás uma forma superior de existência pessoal. E isso acontecerá não porque tens qualquer valor especial ou qualquer excelência, mas porque nada te interessa para além de tua própria agonia pessoal.

E. M. CIORAN ME FAZ VER AS PESSOAS COMO LIVRO E APRECIAR AS IMAGENS DO CINEMA.

BOM DIA E CAFÉ NA MESA


Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta
é poeta e proprietário
da banca de livros usados
mais charmosa da cidade de Santos,
situada na Rua Bahia sem número,
quase esquina com Mal. Deodoro,
ao lado do EMPÓRIO SAÚDE HOMEOFÓRMULA,
onde bebe vários cafés orgânicos por dia,
e da loja de equipamentos de áudio ORLANDO,
do amigo Orlando Valência.


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