COPA 2026: ORÁCULO DAS FIGURINHAS DE UMA MARCA DE REFRIGERANTES (por Marcelo da Silva Antunes)

 

 



Tenho colecionado figurinhas promocionais que vêm no rótulo de uma garrafa de refrigerantes, usado essas figurinhas como oráculos, não bebo tanto refrigerante, então essa leitura de rótulos é esporádica, revelando sinais e deixando mistério no ar. Ainda estou iniciando nessa arte de ler figurinhas, com alguma experiência em ler rótulos de maços de cigarro, tampinhas de guaraná, borras de café e cartões telefônicos. Também já fui versado em contagem de fuscas e desafios mentais de não pisar nas linhas demarcadas no concreto da cidade.

 

A primeira figurinha que se revelou pra mim foi a de Virgil Van Dijk, da Holanda, com um sorriso no rosto, braços abaixados com uma faixa de capitão e o número 4 na camisa laranja, é o Imperador, tirado em um dia da bastante bagunça na minha casa, foi um recado para organização, disciplina e foco, era um sinal para tomar as rédeas de alguma situação.

 

Na segunda garrafa, tirada alguns dias depois, queria saber sobre meu futuro profissional, e veio Federico Valverde, com suas mãos levantadas para o céu, a carta do julgamento, um momento decisivo, uma aprovação, e foquei em terminar um projeto literário, quase acebei um livrinho que estava emperrado, segui em sua escrita no resto da semana e está muito próximo de uma publicação.

 

Para o terceiro jogo do Brasil duas garrafinhas foram abertas, Gabriel Magalhães de camiseta azul, a Papisa, representando a sabedoria que precisaríamos ter no jogo e Lautaro Martinez, camisa 22, gritando com sua camisa azul e branca, o Louco, fiquei apreensivo com o jogo, poderia acontecer muitas coisas, mas o resultado foi surpreendente, um 3×0 na Escócia sem muito esforço e um Haiti quase vencendo o Marrocos.

 

Contra o Japão não teve refrigerante no mercado. Fiquei aflito em ver esse jogo sem nenhuma dica do meu oráculo, imaginando o que poderia ter saído no rótulo nesse dia, o jogo mais emocionante do Brasil.

 

No jogo contra a Noruega, garanti duas garrafas e a dupla Lautaro (Louco) e Federico Valverde (julgamento) vieram para me alertar sobre nosso fim, bastava saber como seria, qual recomeço seria, avançar e mudar ou cair e mudar. Deu no que deu. Uma eliminação vexatória com requintes de crueldade. Só restou para a seleção um grande começar do zero.

 

Quem sabe todas essas cartas não estavam me alertando para o inevitável: Beber refrigerantes faz mal a saúde.



(publicado originalmente em https://cronicasdacopa.com.br/)


Marcelo da Silva Antunes nasceu em São Paulo. É editor do selo literário Borboleta Azul e da Revista Agagê80 (Brasil/Portugal) agitador cultural e orientador de escrita criativa. Tem textos publicados em diversas revistas no Brasil e no Peru (Universidade Nacional Maior de São Marcos). Publicou diversos livros entre eles, VIVAVACA -2017, SP: Sem Patuá (editora Patuá) - 2018, Outros Cortes (Selo Borboleta Azul) -2019, Manifesto da hora que o couro come (Selo Borboleta Azul) -2020 e Tragédias (Selo Borboleta Azul) – 2022.




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