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Showing posts with the label Marcus Vinícus Batista

CANCELANDO O SERVIÇO (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)

texto publicado originalmente no Juicy Santos em 12 de maio de 2016 Qualquer consumidor já enfrentou a maratona para cancelamento de serviços no Brasil. Ligações telefônicas que caem por mistério, mensagens gravadas que parecem dispostas a desabafar, números de protocolo mais longos do que o código de barras das contas dos mesmos serviços. O exercício de paciência, muitas vezes, resulta em queixas, palavrões ou a vontade de brigar no Procon. Quatro pessoas me ensinaram como cancelar o serviço de Internet, telefonia, plano de saúde e TV a cabo pelo telefone sem aborrecimentos. A receita traz como ingredientes a mistura de ficção com criatividade. Do outro lado da linha, o carrasco perde o poder e vira vítima porque sair do script significa que o único jeito de se livrar do consumo é cancelar o serviço. Até porque o atendente sobrevive se evitar outro problema. A receita traz como ingredientes a mistura de ficção com criatividade. Do outro lado da linha, o carrasco ...

O CINEMA É UMA ILHA! (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)

Sempre fugi de estreias. Nunca me incomodei ou me senti pressionado pelas rodas de conversa. Tenho a nítida impressão de que a aglomeração de pessoas diante da sala de cinema no primeiro dia sintetiza um sintoma patológico coletivo. As salas soam como um laboratório improvisado do comportamento humano. As salas cheias reproduzem nossos excessos. Comida em baldes que poderiam lavar garagens, incapacidade de apreciação do silêncio, neurose de corpos que indicam a chance de diagnóstico de hiperatividade, entre outros sinais que reforçam nosso individualismo. Ir ao cinema é o prazer da convivência com o outro. Do compartilhamento de emoções diante da mesma obra. Mas, nos últimos anos, descobri o prazer do anti-cinema. O anti-cinema é ver um filme sozinho, numa sala completamente vazia. É como afrontar os donos de salas padronizadas, que definem a programação de olho nos cifrões. Estar sozinho na sala os obriga a atender o lobo solitário como um cliente vip, sem que o ser...

A SONECA (uma crônica de Marcus Vinicius Batista)

ilustração: La Siesta (Pablo Picasso) Se você resolveu ler este texto depois do almoço, um aviso: você poderá perder aquela necessidade incontrolável da soneca de 20 minutos, meia hora. Seus olhos não ficarão pesados. Seus pensamentos não voarão longe. Suas roupas não estarão pesadas, desconfortáveis. Nem adianta tirar os sapatos e esconder os pés debaixo da mesa. Prossiga! O objetivo é que você se mantenha aceso o suficiente para alcançar o final da leitura. Assim, seu chefe continuará te considerando um ser produtivo e eficiente. Na tradução: escravo das metas estabelecidas por ele, que finge quando diz que a iniciativa foi sua. O assunto é exatamente o sono. Dormir depois do almoço deveria ser obrigatório por lei. Com direito a indenizações por danos morais e materiais a serem pagas pelos empregadores que não concederem o benefício a seus empregados. As grandes cidades (e as grandes empresas) deveriam rever seus conceitos de qualidade de vida e se espelhar no modo d...

CARTA AOS MACHOS (um manifesto de Marcus Vinicius Batista)

publicado originalment e em 8 de março de 2014 Aos deuses da virilidade, 8 de março não é Dia Internacional da Mulher. Finjam que desconhecem a data e não tentem encenar em um dia o que são incapazes de praticar no resto do ano. Como primeiro passo, é melhor assumir que vocês não acreditam nos discursos desgastados de morte do sexo frágil, de sensibilidade para a vida, de igualdade no mercado de trabalho, entre outros clichês que se reproduzem nesta época. Compreendam, no cotidiano, que uma mulher – quando conversa com vocês – talvez deseje somente isso: conversar. Quem sabe construir uma amizade ou um bom relacionamento no ambiente de trabalho, na universidade, na vizinhança? Uma mulher, quando inicia um diálogo, não está pensando necessariamente em sexo ou em flertar com vocês. Neste sentido, entendam também que, quando uma mulher se veste de maneira mais sensual ou com roupas mais curtas, ela não é uma vadia. As roupas mais curtas, seja uma minissaia, seja um decote...

O FILÓSOFO (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)

O atraso em plena manhã de sábado refletia a cara de poucos amigos. Meu único pensamento consistia em se queixar do táxi que não aparecia. Do outro lado da rua, Cadu gritava até quase se engasgar: — Jornalista! Professor! Ele havia me visto e provavelmente puxaria conversa. Desconhece meu nome, fato irrelevante diante da chance de mais um diálogo filosófico. Ou melhor, um monólogo repleto de questionamentos. — Professor, por que a política não dá futuro? Entrando no táxi, ouvi novamente frases que provocariam reflexão pelo resto do dia: — Professor, peça para os alunos argumentarem. Peça para que eles expliquem os porquês. Cadu não fez faculdade. Alguns vizinhos garantem que ele foi oficial da Marinha. Hoje, não exerce profissão alguma atualmente. Vive de pensão do INSS por invalidez. Ele é o que a sociedade de hoje considera doente mental. Para a vizinhança, mais um maluco beleza, daqueles que provocam risadas, mais um chato a ser evitado. O que diz em alto volume, no meio da ...

ECOS DA BOA E VELHA INGLATERRA NA DÉCIMA EDIÇÃO DA REVISTA GUAIAÓ

por Chico Marques Todo editor que se aventure num projeto de revista -- ainda mais uma revista sem subvenção de espécie alguma -- sabe que a chance do projeto morrer de asfixia no terceiro número é altíssima. Mas sabe também que, se conseguir sobreviver ao terceiro número, as chances do projeto perdurar indefinidamente são enormes. A Revista Guaiaó, editada pelo fotógrafo Marcus Piffer, parece estar vivendo esse momento. Chegou bravamente em 2012, reuniu um grupo fixo de colaboradores em torno de edições temáticas e, com isso, disse rapidamente a que veio, afirmando-se como uma revista com a cara de Santos e ostentando um requinte visual que nenhuma outra revista santista jamais sonhou ter. O tema da nova edição da revista -- que tem lançamento programado para este sábado, às 18 horas, no Baxter's Bar do Clube dos Ingleses -- é  "Ecos Britânicos". A idéia é investigar os rastros e influências que a presença inglesa deixou na região, principalmente n...