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OMEDETO ONAKA (uma crônica publicitária de Carlão Bittencourt)



“A geladeira aqui de casa é Brastemp,
mas manda a honestidade reconhecer
que também não é nenhuma Brastemp”
João Ubaldo Ribeiro


Agência, urgência. Quem trabalha em propaganda conhece o conceito. Quem quer entrar no meio, prepare-se. Prazo é coisa rara. Tudo é pra ontem. E a Criação que se vire, trabalhando em horas de almoço, virando noites, fins de semana. Não importa. O job não pode atrasar. Custe o que custar. Ou a quem custar. Quase sempre sobra para a dupla de criação. Posto isso, vamos à nossa história.

Em 1985, eu trabalhava na Publitec, agência que tinha na Pirelli a sua maior conta. Ou seja, lá quem dava as cartas era esse cliente. Mandava e desmandava. Qualquer trabalho tinha prioridade total. Mesmo um mero classificado.

Luís Boralli, meu Diretor de Arte, e eu estávamos giboiando após o almoço, quando Silvio, o contato que atendia a conta entrou, esbaforido. Disse que teríamos que criar um anúncio URGENTE para a Pirelli, com o seguinte briefing.


De Silvio para Criação:
A/C de Carlão e Boralli

Cliente: Pirelli Pneus
Pedido de Trabalho: anúncio institucional ¼ pg jornal
Prazo: HOJE

Favor criar anúncio comemorativo ao aniversário do Revendedor Pirelli NONAKA PNEUS, que será no próximo sábado. Favor caprichar nas idéias, pois se trata de uma loja campeã de vendas.

Importante: confirmar com a Mídia as medidas, pois o jornal é o SÃO PAULO SHIMBUM, tablóide, e a colunagem deve ser diferente dos jornais Estadão e Folha de SãoPaulo.

O endereço da loja é AV. LIBERDADE, 0000 e o telefone 0000000. Em anexo, seguem os logotipos PIRELLI e NONAKA PNEUS.

Vamos VOAR com esse trabalho, por favor, que o Seu Gino* está de olho na gente.

Obrigado, Silvio.


Boralli e eu lemos o briefing e pusemos mãos à obra. A coisa foi rápida. Em menos de uma hora tínhamos 3 idéias prontas. Numa delas, o gancho criativo era o próprio nome do cliente: NONAKA. Mais japonês só Tanaka!

Mandamos os 3 roughs para o estúdio e uma hora depois, os lay-outs estavam prontos. Liguei para o Silvio, que chegou à minha sala antes de eu por o telefone de volta no gancho.

O cara estava com pressa, doido para tirar o fió da reta. Apresentamos as idéias. Ele gostou, principalmente da que fazia link com o nome da loja: “OMEDETO NONAKA!”. Ou seja, “PARABÉNS NONAKA!” Ficou jogando confete, malonando*.

Boralli e eu sabíamos que tínhamos pulado o muro do lado mais baixo. Ou seja, cumprimos o prazo, mas não criamos nenhum Clio com os anúncios. Mas o Silvio não parava de elogiar. Estávamos nisso, quando entrou o garçom da agência. Ele viu os layouts e perguntou curioso:

"O cliente é japonês, né?"

Silvio ia dizer que sim, mas olhou para mim com cara de quem pede, desesperadamente, uma confirmação. Eu disse:

"Porra, a loja se chama NONAKA, fica na Av. Liberdade e o anúncio é pro jornal São Paulo Shimbum. Só pode ser japonês!!!"

Silvio, tremendo de pavor, falou:

"E se não for??? O Seu Gino mata a gente!!!"

Aquela demonstração cabal de cagaço me tirou do sério. Peguei o telefone e pedi à secretária ligar para a loja. Do outro lado, atendeu uma voz inconfundível:

"Arô, Nonaka Pneus!"

Já mais relaxado, perguntei, pensando falar com o próprio:"Seu Nonaka?"

O oriental:

"Non, Nonaka é nome de loja, hi!?! Dono chama Norberto!?!"

Eu, mais espontâneo, impossível:

"Caraca! Pelo nome eu pensei que ele fosse japonês!"

E a voz, rindo:

"Non, dono é brasileiro, hi? Nome é homenage pra família...Norberto, Nair e Kátia... Pai, mãe e filha: NO-NA-KA!!!"

Desliguei o telefone. Coloquei o layout na gaveta e tive um dos maiores ataques de riso da minha vida.


Carlão Bittencourt
é redator publicitário
e cronista.
É autor de
"Pela Sete - Breves Histórias do Pano Verde"
(2003, Editora Codex),
um mergulho no universo
dos salões de bilhar de São Paulo
e escreve todas as quartas
em LEVA UM CASAQUINHO.


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