Thursday, April 19, 2018

6 VEZES GILBERTO (3 textos de Flávio Viegas Amoreira, 3 fotos de Marcos Piffer)


GILBERTO MENDES, UM ANO DE SAUDADE


Que ano esse que abriu-se de espanto com tua partida mestre! E que outro conceito dar a esses tempos que não perplexidade, meu amigo sempre tão presente! Tuas obras seguem brilhando em todos continentes: em todo canto onde Cultura não tenha sido ceifada em nome da crise econômica: e quanto nós artistas paulistas temos padecido, Gilberto! Imagine que a tão querida Cadeia Velha voltou ser de novo fechada! Teu Festival Música Nova encantou a todos em Ribeirão Preto tão bem cuidado pela USP: e tua última peça foi merecidamente ovacionada:  aquela linda canção a partir de meu poema “Saudade”, recorda?  Pierre Boulez, seu amigo e maior compositor europeu partiu na mesma semana que tu: combinaram encontro com Stockhausen e nosso Villa Lobos?  Assisti pensando tanto em ti o mais novo Woody Allen: era todo ele sobre anos de ouro de Hollywood: e imagina que Olivia de Havilland e Kirk Douglas estão aqui ainda centenários entre nós nesse mundo doido onde a Grã Bretanha saiu da União Européia, Trump vergonhosamente foi eleito para suceder nosso estimado Obama e o Ocidente parece cada vez mais aquele dos idos da Guerra da Criméia! Sigo esboçando tua biografia e espero contar com depoimentos dos teus amigos Augusto de Campos, Wisnick e Caetano Veloso que tanto sentiram tua partida: Ruy Castro abriu janeiro com uma crônica preciosa sobre tua importância para a brasilidade....quando releio o Eça e Borges teus autores preferidos converso mentalmente da mesma forma que imagino tua euforia com cem anos da Revolução Russa que se aproxima e tão presente em tuas memórias entre Moscou, São Petersburgo e Praga. Agora mesmo leio delicioso livro sobre o Hotel Ritz na tua Plaza Vendôme discorrendo sobre a Resistência Francesa! Com tua amada Eliane reflito melhores caminhos para teu romance ainda inédito “Adeus Partidão” com sua trajetória de militante entre Neruda e Mário Gruber. Já surgiram dois belos filmes a partir do seu legado: um do artista multimídia Márcio Barreto e outro documentário de Cris Sidoti, além do longa metragem de Fernanda Almeida Prado em que você mesmo estrelou! Com quem conversar sobre jazz, São Paulo antiga, fitas de espionagem e as telas de Paul Klee? Gilberto Mendes, nós que aqui estamos de ti nunca esquecemos!

[texto escrito no primeiro ano da partida do mestre Gilberto Mendes]


GILBERTO MENDES, O GIGANTE DESCONHECIDO


Hermético, ininteligível, experimental- elitista: quantos adjetivos aqueles que conhecem “santisticamente” Gilberto Mendes atribuíram a um dos mais importantes compositores e agitadores musicais latino-americanos! Atonalismo, dodecafonia, música concreta, peças performáticas! admirável carinho que conterrâneos de mar do maestro prestam mesmo desconhecendo ou torcendo o nariz para sua mundialmente reconhecida obra.

Gilberto Mendes ao lado de Vicente de Carvalho e Plínio Marcos forma o trio de ouro dos mais influentes artistas nascidos nesse mítico cais de Santos e agora nonagenário sei por que sua maior satisfação seria ter seus CDs ouvidos por uma nova geração mais atenta e ter de volta ao litoral o mais antigo Festival de Vanguarda do Brasil: o Musica Nova. Gilberto comunista, de coragem estética pungente e contestação ‘a  caretice burguesa não combina com babaquice elogiosa de quem carece de argumentação por ignorância de seu legado inquietante. O que caracteriza o criador de “Santos Football Music”, “Beba Coca-Cola” e “Último Tango em Vila Parisi” é essa quebra de paradigmas: é um amigo de rara generosidade e afável na superfície, mas implacável com o pensamento médio e a estupidez reinante. Cresci espreitando Gilberto através de suas galáxias sinestésicas: compondo ao lado dos poetas concretistas, a partir de poemas de Drummond e Hilda Hilst sem supor que um dia seria seu parceiro em tantas canções para coral e “atmosferas sinfônicas”. Imaginar que substituiria Cecília Meireles em “Cavalo Azul” ou teria inserido meu “Chuva no Mar” em “Alegres Trópicos” interpretado pela Osesp! são prova de ousadia ao empenhar confiança num escritor iconoclasta e sua paciência com o aviltamento cultural de nossos tempos de macdonaldização de cérebros. Enfatizo ser comédia de erros tratar como astro pop uma catedral profunda de oceânico cromatismo e sonoridades quântico-cósmicas : seu “Rimsky” é para ser ouvido para quem no mínimo conhece Frank Zappa, sem falar em Pierre Boulez. Gilberto Mendes é um raro lobo da estepe só para os loucos com excesso de sensibilidade. “Escrevo porque esta atividade me proporciona um grande prazer estético. Se o meu trabalho agrada a uma minoria, sinto-me gratificado. Se isso não acontece, não sofro. Quanto ‘a multidão, não desejo ser um romancista popular. Seria fácil demais.” Esse aforismo de Wilde diz tudo: os que estimam o compositor por carinho não são exatamente aqueles poucos que conhecem seu ideal de música. Parece fácil fazer o que ele compôs, mas é abissal a capacidade de entender seus propósitos melódicos e interações de significados.

[Texto escrito para os 90 anos do mestre Gilberto Mendes]

GILBERTO MENDES, ABRIL 2018


Fico imaginar meu amigo nesse mundo de Trump e Temer! Quando já em 2015 de tua partida dizia ver pouca esperança para o Brasil pontificando: “Desagradável, assim chamava nosso tempo, desagradável....” E quanto desagradável esse politicamente correto de tanta dicotomia e ortodoxia burra.... Gilberto que tinha visto maio de 68 em Praga e lá atrás os ecos da revolução tenentista de 1924 com bombardeio dos Campos Elísios paulistas!  Tanto pensei em Gilberto quando assisti “Trumbo” e agora mesmo quando vejo esse lindo filme húngaro “1945”; eu que releio Philip Roth com universo tão próximo do seu vivido na Universidade de Wisconsin ou nos dias de festivais de vanguarda em New York....Mendes que tanto admirava Milos Forman e os irmãos Tavianni e acharia interessante o retorno da atmosfera de Guerra Fria entre Putin e um Ocidente acuado, sem falar no charme de Macron e a inamovível matrona Merckel , - meu amigo que era fã da beleza de Scarlett  Johansson e Naomi Watts o que diria dessas beldades amadurecendo em público!?  Nessa quinta–feira dia 19 a lembrança de Gilberto começa ser resgatada oficialmente por Santos sua terra natal e onde viu brilharem Cacilda Becker, Plínio Marcos e Sergio Mamberti seu amigos.... um centro cultural com seu nome é começo desse movimento de convergência por seu legado. Salve salve Gilberto “Mundos” como diria Décio Pignatari!

visite marcospiffer.com.br


Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Vem sendo estudado como uma das vozes
da pós-modernidade literária brasileira
em universidades americanas e européias.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).

Wednesday, April 11, 2018

PARADISO TOP 5: CINCO ÓTIMOS FILMES ARGENTINOS PARA NÃO-INICIADOS



RELATOS SELVAGENS
(Relatos Salvajes, 2014, 122 minutos, direção: Damián Szifrón)

Diante de uma realidade crua e imprevisível, os personagens deste filme caminham sobre a linha tênue que separa a civilização da barbárie. Uma traição amorosa, o retorno do passado, uma tragédia ou mesmo a violência de um pequeno detalhe cotidiano são capazes de empurrar estes personagens para um lugar fora de controle. Dividido em seis histórias curtas, mostra com um humor nada sutil situações em que o ser humano chega ao seu limite e comete verdadeiras selvagerias. Quem está cansado do humor água com açúcar dos filmes hollywoodianos, vai se ver dando boas gargalhadas das situações absurdas deste filme de Damián Szifrón.

O SEGREDO DE SEUS OLHOS
(El Secreto de Sus Ojos, 2009, 127 minutos, direção: Juan José Campanella)

Durante muitos anos, Benjamín Espósito (Ricardo Darín) trabalhou no Tribunal Penal argentino, como um oficial de justiça. Após a aposentadoria, com todo o tempo livre, ele pode se dedicar a realizar ao sonho antigo de virar escritor. Para isso, Benjamín relembra de um caso em que trabalhou na década de 70, em que investigou um brutal assassinato. Na época, durante a ditadura militar, apenas por fazer seu trabalho, o oficial correu risco de morte, já que o país passava por um momento de extrema violência política. Relembrando dos fatos da época para seu livro, Benjamín percebe alguns equívocos que cometeu e como aquele momento teve uma forte influência no caminho que ele seguiu para o resto de sua vida. Vencedor de filme estrangeiro do Oscar em 2010, traz Ricardo Darín no elenco em uma atuação impecável. Ganhou uma refilmagem em Hollywood com Nicole Kidman e Julia Roberts.

UM CONTO CHINÊS
(Um Cuento Chino, 2011, minitos, direção: Sebastien Borensztein)

O ator Ricardo Darín encarna o metódico Roberto. O protagonista, veterano da Guerra das Malvinas, vive seus dias acompanhado de manias, como a fixação por números e uma coleção de reportagens absurdas - entre elas, a queda de uma vaca sobre uma jovem que estava num barco, poucos segundos antes ser pedida em casamento. O título chama a atenção pelos seus personagens bem construídos, pelas cenas bem humoradas e pelos detalhes. 
  ELEFANTE BRANCO
(Elefante Blanco, 2012, 105 minutos, direção: Pablo Trapéro)

Ricardo Darín vive o padre Julián que luta para ajudar os mais necessitados em um bairro de periferia em Buenos Aires. Ao lado do padre Nicolas e da assistente social Luciana, eles vão entrar em conflito com a igreja, o governo, o narcotráfico e a polícia. O filme trata o tema de preocupações sociais, tão comum aos brasileiros, de forma marcante e realista. Além de uma história impecável, o longa reafirma o talento do cineasta argentino Pablo Trapero.

MEDIANERAS
(Medianeras, 2011, 91 minutos, direção: Gustavo Taretto)

Traz a história de Martin e Mariana, ou melhor, trata dos desencontros que, de alguma forma, unem os dois jovens. O casal se relaciona via internet e nunca se encontrou pessoalmente, mesmo morando em apartamentos um de frente para o outro. O filme é dirigido por Gustavo Taretto e traz os atores Pilar López de Ayala e Javier Drolas na pele dos protagonistas, que não conseguem ficar juntos no mundo offline. Martin se trata de fobias e, aos poucos, tenta se livrar do isolamento que o consumiu; ele trabalha como web designer. Já Mariana acaba de sair de um relacionamento de muitos anos e está vivendo uma verdadeira bagunça, refletida em seu apartamento; ela trabalha como vitrinista. É uma comédia romântica, mas não no formato que estamos acostumados. É leve, delicada e emocionante, daqueles para assistir mil vezes e ficar refletindo depois sobre a história. A filmagem ainda traz referências à arquitetura meio confusa de Buenos Aires.

O FILME DA SEMANA É "UM LUGAR SILENCIOSO", DE JOHN KRASINSKI

por Sérgio Prior
para Sétima Arte


John Krasinski não é apenas um sujeito bonito.

Ele sabe atuar -- não só em comédias --, escrever e dirigir.

Partindo do pressuposto que o nosso planeta passou por uma hecatombe, só conseguem sobreviver os humanos que não emitirem sons.

Não há maiores explicações para o fato.

Ainda bem.

Caso ocorressem quaisquer frêmitos criaturas alienígenas atacam e matam.


A família composta pelo pai (John Krasinski), mãe (Emily Blunt), filha (Millicent Simmonds, em atuação brilhante) e filho (Noah Jupe) vivem silenciosamente numa casa isolada.

Uma espécie de bunker, com câmeras de vigilância, alimentos armazenados e armas.

O fato da filha ser surda, a família tem a comunicação por sinais facilitada.

Há pouquíssimos diálogos ao longo dos 90 minutos do filme.

Uma das cenas mais emblemáticas é aquela na qual o pai leva o filho para uma cachoeira, que serve para bloquear os sons por ele emitidos, e, dessa forma, eles podem conversar.

O momento "ternura" fica por conta da esposa dividir um fone de ouvido com o marido, e dançam ao som de "Harvest moon", de Neil Young.

A cena mais horripilante é aquela na qual a mãe, grávida, em vias de dar a luz, pisa num prego, ao descer uma escada.

A platéia divide com ela a experiência de dor.



Interessante como comediantes, como é o caso de John Krasinski, de uma forma geral, sabem como fazer com que a platéia tenha respostas físicas, seja através do riso ou do medo.

Deve ser duro viver num mundo onde não possamos nos expressar.

Se eu fosse divagar, diria que o filme é um ataque ao totalitarismo dos dias de hoje.

UM LUGAR SILENCIOSO
(A Quiet Place, 2018, 91 minutos)

Roteiro e Direção
John Krasinski

Elenco
John Krasinski
Emily Blunt
Millicent Simmonds
Noah Jupe



Cotação

Em cartaz nas Redes Roxy e Cinemark

GANA (por Marcelo Rayel Correggiari)



Acho que começou com uma privação. Foi o que me disseram.

Nunca ficou muito claro. Deve ter sido isso.

Dizem os especialistas que têm duas coisas que mexem muito com o cérebro: trauma e privação. Quando acontecem com alguém, é o despertar de uma inconsciência capaz de perpetrar os mais obtusos gestos.

Teve origem muito pobre. Migrante, fugiu da fome. Acho que deve ter sido isso. Privação, deve ser esse o nome. Dizem os especialistas que qualquer forma de privação, comida, trabalho, dinheiro, sexo, saúde, lazer, roupa, transporte, água, educação, faz com que qualquer um mude radicalmente sua maneira de pensar.

O mais grave é que esse ‘novo pensar’ pouco tem a ver com aquele mínimo de bom-senso no interior da realidade. Vejam seu principal aliado no Congresso: preso, reclamou da falta de conforto do camburão quando transferido para assistência médica. Fala como se não estivesse preso, cumprindo pena. Estranho isso? Nem tanto... faz tempo que age como se não fosse com ele, desde os tempos de presidência da casa.

É... isso! Uma espécie de ‘... não fala coisa com coisa...’. Como ele estivesse fora dele mesmo a maior parte do tempo. No caso do aliado, vejam, não se sabe de alguma privação. Trauma, talvez. Não sei se justifica.

Estranho isso? Não sei. Tem tanta gente andando pelas ruas agindo da mesma forma... pois, acho que é isso: construímos um mundo que é de enlouquecer. Tudo dá errado. E dá errado justamente por causa dessa desassociação com o real. As pessoas acham que podem agir sem o menor comprometimento com eventuais desdobramentos. ‘Tá’ assim de gente fazendo isso. Parece epidemia.

Foi triste. Acho que é triste, quando uma coisa começa ruim e termina ruim. Você se ergue fugindo do cárcere e no final da vida volta para lá. É como se tudo o que aconteceu no meio desses dois extremos não serviu para se saber quando é que se recua.

Por nada, a vida se encerra. Por nada, uma vida se encontra encerrada num cômodo, triste, lamentável. Muito se fez e nada se caminhou. Uma sensação de angústia porque nunca sai uma civilização desses ciclos de sonhos cuja ressaca é o pesadelo de que ‘... não foi dessa vez’.

O ‘poder pelo poder’ tem esse custo: uma privação geral de liberdade. O mais grave é que a liberdade deixa de ser um princípio por quase se desdizer em sua execução: em campo, uma povo dinheirísta porque só ele, o dinheiro, é que permite substituí-la. O ‘poder pelo poder’ garante dinheiro, e dinheiro é tudo. ‘Pro’ inferno com esse negócio de caráter: caráter não mata a fome, não dá teto... bom mocismo de pobre é uma coisa execrável.

Esse é o projeto. Se houve algum, é claro. O projeto de poder é dinheiro, porque dinheiro permite qualquer um foder o próximo, no conotativo e no denotativo. Esse é o projeto. Nada mais importa. É muita sede de ‘poder pelo poder’, porque garante dinheiro, sede de uma acumulação amalucada cujo método é o engodo, matar inimigos, aniquilar a humanidade.

Sede. Sede pura. Acho que deve ser privação em algum momento. Não sei, nunca fica claro. Talvez explique essa gana por poder, por dinheiro, essas coisas. Perdem-se todos os freios, todas as decências, vira ‘vale-tudo’. Privação vira gana. Acho que é isso. A mente pára de funcionar e privação vira gana. Esse negócio de bem-estar para todos, num coletivo, é cascata. Dá uns discursos bem bonitos, mas, no fundo, ninguém pratica o que foi dito.

Qualquer um acaba só valendo pela casa que tem, pelo carro que dirige, pela marca que veste, pela posição que possui. Sempre foi assim desde que o mundo é mundo. Alguém vai ganhar e milhões vão perder. Para os derrotados, a cansativa corda-bamba: ‘bora’ se equilibrar.

Foi triste. Entre um cárcere e outro, uma rastro de ‘combatividade’ que nada mais era do que uma cortina de fumaça para o ódio. Gana e ódio. Ódio: olha ele aí, de novo. Tudo é ele. Parece, nesses dias, que tudo é ele. Está em todos os lugares, mergulhados até o último fio-de-cabelo nele. É quando a desgraça vira festa, porque parecia réveillon na porta da delegacia. Não era amor. Tinha o nome de amor, mas era gana, era ódio. Ódio contra ódio, ódio contra um projeto pessoal. Os cérebros estão parando de funcionar.

Nesse trecho da vida que mais parece uma contagem regressiva, cárcere. Finais de vida deveriam ser nos lugares preferidos, no frescor de uma montanha ou na brisa de uma praia. Isso, sem qualquer tralha por perto. Uma criatura que se encerrará no silêncio das belezas. Livre. Livre de ódios, de amores, de ansiedades e angústias, de cansativos consumos, de afeições e desafeições, quinquilharias físicas e espirituais.

Não num cárcere.

Em revista, a partir do lugar onde nasceu como ente público, as fábricas onde trabalhou, as delegacias que visitou, os voos quando nos postos de comando de um povo que anseia por civilização perene, definitiva. Liderou um povo, sim, um povo que desconhece o desdobramento de tudo, as lições do que se viveu. Desconhece os preços da independência e repete sebastianismo.

Sem esperança, repete o modo perpétuo de sonho na prateleira do supermercado. Típico de quem vive em eterna privação. Sobra gana, irmã do ódio. E tudo mais azeda. Foi líder de um lugar onde se espera o surgimento de um povo. Além de um povo, uma civilização.

E uma fortíssima suspeita de que esse dia nunca chegará.

Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 48 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É avesso a hermetismos
e herméticos em geral,
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO

MANUAL DO ATOR PENSANTE PARTE 3 (por Flávio Viegas Amoreira)


‘’ SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR.’’ – PIRANDELLLO.
Santos, 07 de maio de 2.003.

‘’ aplicabilidade, - do método.
‘making-off’ – da carpintaria’’

‘’ William Blake aplicado à dramaturgia;
Corpo e Alma, Arte e biografia, unidade pós-moderna do real e simulacro.’’

-         fractal – estrutura geométrica complexa cujas propriedades, em geral , repetem-se em qualquer escala.  Diritambo - primitivamente
-         canto de louvor ao deus grego Dioniso.
-         ( o Baco dos romanos ).
-         composição poética sem estrofes regulares quanto ao número, de versos e pés. Diritambos.’’

Santos, 09 de maio de 2.003.

‘’ A palavra, Tom , a palavra mesmo que excede seu elemento, - transcende, - se redefine.
-         Comecemos a leitura: seu processo e gestação,
-         ( em cabines pouco maior que um quarto ),
-         ambientação imaginária, o texto ao leitor atento e ali! (aponta) a dupla contracena quase silenciosamente. Vamos! ( mão em riste )
-         leiam em conjunto uníssono.’’

[ ambientação : composição de clima adequado(...) cena literária ].
-         desenformado – retirado da forma (Ô) desmoldado. Adjetivo : ‘desenformado’.
Palavras desenformadas. Midiático / mediático.
Ametria – ausência ou anomalia de medida; desordem. ( trompetes / trumpetes );- nexo entre
o aleatório; - a palavra é um passo bem / mal dado: corre estrada.
‘’ achei o método! rever pontualmente o calhamaço, reter erros na seleção; estrutura básica conceitual; ‘metodológica’. Poesia aplicada ao palco! Insights ambulantes, deambulantes! Poesia cotidiana; dobrar a lírica melancolia. ‘O MÉTODO’; fixar um ponto: desdobram-se artifícios, o nexo causal se impõe---
----- subjetivo é tudo! ‘’
---- do método: em transe / trânsito; verdade se estabelece, consolida, na contundência do poético ( ‘o fazer ofício’ ),- ‘práxis’ literária.
‘separa o poema da prosa: extorquindo o romance, - torná-lo refém do conceito : desestrutura as formas e fluem interagindo --
‘poetizar a prosa dramatúrgica’; da ‘peça em prosa’,- poesia intrínseca.

‘’Nota , Tom, teu canto de estudo e reflete a variedade, o que concerne à permanência, a solidificação no punho de um brado: poetizar!
Abstrair do vasto ou preciso conteúdo. Tom, ao cabo de tudo ,na ponta se fixa a Poesia contida.’’

Santos, 10 de maio de 2.003.

‘’ Parece tanto Arte quanto confissão . Cedemos a deixa, - ator canhoto esmera no efeito preciso em lado oposto. ‘’

[ ‘’Deus é o eterno confidente nessa tragédia de que cada um é o herói.’’ Baudelaire.]

‘’ confissão, Tom , ou técnica de lembrança: sentir mais de novo. Trilharemos outra vez o caminho de retorno: representamos o preenchimento desse hiato repetido: nascimento e morte. Tom, lê muito os que amaram! Montaigne amou um amigo, Wilde um amante,
Pessoa o desejo de ambos juntos. Trilogia de leitura: retórica dos ensaios, exaltação do apego, dramatização do desamparo.’’

[ ‘’ Só te verei um dia e já na eternidade? Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente. Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais, Tu que eu teria amado ---- e o sabia demais.’’ Baudelaire.]

‘’ poetizar , como dizia, abstrair : leite de pedra; o romance menos linear possível , seja até o grau do entendimento.’’
[ A BIBLIOTECA ].
‘’ Tom, - a literatura não tem ordem cronológica, é indivisível por suportes ou narrativas, - sente isso como essa rebentação infreme? Fluxo ordenado, isso é nota de cartório ou obituário;- literatura sem Tempo numerado / o Tempo da literatura é de espera e arranque. Batente, chuva na calha. A literatura por mais ordinária inspira o que sobrevêem de melhor à ela: ato, soneto, enredo, entrecho... trama tosca / estereotipada: transporta isso ao exagero ou reduz em Essência; (des) – tensiona - refaz. ‘Limar’, diria Borges sobre ajuste ao imaginário, o esboço.’’

Santos, 10 de maio de 2.003.

-dizer para o encantamento : espiralada frase correspondia / ‘tropo’
       cidadania podia ser concedida por decreto dos
       atenienses; cidadão por nascimento ou por adoção, impunha-se o registro do mesmo nas
       circunscrições que constituíam a cidade-estado: demos, trítias e tribos.
       Classe censitárias
       (experiência histórica); Grécia insular.
       Poeta – experimento; metecos ( os que habitam com) eram os estrangeiros domiciliados em Atenas.
       coloquializar, do autor autodidata; o escritor pleno, absoluto: diálogo ator-escritor.
       @ ‘há espécies de pensadores e artistas; o autodidata é a mais terrivelmente dura posição independente de sustentar.’
       @ arte-final / arte e finalidade. Reparos, polimento, a lima de Borges.
       ‘’ as duas partes de Henrique IV são plenas de imagens que refletem a preocupação de Shakespeare com a construção’’
       [ ‘a estrutura e imensa fundação da terra].
       ‘’ como alguém que desenha o modelo de uma casa.’’ -[Não fazer poesia como produto acabado, mas trocá-la por estruturas pré-existentes / expondo a fio seus afazeres / laçando sua dor----------- traçando
       definida. O poema / método: tecer os fios dos
       desdobramentos / relêr os esboços sem importância cronológica estreita / flexibilizar os traços / distender as imagens do poema.]
       Santos, 13 de maio de 2.003.

       29 de maio/ 2.003.
       ‘’Manual do Ator Pensante.’’
       - dialogação: princípio pressuposto do texto.
       ‘peça em prosa’, definição aproximada do Diálogo.
      ‘commedia dell”arte, uma forma teatral do gênero ‘comédia pastelão’, com personagens
       tradicionais (Arlequim, Colombina, Pierrô, Pantaleão) e falas improvisadas pelos intérpretes no palco.
       ‘’A épica e o burlesco,- estudemos a apresentação das Formas. Burlesco como apropriação prosaica da comédia cósmica:
       aurora boreal, no translúcido desse copo azul
       de vinho. Burlesco : Tom te apresento o teatro de bolso, nas paredes escrevinho, realço a luz de retinir do plástico. Brilho saído das cópias
       mal-feitas de Campanella: toldaram a vista de
       fulgor sintético, mandando longe a luz dos rios.
       Mataram os rios quando eles mesmo entram nas tuas cidades.   A trama foi morta como o Rio. Esquecemos que somos atuantes títeres de
       infindável trama? Mutante cenário de poeira
       que se molda e toca ao contato? Salvemos o Rio, Tom, é o princípio para caminho longo.’’
       ‘’Tom , ainda será possível catarse?’’
        O que comove ainda? Onde lançam dardos os condutores da Alma? Toda cena é deformação
       perene de mau esboço.’’
       Santos, 31 de maio de 2.003.

[ o manual a partir de Barthes, Jakobson, Stalinavsky.]

Pauline Kael: ‘’ Esta é nova imagem do cinema americano, mostrando o jovem como um animal belo e conturbado, tão cheio de amor e indefeso.
Talvez o pai não o ame, mas a câmera, em compensação, o adora! A câmera oferece ao público um produto tão irresistível, exigindo desse mesmo público exclamações tipo --- Olhe que desespero bonito.!’’ Pauline Kael.
Sobre James Dean, o rosto de ator, o impulso.
Adorno, - o ator pós-moderno.
-         ‘’ A interpretação ainda é necessária , Tom?
-         Até que ponto...? Tom, quem serão os atores?
-         O que será ser? Tom...’’

Santos, 03 de maio de 2.003.
‘’a locução, o vocativo, o enunciado construído ao ser dito / re-‘dizido’; o poema na narrativa ou tragédia se empresta de boca-em-boca   : numa se redime dos excessos e deficiências: Tom!
Molda a frase, mas lembra que antes de ti ela já não foi tua! Não pertencimento é a regra! Toma emprestado como doença de que se cura com purgante! Toma retendo sem lamúria, nem ‘desdizeres’.’’
[ a sopeira dispõem-se sem gênero , irreflexiva, “‘existente ‘ na ‘ocorrência’]. ‘formalista’ ou ‘conteudista’ , aprecio que leia Jakobson e o mestre Constantin; perdoa-se mais autor sem erudição que ator nada lido ou perscrutador! Tom, guarda a aura, não te expõem muito além das milhas do palco! Os meios de apresentação variegados fazem-te perder Alma!
O vôo, o baile, a foto em mau recinto, a revelação definitiva de amor  : deixa- te ator quando assim te apresenta. Liuba ou um Montéquio de pileque causa menos dano que a perda do fausto no prazer mundano. Um ator deve ser só por convicção ou por verdadeiro sofrimento. Casar?
Isso é para os principiantes religiosos? A representação bem feita e observada só tem paralelo à física quântica em valência e incerteza!
Nada mais verdadeiro que teu fingimento, portanto finge necessário ou sem mais acompanhamento...’’

[ linha de ação contínua].

‘’O excesso de exposição soa justificação; não demonstra, mostra. Confessar, assumir é para bandidos: na verdade, ‘denota’ atuando , sendo no momento. Lembra, o ator pela voz do escritor é que mais se aproxima de qualquer possibilidade ou aproximação. Tudo se coloca para adequação do personagem.’’
‘’ Há tautologia nesse impasse contemporâneo: atuar, interpretar, Jimmy, é fundir espanto com resistência,- essa melancolia toda se converte em possibilidade, gesto, imprecação, traço, reflexo, -         e todo acúmulo crítico pós-moderno gesta: é um saco a súplica saudosa, acomodar-se no niilismo : desde já Arte! A literatura , veja:
-         se parece tanto fluxo ejaculatório...’’

‘’ O QUE TORNA A VOLÚPIA TÃO TERRÍVEL É TALVEZ O FATO DE QUE ELA NOS ENSINE QUE TEMOS UM CORPO.’’ YOURCENAR.

‘’ Cessa aqui nosso primeiro encontro: antes de seguires ao mundo serra acima, tentemos estabelecer relação de prosseguimento:
pensar o escritor pelo ator, segues enquanto me alivio refletindo
Arte. Arte e Mãe sugerem mesmo núcleo. Ventre seguidor .’’

‘’’Sente,aprecia, percebe e retêm em ti o sentido poético : se explícito ou não à ti só cabe bem dizê-lo. Que cheio te encontre, contenha mundos, aprofunda, quando regurgita só expõe a fímbria, a frágil tessitura correspondente.’’

Santos, 11 de julho de 2.003.

‘’Edword Hill,- roupa esporte e peruca nobre em desajeito: remonta ‘haikais’ em prosa, - quer ser transposto ao teatro, curto-seco-cool cheio como chat , -‘short-cut’, -prosa-fragmentada.
Uma tristeza na cena do banho , pós-banho, ver a paisagem estreita , azul de sabonete gasto, - quando mais jovens mais passam pêlos, pelos pentelhos , desfiando água, verão que imunda o corpo. Um atento espectador se põe no palco: soberano sobre o intérprete ensaboado, - repete-lhe a fala, segue a deixa, dão-se as dálias , - vida não cessava naquele enxugar com a cena de porta aberta. Na primeira fila, o mesmo do que é composto as preliminares de sexos. Pensava num ato sobre Wickelman; flagrantes ocasionais , desterro na Austrália – também convidado como autor iniciante deslumbrei com simulação da cena. Caracteres sobrepostos: atuação requer percepção e prioridade instantânea: onde atuo primeiro? A lenda precisa ser encenada com ênfase ! alguém porta a lenda sem restituir : doa-se, fode-se sem volta: ninguém pira de vez no palco! Tom, ele dita notas taquigráficas de Deus, -hermeneuta insone , sem escrutínio ou resguardo : rala prá cacete, samba-dança , conecta o que éramos, o que percebemos um no outro, a prece não atendida. Toda noite recolhe essa esteira e o biombo. Uma gana, um martírio concentrando tudo que mentimos nele: e chamam-no farsante!’’

Santos, 15 de julho de 2.003.

‘’’O ator é um crítico voluntarioso do texto, - Mr. Eliott, - interpassa, repõe entendimento ao lentificado da palavra escrita, ideada, impressa no instante intuído. Por que ainda carrega guarda-chuva? Alinha tudo no aparador e senta ao chá.’’
[‘Um crítico vale , não pela excelência dos seus argumentos, mas pela qualidade de sua escolha.’]

‘’Quando na estréia ou já nos bastidores passo de enfermo ao imponderável são... homem desprotegido / humanidade desprotegida / êxito impositivo. Não ! interpretando a metáfora performática , o que é Vida de dentro se mostra. Guerra ao apressados cartesianos: terapeutas do sucesso, esse terríveis vilipendiadores do pensamento; a superfície. Miudezas, sem reducionismo. Sopa, chá e biscoito,- ritual de gueixa de paletó e gravata surrados com pano xadrez de xale. A xícara e o gole, ninguém que sofrer pensando...’’

‘’ sinto calores na solidão, me envolvem e pedem dizer, expressar, estar diante, tornam insuportável o calor as vontades de te contar.’’

Santos, 15 de julho de 2.003.

‘’ Esperava tua chegada ontem, mas sei da preparação, e mormente , a rota sinuosa entre escarpas traiçoeiras até a praia resvalada. Tom, cede à almofada, deita de frente e te conto
Reconhece em tudo pré-olhar e retira o travo. Refaz o sonho no período fértil, aproveita e anota... escreve e corrige. O olhar do saber pelo desejo. O ‘Senhor Azul’ é o manuscrito aqui estudado, você ator falta erigi-lo. Tudo carece finalização na peça, no ato, nos contornos da concomitância: o vento do Dia molda o meu drama ao gosto do método, - liberdade direcionada. Pensei tanto no texto, em nossa Vida juntos, e notei que formamos a concretização, Tom, de uma metáfora ou símbolo: o ator espelha em segunda instância, espelhando! o gesto primordial : brinca, enfara, corrige-se, arremeda, vocaliza... percebe o tanto de humanidade diante do Universo tens representado mil-maneiras!?
Lançar-se liberto pelo rochedo, em gesto ou em signo como eu contigo: o intertexto, a poetização das querelas e fúrias. Ator e escriba gestando algum paralelo possível. Sabe, entre o teatro e a poesia uma contenda entre gêmeos: representar antes ou depois de viver, Tom, é tudo assim andrófilo, não se produz com desígnio de produção definitiva. A casa, essa praia em ferradura, a colina de onde espreitei o ocaso, - como estando na platéia ou palco , um amor masculino incompreensível à quem não denote inversão até algo muito próprio, diferenciado, de acústica e plasticidade em par de anjos. Entendo os elisabetanos. Interpretar é tão erótico quanto te amar em segredo.’’

[ ‘’ Certo os personagens. Mas, aqui, meu caro senhor, quem representa não são os personagens. Quem representa aqui são os atores. Os personagens ficam ali, no texto (indica a caixa do ponto)... quando existe um texto.’’
‘’Diretor- Exatamente. Já que não existe e coube aos senhores a sorte de tê-los aqui, vivos, diante de si, os personagens...’’
‘’Ah! garanto-lhes que dariam um belíssimo espetáculo.’’]

Pirandello, (é preciso distribuir os papéis).

‘’ Encontrar papéis transmutados,- revigorados, entretecidos, o palco se renovando através da resistência à tornar-se obsoleto.
O que tornaria o essencial desnecessário, Tom? Inutilizado o que há de substante.
Substante?
Sim substante, sinal carrado de satisfação renovada pelo mundo.
Não se fala mais mundo, é preciso mundo! mundo! mundo!’’

[ ‘’Com certeza não pensam que sabem representar, não é?’’
Diretor]

‘’ O contrário, Tom, é certeza duvidada. Comecemos pelo contraditório das falas, dos sintomas, das desejações Poder na atuação, ver-se transtornado.’’

[ ‘’ Arranja-se com a caracterização.’’]

‘com a maquilagem’- Diretor.

‘’Triangulação primeira entre eu, tu e Pirandello.
Oou Pessoa que seremos mil. Queneu e Perec, milhares!
Não pranteia estar aqui eu, tu e a Literatura! Somos tantos
Que podemos merecer. Aí é o ator percebendo.’’


Falo-te de Brando pela solidão exigente, representava a partir de sua precariedade arrogante: amante, soldado, angustiado, sempre destacava-se do conjunto cênico: a solidão impõem-se quando se atinge grau de especificidade teatral.


Publicado originalmente em
MEIO TOM - POESIA & PROSA
editado por Constancio Negaro.
http://www.meiotom.art.br


Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Vem sendo estudado como uma das vozes
da pós-modernidade literária brasileira
em universidades americanas e européias.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).