Tuesday, March 26, 2019

REFLEXÕES SOBRE UM VOTO A MAIS (por Fernando Gabeira)

publicado originalmente em O GLOBO
e no ESTADÃO (24 MARÇO 2019)


A Lava Jato fez cinco anos com impressionantes números internos e grandes repercussões na política continental, algo que não se destaca muito aqui, no Brasil. Mas na semana do aniversário sofreu uma derrota: por 6 votos a 5, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que crimes conexos ao caixa 2 vão para a Justiça Eleitoral.

Os políticos acusados de corrupção terão um alívio. A Justiça Eleitoral não está aparelhada para investigar, dificilmente colherá provas. Alívio maior ainda é saber que, mesmo com excesso de provas, como no julgamento da chapa Dilma-Temer, ela decide absolver.

Há um novo marco adiante: a votação da prisão em segunda instância. Se o grupo que resiste à Lava Jato vencer, trará alívio não só para investigados, como também para os presos.

A Lava Jato vinha de uma semana difícil com a história da fundação que usaria R$ 2,5 bilhões para combater a corrupção. Era dinheiro da Petrobrás a ser devolvido ao Brasil pelos Estados Unidos. Os procuradores compreenderam rápido que era melhor recuar da ideia e deixar que o dinheiro seja usado de acordo com prioridades democraticamente definidas. Mas os adversários souberam aproveitar o tropeço.

O ministro Gilmar Mendes chegou a afirmar que havia intenções eleitorais na decisão dos procuradores de usar o dinheiro contra a corrupção. E levou o nível da tarde ao de um programa do Chaves, chamando os procuradores de gentalha.

Creio que os ministros perceberam que derrotar a Lava Jato ia custar a todos uma certa oposição social. E de fato houve reação nas redes e na rua. Algumas reportagens indicavam que era uma reação de bolsonaristas contra o STF. Penso que transcende um grupo determinado.

Dias Toffoli compreende que está diante de uma situação grave. As sessões são públicas, a rede comenta e ataca os ministros. No entanto, sua reação de determinar inquérito no Supremo e escolher um delegado para conduzi-lo deu a impressão de estar com medo e isolado.

Com medo porque, de fato, o nível de agressividade aumenta, até com posições que fariam Rui Barbosa virar no túmulo: acabar com o STF. Isolado porque o Supremo é um órgão superior, existem estruturas judiciárias próprias para isso. Por que desprezá-las? Elas só desenvolvem inquéritos sobre acusações específicas, não uma hostilidade difusa contra os ministros.

Na verdade, Toffoli deu uma carteirada. Como em toda carteirada no Brasil, no princípio as pessoas ficam meio surpresas. Em seguida, pensando bem, conseguem ver as coisas nas dimensões legais.

O inquérito determinado por Toffoli pode ser contestado legalmente e, sobretudo, no campo político. Até que ponto procuradores e parlamentares que preparam uma CPI da Lava Toga não podem interpretar isso como uma tentativa de intimidação?

Não será o fim do mundo entregar os crimes conexos ao caixa 2 à Justiça Eleitoral, muito menos acabar com a prisão após julgamento em segunda instância. Se vão fazer isso, aguentem o tranco, sem apelar para saídas autoritárias. Quem anda pelas ruas não ouve críticas ao STF apenas de seguidores de Bolsonaro. Há algo mais amplo e potencialmente agressivo. E se a reação for essa que Toffoli lançou, as coisas podem ficar muito piores. Em vez de as pessoas lutarem contra juízes que veem apenas como cúmplices dos políticos, eles vão ser vistos também como autoritários e antidemocráticos.

Algumas previsões eleitorais temiam passos autoritários do governo. O Supremo e o Parlamento seriam contrapesos democráticos. Se o próprio Supremo avança o sinal, aumenta uma percepção de insegurança. Não creio que os parlamentares se vão intimidar.

O caminho escolhido por Dias Toffoli agrava a situação. Abre-se uma perspectiva para uma luta mais áspera ainda. Já chegamos ao nível do programa vespertino Chaves com a gentalha, gentalha de Gilmar. No programa, gentalha é um achado; no diálogo institucional, uma barbárie.

A Lava Jato continuará com apoio popular. A entrada de Sergio Moro no governo ainda é uma incógnita. Ela é baseada no propósito de ampliar o trabalho da operação, levá-la além dos seus limites com um conjunto de leis e uma nova atitude do Executivo. Todavia não é garantido que os parlamentares respaldem majoritariamente suas propostas. E parece haver no governo uma luta interna com potencial desagregador. As notícias que vieram de Washington, sobretudo a entrevista de Olavo de Carvalho, revelam uma linguagem também corrosiva, em especial quanto aos militares.

Se a maioria ocasional entre os ministros prevalecer e derrotar de novo a Lava Jato, certamente haverá reações. Toffoli mostrou-se um pouco sem norte nesta primeira etapa. Se insistir nesse tipo de resposta, tende a sair enfraquecido.

Uma nova derrota da Lava Jato também terá repercussões no Congresso e, pelo que ouço, o tom lá contra alguns ministros do STF tem a mesma carga emocional das ruas. Uma CPI da Lava Toga tem o potencial de trazer uma grande pressão, criar tensões institucionais. A luta ainda está longe do desfecho, mas vejo que pode ser áspera, com os políticos estimulados pelas ruas. O aspecto delicado é que ela tem o potencial de pôr em confronto, ainda que parcialmente, duas instituições com que contávamos como contrapeso democrático.

Será preciso muita maturidade para avançar daqui para a frente, máxime neste momento crucial de luta entre diferentes maneiras de tratar a corrupção. Não deveriam ser tão excludentes. Quando um ministro se coloca como inimigo da Lava Jato, perde a isenção, propõe, na verdade, um duelo com a maioria da sociedade e parte substancial do Congresso.

Tomar sucessivas decisões impopulares com um estilo de briga de botequim é uma escolha. O próprio STF, instituição destinada a resolver conflitos, transformou-se num núcleo conflitivo. Uma fábrica de crises entre um e outro chá.



Fernando Gabeira, escritor, jornalista e ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro (1998-2010), nascido em 1941, é mineiro de Juiz de Fora e carioca por opção desde 1963. É pai de duas filhas: Tami e Maya. Destacou-se como jornalista, logo no início da carreira, na função de redator do Jornal do Brasil, onde trabalhou de 1964 a 1968. Os colegas de redação diziam que o estilo marcante dos textos de Gabeira podia ser reconhecido até em bilhetes. No final dos anos 60, ingressou na luta armada contra a ditadura militar. Foi preso e exilado. Em dez anos de exílio, esteve em vários países. Testemunhou no Chile, em 1973, o golpe militar que derrubou Salvador Allende. Mais tarde, retrataria a queda e o assassinato de Allende em roteiro para a TV sueca. Na Suécia, país onde viveu mais tempo durante o exílio, exerceu desde o jornalismo, principalmente na Rádio Suécia, até a função de condutor de metrô, em Estocolmo. Com a anistia, voltou ao Brasil no final de 1979. Nos anos seguintes, Gabeira dedicou-se a uma intensa produção literária, construindo as primeiras análises críticas da luta armada e impulsionando no Brasil temas como as liberdades individuais e a ecologia. Livros como O que é isso Companheiro, O crepúsculo do Macho, Entradas e Bandeiras, Hóspede da Utopia, Nós que Amávamos tanto a Revolução e Vida Alternativa apontaram novos horizontes no campo das mentalidades e colocaram na berlinda uma série de velhos conceitos da vida brasileira. Em 1986, candidatou-se ao governo do estado pelo Partido Verde e inaugurou uma nova forma de militância política. Os tradicionais comícios e passeatas, sisudos e cinzentos, ganharam uma nova estética. Dois momentos culminantes foram a passeata Fala, Mulher, que coloriu a avenida Rio Branco de rosa e a cobriu de flores, e o Abraço à Lagoa, em que milhares de pessoas deram as mãos em torno da Lagoa Rodrigo de Freitas, produzindo um dos momentos de maior força simbólica e plástica da cena política brasileira. Nos anos seguintes, Gabeira continuou jornalista, escritor e tornou-se um dos principais líderes do PV. Em 1987, cobriu em Goiânia o acidente radioativo com o césio 137 e escreveu seu décimo livro, Goiânia, Rua 57 – O nuclear na Terra do Sol. Sua atuação política e jornalística foi marcante em diversos outros fatos importantes da vida nacional, particularmente os ligados à questão ambiental, como a investigação do assassinato de Chico Mendes, a interdição da usina nuclear de Angra I por problemas de segurança e o encontro mundial dos povos indígenas em Altamira (PA). Em 1988, lançou o livro Greenpeace: Verde Guerrilha da Paz, uma reportagem-ensaio que apresentou ao Brasil a filosofia e os bastidores da maior organização ecologista do mundo. Em 1989, foi candidato a presidente da república. Gabeira era, já então, a mais visível liderança de uma nova opinião pública, mais escolarizada, mais atenta a questões ambientais, culturais e éticas. No mesmo ano, como jornalista, assistiu a queda do muro de Berlim. Em 1994, elegeu-se deputado federal pela primeira vez. (1998)(2002) Foi um dos mais influentes deputados do Congresso Nacional. Em 2006, foi o candidato mais votado no estado. Em 2008, Gabeira foi candidato a Prefeito e liderou uma onda verde no Rio que, apenas por pouquíssimos votos, não o fez prefeito da cidade. Em 2010, foi candidato a Governador e terminou a disputa em segundo lugar, com 20% dos votos. Tentando traduzir a importância de Fernando Gabeira na vida política nacional, a revista Veja escreveu que ele era “o guerrilheiro da lucidez, a materialização das utopias impossíveis”. É um grande elogio: não é fácil harmonizar lucidez e utopia.



FÁBIO CAMPOS ASSISTIU E RECOMENDA "NÓS", NOVO FILME DE JORDAN PEELE



Sempre tive um problema em relação a Corra!. Foi difícil aceitar o Oscar de roteiro quando eu torcia para Três Anúncios Para Um Crime, mas o Oscar e o filme elevaram Jordan Peele à categoria de celebridade. A grande maioria dos críticos se curvou ao filme, viu uma forte e elaborada metáfora ao racismo, enquanto eu só consegui ver um filme divertido com uma pegada forte de filme B. Agora veio Nós, que teve um trailer instigante, e eu fui assistir tentando compensar a má vontade que tive com o filme anterior.

O filme começa com uma garotinha que se perde dos pais num parque de diversões e vai parar num labirinto de espelhos – daqueles típicos de parques de diversões toscos – e então acaba encontrando com uma cópia de si mesma, numa cena deliciosa, que antevê o clima de tensão do filme.

Depois disso avançamos no tempo e reencontramos Adelaide, a garotinha já crescida – Lupita Nyong’o, num grande papel –, voltando para o mesmo lugar, agora com a família, marido e dois filhos, para a casa que foi de sua Vó.

Adelaide precisará encarar os seus traumas e voltar à praia e ao parque de diversões de anos atrás, mas o isso só serve pra manter o clima de tensão, nada de especial acontece, o problema começa quando eles voltam pra casa e uma família similar à deles aparece na frente da casa. Aí começa a tensão, já prevista no trailer. A família não é similar, são exatamente iguais a eles, exceto por um modo mais bruto de se comportar. Há uma necessidade de vingança, nunca deixada bem clara mas, vocês se deram bem e nós nos demos mal, isso já é um bom motivo pra conflito.




Esse conflito consigo mesmo é o que mantém a primeira metade do filme, a tensão de como escapar de si mesmo e a dúvida de como aquelas pessoas foram parar ali sustenta essa metade, o que não é pouco.

Aí, pra mim, vem a grande diferença entre Corra! e Nós. Em Corra!, depois da metade, o filme se torna escancaradamente uma homenagem aos filmes de terror B, algo que eu não consegui comprar totalmente e me fez sair do cinema um tanto incomodando. Em Nós não existe a necessidade exagerada de explicar, as coisas acontecem e a tensão está lá. Foi algo muito mais fácil de comprar do que no filme anterior.

O clima de tensão constante e muito bem construído me remeteu a filmes de Hitchcock, especialmente Os Pássaros. Quando o filme chega à luz do dia, as coisas passam a ser mais explicitas e os conflitos passam a ter de ser resolvidos na base da porrada, claro que Hitchcock nunca chegaria a isso, mas estamos falando com uma plateia complemente diferente daquela com que ele falava, é preciso algo diferente.



Assim como Corra!, é possível enxergar uma série de metáforas em Nós, se o filme anterior tratava explicitamente de racismo, Nós pode tratar de vários outros temas. É possível enxergar facilmente uma crítica à desigualdade e uma valorização da liderança – alguém pode levar a massa a algo muito maior do que ela consegue entender. Além disso há uma boa e divertida referência à cultura pop, criando situações divertidas no meio de toda a tensão.

Ao final de tudo isso, Peele consegue entregar um final engenhoso – algo muito raro em filmes de terror – que consegue nos deixar incomodados.

Jordan Peele é um daqueles amantes do cinema que tem referencias no passado, mas que estão dispostos a fazer cinema para as novas gerações e, levando em conta o resultado dos seus últimos filmes, é algo muito maior do que a maioria tem feito. Espero que isso continue na nova versão de Além da Imaginação que ele está preparando para estrear esse ano.



NÓS
(Us 2019)

Diretor
Jordan Peele

Escritor
Jordan Peele

Elenco
Lupita Nyongo'o
Winston Duke
Elisabeth Moss

Duração
1h 56m



Fábio Campos convive com filmes e música
desde que nasceu, 52 anos atrás.
Seus textos sobre cinema passam ao largo
do vício da objetividade que norteia
a imensa maioria dos resenhistas.
Fábio é colaborador contumaz
de LEVA UM CASAQUINHO.


EDUARDO CAVALCANTI COMENTA A "MEXICAN INVASION" EM HOLLYWOOD EM PRÓXIMA PARADA










Eduardo Rubi Cavalcanti
é jornalista desde a década de 80.
Trabalhou em A TRIBUNA de Santos
e em outras publicações.
É Mestre em Comunicação Social
pela Universidade Metodista de São Paulo
e leciona Jornalismo na Unisantos,
onde cursou sua graduação.
Publica domingo sim, domingo não,
em A TRIBUNA de Santos,
a página PRÓXIMA PARADA,
que reproduzimos aqui.



DIÁLOGOS DE PLANTÃO (por JR Fidalgo)


DIÁLOGOS DE PLANTÃO 




E agora?


E agora o quê?


O que você vai fazer?


Por que a gente tem sempre que fazer alguma coisa?


Por que é a ordem natural das coisas. Acaba uma coisa, começa outra.


Se é assim, a gente não precisa fazer nada, já qua as coisas simplesmente começam assim que as outras coisas acabam.


Não enrola. Você sabe do que eu estou falando.


Não, não sei do que você está falando e gostaria que você me deixasse em paz, aqui no meu canto. Eu não preciso fazer porra nenhma pra continuar existindo. Basta continuar respirando, é o suficiente. Será que você é tão idiota que não percebe isso?


Você vai acabar se intoxicando, tendo uma overdose.


De quê?


De tanto ar entrando pelo seu nariz.


Não seja estúpido.


– Tudo bem, então diz aí!


Diz aí o que, porra?


O que você vai fazer agora?


Nada, absolutamente nada. Vou ficar sentado aqui, quieto, bem quieto, respirando…


-Boa sorte, então.


Obrigado. Abra a janela antes de sair.





JR Fidalgo: um jornalista que tem preguiça de perguntar, um escritor que não tem saco pra escrever e um compositor que não sabe tocar. (mas que, mesmo assim, já escreveu três romances e uma quantidade considerável de canções ao longo dos últimos 45 anos)



AUGUSTA ERA SÓ E IMENSA (por Flávio Viegas Amoreira)



O quarto tinha sido arrumado pela diarista que a acompanhou por cinco anos gentis, tudo disposto com esmero sem tirar o jeito distinto de Augusta nesse mundo indiferente.  Pensei na meia dúzia de vasos com antúrios na pequena sacada, a estante brilhava de uso e eu perguntei ao zelador sobre os parentes distantes. Apartamento parecia ter o tamanho do seu despojamento:  lembrei do chá de erva-doce nos dias frios e a cerveja preta no almoço; deveras ela dizia, deveras.... Sábia não teve filhos não faltaram amantes nos anos antes do recolhimento e nenhum apego a animais domésticos, ela era sábia melhor adjetivo extenso a tudo que refletisse sua inquietação mansa.  Seria tão somente eu a remexer seus guardados....

- Ela deixou para o senhor essa mobília espero que tenha uso ´Seo Alfredo´.  Ela estimava sua família sua luta o carinho da sua esposa...

-  Levo a geladeira e fogão os moveis vão para meu sobrinho que casa Dr. Rodrigo

- Me ajuda abrir aquela cômoda e eu entrego a chave quando sair na portaria.  Vez ou outra eu passo por aqui saber de cartas e algum recado.  Forte abraço Alfredo.

Ela me acenava rapidamente, por vezes encetávamos conversa, sabia que eu era ator, tinha ar de dama inglesa, uma sobriedade indiferente, bebia no mesmo bar um delicado cálice de campari seguido de aguardente isso aos sábados. Tudo nela contrastava com o redor do mundo da esquina do comércio das coisas do bulício da cidade . Alguns meses quando vim de Nova York já fizera amizade e conversávamos quando em dias de chuva ou festas de final de ano. Tentara escrever poesia, fora correspondente de guerra,  era frugal nos gastos por natureza nunca mesquinhez, recusou ajuda do governo de sua terra de origem, escolhera o Brasil na cara e coragem e ponto final para todo risco,  solidão,  falta de contato. Tirou ovário, quebrou o pulso,  nunca recorreu a ninguém para quase nada. ´´Não incomodo ninguém para não ser incomodada´´ - dizia com sorriso maroto. Passados dois anos de convívio ela notara que eu também era um desgarrado do bando e me confiara alguns pontos altos da vida: o amor por um pai carinhoso, a morte da mãe na infância, uma irmã bem casada e nenhuma expectativa sobre seu futuro além mar desde que se embrenhara na selva como missionária leiga duma ONG humanitária. Usou eufemismo para dizer uma grande amizade por uma companheira de viagem que se estabelecera no Rio de Janeiro. Fazia algum tempo não dava notícia desde sua viuvez. Me solicitara ensinar-lhe mandar e-mails e o rudimentar daquela internet que surgia em 1999 : ´´Não quero aprender esse troço , mas sei importante, me ajuda nisso ´Rodrrrigo´ com o gutural de meu nome acentuando o imperdível sotaque de alsaciana. Ela falava alemão logicamente, arranhava italiano, se recusava ao inglês sem necessidade mesmo tendo um jeito desleixado de Virginia Woolf, tentara aquarela razoáveis, me dedicou algumas tapeçarias esmeradas mas principalmente reunira em muitos anos versos que tinha certeza a fariam uma nova Emily Dickinson habitante das matas brasileiras encerrada na velhice num quarto e sala na beirada do mar. Estiquei-me naquele outono perto da sacada com luz intensa ,  desfiei os laços dos guardados de Augusta e um calhamaço em linhas seguras de papel sulfite entre correspondências, outros cadernos escolares e uma pasta recheada compunham seu inventário ao mundo que nunca lhe dera sinal de apreço ou entendimento ao menos. No alto do livro improvisado um título nítido como o sol prematuro que me acordara dessa aventura: ´´Anabella´´.


Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).
Este é seu mais recente trabalho publicado: