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Showing posts with the label O Seu Livreiro

A VIDA NO BALCÃO (por José Luiz Tahan)

Muitas das amizades que cultivei nasceram do atendimento como livreiro. Uma das daminhas do meu casório, funcionários foram contratados e até sociedade nasceram do papo no balcão. Outra linha de amizades são dos vizinhos de comércio, a gente sempre faz uma terapia de grupo, chora as pitangas e sonha com uma vida menos atribulada. Um desses amigos é o Ernesto, antigo dono da Confeitaria Viena. Depois de mais de cinco décadas ele pendurou as chuteiras, para azar da legião de fãs de suas receitas. Filho de Alemães, apesar do nome Viena, que vem dos pais do antigo sócio, o homem setentão, de suspensórios e bengala, se aproxima das mesas da calçada para uma prosa, bradando meu nome com sua poderosa voz de barítono. Em busca de um inquilino para a sua antiga loja ele é figura fácil nas redondezas, e volta e meia nos encontramos para um papo sobre o passado e alguns palpites pro futuro. Ontem, depois de dividir algumas ideias sobre o que pode vir a...

COUTINHO NA ÁREA (por José Luiz Tahan)

Coutinho na área Futebol é coisa séria. O mundo para quando a bola rola. Aqui na cidade de Santos, de onde escrevo estas indecisas linhas, existe um sentimento especial com respeito ao esporte bretão. Foi aqui que nasceu e de onde partiu para o planeta o esquadrão mais cultuado e vitorioso de que se tem notícia. No Rio se vê, volta e meia, um famoso ator num restaurante, ou na praia. Aqui vemos os boleiros, a maioria com seus cabelos brancos – ou sem, caso do José Macia, o Pepe, apelidado de Pouca Pena – como Coutinho, o apelido mais conhecido de Antonio Wilson Honório. Sua mãe o chamava de Cotinho, de tão miudinho, lá em Piracicaba, sua cidade natal. O menino veio para Santos, foragido, saltando a janela e o muro de sua casa, enfeitiçado pelo time que o transformaria para sempre. Abraçado no alambrado ao lado do campo, o menino de treze anos viu Pagão, Pelé e Pepe, e a partir daí sabia o que queria fazer parte daquele time, daquela vida que se mostrava pela primeira vez...

14 DE MARÇO, O DIA DO LIVREIRO

por José Luiz Tahan Nunca tinha lido ou ouvido que os livreiros tinham uma data comemorativa. E não é que têm? Foi ontem, no dia 14 de março. Recebi uma mensagem no Facebook, na manhã do nosso dia, enviada pelo meu amigo Matthew Shirts. Dizia mais ou menos assim: “Feliz dia do livreiro, Zé! Que você seja abraçado pelos amigos na Realejo, uma das maiores livrarias do Brasil, do mundo e de Santos!” Adorei o recado e os elogios envolvendo a grandeza de uma livraria de 50 metros quadrados em meio às redes de megastores... Coisa de amigo mesmo. Continuei olhando a minha página e surgiu mais um recado, agora de uma cliente, a Romilda, que mora em Dubai. Fui comparado por ela a um agitador cultural que sacudiu Santos nos anos de chumbo. Maurice Legeard era um cinéfilo importado da França que fez muito pela sétima arte por essas bandas. A Romilda ainda enfatizou o cumprimento com uma ilustração que fazia alusão a Dom Quixote – acho engraçado as ...

O DIA EM QUE TIVE TRÊS PAIS

por José Luiz Tahan Foi na Flip de 2005. Como de costume, acabei não programando a ida a Paraty. Aquela coisa vida de balcão, sem fim de semana, somada à cuca fresca, resultou numa viagem um tanto improvisada para mim e Ana Cristina, a moça que me atura. Mas quem tem amigos, tem tudo, já dizia a frase feita. Algumas semanas antes, eu havia recebido em Santos o jornalista Zuenir Ventura e sua esposa, a Mary. Quem leu algum dos livros do Zuenir pôde conhecer o seu saboroso estilo um jornalismo misturado à memória, que produziu o já clássico 1968 - O ano que não terminou , da editora Planeta. Mas quem, além de ler a obra, o conheceu de perto, se depara com um gentleman, uma figura rara, divertida e generosa. E lá fomos eu e Ana para a histórica Paraty, sem nenhuma entrada para nenhuma mesa, mas cheio de amigos os escritores. Depois de cumprimentar o “brimo” Milton Hatoum e também o vicentino Zé Miguel Wisnik, encontramos acidentalmente Zuenir e Mary. Foi aquel...

QUAL É O SEU SIGNO?

por José Luiz Tahan Nunca fui muito na onda da astrologia, sempre com um pé atrás com aquelas previsões que diziam sobre a fase que enfrentávamos em nossas vidas. Hoje não mudei, com um agravante, acredito um pouco menos nos livros de astrologia. Para falar mais diretamente, acredito menos nas vendas deste gênero. Acho que já se passaram mais de 20 anos, quando me lembro que os esotéricos estavam no auge, e dentro da categoria, os livros de horóscopo. Muitos deles eram sérios (uma coisa é ser descrente, outra é ridicularizar o gênero) e as pessoas também, apenas não participo do movimento. Naquele tempo os livros das editoras Cultrix e Pensamento eram o carro-chefe da turma dos astros, ajudavam a pagar aluguéis e claro que simpatizávamos com os clientes, sempre ávidos por novidades da área. O problema era o nosso total distanciamento com a crença, quando chamados a dar opiniões sobre os títulos falávamos algo como “Esta editora é muito tradicional, séria...” Fazíamos t...

A AMARGA VITÓRIA DA LIVRARIA LELLO (por José Luiz Tahan)

(publicado no EL PAÍS BRASIL 16/06/2016) O português Antonio Lopes além de meu sogro era peixeiro, e em suas viagens partia em busca do mercado municipal. Queria ver o sortimento, qualidade e atendimento, ver os pescados, sentir cada mercado, em cada cidade. Para um livreiro de rua como eu, imagine, as minhas andanças são pelas livrarias que ainda resistem nas cidades, apesar da web, dos shoppings e das lojas de departamentos e supermercados que oferecem livros às mancheias, perdão, Monteiro Lobato. Foi assim que fiz amizade com comparsas como o livreiro da Folha Seca, no Rio, ou com a Arte & Letra, em Curitiba, exemplos de resistência com elegância. Na Shakespeare & Co. percebi as pequenas ideias espalhadas pelos corredores caóticos da livraria e sebo parisiense, e realmente tem caldo histórico, apesar da cara de peixe morto da loirinha herdeira e atual mandatária da lendária livraria do entre-guerras. Mas a livraria preferida, a que visitei um p...

A FIGURINHA DO PELÉ (por José Luiz Tahan)

O controverso desfile da Grande Rio deste ano na Marquês de Sapucaí, homenageando a Cidade de Santos, me fez lembrar de uma história envolvendo Pelé e nossa modesta editora, a Realejo Edições. Mas antes de contar a história, queria convidá-los a uma breve divagação. Sempre imaginei conhecer o Pelé. Ainda mais por morar em Santos e estar acostumado a cumprimentar todo o tipo de gente bem de perto, na praia ou nas ruas. Mas, estranhamente, com o Pelé eu nunca esbarrei. Um belo dia, surgiu a oportunidade de fazer um livro sobre ele. Com a ajuda da equipe que o assessora, pude propor uma ideia editorial que foi muito bem aceita, o PELÉ 70, com várias capas diferentes, que virou um livro belíssimo. O que mais me impressionou ao conhecer o Sr. Edson Arantes do Nascimento foi a estranha sensação de que não era ele, e sim uma cópia bem parecida daquela que me acostumei a ver e ouvir por meios eletrônicos. Sua voz é mais grave e... ...não sei, era el...