A HISTÓRIA DOS EUA, SEGUNDO PAULO FRANCIS (1976 Folha de S. Paulo)
O
ESPÍRITO LIBERAL DE 1776
“Os
EUA comemoram hoje o bicentenário da Declaração de Independência. A nação que o
mundo teme, respeita, inveja, admira ou detesta evolui aos poucos, sendo ao
menos argumentável que se consolidou, no sentido moderno do termo, depois da
Guerra Civil de 1861-1865, em que a autonomia dos Estados, uma das premissas
básicas da Revolução de 1776, foi substituída pelo poder central, pelo conceito
de união indissolúvel.
Essa
guerra nos deu muitos mitos, populares até nos EUA, O mais conhecido de todos,
naturalmente, que o “Norte”, sob Abraham Lincoln, lutou para emancipar os
escravos negros. Lincoln libertou os escravos em 1863, os do Sul, mantendo
durante algum tempo a escravidão em territórios favoráveis à união.
Um
dos documentos mais sutis e profundos da história norte-americana é o discurso
de Jefferson Davis, presidente dos secessionistas, quando da “revolta”, pois
põe a nu a hipocrisia antiescravagista de Lincoln e os interesses econômicos
por trás da retórica patriótica e libertária.
A
guerra ia incerta. Era constitucional que qualquer Estado se desligasse da
união, quando bem entendesse. Estabelecido o recrutamento compulsório, em 1863,
houve motins violentos. Um, em Nova York, provocou a morte de mil pessoas.
Lincoln deu um molho liberal à luta.
Todo
país vive, em parte, de mitos, homens até morrem por mitos, e a justiça da
causa sulista e os motivos que levaram Lincoln a proclamar a emancipação não
mudam a realidade de libertação dos escravos ou sequer a qualidade da retórica
de Lincoln, que recebeu a aprovação do maior homem de letras que o país
produziu, Edmund Wilson, cuja obra Patriotic Gore [1962] é indispensável à
compreensão dos EUA.
É
interessante que os EUA e a URSS sejam os únicos países do mundo criados por
intelectuais, em vez de reis, príncipes, padres ou bons burgueses. A Carta de
Direitos (os dez primeiros artigos da Constituição) permanece um modelo de
libertarismo que sugere ideais sobre-humanos, assim como a visão de mundo
leninista, em que “Estado e Revolução” são uma promessa utópica jamais sonhada
pelos meros beletristas do gênero, de More a Wells. Entre teoria e prática, há,
claro, abismos, mas talvez o impulso de poder e autossuficiência das duas
nações se deva, até certo ponto, às origens eminentemente intelectuais. Cessam
aí as semelhanças.”
EVOLUÇÃO
OU REVOLUÇÃO
“A
riqueza de 1776, em inspiração liberal para o resto do mundo, da Revolução
Francesa (incomparavelmente mais profunda) à busca de soberania no resto das
Américas, dispensa comentários. É preciso notar, porém, que as colônias, como
eram conhecidos os doze Estados que fundaram os EUA (Massachusetts, New
Hampshire, Rhode Island, Connecticut, Nova York, Pensilvânia, Nova Jersey,
Maryland, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia), pouco tinham
em comum com o que, hoje, entendemos por “colônias”. Se fiéis à Coroa inglesa,
se declararam logo independentes do Parlamento em Londres. Elegiam os próprios
governadores-gerais e deputados. Dispunham de uma imprensa livre.
Consideravam-se associadas e não dependentes da Inglaterra, o que já é sensível
nos documentos existentes sobre Jamestown, fundada em 1607. A mais famosa,
estabelecida entre 1630 e 1642, na Nova Inglaterra, trouxe ao Novo Mundo os
chamados puritanos, que viam na terra uma nova Canaã, superior moralmente à
“dissoluta” matriz.
Um
dos grandes controversistas americanos, Gore Vidal, numa alusão à “caça às
feiticeiras” – que permeia a história dos EUA -, nota, ironicamente, que, ao
contrário da lenda, os puritanos não foram perseguidos na Inglaterra.
Deixaram-na porque a Coroa não permitia que perseguissem o próximo.
E,
tão importante, o cerne étnico da colonização jamais possuía a pureza
anglo-saxônica, que virou também mito. Os EUA receberam, de início, uma
população cosmopolita, holandeses, alemães, anglo-irlandeses (protestantes),
franceses (huguenotes), escoceses, suíços, judeus, escandinavos e os esquecidos
e subjugados negros. Essa mistura de povos e raças e as dificuldades tremendas
que os colonizadores encontraram, tendo de resolvê-las por si próprios, criaram
uma consciência especificamente americana.
Não
é, portanto, correto pensar que em 1750, quando as divergências entre Londres e
colônias começaram a explodir, homens de gênio como George Washington, Thomas
Jefferson, George Mason, Alexander Hamilton e Benjamin Franklin desceram, de
súbito, das árvores, armados da filosofia liberal de John Locke e da concepção
de Estado de Montesquieu. Seis das maiores universidades do pais, Harvard,
Yale, King’s College (Columbia), Princeton, Brown e Dartmouth, são
pré-revolucionárias e educaram uma sofisticada classe dirigente “nativa”. No
período, publicavam-se mil títulos ao ano, produção que, até hoje, faz inveja a
muita nação subdesenvolvida.
Esquecido
também é que, durante o século XVII até 1763, a França disputou o controle do
continente norte-americano, deixando profundas marcas na cultura nacional, até
que foi derrotada no Canadá. Nova Orleans, Detroit e Mobile (Alabama) foram
colonizações francesas e, mais importante, pela fertilidade, o vale do Ohio. Os
colonos sentiram a própria força numa série de combates ferozes, contra
franceses aliados aos índios, e partilhavam o comando das tropas com generais
ingleses. Beneficiaram-se também da introversão da Inglaterra, de 1640 ao fim
do século, um período altamente revolucionário, a era de Cromwell.
Logo,
o 1776 foi mais evolução do que revolução. Significativamente, quando a
Inglaterra decidiu tratar os colonos como tais, pela primeira vez, taxando-os e
tentando confinar-lhes e controlar-lhes o comércio, é que eles se rebelaram.”
CARTA
DE DIREITOS
“A
Constituição dos vitoriosos, ratificada pelo nono Estado (New Hampshire: nove
era o número necessário para que valesse) em 1788, entrou em vigor em 1789.
Continha sete artigos. Foi se expandindo ao correr do tempo, estando longe de
ser, portanto, o “documento de uma sociedade agrária”, como a apelidou
desdenhosamente Richard Nixon. Basta dizer que a Carta de Direitos só recebeu a
ratificação de Massachusetts, Geórgia e Connecticut em 1939, às vésperas da
Segunda Guerra.
Por
trás do liberalismo abrangente havia duas concepções de Estado em conflito. A
de Jefferson, que previa uma “livre associação de Estados”, em que cada homem
(branco) fosse senhor de sua terra, cultivando-a em paz e liberdade. E a de
Alexander Hamilton, que propunha um sistema federal centralizado, em suma, os
EUA de hoje. Jefferson derrotou Hamilton nas polêmicas da época, da mesma forma
que Rosa Luxemburgo bateu Eduard Bernstein no debate entre revolução e
reformismo, na Alemanha de 1900. Em outras palavras, o derrotado em teoria
estabeleceu a prática. Jefferson, ao assumir a Presidência em 1801, já era
hamiltoniano e, no mesmo ano, a incipiente Marinha norte-americana procurava
negócios nas costas da África, sob o pretexto de perseguir piratas. Começara a
expansão nacional e imperial.”
O
SÉCULO DECISIVO
“Em
cem anos, até 1900, os EUA passaram de uma próspera colônia à maior potência
industrial do mundo. A partir da compra da Louisiana (da França), em 1805, não
importa qual a fraseologia empregada ou o invólucro autoexculpatório, seja
“Doutrina Monroe” (1823) ou “Destino Manifesto” (de criar uma sociedade
superior às demais; a concepção original e teocrática, de 1630, traduziu-se sem
dificuldade ao mundo material…), o país se tornou imperial. Em 1848, anexou mil
milhas quadradas do México (Utah, Nevada, Califórnia, Arizona, Colorado
Ocidental e Novo México), pagando uma soma ridícula, 15 milhões de dólares. Em
1898, na guerra contra a Espanha, se apossou de Cuba, Porto Rico e estendeu-se
às Filipinas, iniciando o avanço mundial, cujo primeiro fruto foi o controle da
América Central e uma influência decisiva em toda a América Latina (já
reservada aos EUA na linguagem ambígua da Doutrina Monroe).
Internamente, a consolidação nacional também se processou a ferro e fogo, em guerras de genocídio contra os índios, no uso cruel do trabalho escravo negro e na exploração de mão de obra barata dos imigrantes europeus. É significativo, em relação ao mito da origem étnica anglo-saxônica, que, de uma população de 225 milhões, em 1976, apenas 30 milhões se declarem descendentes dos ingleses.”
O
AVANÇO DA DEMOCRACIA
“As
mulheres só obtiveram o voto em 1920, e os negros foram excluídos oficialmente
do processo político até a guerra civil e “informalmente” até a década de 1960.
E vale notar que o conceito jeffersoniano de democracia, apesar das beatitudes
filosóficas libertárias e de muito palavrório sobre os direitos do homem
“comum”, era, em verdade, aristocrático, dando o voto em relação à propriedade
do eleitor, excluindo, portanto, a maioria do povo. A reforma começou em 1830,
sob o presidente Andrew Jackson, grande massacrador de índios, porém, em
revolta contra a supremacia das grandes famílias, das quais a mais famosa é a
dinastia de John Quincy Adams (ora glamourizada numa asnática série de
televisão). Jackson abriu as porteiras à ralé, “terminando o nosso mundo”,
observou o poeta e elitista americano T. S. Eliot.
A
famosa frase de Jefferson na declaração de independência sobre os direitos do
ser humano, “vida, liberdade e procura da liberdade”, era, no original, “vida,
liberdade e propriedade”. Jefferson mudou-a aconselhado por George Mason, o
inspirador da Carta de Direitos; “Felicidade” é um conceito vago numa nação que
sente os próprios músculos e os flexiona em todas as direções possíveis,
derrubando obstáculos. Os mais fracos pereceram, como os índios (quatrocentos
tratados entre brancos e índios. Todos, sem exceção, rompidos unilateralmente
pelos brancos), ou foram submetidos a humilhações indizíveis, como os negros.
O
século XIX, porém, foi a era de ouro do capitalismo liberal e nenhuma potência
importante se desenvolveu de maneira muito diferente. Vale dizer que um dos
admiradores das “cirurgias radicais” da elite branca dominante contra índios,
mexicanos e negros era Karl Marx, sempre favorável a que o capitalismo se
expandisse aos limites possíveis, antes do advento do socialismo.
E
seria ignorância supor que não houve resistência interna, intelectual,
humanista, contra as violências peculiares à época. Escritores como Mark Twain,
Waldo Emerson e Henry Thoreau castigaram verbalmente o imperialismo e a
crueldade do sistema na acumulação de riquezas. Harriet Beecher Stowe, em A
cabana do Pai Tomás [1852], levantou a consciência abolicionista da nação e do
mundo.
O
ideal democrático, nos tumultos do século XIX, sempre coexistiu com o
expansionismo interno e externo.
Eugene
Debs, líder socialista, obteve boa votação quando candidato à Presidência, no
início do século XX. Em 1932, o socialista Norman Thomas foi candidato, com
apoio expressivo da intelectualidade.
Ideias
radicais que transcendessem o liberalismo de 1776 nunca, porém, vingaram, e até
hoje os EUA são o único país industrializado sem um movimento esquerdista
consolidado em partidos e sindicatos operários.”
POTÊNCIA
IMPERIAL
“Se
os EUA já eram a maior nação industrial do mundo em 1960, disputando mercados
imperiais com as competidoras europeias na China, Japão e América Latina, o
centro político permanecia na Europa, particularmente o Império Britânico,
dominando 500 milhões de pessoas e uma extensão de terra que deu origem à frase
de que “o sol nunca se põe” sobre a bandeira inglesa. O capitalismo liberal
europeu, porém, se despedaçou na guerra de 1914-1918, permitindo que os EUA
“apanhassem os pedaços”, ao entrar no conflito em 1917, quando os adversários
estavam esgotados de recursos e moralmente arrasados.
O
“problema soviético” emergia somente no pós-guerra de 1945. O presidente
Woodrow Wilson, que levou os EUA à chamada Grande Guerra, é a figura dominante
do período. Propôs o internacionalismo, que, até hoje, 1976, é a política
externa do país. Wilson via um mundo à maneira norte-americana, povoado de
democracias representativas, liberto de esferas de influência (a causa das
guerras, segundo o presidente), aberto ao livre comércio, que aproximaria os
homens pelos interesses em comum.
A
imagem é bonita e não há dúvida de que foi, em parte, baseada em convicções
sinceras. A realidade, porém, era e é diferente. Já em 1919 a democracia
representativa estava longe de ser a forma de governo preferida pela maioria
das elites dirigentes do mundo. E o “livre comércio”, dada a superioridade
industrial dos EUA, significaria, na prática, a hegemonia de Washington, que,
de resto, emergiu do conflito credora de praticamente todas as nações
envolvidas. E obrigaria os velhos impérios, Inglaterra e França, a desmontar o
sistema autárquico e protecionista pelo qual mantinham as respectivas colônias.
A
visão de Wilson também não correspondia à própria realidade do continente
americano. Os EUA mantinham as mais altas tarifas protecionistas do mundo, na
época, e queriam preservar a parte da Doutrina Monroe que lhes interessava, a
não interferência europeia nas Américas, quando já haviam infringido outra
componente da doutrina, a que haviam descartado na guerra, o não envolvimento
dos EUA na Europa.
Os líderes econômicos norte-americanos, a comunidade de negócios, fizeram coro com Clemenceau e Lloyd George, rejeitando o curioso e seletivo idealismo wilsoniano. Daí o mito do “isolacionismo”, entendido como abstenção dos EUA dos assuntos mundiais, quando, em verdade, quer dizer apenas desligamento político, pois as multinacionais se expandiam em todos os continentes, querendo evitar, isto sim, acordos diplomáticos que lhes restringissem os movimentos.”
ISOLACIONISMO
“A
Depressão de 1929 foi, em grande parte, causada pelo que Wilson abominava,
esferas de influência que se traduziam em sistemas econômicos fechados,
protecionismo, a luta anárquica por matérias-primas, a falta de coordenação do
comércio mundial, a inexistência de uma comunidade mundial que gerisse
harmoniosamente os recursos da Terra em favor das potências industrializadas e
a praga corrosiva do nacionalismo.
Franklin
Roosevelt, presidente de 1933 a 1945, encaminhou os EUA à hegemonia mundial e à
reforma interna. O New Deal, o programa rooseveltiano, adotou ipsis litteris a
visão internacionalista de Wilson, ao mesmo tempo que lançou os alicerces do
Welfare State no país, criando a previdência social, o seguro contra o
desemprego, e estendeu as franquias democráticas do povo. Foi um fracasso no
sentido de que não resolveu o problema estrutural da Depressão (em 1940, os EUA
enfrentavam 15% de desemprego), minorando apenas, pelo reformismo, a miséria
social.
Em
1937, num agravamento da crise econômica, Roosevelt pronunciou o famoso
discurso “Quarentena para os agressores”, a plataforma da política
intervencionista que os EUA seguiriam a partir de 1941. Os “agressores”,
naturalmente, eram Hitler, Mussolini e Hiroíto, nacionalistas ressentidos,
derrotados direta ou indiretamente em 1918, que exigiam agora um lugar ao sol,
usando violência se necessário, num mundo devastado pela Depressão e, mais
grave, sob ameaça de uma revolução das massas no modelo do abominado
bolchevismo.
O
discurso foi mal recebido nos EUA, pois a concepção de expansionismo econômico
sem amarras políticas, o “isolacionismo”, continuava dominante. Os
acontecimentos, porém, trabalhavam a favor de Roosevelt.
A
guerra europeia de 1939, em 1941, se tornou mundial, atraindo os EUA, a URSS e
o Japão. A aliança entre EUA, URSS e Inglaterra foi um casamento de
conveniência que se desfez rapidamente na realidade da paz. Stálin queria
segurança no Leste Europeu, em suma, uma esfera de influência soviética.
Churchill pretendia, cego à ruína econômica inglesa, manter o império e o
sistema de “bloco da libra”, que obrigava colônias e domínios a negociar
exclusivamente em termos favoráveis à Inglaterra. Uma quimera que a necessidade
inglesa de obter auxílio dos EUA, quando sozinha em face da Alemanha, destruiu
rapidamente, tornando a Grã-Bretanha sócia menor de Washington, condição em que
se encontra até hoje.
A
URSS era diferente. Venceu a guerra na Europa, arcando com 70% da luta contra
Hitler, o que fica evidente nos documentos da Conferência de Ialta (fevereiro
de 1945). Estabeleceu seu sistema no Leste Europeu. O resto do mundo caiu sob
controle americano, ao menos até que ocorressem as revoluções chinesa, cubana e
vietnamita.
O
enriquecimento dos EUA na Segunda Guerra pode ser aferido pelos seguintes
dados: em 1941 o PIB do país era 96 bilhões de dólares: em 1942,122 bilhões: em
1943,149 bilhões; em 1944,160 bilhões. Hoje, é 1 trilhão e 300 bilhões,
dobrando praticamente a cada ano do pós- guerra.
Roosevelt
montou, em Dumbarton Oaks e Bretton Woods, os sistemas político (Nações Unidas)
e econômico (Banco Mundial etc.) em que se alicerçaria a hegemonia americana.
Se atas de conferência valem alguma coisa, sem falar de extensos estudos
históricos disponíveis, Roosevelt pretendia respeitar algumas aspirações
soviéticas a uma esfera de influência no Leste Europeu. Não viveu o bastante
para que saibamos, com certeza.
O
sucessor, Harry Truman (1945-1953), inseguro, temeroso de que o desmantelamento
da economia de guerra trouxesse de volta a Depressão e armado da “invencível”
bomba nuclear, então monopólio dos Estados Unidos, interpretou diferentemente o
acordo (ambíguo, é verdade) de Ialta e resolveu enfrentar a “ameaça soviética”.
Nenhum estrategista norte-americano previra que a Europa Ocidental, devastada
pelo conflito, se sentisse atraída a modelos socialistas de recuperação, o que
aconteceu entre 1943 e 1947, quando então a influência dos EUA e programas de
rearmamento (Otan) e recuperação econômica (Plano Marshall), sem falar da
Doutrina Truman, de 1947, que prometia intervir em qualquer canto do globo sob
risco de subversão, contiveram o surto revolucionário. O preço foi a divisão
permanente da Europa, oficializada em Helsinque, 1975.”
AUTOCRÍTICA
E RECUO
“Se
a hegemonia dos EUA não foi total, pós-1945, não há dúvida de que se imprimiu
na maior parte do mundo, toda aquela, de resto, que não caiu sob controle
comunista. O país prosperou de maneira estupenda, dobrando o PIB de 1950 a
1960, de 1960 a 1970, enquanto missionariamente bloqueava surtos nacionalistas
que suspeitava fossem de origem ou em proveito da “outra igreja”, com base em
Moscou.
Uma
guerra entre nações industrializadas se tornou difícil depois que a URSS
atingiu paridade nuclear com os EUA. A luta ideológica se transferiu para o
Terceiro Mundo, onde está até hoje. Não há vitoriosos. Ambos os blocos podem
apontar sucessos e fracassos.
Nos
EUA, porém, a partir da guerra no Vietnã, um intenso movimento de autocrítica
está em curso. Os horrores do conflito penetraram em todos os lares americanos
pela televisão em cores. A tenacidade dos vietnamitas, um dos povos mais pobres
da Terra, enfrentando a maior máquina militar e tecnológica da história, chocou
profundamente o povo americano. O liberalismo da sociedade permitiu que a
crítica virulenta às premissas básicas da política externa de Washington
tivesse ampla divulgação, o país rachou entre intervencionistas e não
intervencionistas, tema que sublinha a campanha eleitoral de 1976.
Se
isso não bastasse, o escândalo de Watergate, em 1972, levando à renúncia, pela
primeira vez na história, um presidente, revelou insuspeitadas vulnerabilidades
no sistema, em sua ação interna.
Essas
crises certamente diminuíram muito o sentimento anticomunista, que beirou o
patológico, entre 1949 e 1956. Isso não significa que haja simpatia pelo
comunismo. Ao contrário. O PC tem 100 mil membros nos EUA. O regime soviético é
visto como uma monstruosidade totalitária.
Há,
porém, maior tolerância pela diversidade do mundo e uma repulsa forte à tese de
que os EUA devem determinar o rumo a ser seguido pelos outros países. O
espírito liberal de 1776 se reafirmou em face dos desastres na Indochina e de
Watergate.
A
própria elite dirigente parece ter reconhecido os limites do seu poder. Esse é
um dos significados da política de détente, “negociar em vez de confrontar”, só
não aceita, e de boca, por um dos candidatos à Presidência de 1976, Ronald
Reagan.
O
quadro mundial mudou completamente. Hoje, os EUA e as demais nações
capitalistas industrializadas enfrentam uma rebelião, anárquica e
contraditória, porém inequívoca, do chamado Terceiro Mundo, fornecedor passivo
no século XX de matérias-primas e mercados, em troca de muito pouco. O símbolo
dessa rebelião, encabeçado por nações na maioria conservadoras, é a Opep. Os
EUA dizem-se dispostos a negociar. É provável que não exista alternativa.
O
país, porém, está mais próspero do que nunca, prevendo-se em 1976 um
crescimento real de 7% sobre um PIB de 1 trilhão e 300 bilhões de dólares,
depois de vencida a recessão de 1974- 1975. Os americanos produzem mais e
consomem mais que dois terços da humanidade. E gozam do sistema político mais
livre do mundo. Têm muito por que se autocongratularem.
Existe
consciência de problemas sociais profundos. Nenhum é insolúvel. É possível
integrar o negro, a mais alienada componente da sociedade, às benesses que já
se tornaram rotineiras para a classe média branca. Basta haver liderança. Virão
com certeza um seguro médico nacional, uma garantia de emprego a cada cidadão
apto e outros aperfeiçoamentos do Welfare State inaugurado por Franklin
Roosevelt.
A maioria do povo permanece fiel ao sistema, se bem que um número crescente de pessoas lhe nota as deficiências internas e privilégios incompatíveis com uma ordem mundial em que a justiça prevaleça. O país, porém, é jovem e nunca revelou incapacidade de aprender. E o povo, o que é mais importante, nunca permitiu que lhe roubassem o direito de pensar e agir livremente.”
Paulo Francis (Rio de Janeiro, 02-10-1930) foi um intelectual completo e um grande polemista.
Começou sua carreira como crítico de teatro e pouco a pouco foi-se transformando no articulista mais eclético e mais influente de toda a história da Imprensa Brasileira.
Trabalhou na Tribuna de Imprensa, no Correio da Manhã, no Jornal do Brasil, na Folha, no Globo, no Estadãoe também nas revistas Senhor, Status e Bravo!
Francis morreu na cidade de Nova York em 04-02-1997, há 22 anos











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