COPA 2026: NÃO APROVARAM MEU ROTEIRO (por José Guilherme Vereza)
Bruno
Guimarães converte um pênalti no início do primeiro tempo. Os noruegueses ficam
desarvorados, perdem ritmo de jogo e vão para o intervalo botando os bofes para
fora.
Na
volta, o Brasil segue se impondo. Vini Jr. faz um lançamento preciso para
Endrick, que, ganha do zagueiro na corrida e com um toque sutil desvia a bola
do goleiro. Brasil 2 a zero.
Os
remadores se mandam organizados em massa para o ataque e seu goleador colossal
e competente consegue em dois lances empatar o jogo. 2 a 2.
Aos
trancos e barrancos, o Brasil arma um contra ataque, o zagueiro deles se
apavora, atrasa a bola num lançamento alto para o próprio goleiro, que chega a
tocar na bola, mas a danada entra caprichosamente na gaveta. Brasil 3 a 2.
No
finalzinho, uma falta desqualificada de um norueguês gera cartão vermelho e um
pênalti. E Neymar decreta o fim da partida. Brasil 4 a 2 e o Brasil segue para
enfrentar a Inglaterra.
Bem,
este foi o roteiro criado para Brasil e Noruega. Escrevi a sinopse, botei
debaixo do braço e apresentei ao comitê dos deuses do futebol. Que não
aprovaram.
Rasgaram
meu papel, jogaram no lixo e exerceram o poder de decidir as coisas.
Lembro
da minha vida de publicitário. Tantas e tantas ideias são recusadas e lidar com
frustrações, digerir rejeições e perceber que não adianta chorar por roteiros
derramados, foram os grandes aprendizados de décadas e décadas de redator e
diretor de criação em agências de propaganda.
Não
discuto justiça ou injustiça nos vereditos dos deuses do futebol.
Mas
desconfio que tiveram razão. No meu roteiro, a eficiência adversária não foi
contemplada. Foi aprovada nos altares do futebol a ideia do melhor time, mais
focado, mais senhor de si, mais eficiente, mais decidido.
Vou
dar um tempo para idealizar jogos do Brasil. Tenho que considerar a evidência
de que não temos mais craques decisivos. Que os tempos dourados passaram. Que a
camisa amarela há tempos deixou de ser um manto respeitável de talento.
Eu
que administre minha frustração. Sem tristeza acachapante, sem apontar dedos
para culpados. Isso tem muita gente fazendo com veias saltadas, tempestades de
perdigotos, babas amargas.
Quem
saiu da Copa foi o Brasil. Eu não. Ótimos jogos virão. Os deuses do futebol
tudo sabem.
José Guilherme Vereza é publicitário, redator, diretor de criação, escritor, ficcionista, cronista, roteirista. Pós graduado em Pedagogia, acrescentou o “professor” nessa lista de coisas que gosta de fazer. E não para por aí. É pai de quatro (objetiva e subjetivamente), avô de dois, metido a cozinheiro, botafoguense típico, ama escrever. Ter sido convocado para o timaço do Crônicas da Copa é seu imodesto gol de placa.



Comments
Post a Comment