Friday, October 20, 2017

SAUDAMOS NOSSAS ANIVERSARIANTES VINTAGE DESTA SEMANA (06 a 13 de Outubro)


TEXTOS DE CHICO MARQUES




BRITT EKLAND
October 6, 1942
Stockholm, Sweden







Dizem as más línguas que Britt Ekland só conseguiu se sobressair à infinidade de clones de Brigitte Bardot que pipocavam pela Europa nos Anos 60 por ter encantado Peter Sellers e virado sua namorada, e depois sua mulher. Na verdade, Britt tinha talento. O problema é que ela era tão linda que ninguém conseguia ver isso. Pequenininha e com um sorriso arrebatador, Britt trazia muita bagagem com atriz e modelo na Suécia, onde passou infância e adolescência. Com Peter Sellers, ela fez dois filmes: A excelente comédia "O Fino da Vigarice" (After the Fox, 1966), com roteiro de Neil Simon e direção de Vittorio de Sica, e uma bobagem inclassificável intitulada "Toureiro Sem Sorte" (The Bobo, 1967), filme que de tão ruim chega a ser engraçado. A carreira de Britt ganhou projeção com "A Garota Que Inventou O Strip-Tease" (The Night They Raided Minsky's , 1968). Depois disso, ela participou de vários dramas de ação como  "Get Carter" (1971, com Michael Caine) e filmes de horror clássicos como "O Sacrifício" (The Wicker Man, 1973). Mas ganhou notoriedade mesmo foi como bondgirl em "007 - O Homem Com A Pistola de Ouro" (1974), ao lado de Roger Moore e Christopher Lee. Casou-se com Rod Stewart, que escreveu para ela canções como "Tonight's The Night" e "You're In My Heart". Mas depois que Britt e Rod se separaram, ela não conseguiu achar um norte para sua carreira. Chegou a brilhar num pequeno papel na comédia "Casanova & Companhia" (1977), ao lado de Tony Curtis, onde conseguiu se sobressair num elenco repleto de mulheres belíssimas como Marisa Berenson, Sylva Koscina, Marisa Mell e várias outras. As fotos mais recentes de Britt Ekland são assustadoras, e revelam que ela envelheceu muito mal -- tão mal que decidimos não publicar nenhuma dessas fotos aqui. Exemplarmente mal botocada e com a pele extremamente esticada, restou muito pouco (quase nada) daquela loira escandinava lindíssima que encantou a todos nós anps 60, 70 e 80. Uma pena.







SIGOURNEY WEAVER
October 8, 1949
New York City, NY






Susan Alexandra Weaver nasceu numa família de classe média alta em Manhattan, estudou nas melhores escolas e passou boa parte de sua juventude envolvida com o grupo de teatro de seu amigo teatrólogo Christopher Durang e suas comédias surreais. Alta, classuda e dona de um corpo espetacular, ela adotou o nome Sigourney por conta de uma personagem de "O Grande Gatsby", de F Scott Fitzgerald. Começou a fazer cinema não porque morrese de amor pela Sétima Arte, mas porque os cachês valiam a pena e ajudavam a produzir as peças off-off-Broadway de Durang. Depois de encarar vários papeis, ficou mundialmente conhecida através de sua personagem Ellen Ripley em "Allen"(1979), estranho filme de Ridley Scott que inesperadamente virou um sucesso estrondoso, gerando uma série de sequências milionárias. Desde então, Sigourney virou uma espécie de prisioneira de filmes sci-fi de alto orçamento. Ficou rica com Ripley. E até que conseguiu abrir o leque e escolher papéis bem pouco óbvios entre um "Alien" e outro. Brilhou em dramas como "A Montanha dos Gorilas" e "O Mapa do Mundo", e em comédias como "Uma Secretária de Futuro" e os dois primeiros "Ghostbusters". Um filme muito curioso na carreira de Sigourney é "Galaxy Quest" (1999), uma paródia divertidíssima de "Star Trek", onde ela foi à forra com sua sina de Sci-Fi Queen. Altamente recomendável também é "O Ano Em Que Vivemos Perigosamente" (The Year Of Living Dangerously, 1982), de Peter Weir, onde ela contracena com Mel Gibson numa aventura de suspense na Indonésia passada em 1965. Sigourney recebeu uma quantidade enorme de indicações a prêmios, e levou pra casa dois Golden Globes, dois BAFTAs, dois Prêmios Saturn, entre vários outros. Oscar, até agora, nenhum. Mas, na verdade, ela não está nem aí para isso. Aos 68 anos de idade, continua uma bela mulher, e até hoje produz e atua nas comédias maluquinhas de Christopher Durang. 






ELISABETH SHUE
October 13, 1962
Wilmington, Felaware






Elisabeth Shue foi o sonho de consumo de quase todo garoto nos anos 80. Loira, com corpão violão -- coisa rara no cinema americano --, ela foi a namoradinha de Ralph Macchio em “Karate Kid” (1984), de Tom Cruise em “Cocktail” (1988) e de Michael J. Fox em “De Volta Para o Futuro II e III” (1989). Conseguiu fazer a transição de musa teen para atriz adulta em 1995, quando aceitou participar do projeto independente “Despedida em Las Vegas”, de Mike Figgis. Graças à personagem da prostituta que se envolvia com um roteirista alcoólatra (Nicolas Cage), ela foi indicada ao Oscar. Não levou a estatueta. Mas começou a ser vista com outros olhos por Hollywood -- e, desde então, atuou em filmes como “O Santo” (1997), com Val Kilmer, “Desconstruindo Harry” (1997), de Woody Allen, e “O Homem Sem Sombra” (2000), de Paul Verhoeven, para citar apenas alguns. Brilhou na TV ao lado de Ted Danson nas temporadas 12, 13 e 14s de "CSI Las Vegas". É casada com o diretor de cinema Davis Guggenheim, com quem tem dois filhos. Está envelhecendo muito bem, e continua uma mulher exuberante aos 54 anos.






KELLY PRESTON
October 13, 1962
Honolulu, Hawaii




Kelly Preston é havaiana. Seu verdadeiro nome é Kelly Kamalelehua Smith. Veio para Los Angeles já adolescente, e -- como desde jovem já era um mulherão espetacular -- foi estudar Artes Dramáticas para tentar a sorte em Hollywood. Depois de uma infinidade de papéis pequenininhos, ganhou seu primeiro papel de relevo na comédia de Ivan Reitman "Gêmeos" (1988), com Arnold Schwarzenegger e Danny DeVito. Trabalhou com ótimos diretores como Cameron Crowe, Sam Raimi, Alexander Payne e John Frankenheimer, que não só endossaram seu talento e como ainda forneceram a ela excelentes credenciais para seguir em frente com sua carreira de atriz. Casada com John Travolta desde 1991, Kelly tem trabalhado menos nos últimos 15 anos para se dedicar à maternidade. Perdeu um de seus filhos de forma trágica, então mergulhou de cabeça na bebida. nos tranquilizantes e na também nos dogmas da Cientologia. Hoje, livre disso tudo, dedica seu tempo livre a ações educacionais, reabilitação de dependentes químicos e ações de caridade. Kelly Preston continua um mulherão espetacular aos 53 anos de idade.





Thursday, October 19, 2017

EDUARDO CAVALCANTI CELEBRA O MÁRTIR E SAÚDA OS BRAVOS SOBREVIVENTES DO GRUNGE



Eduardo Rubi Cavalcanti
é jornalista desde a década de 80.
Trabalhou em A TRIBUNA de Santos
e em várias outras publicações. 
É Mestre em Comunicação Social
pela Universidade Metodista de São Paulo
e leciona Jornalismo na Unisantos,
onde cursou sua graduação.
Publica domingo sim, domingo não,
em A TRIBUNA de Santos,
a página PRÓXIMA PARADA,
que reproduzimos aqui.



DONA MARIA LÚCIA (uma crônica de Álvaro Carvalho Jr)



Seus olhos azuis parecem ter vida própria. Giram pela sala antiga e não deixam de encarar seus visitantes de frente. Os cabelos curtos, a roupa simples mostram uma professora de idade mediana que enfrentou, e enfrenta, problemas quase insuperáveis. Mas a voz forte, clara, num português muito bem falado, revelam uma mulher forte, que defende suas convicções com persistência e força incríveis. Ela é Dona Maria Lúcia, a proprietária de uma área maravilhosa, muito grande, encravada na Serra da Mantiqueira pouco mais de seis quilômetros da cidade que recebe o nome do criador do Sítio do Pica Pau Amarelo, Monteiro Lobato.

O Museu que Dona Maria Lúcia mantém não é um verdadeiro museu, fato que ela mesmo deixa claro. " Lobato viveu aqui apenas sete anos. Depois mudou-se para Taubaté. O sítio pertenceu ao avô dele, que, depois de morto, o deixou para o escritor. Como não sabia administrar ou lidar com dinheiro, Lobato o vendeu ao meu avô, que o deixou ao meu pai e, finalmente, para mim".

Ela não se preocupa em levar os visitantes pelos salões do enorme casarão colonial , que começou a ser construído em 1870 e só foi terminado 10 anos depois. Abre as portas, vai cuidar de suas coisas e espera estrategicamente na saída, quando inicia sua longa fala sobre o autor de quem tanto gosta.

"O primeiro livro dele, "Urupês", foi escrito naquela escrivaninha perto da porta. Temos fotos dele escrevendo o livro, que, aliás, deveria se chamar "Os 11 funerais". A editora portuguesa não gostou do nome e ele resolveu mudar para "Urupê", uma praga que ataca as raízes da árvores e as mata lentamente. Como eram 11 contos, virou "Urupês". O interessante é que muita gente leu esse livro e não conhece essa história nem se dá ao trabalho de procurar o significado de urupê! A falta de leitura é uma doença brasileira e eu procuro incentivar as pessoas sempre que posso..."

Pouca coisa se vê do mais famoso e grande escritor infantil brasileiro, um detalhe que Dona Maria Lúcia contesta. Na sua opinião, ele é um grande escritor brasileiro. Umas duas fotos - uma delas conhecidíssima -, algumas gravuras e nada mais. O mobiliário é de uma variedade notável: peças antigas, algumas muito antigas, outras modernas, recentes, e algumas surpresas como a cadeira que vira uma escada. "Pouca coisa aqui foi usada pelo Monteiro Lobato. E faço questão de explicar às pessoas que o importante é saber que aqui ele escreveu o Sítio do Pica-Pau Amarelo. As pessoas precisam entender que ele ainda está por aqui. Tenho certeza de que ele nasceu aqui. Não faz muito tempo, uma moça veio visitar o museu e ficou intrigada porque eu não a acompanhei. Então, disse para ela para dar o braço para o Lobato que ele a levaria pelos salões: ela ficou apavorada e quase que foi embora... pensou em fantasmas!"

O casarão que Dona Maria Lucia luta para manter é de impressionar qualquer um. Trata-se de um colonial português/brasileiro completamente despojado, mas com um pé direito de fazer inveja: mais de 4 metros de altura. As portas são imponentes, de madeira de lei, pesadíssimas e emolduradas com o mesmo material, como se fossem quadros. As portas, além das tramelas, ainda têm as trancas, enormes pedaços de madeira colocados de lado a lado, apoiados em ganchos. O piso, ainda original, é de pinho de riga, coisa rara nos dias de hoje. Nota-se um certo abandono, falta de manutenção, detalhe que Dona Maria Lúcia também não esconde:

"Não recebo ajuda de ninguém, Graças a Deus! Nem da Prefeitura, nem do Estado e nem da Federação". explica orgulhosa. "E se algum político aparecer por aqui, será maltratado. Não quero nada com eles. Este nosso País sofre nas mãos deles e não gosto de nenhum. Dentro das minhas possibilidades vou lutando e mantendo o Sitio do Pica Pau Amarelo, é quase um milagre..."

Uma coisa Dona Maria Lúcia não aceita e não aceitará: a pasteurização dos personagens do Sítio. Revolta-se quando comenta a série que passou na TV, afirmando que foi "um verdadeiro crime. Vocês viram o que fizeram com os personagens e com a estória? Não vou admitir nunca que se altere as estórias e inventem tanta bobagem como no seriado da TV. Não quero transformar isto aqui numa Disneylândia. Os personagens do Sítio são humanos e cada um deles tem seu papel: Dona Benta é a sabedoria formal, dos livros; Tia Anastácia é a sabedoria da vida, da experiência. Narizinho e Pedrinho somos nós, que lutamos para viver bem. O Visconde, o Rabicó, o Saci são personagens tão fortes que não precisam de pasteurização. Vejam o caso daquela Cuca que a TV inventou. Em nenhum dos livros da coleção infantil de Monteiro Lobato ela aparece. Apenas em um deles Tia Anastácia canta a música da Cuca (dorme neném, que a Cuca vem pegar...) e a TV criou uma feiticeira louca! Ela não faz parte das estórias de Lobato..."

Um dos personagens mais queridos de Dna Maria Lúcia é o Visconde de Sabugosa. Além de sábio, equilibrado, ele é o único que ressuscita, pelas mão mágicas de Dona Benta. "Ele é uma espiga de milho. Assim, um alimento que porcos, cabras, cavalos sempre comem. Mas Dona Benta o traz de volta com toda aquela sua sapiência. A morte mais triste do Visconde foi quando caiu atrás da estante de livros e ficou esquecido. Coitado, ele pegou mofo, apodreceu e morreu bem atrás dos livros que ele tanto ama. Ressuscitou mais uma vez, mas a imagem que Lobato deixa clara é a do povo brasileiro que não gosta de ler, que faz pouco caso dos livros. É muito triste".

O entusiasmo, a formação de professora, levam Dona Maria Lúcia a se emocionar e a mostrar um outro lado da moeda: seu nacionalismo desacerbado. Não aceita, por exemplo, que brasileiros leiam livros de escritores estrangeiros sem antes ler todos os brasileiros.

"Lobato, Machado, Veríssimo, Casemiro são nomes desconhecidos dos jovens brasileiros, que se deixam levar pelos estrangeiros. Não suporto isso. Nosso País é incrivelmente bonito, bom e rico. Não precisamos de nada e de ninguém..."

Nem mesmo a questão do dinheiro, que poderia dar um enorme suporte para seu Museu, é levada em consideração: "nunca permitirei bonequinhos dos personagens passeando Sítio. Já imaginaram bonequinhos, como o Homem-Aranha? Não, nossos personagens são verdadeiros, são a cara dos brasileiros. Devemos entende-los e estuda-los..."

Alguns funcionários que trabalham na roça, nas proximidades do casarão, começam a chegar. Dona Maria Lúcia prepara o almoço (um delicioso cheiro de galinha frita, feijão preto, farofa, arroz, couve à mineira, torresmo invade o casarão...) e lembra que eles, com suas roupas simples, não são bem vistos nos shoppings ou lojas mais sofisticadas. Com um certo exagero, ela faz questão de exaltar: "coitados, sofrem preconceito pelas roupas humildes que têm. Isso sim precisamos mudar no país. Ela comenta ainda da cachoeira das Águas Claras, do pomar e de alguns lugares que o Sítio oferece. Personagens caracterizados para receber crianças? Nem pensar. Dona Maria Lúcia dá um sorriso irônico. Não, ela não vai permitir que o Sítio do Pica-Pau Amarelo se transformar numa Disneylândia...    

Na saída, uma enorme placa mostra todo o apelo de Dona Maria Lúcia:




Álvaro Carvalho Jr. é jornalista aposentado
e trabalhou para vários jornais e revistas
ao longo de 40 anos de carreira.
Colabora com LEVA UM CASAQUINHO
quando quer e quando sente vontade,
pois, como dissemos acima,
Álvaro Carvalho Jr. é jornalista aposentado.



PROFESSOR: ESPERANÇOSO E BRINCALHÃO (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)



Quando atravessava o pátio de uma das universidades de Santos, encontrei-a pela enésima vez, mas mantive minha distância platônica. Uma professora pequena, cansada, com feições sérias. Ao mesmo tempo, rápida, agitada, transmitindo a sensação de que sempre há algo por fazer. Talvez para não quebrar a aura que construí em torno dela, nunca me aproximei para agradecê-la. A professora foi uma das responsáveis pela minha paixão por livros, embora não concorde – 25 anos depois – com muitos de seus métodos. Mas o “estrago” estava feito: a leitura como combustível de formação do homem. A lembrança pessoal é simplesmente o ponto de partida para a reflexão sobre este trabalhador contraditório, demasiado humano. É justo fazê-lo provar do próprio remédio? Sim, avaliá-lo sempre, e não enaltecê-lo um dia por ano. Distorção infeliz seria se apagássemos do quadro negro o antagonismo de suas qualidades e defeitos, elementos que o completam.

A cultura latina recomenda: mortos devem ser beatificados e dia comemorativos jamais devem servir para críticas. Assim deveria ser a reação diante de valores culturais: respeita-se, compreende-se, mas não necessariamente se aceita. A história brasileira, para ser mais específico, é desfavorável à figura do professor. O Brasil, durante a colonização e o período imperial, caminhou sem um sistema de ensino. A educação não fez parte dos planos durante quase 400 anos. A nação montou seus alicerces sem a presença de livros e educadores formais.

A elite brasileira sempre estudou fora do país. Ainda hoje o faz. Os endereços apenas se alternam. Inglaterra, França, Estados Unidos, Austrália. Depende do período histórico e dos cursos da moda. É claro que há exceções, mas que se mostram frágeis ou paliativas para mudar o cenário. O professor é personagem afetado diretamente; figura desvalorizada, vista muitas vezes como um empecilho para o desenvolvimento de um grupo de pessoas tuteladas por ele. Um entregador de informações para aqueles que visualizam os alunos como clientes e a escola como shopping center.

Pensar no papel social dele é o mínimo que se espera diante de um quadro tradicional de descontinuidade de políticas públicas. Este profissional é algoz e vítima da crise (eterna – podemos chamá-la assim?) da educação brasileira. O professor é vítima quando se mostra fruto do próprio sistema público, desmantelado a partir de 1964, inchado a partir da década passada e que hoje se enxerga diante de uma encruzilhada: apostar na qualidade e perder parte dos alunos ou direcionar os recursos para mantê-los por mais tempo na sala de aula a qualquer preço.

O capuz de algoz lhe cabe bem quando o sistema o posiciona como ator principal de um teatro de sombras, no qual o jogo de cena tem valor substancial, e a essência entra como elemento de figuração. Neste momento, veste o papel de operário no sentido de apenas cumprir programas genéricos, sem o tom de pessoalidade que deveria estar presente na rotina de um processo de ensino-aprendizagem.

Ser professor é uma atividade desconectada ao reconhecimento do outro. O puro contra-senso do ser humano, que busca nas pessoas seu próprio caminho. Isso fica mais evidente numa sociedade calcada nas aparências, na qual ser julgado e absolvido pelos pares é inerente às relações sociais. A falta de reconhecimento se manifesta pelo próprio trabalho dele, incapaz de ser demonstrado em períodos curtos e normalmente percebido – inclusive em momentos ruins – pelo exercício da memória do aluno quando fora da rede escolar.

O professor se caracteriza, por outro lado, pela insatisfação inerente a si mesmo. Todos os motivos anteriores o levam a reclamar do terreno a sua volta. Faz parte do exercício de crítica. Todo professor se julga um crítico social. O que ocorre, às vezes, é que muitos se deleitam com este exercício e se contentam em apenas ouvir o som da própria voz. Um prazer narcísico e doentio. A partir daí, sua figura se deteriora e ele sobrevive graças ao mero ritual mecânico de vomitar conteúdos para uma platéia disforme, desumanizada. Na mesma universidade, outro professor me chama a atenção. Tive aulas com ele e somos colegas. Suas opiniões ultrapassam os limites das salas, ganham corredores e pátios. Ele personifica a esperança no discurso para formar novos jornalistas, em tempos de pressões do mundo do entretenimento e do marketing. Por outro lado, não deixa escapar a chance de se queixar de todos os atores envolvidos nos universos acadêmico e jornalístico, inclusive ele próprio.

Os dois professores, de português ou de jornalismo, têm seus métodos, seus paradoxos, suas esperanças. Levam com eles a consciência – cristalina como água – de que formar pessoas é um território que ultrapassa as frágeis fronteiras da transmissão de informação e conhecimento. Formam seres para o mundo. E, acima de tudo, carregam e exibem com orgulho as cicatrizes de suas contradições. São humanos e – por que não? - educadores.

(publicado originalmente em 12 de Novembro de 2007)

Marcus Vinícius Batista
é o cronista santista número um, ponto.
É autor de "Quando Os Mudos Conversam"
Realejo Livros),
coletânea de crônicas escritas
entre 2007 e 2015,
e mantém uma coluna semanal
no Boqueirão News
que é aguardada com avidez
por sua legião de leitores.
Atendendo a um pedido
de LEVA UM CASAQUINHO,
ele se dispôs a resgatar
algumas de suas crônicas favoritas
escritas nos últimos anos
para republicação no BAÚ DO MARCÃO.



CAFÉ & BOM DIA #78 (por Carlos Eduardo Brizolinha)


Luís Soares, cuja ação do tempo não macula a face, tornando-o eternamente jovem e jovial, disse me que não leu "Ulisses". Me confortou saber, pois creio ser campeão de tentativas. Me enquadro no grupo que sabem da fama, mas nunca leram. Por incrível que possa parecer posso passar uma tarde inteira falando de "Ulisses" sem nunca ter lido "Ulisses", embora tenha lido "Dublinenses", "Retrato de um Artista", "Exilados" sem ter considerado excepcionais é de "Ulisses" que guardo a maior quantidade de informações. Informações colhidas em outros grandes autores. Paulo Francis em abril de 1991 disse que Joyce era muito chato e que havia sido um suplicio até entender. Antony Burgess disse que "Ulisses" não tem enredo e sim entretrechos e subtrechos. O mesmo Francis diz que "Ulisses" é o mais profundo mergulho no inconsciente humano. Paulo Coelho entre tantos outros considera ser um livro que você lê e não fica tocado por ele. Assim fui acumulando informações dos quais cito Edna O'Brien, Ezra Pound, Charles Duff, Joseph Campbell. Uma das mais ilustrativas dissecações foi feita por Umberto Eco - cada capítulo corresponde a um episódio da Odisseia, a cada capítulo corresponde uma hora do dia, um órgão do corpo, uma arte, uma cor, uma figura simbólica, uma técnica estilística. Li a dissecação de Eco e parti para uma nova tentativa, logo desisti por me sentir inscrito num curso de engenharia. Os anos passam e o desafio lateja. Meu conforto é saber que Nora Barnacle leu até a página 27 incluindo o título, minha mãe não leu e alguns queridos amigos não leram, tentaram como eu tentei.


Desfigurado por um reumatismo, com tuberculose, depressões e uma relação complicada com os pais. Um só livro publicado com o dinheiro do pai antes de sua morte precoce. Surgiu para o universo da literatura onze anos após o lançamento do seu livro e não foi com ele e sim em uma seleção organizada por Paul Verlaine que lhe deu espaço no cenário da literatura no livro poetas malditos, como também pela menção no livro " A Avessas " de Huysman no capítulo 14. É interessante ler Edmond Wilson e não foi por sugestão do Siscar, mas sim minha curiosidade com relação a Villier de l"isle Adam que atentei para Tristan Corbiére. Wilson tira as camadas da cebola e faz uma respeitável leitura do simbolismo, diz que Corbiére se afasta de uma estética séria para abraçar a ironia coloquial. Verlaine diz que os versos de Tristan Corbière vivem, riem, choram um pouco, zombam do mundo e se tornam graciosos. Ademais, é amargo e salgado como seu amado oceano. Não é acalentador, como as vezes ocorre a esse truculento amigo, mas, como ele, reflete os raios do sol, a lua, e as estrelas na florescência de ondas enfurecidas. Fez-se parisiense, mas sem o sujo espírito mesquinho. Ataques de tosse, vomito, ironia feroz e feliz, bílis e febre exasperadas em gênio, e em gracioso jubilo. Contudo a saudável influência recebida por Ezra Pound de Corbiére é um legado que devemos respeitar, afinal marca a importância do poeta que com ironia e sarcasmo, fez uma reflexão alegórica sobre a situação deslocada do artista na sociedade burguesa. No poema Epitáfio, diz: "Matou-se de paixão ou morreu de preguiça,/ Se vive, é só de vício; e deixa apenas isso: / Não ser a sua amante foi seu maior suplício". A sintaxe do poetas atravessou somente 29 anos, pois naceu em 1845 e faleceu em 1875, pouco antes de completar 30 anos.


Dias que me obrigo ler Cioran para não fugir da realidade. Abro o " Breviário da Decomposição " como quem abre " Minutos de Sabedoria " e lá vou eu pelas ruas e avenidas. - " É inútil construir tal modelo de franqueza: a vida só é tolerável pelo grau de mistificação que se põe nela. Tal modelo seria a ruína da sociedade, pois a “doçura” de viver em comum reside na impossibilidade de dar livre curso ao infinito de nossos pensamentos ocultos. É porque somos todos impostores que nos suportamos uns aos outros. Quem não aceitasse mentir veria a terra fugir sob seus pés: estamos biologicamente obrigados ao falso. Não há herói moral que não seja ou pueril, ou ineficaz, ou inautêntico; pois a verdadeira autenticidade é o aviltamento na fraude, no decoro da adulação pública e da difamação secreta. Se nossos semelhantes pudessem constatar nossas opiniões sobre eles, o amor, a amizade, o devotamento seriam riscados para sempre dos dicionários; e se tivéssemos a coragem de olhar cara a cara as dúvidas que concebemos timidamente sobre nós mesmos, nenhum de nós proferiria um “eu” sem envergonhar-se. A dissimulação arrasta tudo o que vive, desde o troglodita até o cético. Como só o respeito das aparências nos separa dos cadáveres, precisar o fundo das coisas e dos seres é perecer; conformemo-nos a um nada mais agradável: nossa constituição só tolera uma certa dose de verdade…"


Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco ponem latronem, et piratam quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o rei de Macedônia, ou de qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome. Quando li isto em Sêneca não me admirei tanto de que um estoico se atrevesse uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero. O que mais me admirou e quase envergonhou, foi que os nosso oradores políticos em tempo de príncipes católicos e timoratos, ou para a emenda, ou para a cautela, não preguem a mesma doutrina.


Plotino abriu as janelas, suspirou. Plotino tinha nas mãos uma taça do seu melhor vinho e refletiu; a beleza sopra sensível, na verdade não há beleza mais autêntica que a sabedoria que encontramos e amamos em alguma pessoa quando prescindindo do seu rosto sem atentar para a aparência. Vale buscar a beleza interior.

CAFÉ E BOM DIA PARA TODOS

Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta
é poeta e proprietário
da banca de livros usados
mais charmosa da cidade de Santos,
situada à Rua Bahia sem número,
quase esquina com Avenida Mal. Deodoro, e




bebe diversas xícaras de café orgânico
ao longo de seu dia de trabalho.