Wednesday, January 16, 2019

EDUARDO CAVALCANTI APRESENTA O OUTRO LADO DA DÉCADA DE 80 EM PRÓXIMA PARADA




Eduardo Rubi Cavalcanti
é jornalista desde a década de 80.
Trabalhou em A TRIBUNA de Santos
e em outras publicações.
É Mestre em Comunicação Social
pela Universidade Metodista de São Paulo
e leciona Jornalismo na Unisantos,
onde cursou sua graduação.
Publica domingo sim, domingo não,
em A TRIBUNA de Santos,
a página PRÓXIMA PARADA,
que reproduzimos aqui.


SATORI EM BAGDÁ (por JR Fidalgo)



Absurdo não é viver nessa guerra sem fim, mas sim sentir que não há nada a fazer sobre isso. Você está nas cordas. Os socos em sequência fazem você beijar a lona. O gosto do sangue se mistura à sensação de pedaços de dentes se mexendo de um lado para o outro na boca. Ainda assim você se levanta antes do juiz gordo e careca conseguir contar até dez. Dessa vez, vai ser diferente. Você vai, enfim, descobrir um jeito de acabar com a porra dessa guerra.

Mas logo você percebe que a coisa ficou ainda mais violenta. Então tenta arrancar as entranhas com as mãos. Apesar da dor insuportável, não consegue parar. Na guerra não há espaço para compaixão. É privilégio para fracos, covardes, desertores. E eles vivem te assegurando que você não é um deles. E eles sempre têm razão, porque já lutaram em mais guerras do que o número de anos que você já viveu até hoje. E você descobre que já não se lembra mais quantos anos já viveu até hoje. Tudo passou muito rápido.

No momento, porém, isso não tem importância, porque você acorda no dia seguinte, olha para o chão e procura por suas entranhas. Elas deviam estar bem ali, no chão, ao lado da sua cama. Mas não estão. Tudo está limpo, muito limpo. Até você está limpo. Limpo e inteiro. Ao que parece, suas entranhas ainda estão dentro de você.

Então você se levanta, pronto para continuar. Continuar a guerra. Começa a bater forte com a cabeça contra a parede do quarto. De repente percebe que já está bem em frente ao espelho do banheiro.  Cacos brilhantes de diversos tamanhos se espalham pelos ladrilhos, misturados com o sangue que esguicha do seu rosto.

Você perde algum tempo tentando recompor a imagem do seu rosto refletida nos pequenos caquinhos de espelho ensangüentados espalhados pelo chão do banheiro, mas logo desiste. Não há dúvida de que você está em desvantagem perante o inimigo. Precisa revidar de imediato. E revida.

Os dedos da sua mão direita se quebram em vários pedaços ao atingirem com toda a força possível a porta do guarda-roupa. A dor foi forte e você urrou como um gorila que esmaga os bagos contra o galho da árvore onde estava sentada a última fêmea do grupo ainda no cio.

O golpe, contudo, foi inevitavelmente necessário. Retaliar o ataque inimigo de imediato é vital para impedir que ele deduza que você está começando a ficar debilitado, vulnerável, mesmo que você, no fundo, saiba que é exatamente isso o que está acontecendo. Na verdade, você não está apenas muito debilitado e vulnerável. Você está literalmente fodido, mas esse é um segredo de estado que até mesmo seus últimos e poucos neurônios ainda ativos se recusam a revelar, mesmo sob a mais cruel e infinita das torturas.

É justamente nesse ponto que eles lhe garantem que a melhor defesa é um ataque. E claro, como sempre, eles devem saber do que estão falando. Já mataram muito mais gente do que vários terremotos e furacões, incendiaram vilas, povoados, fizeram cidades sumir dos mapas, acabaram com países e até exterminaram raças que hoje ninguém mais lembra que existiram, foram absolvidos em mil julgamentos de crimes contra a humanidade, condecorados com mil medalhas por atos de extremo heroísmo e inestimáveis serviços patrióticos prestados aos seus respectivos governos.

Então parece lógico que você precisa levar a sério o que eles dizem. Deve atacar o quanto antes, para evitar que o pior aconteça, embora você já não tenha a mínima noção do que seria esse pior que todos eles se esforçam tanto para evitar. De qualquer modo, você sabe que há uma guerra lá fora, ou aqui dentro, ou lá fora e aqui dentro, ou aqui dentro e lá fora. Afinal, você já não sabe mais onde os combates estão sendo travados nos últimos tempos, embora as explosões e os tiros pareçam a cada dia mais perto, lá fora e aqui dentro. Talvez mais perto aqui dentro do que lá fora. Ou talvez ao contrário. A cada explosão e a cada tiro sua noção de dentro e fora se alterna e se confunde em ritmo progressivamente alucinante, ou aliciante. Foda-se!

Seja como for, mesmo que essa guerra talvez nunca mais possa ser vencida ou justificada ou explicada – e você nem saiba direito onde ela está sendo travada neste exato momento -, ela precisa ser lutada até o último homem, até o último pedaço de dente cuspido da sua boca depois do último soco que te faz beijar a lona, até a última entranha arrancada de dentro de você por suas próprias mãos, até o último pedaço de dedo esmigalhado contra a porta do guarda-roupa, até a última gota do sangue misturado aos cacos brilhantes de espelho espalhados no chão de seu banheiro.

A melhor defesa é um ataque. E é óbvio que eles sabem do que estão falando. Então, só pra clarear um pouco as idéias, você engole alguns calmantes e anfetaminas, obviamente empurrados goela abaixo com água mineral. Vodca ou gim seria algo muito radical e você não quer saber de radicalismo, mas sim de um plano sutil que engane o inimigo a respeito da sua total, absoluta e inconfessável vulnerabilidade.

A melhor defesa é um ataque. Mas exatamente o que essa porra significa, você se pergunta, enquanto vomita na privada e percebe que uma razoável quantidade do vômito caiu também na sua camisa.

Já havia acontecido inúmeras vezes antes, mas era sempre estranho acordar com aquela sensação de que alguém estava armando alguma coisa perigosa para você, alguma coisa que poderia definitivamente foder com você de uma vez por todas.

No entanto, era melhor deixar isso pra lá por enquanto e se concentrar em trocar os curativos dos pulsos. Você não fazia isso há uns dois dias pelo menos e aquela merda podia acabar infeccionando e provocando problemas realmente graves.

Nada radical, nada radical, você repete em voz alta, enquanto tenta nervosamente desenfaixar os pulsos. Aliás, aquilo, dos pulsos, havia sido uma coisa realmente estúpida. Estupidamente burra e estupidamente radical.

Consegue primeiro retirar a atadura do pulso esquerdo, depois, do direito. Os cortes estão com aspecto razoável, embora ainda sem nenhum sinal de cicatrização.

Aperta os pulsos, tentando ver se consegue fazer sangrá-los de novo. Não parece uma idéia nem um pouco sensata, mas você continua fazendo isso, sentado na privada, enquanto, como sempre acontecia quando estava com sua bunda em cima de uma privada, se esforça ao máximo para tentar fazer com que seus intestinos funcionassem sem que uma grande e longa batalha precisasse ser travada para liberar o que precisava ser liberado, o que raramente acontecia. 

Não demora muito para que seus pulsos, pressionados alternadamente por você, primeiro o esquerdo, depois o direito, comecem a sangrar de novo, e bastante, no chão do banheiro, bem próximo à privada.

Logo, porém, você deixa de prestar atenção nas poças de sangue que se formam ao redor da privada, já que seus intestinos começam finalmente a se movimentar – e de forma rápida e violenta. Você começa a sentir então que sua bunda é constantemente molhada pelos respingos que a grande quantidade de bosta que sai do seu rabo provoca, ao bater com força na água do fundo da privada.

Conclui que terá que lavar o rabo no chuveiro, quando aquele bombardeio de merda finalmente acabar, o que parece já estar começando a acontecer, já que suas entranhas dão os primeiros sinais de que estam finalmente se acalmando.

Mas aí você percebe que, para lavar a sua bunda lambuzada dos respingos de toda aquela bosta que saiu do seu rabo, bateu na água do fundo da privada e voltou em pequenas gotas para o seu traseiro, você terá de sujar os seus pés, que estão descalços, naquele sangue todo que continua a escorrer dos seus pulsos para os ladrilhos do chão do banheiro, próximo à privada onde você continua sentado, sentindo suas entranhas irem lentamente se acalmando.


Talvez seja melhor ficar ali, imóvel, sentado na privada, esperando o resto do sangue escorrer dos pulsos. Pelo menos você não vai precisar lavar a bunda quando terminar de cagar, nem sujar os pés.



JR Fidalgo: um jornalista que tem preguiça de perguntar, um escritor que não tem saco pra escrever e um compositor que não sabe tocar. (mas que, mesmo assim, já escreveu três romances e uma quantidade considerável de canções ao longo dos últimos 45 anos)


TRANSFERÊNCIA DE PEPINO (por Marcelo Rayel Correggiari)




Um dos prazeres das férias para um merceeiro sem filhos é a paz encontrada na ‘padoca’ da esquina.
Porque morar ao lado de um dos clubes mais famosos do mundo que recebe centenas de ‘candidatos a Neymar’, mais duas escolas estaduais, duas particulares e uma municipal, tudo num raio de 50 a 100 metros, é passar a maior parte do ano em eterno turbilhão.
Chega essa época do ano, das tais ‘férias’, e um sossego impera em cada centímetro de chão.
Uma belezura!
Sem filas, sem pais fazendo filas duplas em boa parte das ruas do bairro, uma tranquilidade que esse envelhecido merceeiro já tinha perdido o costume.
Que tesão!
Paz! Uma coisa...
Tudo geladinho, no ponto, dentro do tempo cronológico. Uma maravilha!
Sim, porque a algazarra, nessa época do ano, empurramos para os chamados ‘bairros da orla’.
Três meses que nós, cá no fundão da ilha, mandamos nossas boas energias de força & fé, mais nossas extremas-unções para os(as) cidadãos(ãs) moradores(as) dessas localidades.
“Vai, meu povo! Curte a praia aí... que eu ‘tô’ te vendo!”. Se é que dá para curtir praia até o Carnaval chegar.
A mais nova ‘coqueluche’, nos litorais brasileiros, é uma tal caixinha de som chinesa com conexão por ‘dente azul’.
Imaginem! Cada um leva a sua!
Numa praia com, por baixo, 50 mil no meio da semana, é de se calcular que, se todo mundo tiver a mesma ideia, ...
É a “guerra da imposição”: “... meu ‘funk putaria’ tem mas putaria & sacanagem do que o seu!”, pensam os usuários. Sim, porque ninguém vai com caixinha de som à praia para a execução de uma 9ª de Beethoven, 25ª de Mozart ou qualquer obra-prima de Dvórak.
Costumam dizer que é “educativo”: aprende-se muito sobre ginecologia, urologia e obstetrícia. Tem grandes lábios, pequenos lábios, clitóris, ânus, glande, “socar” colo do útero, próstata, “... senta, senta, senta, senta, senta...”.
Corre-se à boca pequena que o ‘must’ desse verão é um funk que ensina aos(às) residentes o passo-a-passo da postectomia com requinte de detalhes. Um troço! Tudo isso na disputa sonora de quem executa o trambolho mais alto (uma espécie de “frevo-abafa”) na presença dos mais ‘pequerruchos’ com suas pás e baldinhos de areia.
Um problema dos compositores ou da ouvinte plateia?! Às vezes, há certos problemas que tem tudo a ver com os usuários.
De qualquer forma, empurramos esse trem para as faixas de areia.
“Até fevereiro, pessoal!!!”.
Aqui é só sossego...

No ar-condicionado da vazia ‘padoca’ (ô, ‘bença’!), esse merceeiro acaba por recordar sua velhice indesejada: ele era de uma época que fazia parte do passeio ouvir a beleza dos sons que uma praia e o mar são capazes de produzir.

Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 47 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É autor de Areias Lunares
(à venda na Disqueria,
Av. Conselheiro Nébias
quase esquina com o Oceano Atlântico)
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO


BELLE AND SEBASTIAN - TODA POESIA (por Flávio Viegas Amoreira)


Qual gênero estilo tendência atmosfera!? Do rock que mais se aproxima da poesia livre que fazemos para encantar meiga e profundamente o mundo? Sem pestanejar ! Belle and Sebastian !  minha nossa trilha feita para acariciar esse planeta e seus seres com toda doce estranheza duma canção ou poema....Revendo o lindo filme ´´Hoje eu quero voltar sozinho´´ deparei com toda ternura rascante dessa peça ´´There´s Too Much Love´´  ilustrando os amores assim assim tão Belle and Sebastian de viver.....com a internet a poesia a literatura o rock ´indies´ se tornaram quase continente ser cotidianamente redescoberto por almas atentas ao encantamento:  fazemos aquilo que denomino ´arqueologia digital´ a fuçar melodias esquecidas do folk dos anos 70 que iriam germinar em garagens obscuras de Seattle, Dublin e na exótica Escócia passando pela efervescência de Berlin..... não seria também o ´indie´ do grupo um preâmbulo para o delicioso movimento ´hipster´: gosto que me enrosco da transcendência terna , da ambigüidade natural das letras e por que não mesmo nos trópicos das camisas de flanela empunhando fartas canecas de café num fim de tarde de outono dos pálidos rapazes .....Stuart Murdoch figuraça antes da musica fez o antológico percurso da poesia e leitura voraz da física quântica ao cristianismo primitivo:  diria até que fez do Belle um proto-estilo literário através das baladas que nos percorrem desde 1996 quando nos presenteou com a banda .  Não canso dizer que minha relação com o rock e arte em geral, especialmente poesia é antes de cerebral  um trato epidérmico com a sensibilidade:  quando debruço-me escrever essas linhas lanço me a uma viagem sensorial já que informação vocês podem achar nas Wikipédias da vida não? o lance é abrir gavetas e armários para destacar relevos da alma que a musica me mobiliza:  Belle & Sebastian assim representa toda estranheza solitária dos jovens poetas lembrando que o rock é estranho , essencialmente estranho no deslocamento de notas, percepções de melodias e zonas mais ou menos turbulentas do espírito.... ´´I want the world to stop´´ pode bem ser um manifesto dessa inadequação a um ambiente bruto ao qual não queremos nos adaptar:  poesia replicante nas perfomances melancólicas naquele modo meio desengonçado que é todo charme do ´´Belle and Sebastian´´.... e bota estranheza quando é Sarah Martin a cantar ´´The Power of Tree´´ :  o poder hibrido da trindade quando tudo é feito tridimensionalmente o que me faz lembrar meu romance ´´Edoardo , o Ele de Nós´´   inventando uma terceira entidade num caso amoroso de entrega mítica:  afinal todo Sherlock tem seu Watson bem como um beat carrega no bagageiro seu Dean Moriarty.....prefiro ouvir Belle no inverno ou na garoa paulistana,- intimista conforme acorde blasé cult da banda : casamento do intelecto e sensação de integração com um ego aconchegado....não largo de jeito nenhum CD de ´´Storytelling´´  ( Histórias Proibidas ) , que aliás ganhei do poeta Marcelo Ariel , com trilha sonora do Belle: fita dark de Todd Solondz que só permanece pelas faixas da banda escocesa: que soundtrack!  Vinte anos de estrada cafeinada e gim , o Belle & Sebastian  compõem um painel de sofistação rara:  cult nascido cult,-  banda altura de papo ‘a mesa em filme francês, sessão de terapia lacaniana ou bebericando depois de uma sessão da meia noite dum Tarkovski:    uma entidade , assim é o Belle.  Agora deixa-me ir contemplar o horizonte empunhando vinho seco ouvindo um hit particular: ´´The State I am in´´ porque melhor que isso talvez só Debussy com gelo.....


Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).
Este é seu mais recente trabalho publicado:


GOYA, NÃO VAMOS A FLORIANÓPOLIS (por Marcus Vinicius Batista)



Eu o avistei enquanto esperava na fila do sorvete. O caminhar era lento, balançando para os dois lados, como o faz há 26 anos, quando o conheci no demolido prédio da Comunicação, na Pompéia, em Santos. O andar é compatível com a serenidade que, às vezes, abafa a pressão das redações jornalísticas onde convivemos por mais de 10 anos. Nunca o vi gritar com alguém, mesmo quando as notícias ferviam.

Ricardo Goya estava acompanhado de três primos. Como ele não me viu, matei os filtros sociais e gritei:

— Goya, vai subir! A Ponte vai subir!

Meus filhos me olharam assustados. Minha esposa me cutucou para chamar minha atenção pelo escândalo no meio do shopping center. Goya reagiu com o riso curto de sempre (“hehe”) e veio em minha direção. Não nos encontrávamos há um ano. Desde que sai das redações e passei a militar no Jornalismo de outras formas, nossos encontros ficaram mais esporádicos.

Após o abraço, engatamos uma conversa sobre futebol. A Ponte Preta, time de coração dele, pode voltar à série A do Campeonato Brasileiro. A reação é espantosa: oito vitórias e um empate nos últimos nove jogos. Uma vitória sobre o Avaí, concorrente direto, em Florianópolis, e o retorno acontecerá.

Goya é o único torcedor da Macaca que conheço. O único descendente de japoneses torcedor da Ponte que conheço. O único levantador de vôlei do Atlanta, clube da colônia de Okinawa, que conheço. O melhor editor de esportes com quem trabalhei. Um dos jornalistas mais corretos com quem pude conviver e aprender.

Goya foi meu parceiro de reportagem na primeira e na segunda matérias que escrevi na vida: 1) pescadores que se tornaram coveiros em Santos, por conta da crise econômica no Governo Collor. 2) um perfil dos candidatos a vice-prefeito de Santos, em 1992. Goya é único!

Na sequência, perguntei sobre o trabalho. Veio a má notícia, que me deixou sem o que dizer a ele.

— Estou de licença. Coloquei um marca-passo no coração. Cheguei a ficar na UTI. Arritmia. Agora, estou bem!

Dialogamos rapidamente sobre a rotina de afastamento do trabalho. Nós nos despedimos, ele retomou o passeio com os primos e eu permaneci na fila do sorvete em promoção.

Passei a semana inteira remoendo esse encontro e adiando a elaboração desta crônica. O texto saltou para todos os lados na minha cabeça, mas me faltou coragem de colocá-lo em pé.

Vê-lo me fez lembrar o quanto depositamos nas costas do trabalho o distanciamento de amigos que foram muito próximos e importantes ao longo de certas fases da vida. Tenho tentado essa mudança desde 2016 e, por conta disso, cafés e visitas em casa se tornarem praticamente semanais. Goya, peço desculpas, “escapou” dessa.

Vê-lo me injeta uma dose cavalar de saudades, não dos tempos que se esvaíram com a idade e os caminhos traçados, mas das conversas que poderiam ter nascido se não nos preocupássemos tanto com compromissos urgentes no curto prazo e irrelevantes quando os observamos com distância segura. Memórias, perspectivas, compartilhamento de experiências. Hoje, este pacote é essencial para minha sanidade.

O encontro casual no shopping e a Ponte Preta ressuscitaram um dos episódios mais malucos que vivi por causa do futebol. Há mais de 20 anos, a Ponte estava na mesma situação, na boca da caixa para voltar à elite do Brasileirão. Prometi ao Goya que o levaria em Campinas para o último jogo, contra o Naútico, de Pernambuco.

Cumpri a promessa. A viagem me permitiu testemunhar o acesso da Ponte e me rendeu, além de uma multa por excesso de velocidade, uma crônica. Este texto foi o único prêmio literário que ganhei. (aqui, o link da crônica)

Neste sábado, dia 24, a Ponte Preta pode retornar à primeira divisão do futebol nacional. No shopping, Goya oscilou entre o desânimo e a esperança escondida nos bolsos.

— Pôxa, a Ponte é especialista em falhar no último jogo.

Tentei animá-lo. Comentei com outro amigo, o Léo, de Maceió, que seria sensacional se Ponte e CSA subissem. Nenhum jogo se compara a qualquer amizade, mas ... vencer ajuda como pílula de felicidade.

Gostaria que o Goya não assistisse à partida, mais por razões emocionais e cardíacas, claro, do que por não poder levá-lo ao jogo decisivo.

Adoraria viajar à Floripa, pois acredito que damos sorte à Macaca nos momentos essenciais de sua história. A Ponte Preta condiz com minha predileção por times sofridos, para quem nada vem de bandeja ou 1 a 0 se comemora como goleada.


A Ponte, subindo ou não, sempre me conduz às lembranças de convivência com seu torcedor único, o Goya.

(publicado originalmente em
CONVERSAS E DISTRAÇÕES
em Novembro de 2018)


Marcus Vinícius Batista é professor universitário
e jornalista, além de cronista número um
da Imprensa Santista. É autor de
"Quando Os Mudos Conversam",
coletânea com o melhor de sua produção
publicado entre 2007 e 2015.