COPA 2026: É CRISE DE ABSTINÊNCIA QUE CHAMAM, NÉ? (por José Guilherme Vereza)
É como
um livro que você vai ralentando, sorvendo as últimas páginas, letra a letra,
palavra a palavra, situações a situações, personagens a personagens, empurrando
o desfecho com a barriga, querendo que ele não acabe nunca.
Ou
aquela série encantada que anuncia o último episódio no cantinho da tela e pega
você de jeito, com o prêmio de consolação do prenúncio de uma próxima
temporada, que geralmente não é a mesma coisa.
Ou o
último pedacinho daquele sorvete que só restou um tiquinho de casquinha e você
quer porque quer que ele se eternize nos dedos melados para não perder o que
resta de um prazer fugaz, quando lamber o fim é um ato de resistência à
realidade.
Assim
como acabou-se o que era doce, já antecipo o fim da Copa com a tristeza de que
só faltam três jogos e o conforto que serão jogos espetaculares com artistas
que sobraram num funil, talvez o mais rico dos funis das últimas Copas.
Não
vou relatar os momentos sublimes e seus protagonistas que essa Copa ofereceu,
senão vou chorar pelo picolé saboroso que foi se esvaindo aos pouquinhos e que
nessa reta final o palito apressa-se em se mostrar.
Sempre
lidei muito mal com fins. A volta de um fim de semana em Petrópolis era muito
mais a saudade do dia da chegada do que a esperança de que Petrópolis seria
sempre a possibilidade de Petrópolis de novo. Não tinha jeito.
A
crise de abstinência era soberana e é exatamente ela que antevejo ao amanhecer
de 20 de julho, seguinte a uma grande final entre duas das melhores seleções e
que seus artistas enfeitiçados honrem minhas expectativas.
Gostei
dessa Copa, mais do que da seleção brasileira, e já estou sentindo falta das
madrugadas enroscado nas almofadas no sofá. Apesar dos desacertos, arbítrios,
maldades e absurdos provocados pelo maior país sede e seu pretenso imperador
horrível, as quatro linhas se salvaram. E como!
Que
venha o dia seguinte da final. Fazer o quê? Já separei séries para ver, lista
de filmes, livros para ler, novas ideias para escrever.
(publicado originalmente em CRÔNICAS DA COPA)
José Guilherme Vereza é publicitário, redator, diretor de criação, escritor, ficcionista, cronista, roteirista. Pós graduado em Pedagogia, acrescentou o “professor” nessa lista de coisas que gosta de fazer. E não para por aí. É pai de quatro (objetiva e subjetivamente), avô de dois, metido a cozinheiro, botafoguense típico, ama escrever. Ter sido convocado para o timaço do Crônicas da Copa é seu imodesto gol de placa.
Dizem
que a arte é profícua na dor e na saudade.
Será?
Tomara que sim.


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