Wednesday, February 14, 2018

ESTREIA NA CIDADE UM DOS GRANDES FAVORITOS NA NOITE DO OSCAR DESTE ANO

por Ricardo Vieira Lisboa
de Lisboa para



Despojado dos acessórios que intimidam um civil e dos que pertencem ao género que os marinheiros utilizam para ganhar coragem, o Tapageuse transformava-se num animal tímido. Numa briga tinham-lhe partido o nariz com um garrafão. Um nariz direito talvez o tornasse insonso. O garrafão dera o último retoque à obra-prima. Este rapaz, que para mim representava a sorte, no torso tinha um SEM SORTE tatuado com maiúsculas azuis. Contou-me a sua história. Era curta. Aquela aborrecida tatuagem resumia-a. (…) E a seguir, com uma caneta de tinta permanente risquei a tatuagem funesta. Por baixo tracei uma estrela e um coração. Ele sorria. Mais a pele do que o resto do corpo lhe dizia que se encontrava em segurança, o nosso encontro não era como os outros a que estava habituado, encontros rápidos onde o egoísmo mata a fome.
(“O Livro Branco”, Jean Cocteau)


Naquele que é o seu mais pessoal e confessional escrito, “O Livro Branco”, Jean Cocteau elenca os vários amores que foi tendo ao longo da vida. Sucessão de encontros, cruzamentos sensíveis, momentos onde o espaço da intimidade se abre ao outro. Das poucas páginas que compõem esse livro, deixei em epígrafe uma das minhas passagens favoritas, por nela se encontrar o símbolo e o sintoma daquilo que pode ser a natureza háptica da obra do artista francês. Qualidade que o seu cinema literaliza uma e outra vez (as mãos que saem das paredes para segurar os candelabros, os dedos que investigam o espelho, as luvas que permitem atravessar para o mundo dos sonhos, a pintura que se anima do pincel ou a casa que se anima com a pintura), mas que a escrita já anunciava de forma indelével. O que é, a meu ver, marcante neste pequeno excerto é o modo como a escrita é já coisa corpórea, ou melhor, o corpo como meio da escrita. Esta tentação de riscar a tatuagem e de desenhar no corpo do amante materializa a escrita como gesto de devoção e a relação analógica com o traço (a caligrafia) como acto simultaneamente sensual e público: o corpo feito cartaz, anunciando o desejo que nele (literalmente) alguém projectou. É aqui que encontro o paralelo – se calhar demasiadamente intrincado – com “Três Anúncios Para Um Crime” (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri) de Martin McDonagh, filme onde a materialidade da escrita é mote narrativo e tema central.
A começar pelo comprimento do título que de certo modo anuncia, logo no genérico, a preponderância da palavra escrita, passando obviamente pelos cartazes propriamente ditos (nos quais se lê, em maiúsculas sem serifa, “RAPED WHILE DYING”, “AND STILL NO ARRESTS?”, e “HOW COME, CHIEF WILLOUGHBY?” – como também em maiúsculas era a tatuagem do marinheiro de Cocteau…), mas também pelos três sobrescritos entregues ao longo do filme, da mensagem que o chefe da polícia enverga no capuz ou num referido marcador de livro com uma frase motivadora. Esta materialidade da palavra escrita – não é por acaso que no filme, que não sendo de época, não se vê nunca uma imagem num ecrã (a não ser um televisor velhinho), não há um sms, um email ou qualquer outro formato de escrita em ambiente digital – vem acompanhada da materialidade da palavra falada, que se faz evidente no colorido do vocabulário sulista norte-americano.
É um colorido que se evidencia quando do contrato dos referidos cartazes publicitários: “I assume you can’t say nothing defamatory and you can’t say ‘fuck’, ‘piss’ or ‘cunt’. That right?” ao que o publicitário responde “Or ‘anus’”. A linguagem do filme é portanto recheada de palavrões que expressam, quase sempre, a mais profunda e sincera compaixão. O filho que chama a mãe de cunt, a mãe que chama à jornalista bitch, ao polícia shithead e a lista continuaria. E assim a materialidade da palavra escrita e da palavra falada desembocam em consequência físicas, isto é, em violência (a linguagem como prenúncio do acto). Não fosse este um filme do realizador das comédias negras salpicadas de violência, In Bruges (Em Bruges, 2008) e Seven Psychopaths (Sete Psicopatas, 2012).
Esta construção que encontra na palavra o gérmen da acção é própria – como seria de esperar – de um realizador que é originalmente dramaturgo. McDonagh tem origens no teatro e isso sente-se em “Três Anúncios Para Um Crime” (cujo argumento também assina), principalmente no modo como cada personagem conversa em monólogos, e cada linha de diálogo parece ser sempre aquela que podia terminar o filme. Isto dá aso a uma procissão de diatribes espirituosas sobre os mais variados temas (a violência doméstica, o racismo, o alcoolismo, a integração das pessoas com deficiência, a pedofilia no seio da igreja católica, a violência policial, etc.) que em associação com o desempenho esmerado de cada um dos excelentes actores (Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell e Peter Dinklage) dá ao filme uma estrutura episódica, de sucessivos quadros onde se exibem os dotes do texto e de quem o declama. É um estilo que David Mamet e Quentin Tarantino popularizaram no cinema mainstream americano. E se as comparações com o cinema dos manos Coen se faz pela área geográfica da acção, pela actriz protagonista e pelos contornos de violência vingativa, na verdade recordou-me muito mais o filme dentro do filme, “The Old Mill” em “State and Main” (2000) de David Mamet: o mesmo desejo de retratar, de forma mais ou menos idílica, uma certa ideia de mundo rural do interior da América e um mesmo argumentista com origem no teatro procurando preservar o seu texto.

A qualidade teatral é, portanto, simultaneamente a maior força e a maior fraqueza do filme (a juntar a uma realização a cair no anonimato). Mas é também ela que nos oferece pérolas como: “That was a real nice day. That was a real nice fuck. You got a real nice cock, Mr. Willoughby.”/”Is that from a play? ‘You got a real nice cock, Mr. Willoughby.’ I think I heard that in a Shakespeare one time.”/”You dummy. It’s Oscar Wilde.” Quando na verdade não só o escritor irlandês nunca escreveu tal coisa, como aqui se revela uma muito obscura referência ao actor e dramaturgo Guy Willoughby (que naturalmente dá o nome ao personagem do chefe da polícia local), autor de uma das mais marcantes obras sobre Oscar Wilde. Graçola que se manifesta na homossexualidade de ambos (e na homossexualidade secreta do chefe da polícia?), imaginando que afinal o académico/crítico quando escreve sobre a obra de outrem partilha com ele o lençol. De novo a materialidade da palavra escrita, de novo a projecção material do desejo. De novo um acto simultaneamente sensual e público, este de escrever sobre (acerca e em cima d)o outro.
TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME
(Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2017, 115 minutos)

Roteiro e Direção
Michael McDonagh

Elenco
Frances McDormand
Peter Dinklage
Abbie Cornish
Sam Rockwell

Cotação
em cartaz nas Redes
Roxy, Cinemark e Cinespaço

TRAILER




...E O BRASIL DESFILOU NU EM PLENA SAPUCAÍ (por Denise Marino)




Aos poucos a vida vai voltando ao normal, com uma preguiça danada.

Preguiça também da polêmica em torno do desfile da Tuiuti. Que é que tem? Foi bacana. Propuseram uma reflexão sobre as cicatrizes deixadas pela escravidão. Poderiam até ter aprofundado mais e visto como a própria preguiça e a aversão ao trabalho fazem parte da cultura brasileira e estão relacionadas ao passado escravista.

Em vez disso, questionaram a reforma trabalhista. Beleza! Colocaram o vice da Dilma vestido de vampiro. Achei engraçado. Ironizaram os manifestantes pelo impeachment? Sem problemas, direito deles. É assim nas democracias.

Que diferença! Antigamente não havia isso de democracia. No começo, quando as primeiras escolas de samba receberam o reconhecimento oficial, receberam também o “delicado” pedido de apoio à propaganda patriótica do governo. O chefe de Estado era o ditador e populista Getúlio Vargas.

E assim foi, sob censura e controle mesmo durante o curto período democrático entre o fim do governo de Getúlio e o início do governo dos militares. No governo militar então, nem se fala. As escolas eram obrigadas a enviar o samba e os croquis das fantasias para serem avaliados.

Aliás, foi nesse período que começou a ascensão da escola Beija Flor com enredos sobre a ordem e o progresso.

Lembrei da Beija Flor porque achei que, neste ano, as críticas da escola à corrupção foram ainda mais fortes e contundentes do que as da Tuiuti à reforma trabalhista. Esculhabaram do Petrolão a Sérgio Cabral.

Mas aí vem o jornalista Josias de Souza e informa que o patrono da escola, o contraventor Anísio Abrão David foi condenado a 48 anos de cadeia por corrupção. Está livre graças ao STF – que, pelo andar do carro alegórico, em breve, será enredo na Sapucaí.

E eu me lembrei também que, há 3 anos, a Beija Flor foi campeã com um enredo sobre a Guiné Equatorial, país que vive sob uma ditadura há mais de três décadas. A Guiné é rica em desigualdade e em petróleo. A Odebrecht e o Lula ganharam destaque numa história de suspeita de desvios de recursos do BNDES para financiamento de obras no país, mas não apareceram no enredo da escola de Nilópolis.

Enfim, são enredos muito complicados e que não combinam com a alegria do Carnaval. Mas eu não ficarei nem um pouco surpresa se descobrirem que a Tuiuti emprega pessoas sem carteira assinada.














Meu nome é Denise Mattos Marino,
mas fui sintetizada: Denise Marino
ou, simplesmente, Dê,
acompanhada ou não do Marino.
Sou historiadora e professora de história.
Atualmente aposentada – fui mais rápida
que a reforma. Mas ainda levo
para os meus aposentos a curiosidade,
o “só sei que nada sei”
e a vontade de ensinar.
Ah! Sou libriana.


ODE AO TEMPO (por Flávio Viegas Amoreira)



O carnaval traz um tsunami de ausência noticiosas: jornais, portais, onde encontrar referências ao que não seja folia? Na verdade, a grande maioria não curte ou freqüenta carnaval, mas fica refém das festas momísticas. Amanheço sempre lendo “The Guardian” e o “Los Angeles Times”, que é campeão óbvio em obituários substanciosos sobre lendas caídas em esquecimento. Viver muito faz impacto do desaparecimento diluir-se:  quão mais longínquo apogeu maior olvido. Fico com meus botões desbotados já a pensar quem há de lembrar por exemplo de Jane Powell, lindinha atriz de “Sete noivas para sete irmãos”? ou ainda de Julie Newmar, que também atuou nesse clássico musical e ficaria famosa como a Mulher-Gato do Batman oficial de nossa meninice? Ambas octogenárias vivíssimas e saltitantes pela alamedas de Bel Air?!



Será um hábito gay esse vintage do poeta? Talvez talvez mas não menos popular entre todos gêneros e idades, não? Pois então entre confetes e serpentinas imaginárias fico a saber da morte do onipresente cantor dos anos 50 e 60 Vic Damone... não houve clássico, hit,  cançoneta napolitana ou bossa nova que escapasse de sua voz empostada com certo veludo aos ingênuos ouvidos do pós guerra. Larguei mão alguns momentos da “Divina Comédia”, que planejei reler com método em 2018, e eis que vou ao santo YouTube, como diz nosso amigo Chico Marques, e revisito as grandes canções interpretadas por esse ídolo desaparecido  aos nossos olhos mas não aos nossos sonhos. Inevitável citar “An affair to remember”,  também famosa na voz de Nat King Cole, “The Shadow of your smile”, tão forte presença para os emotivos, e minha preferida “On the street where you live”, que recordo inserida na trilha sonora de “My Fair Lady”, com Audrey Hepburn e Rex Harrison logicamente.  Nada que não possamos ouvir atualmente com Michael Bublé e Harry Conick Jr. , mas aquela postura e inflexão só em tipos como Mel Tormé, Damone e o inexpugnável Johnny Mathis! Agnaldo Rayol seria nossa contraface parecia esses ídolos?  De modo mais brejeiro creio que sim.



O grande lance de um cronista e jornalista cultural em tempos de Wikipédia é rememorar com profundidade possível, fazer ligações e ir além da consulta seca: escrever atualmente é aprofundar o que se lê e vê na internet. Na minha cabeça convoco Ursulla Andress, Jacqueline Bisset ou Burt Reynolds para ter o que dizer sobre o que a época significou em mim e aos meus contemporâneos. Por isso pesco um astro perdido para desfiar o rosário das nossas impressões numa época onde um walkman era um luxo e os primeiros VHS um deslumbre para colecionar. Impossível fazer um inventário de emocionalidades culturais dum escritor nascido no século XX sem levar em conta o universo pop, o Olimpo do cinema e música, tudo aquilo que o chatinho Adorno desdenhava. O lance é esse mesmo de ler Proust intercalando audição de “Strangers in Paradise”, que por sinal foi extraída do erudito Rimsky-Korsakov. Gosto de gostar das coisas, erudito ou pop. Nesse contexto, para mim, Vic Damone veio antes de Tony Bennett. Beijo e feliz ano novo brasileiro nessas cinzas de chuva....









Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Vem sendo estudado como uma das vozes
da pós-modernidade literária brasileira
em universidades americanas e européias.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).



REESTRUTURAÇÃO (por Marcelo Rayel Correggiari)




“(...)Au quotidien tu dois trouver l'information et discener/
Où est le mal, où est le bien, ce qui est faux, ce qui est vrai. (...)
Quand la tête te fait mal, que tu sens un malaise en toi/
Il faut lâcher prise, décontracte-toi!/
Quand la tête te fait mal et que ça craint autour de toi/
Il faut lâcher prise, allez calme-toi! (...)”(¹)
[Massila Sound System, “Lâcher Prise”]

A vida seria constituída de uma estranha Arte de ‘erros & acertos’.
Estranha Arte, essa... tudo na base do ‘cai & levanta’, mas com pouquíssimo espaço para realmente se ter bem nítido o que porventura pôde ser aprendido tanto nos erros quanto nos acertos.
Na reestruturação de uma vida quase desperdiçada por uma sorte de ‘malaise’, é preciso se ter coragem: coragem, acima de tudo, para enfrentar o mal que nos acomete.
Coragem para enfrentar o preconceito dos círculos sociais, coragem para passar por cima do preconceito vindo da própria família, coragem para aceitar que uma determinada disfunção também está dentro de nós mesmos.
Coragem. Simplesmente, coragem... e ação, ‘s’il vous plaît’!
Nada pode ser mais temerário do que continuar aceitando (e convivendo!) com pessoas e circunstâncias que, no fundo, jamais nos colocam ‘para cima’, mas, sim, ‘para baixo’ e sequer nos apercebemos disso.
É uma trajetória longa: demora um tanto até ‘cair-se em si’. Não é má vontade, cegueira ou corpo-mole. Não! É um processo, pessoal e intransferível. E, diante dele, somente o(a) titular pode agir por mais que, do lado de fora, aconselhemos com o melhor de nossas orientações.
Enquanto isso, debate-se. Quem assiste, angustia; quem se debate, agoniza. E esse processo vai ganhando corpo dentro de sua própria marcha até o dia em que eclode.
O mais difícil numa reestruturação é o ‘deixar ir’. Quando se ‘deixa ir’ algo ou alguém que nos faz muito mal, a coisa é mais fácil. Só que nem tudo está mergulhado ‘só no bem’ ou ‘só no mal’: a difícil decisão de ‘deixar ir’, dentro desse processo (de reestruturação), pessoas que amamos.
Um sentimento pouco confortável que flerta com a saudade e, porque não dizer, com a ausência. E nada tem a força de substituição ou compensação: o que se vai faz muita falta, mas igualmente faz um tremendo mal e é preciso uma quantidade abissal de bravura para seguir em frente, sem essas pessoas, sem esses lugares, sem essa alimentação de um ‘malaise’ impossível de fazer algum bem.
Porque amamos... porque se ama.
Porque amamos, errado ou não, pessoas que tinham tudo para reluzir, admiráveis seres humanos, mas que insistem na ‘vida vazia’, em se acercar de tudo o que há de mais asqueroso, em perseguir o inatingível em nome de um ‘status’ questionável, guiados(as) por um ‘descolamento da realidade’ que ora beija o ‘malaise’, ora abraça uma ‘maladie’.
Dói. Mas há de se seguir em frente.
(¹) “(...) No cotidiano, você precisa encontrar informações e discernir/
Onde está o mal, onde está o bem, o que é falso, o que é verdade?/(...)
Quando sua cabeça te faz mal, você sente um desconforto em si mesmo/
Você deve deixar ir, relaxar!
Quando sua cabeça te faz mal e isso é uma merda em torno de você/
Você deve deixar ir, acalmar-se!(...)”


Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 48 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É avesso a hermetismos
e herméticos em geral,
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO


POR MAIS METROS QUE SE PASSEM (por Ademir Demarchi)




Já estava ficando meio sem graça, chato mesmo, receber notícia de que mais alguém caiu de cama com dengue, pois os mosquitos estavam em dias de festa. Não havia quem não tivesse levado picada... Mas isso foi até o fim de semana, pois, reunidos no cafezinho, na segundona brava, deram pela falta de um.

“Estranho, ele nunca falta, deve ter acontecido alguma coisa”.

Não demorou, chegou alguém dizendo: “foi picado”.

A risada dos cinco parou de repente: “Por uma jararaca!”

“Como?!?”

“Ele foi andar no mato?”

“Que nada, foi no asfalto, em plena cidade”.

Antes que um fanfarrão fizesse piada com mulher, quem trouxe a notícia disse que ele correu com a cobra para o pronto-socorro sucateado da cidade, que estava cambaleando pelos efeitos da última desadministração. Filas, atendimento precário, gente sofrendo. Se era assim lá, imagine-se o resto da cidade, com lixo empilhado por tudo que é canto e, agora, também cobras rebolando livremente pelas ruas, já não apenas dentro dos gabinetes.

No pronto-socorro deram uma injeção que não era de soro antiofídico e o mandaram pra casa descansar. Estava tudo muito fácil.

Em casa, olhando para os desenhos no teto manchado de umidade, pensando nas cores da cobra e com as dores aumentando e começando um sangramento nas gengivas, as coisas começaram a ficar mais difíceis. A irmã então teve a ideia de pesquisar na internet. Achou o telefone do Butantã e o médico de plantão instruiu: “Corra para o hospital tal, na cidade vizinha. Quanto tempo vocês levam?” “Uma hora.” “De jeito nenhum! Se demorar isso ele morre, vocês têm que chegar lá em meia hora! Vou ligar para os médicos ficarem na espera”.

A cidade era próxima, furaram uns sinais, correram além do limite permitido, mas diminuindo para dar bom dia aos radares, e conseguiram chegar. Nova injeção de soro certo, exames de sangue, repouso, voltou pra casa. Apareceu no trabalho dois dias depois, passou mal com as recorrentes ânsias de vômito e tonturas e teve que se afastar mais uns dias. Quando voltou, trouxe a foto da cobra, uma jararaquinha amarela, alguém logo disse que era loira...

Num verso, a poeta polonesa Wislawa Szimborska diz que “a cobra mais longa da Terra acaba ao fim de alguns metros”. Aquela jararaquinha acabava bem antes. Mas o fato é que se alongou bem mais que a maior cobra do mundo, pois se esqueceram da dengue e do mosquito e a cobra passou a povoar as mentes de todos, percorrendo lugares sutis da imaginação, assim como o veneno espraiou-se pelo corpo do rapaz.

Todos estavam habituados a conviver com os seres peçonhentos, venenosos e envenenantes que saem das urnas e rastejam pelas repartições públicas procurando cofres sem dar botes visíveis. Aquela cobrinha remetia para outro lugar, para um âmago vital dada sua imprevisibilidade que começava com o fato de que nem no lugar mais asfaltado e azulejado já se podia estar seguro.


Szimborska agora poderia escrever outro poema dizendo que a cobra mais longa é aquela que está na imaginação de todos e não acaba, por mais metros que se passem.

Ademir Demarchi é santista de Maringá, no Paraná,
onde nasceu em 7 de Abril de 1960.
Além de poeta, cronista e tradutor,
é editor da prestigiada revista BABEL.
Possui diversos livros publicados.
Seus poemas estão reunidos em "Pirão de Sereia"
e suas crônicas em "Siri Na Lata",
ambos publicados pela Realejo Edições.
Suas crônicas, que saem semanalmente
no Diário do Norte do Paraná, de Maringá,
passam a ser publicadas todas as quintas
aqui em Leva Um Casaquinho