Tenho
colecionado figurinhas promocionais que vêm no rótulo de uma garrafa de
refrigerantes, usado essas figurinhas como oráculos, não bebo tanto
refrigerante, então essa leitura de rótulos é esporádica, revelando sinais e
deixando mistério no ar. Ainda estou iniciando nessa arte de ler figurinhas,
com alguma experiência em ler rótulos de maços de cigarro, tampinhas de
guaraná, borras de café e cartões telefônicos. Também já fui versado em
contagem de fuscas e desafios mentais de não pisar nas linhas demarcadas no
concreto da cidade.
A
primeira figurinha que se revelou pra mim foi a de Virgil Van Dijk, da Holanda,
com um sorriso no rosto, braços abaixados com uma faixa de capitão e o número 4
na camisa laranja, é o Imperador, tirado em um dia da bastante bagunça na minha
casa, foi um recado para organização, disciplina e foco, era um sinal para
tomar as rédeas de alguma situação.
Na
segunda garrafa, tirada alguns dias depois, queria saber sobre meu futuro
profissional, e veio Federico Valverde, com suas mãos levantadas para o céu, a
carta do julgamento, um momento decisivo, uma aprovação, e foquei em terminar
um projeto literário, quase acebei um livrinho que estava emperrado, segui em
sua escrita no resto da semana e está muito próximo de uma publicação.
Para
o terceiro jogo do Brasil duas garrafinhas foram abertas, Gabriel Magalhães de
camiseta azul, a Papisa, representando a sabedoria que precisaríamos ter no
jogo e Lautaro Martinez, camisa 22, gritando com sua camisa azul e branca, o
Louco, fiquei apreensivo com o jogo, poderia acontecer muitas coisas, mas o
resultado foi surpreendente, um 3×0 na Escócia sem muito esforço e um Haiti
quase vencendo o Marrocos.
Contra
o Japão não teve refrigerante no mercado. Fiquei aflito em ver esse jogo sem
nenhuma dica do meu oráculo, imaginando o que poderia ter saído no rótulo nesse
dia, o jogo mais emocionante do Brasil.
No
jogo contra a Noruega, garanti duas garrafas e a dupla Lautaro (Louco) e
Federico Valverde (julgamento) vieram para me alertar sobre nosso fim, bastava
saber como seria, qual recomeço seria, avançar e mudar ou cair e mudar. Deu no
que deu. Uma eliminação vexatória com requintes de crueldade. Só restou para a
seleção um grande começar do zero.
Quem
sabe todas essas cartas não estavam me alertando para o inevitável: Beber
refrigerantes faz mal a saúde.
(publicado originalmente em https://cronicasdacopa.com.br/)
Marcelo da Silva Antunes nasceu em São Paulo. É editor do selo literário Borboleta Azul e da Revista Agagê80 (Brasil/Portugal) agitador cultural e orientador de escrita criativa. Tem textos publicados em diversas revistas no Brasil e no Peru (Universidade Nacional Maior de São Marcos). Publicou diversos livros entre eles, VIVAVACA -2017, SP: Sem Patuá (editora Patuá) - 2018, Outros Cortes (Selo Borboleta Azul) -2019, Manifesto da hora que o couro come (Selo Borboleta Azul) -2020 e Tragédias (Selo Borboleta Azul) – 2022.



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