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A AMARGA VITÓRIA DA LIVRARIA LELLO (por José Luiz Tahan)

(publicado no EL PAÍS BRASIL 16/06/2016)


O português Antonio Lopes além de meu sogro era peixeiro, e em suas viagens partia em busca do mercado municipal. Queria ver o sortimento, qualidade e atendimento, ver os pescados, sentir cada mercado, em cada cidade. Para um livreiro de rua como eu, imagine, as minhas andanças são pelas livrarias que ainda resistem nas cidades, apesar da web, dos shoppings e das lojas de departamentos e supermercados que oferecem livros às mancheias, perdão, Monteiro Lobato.

Foi assim que fiz amizade com comparsas como o livreiro da Folha Seca, no Rio, ou com a Arte & Letra, em Curitiba, exemplos de resistência com elegância.

Na Shakespeare & Co. percebi as pequenas ideias espalhadas pelos corredores caóticos da livraria e sebo parisiense, e realmente tem caldo histórico, apesar da cara de peixe morto da loirinha herdeira e atual mandatária da lendária livraria do entre-guerras.



Mas a livraria preferida, a que visitei um punhado de vezes, é a portuguesa Lello, no Porto. Na primeira visita tive uma estranha emoção, olhei para as prateleiras centenárias coalhada de livros novos, e a sensação de longevidade do lugar me emocionou. Fui amparado pela minha mulher, subimos as escadas vermelhas, tomei um café e depois tomei coragem, fui me apresentar ao livreiro, no caixa logo na entrada, ele de gravata.

Depois de conversarmos animadamente sobre nossas amizades com clientes e escritores, ele é amigo do Paulo Coelho, inclusive, pedi uma ou duas sugestões de autores portugueses, no que fui rapidamente atendido. Saí feliz com o lugar, com o livreiro e com o meu ofício.

Este ritual se repete ano a ano, quando da viagem de férias na terrinha. Pois neste ano fui me aproximando e vi algo diferente na porta da bela Lello. Um segurança, também de gravata, mas não o livreiro, me aguardava na entrada. Havia também aquelas faixas de organizar fila de autógrafos, mas quem daria os autógrafos era a Lello. Explico: o segurança me pediu 3 euros para que pudesse entrar no local. Eu, a Ana e os três pequenos, 15 euros, que poderiam ser resgatados caso eu comprasse alguma obra.

O que fez a Lello decidir pelo ingresso? Me lembrava do livreiro que lamentava que tirassem fotos e que muitos não adquiriam livros, simplesmente passeavam e saíam em seguida da livraria. Isso o incomodava.

Vi também que os números da livraria se agigantaram logo depois de ela, a livraria, ser cenário de um dos filmes do Harry Potter. A J. K. Rowling frequenta e ama a casa, e deu essa homenagem a eles. Bem, com tudo isso, com a beleza centenária, na verdade 110 anos em 2016, a estreia no cinema e a visita de mais de 1.500 pessoas dia antes da cobrança da entrada, o que para uns (eu) pode ser uma ótima vida, para eles era a agonia de deixar de faturar.


Hoje a Lello recebe metade das visitas, permite as fotos e tilinta o seu caixa com o dobro de vendas da era romântica. Antes eram 250 livros dia. Também aumentou o quadro de funcionários, tudo dentro da nova era dos números.

Mas aqui cabe uma observação. A livraria, ao cobrar entrada, abre mão da sua identidade e acata ser um parque temático. O cliente soberano compra por 3 euros o passaporte da alegria, e a livraria tem que servir de outra maneira. Como se resgata a entrada com qualquer compra, se compra mesmo qualquer lembrancinha, mecanicamente. Os livros portugueses perderam espaço para os livros em mandarim, japonês e inglês.

O conceito de entrada acho que se aplica melhor em museus, lugares que nos banhem com obras de arte. A Lello mesmo sendo linda, ainda é um comércio.

Uma doce derrota ou amarga vitória, vocês escolhem.

Voltando para o momento em que recebi a notícia do custo da entrada, olhei para o segurança, olhei pros meus filhos e pra Ana. Ela logo desistiu, disse que me esperava num café próximo, meus filhos me olharam de volta, e eu desisti de entrar na Lello.

Tirei uma foto e postei na web, com um desabafo. Queria reforçar a crença no ofício, como da primeira vez. Talvez este texto seja este reforço, quem sabe?

Antes de sair procurei pelo livreiro de gravata, e ele não estava. Talvez também tenha desistido.




José Luiz Tahan é livreiro e editor, 
e proprietário da Realejo Livros e Edições, 
a livraria e publishing house 
mais charmosa de Santos
e de todo o Litoral Paulista.


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