Friday, September 22, 2017

A ESPEVITADA ASIA ARGENTO COMPLETA 42 ANINHOS, E NÓS AQUI COMEMORAMOS



Pouca gente sabe, mas o nome de batismo da bela e talentosa atriz e diretora Asia Argento é Aria Maria Vittoria Rossa Argento.

O oficial do cartório onde ela foi registrada em Roma se negou a aceitar o nome Asia, por mais que seus pais – o cultuado diretor de filmes B Dario Argento e a atriz e roteirista Daria Nicolodi – insistissem.

O jeito foi consertar isso mais adiante, transformando Asia como nome artístico.

E assim nasceu a carreira deste mulherão do cinema internacional.



Desde menina, Asia Argento foi de dificílimo trato, dona de uma rebeldia implacável, e vivia fugindo de casa em sua adolescência.

Talvez toda essa rebeldia fosse sintoma de muito talento contido esperando para aflorar, pois, de uma hora para outra, Asia se descobriu no trabalho de seu pai e desenvolveu um gosto por filmes sobre serial killers e marginais em geral.

Trabalhou como atriz na maioria dos filmes de seu pai realizados depois de “Demônios 2”, de 1986, quando tinha apenas 10 anos de idade, e, pouco a pouco, foi-se transformando uma bela mulher, passando a alternar sua carreira como atriz com a de modelo fotográfico.



Em meados dos Anos 90, quando Asia Argento começou a ganhar seus primeiros prêmios como atriz e passou a receber convites para trabalhar em filmes de ação e de terror nos Estados Unidos, ela começou a vislumbrar uma carreira como diretora de cinema.

Começou como documentarista, realizando um filme sobre a trajetória de seu pai intitulado “Calling The Shots” (1996), e dois anos depois retornou com outra documentário, dessa vez sobre o diretor italiano Abel Ferrara, amigão de seu pai, intitulado “Abel Asia” (1998), que ganhou vários prêmios pelo mundo afora.

Daí até sua estreia como diretora e roteirista no ousado longa de ficção “Scarlet Diva” foi um pulinho – e a consagração não demorou a vir.



Asia Argento foi a mais jovem diretora de cinema de seu país e a primeira a realizar um filme digital do cinema italiano.

Fala italiano, francês e inglês fluentemente, e atua com sotaques naturais em qualquer dessas línguas. Tem uma filha de seu casamento com o ator e compositor Marco Castoldi, e um filho com o diretor de cinema Michelle Civeta. Sempre foi muito namoradeira: Vin Diesel, Jonathan Rhys Meyers e Abel Ferrara que o digam. Atualmente, ela vive com o cozinheiro, escritor e cidadão do mundo Anthony Bordain.

E como se isso não bastasse, Asia é também uma escritora de respeito. Seus contos foram publicados em publicações italianas de prestígio, e seu romance, "I Love You, Kirk" (1999) foi muito bem recebido por crítica e público.



Aos 42 anos muito bem vividos, a carreira de Asia Argento segue de vento em popa.

Devem ser lançados ainda este ano dois filmes que ela rodou simultaneamente com seu ex-marido Michelle Civetta: “The Executrix” e “Regular Boy”.

Vem aí também a animação “Sticky Fingers – The Movie!”, uma comédia apocalíptica baseada nos famosos quadrinhos da DustMafiaComics, onde Asia entra apenas com sua voz.

Celebramos seu aniversário escolhendo 8 títulos bem interesssantes em sua filmografoa, disponíveis nas estantes da Paradiso Videolocadora.

PERIGOSA ATRAÇÃO
(B.Monkey, 1998, 91 minutos, direção: Michael Radford)

Um jovem professor de Londres (Jared Harris) está cansado de sua vida comum. Quando conhece Beatrice (Asia Argento), uma mulher como nenhuma que ele já conheceu, uma ex-prostituta que atende por B. Monkey, tudo muda. Ela o ajuda a romper barreiras e o conduz por uma jornada ultrajante, perigosa e sexy pelo lado selvagem de Londres. Só que o passado dela como ladra de jóias e prostituta, os contatos anteriores dela, e um antigo amor (Jonathan Rhys Meyers), podem atrapalhar os planos dos dois. Filmaço. 

A DIVA ESCARLATE
(Scarlet Diva, 2000, 91 minutos, direção: Asia Argento)

Anna Battista (Asia Argento) é uma jovem e popular atriz que se envolve em uma louca viagem pela Europa. Neste filme -- o primeiro dirigido e roteirizado por Asia -- que beira a auto-biografia, a atriz (da ficção) vai à Paris para salvar uma amiga que está numa relação autodestrutiva. Só que a viagem começa a destruir Anna. Depois de se envolver e ser abandonada por um astro do rock, ela se descobre grávida e começa a se drogar para esquecer os problemas nos quais se meteu. O filme ficou famoso por mostrar cenas de nudez extremamente ousadas de Asia, o que dificultou um pouco sua entrada em alguns mercados 15 anos atrás – um prenúncio da caretice e da ditadura do politicamente correto que iria tomar conta do planeta e que viveríamos nos dias de hoje. Um filme muito ousado, e uma estreia corajosa de Asia como diretora. 
TERRA DOS MORTOS
(Land Of the Dead, 2005, 97 minutos, direção: George Romero)

O futuro tornou-se um pesadelo onde a sociedade de consumo chegou a um extremo. Os zumbis tomaram o controle do planeta. Os poucos humanos que conseguiram sobreviver vivem agora em uma cidade cercada por muros, que impedem a invasão dos zumbis. Enquanto que as ruas da cidade são dominadas pelo caos, os mais ricos vivem isolados em prédios extremamente protegidos. Em meio às brigas internas na cidade os zumbis planejam um novo ataque, já que estão atualmente em uma forma mais evoluída da espécie. É o tipo de filme habitual de Romero, só que aqui com um elenco de respeito, onde se destacam Dennis Hopper, Asia Argento, Simon Baker e Simon Pegg. Muito, muito divertido. Até para quem não curte habitualmente filmes de terror. 

MALDITO CORAÇÃO
(The Heart Is Deceitful Above All Things, 2004, 97 minutos, direção: Asia Argento)

  Segundo filme dirigido por Asia, tão intenso e devastador quanto seu filme de estréia, “Scarlet Diva”. A trama é de assustar: ainda criança, Jeremiah (Jimmy Bennett) é retirado contra sua vontade de sua família adotiva extremamente careta (Peter Fonda e Ornella Mutti) por sua mãe biológica, Sarah (Asia Argento). Obrigado a viver ao lado dela, Jeremiah cai num mundo sombrio e marginal, e passa por situações violentas que envolvem, entre muitas outras coisas, drogas a rodo e pedofilia. “Maldito Coração" é uma odisséia trash que lembra vagamente os primeiros filmes de Todd Solonz, e que recebeu elogios muito consistentes pelo mundo afora. Aqui no Brasil, o crítico Ruy Gardnier da conceituada revista ContraCampo, escreveu: “De Asia Argento esperávamos sujeira, conteúdos escandalosos, intimidades que poderíamos ficar sem ver, entre outras coisas que ela coloca na frente da câmera e que costumam constranger os espíritos menos suscetíveis. Mas de Asia Argento não esperávamos sob hipótese alguma esse apuro de detalhes e esse cuidado com a imagem que aflora de forma assustadoramente rigorosa em Maldito Coração.” 

TRANSILVÂNIA
(Transylvania, 2006, 120 minutos, direção: Tony Gatlif)

Zingarina chega à Transilvânia, região da Romênia, à procura do homem que ama. Ela o conheceu na França, mas ele partiu sem qualquer explicação. Com sua amiga Marie, Zingarina, grávida, viaja fascinada pelo país, mas o encontro com Milan não é como ela esperava. Sua vida toma outro rumo quando conhece Tchangalo, um homem solitário e livre como ela. Um drama absolutamente inusitado e surpreendente. Espere o inesperado. 
A ÚLTIMA AMANTE
(Une Vieille Maitresse, 2007, 104 minutos, direção: Catherine Breillat)

Situado entre a filosofia de alcova do Marquês de Sade e de Chordelos de Laclos e o início do romantismo, o filme é um flerte aberto com o amor desmedido. Conta a história de Ryno de Marigny ,um alpinista social na França do começo do século 19, que é amante de uma mulher madura, mas casa-se com uma mulher mais jovem. O enfoque do filme é bem feminino, e mostra a sexualidade feminina numa sociedade controlada pelos homens na qual as mulheres tentam adquirir uma liberdade ainda é exclusiva deles. Um filme belíssimo, com uma suntuosidade cênica surpreendente e um tom levemente operístico que lhe dá um diferencial muito curioso. Altamente recomendável. 
NA GUERRA
(Dans La Guerre, 2008, 130 minutos, direção: Bertrand Bonnello)

O cineasta Bertrand vive um pouco afastado do mundo, perdido em utopias. Ao visitar uma funerária como locação para seu novo filme, acaba preso dentro de um caixão, onde é obrigado a passar a noite. Após esta experiência, acorda diferente e repensa sua vida. Seguindo o convite de um homem misterioso, vai parar numa comunidade isolada na floresta que segue uma disciplina marcial em busca de satisfação permanente. Lá ele aprende que, para se alcançar o prazer hoje, é preciso travar uma guerra contra o mundo moderno. Um filme interessantíssimo. Asia está magnífica como Uma, uma das moradoras da comunidade, com quem ele se envolve. 
INCOMPREENDIDA
(Dans La Guerre, 2014, 110 minutos, direção: Asia Argento)

Aria é filha de um pai astro de cinema (Gabriel Garko) e uma mãe pianista (Charlotte Gainsbourg). Nenhum dos dois tem tempo para ela. O pai só pensa na carreira, a mãe, em seus concertos. As irmãs mais velhas, de casamentos anteriores, abusam de Aria e, para complicar, ela descobre que papai e mamãe estão se separando. Incompreendida, desenvolve um precoce talento de escritora e refugia-se em sua ficção. A companhia preferida é o gato. Asia conta essa história (meio parecida com a dela própria) em ambientes solares, com cores vivas, mas todo esse colorido e vivacidade vira acinzentado no imaginário da garota. Predomina uma certa delicadeza, quebrada pelo tom caricato de algumas interpretações, que forçam o humor. Um filme surpreendente.



 

O FILME DA SEMANA É "MÃE!", A MAIS NOVA AVENTURA CINEMATOGRÁFICA DO GENIAL DARREN ARONOFSKY


por Luiz Mendonça (de Lisboa) para

 


Estreia-se hoje um filme caseiro de guerrilha, disruptivo e inconformado, que ataca o coração do nosso comodismo tão século XXI. É uma obra que vai à luta, que não tem medo de sujar as mãos e que se apresenta profundamente implicada na realidade que retrata. Visão simultaneamente satírica e horrífica do mundo sentimental. Retrato diabólico de we, the people que nos faz rir e gritar – no seu clímax conseguimos fazer essas duas coisas ao mesmo tempo. Com um riso estampado no rosto, gritamos: socorro! Gritar à gargalhada assim, dando uso à exclamação que Darren Aronofsky colocou no título para assinalar tanto a extensão do gesto – linguagem alegórica de extrema lucidez e bárbara violência – como o alcance deste filme-grito – um vírus áudio/visual que estranha e entranha, não cessando de nos trabalhar por dentro bem para lá das luzes da sala voltarem a acender. Fica já a mensagem neste parágrafo introdutório: apoie o cinema americano, o cinema americano com tomates, e vá ver Mãe! (2017).

Ao contrário do que se tem dito e escrito, não há nada em Mãe! que sucumba ao “delírio pelo delírio” ou a um auto-complacente capricho ou exercício de vaidade do seu realizador. Nem tão-pouco quer este filme baralhar as cabeças dos pobres espectadores. Entenda-se: o filme é bárbaro, mas o cinema que o fabrica é de uma acuidade e lucidez notáveis. Portanto, não, este não é um exercício cheio de “pontos de interrogação” ou “what the fucks”, como se tem vendido. O filme está, sim, repleto de pontos de exclamação. São eles que vão pontuando, em crescendo, uma parábola sobre a – não “uma”, mas “a” –  brutal saga doméstica de todos nós, os vivos. Começa, aliás, por ser um muito concreto retrato da sacrossanta instituição social chamada “casa”. A casa como house e como home. E como corpo. Do quê ou de quem propriamente? De uma relação heterossexual branca mais ou menos exemplar: ele, por Javier Bardem, ela, por Jennifer Lawrence. Um casal-modelo habitando uma casa isolada do mundo que, muito especialmente, a doce esposa preserva com todo o amor do mundo, pintando ou repintando as paredes, mobilando ou adornando os quartos… Cada divisão é o espelho de um amor cristalino.


O que acontece, no entanto, é que a câmara de Aronofsky entra de rompante pela porta da frente. Não avisa ou pede licença. Simplesmente, entra por ali adentro. E é mal educada. E estilhaça o que era cristalino no amor. O filme começa verdadeiramente aqui, na sua má educação. A saga matura-se em pleno acto de invasão. Invasão da câmara dentro da casa, mas também das pessoas que a vão tomando inopinadamente até ao momento em que a real proprietária já não conseguir dar conta do recado sobre quem está onde, a fazer o quê. E, pergunta inquietante que se agarra à pele, também a nossa de espectadores impreparados para tamanha ousadia: para quê tudo isto? Para quê toda esta… celebração diabólica? O terror, como se sabe, partilha o mesmo campo semântico da palavra território. A administração do terror é, enfim, a administração do território. A câmara de Aronofsky teoriza sobre esta coincidência semântica. Casa (house/home) como corpo, corpo como casa do mais… perfeito amor.

Esta ideia de que estamos sós, entregues aos nossos medos pré-fabricados – pelos media -, ocupa, em pleno, esta fábrica de tudo, este circo terrífico que é a casa de Lawrence e Bardem neste filme de puta madre de Darren Aronofsky.

Desde o início, Mãe! fez-me recordar um cartoon. É a história do homem de gengibre na sua casa de gengibre. Ele grita porque não sabe se a casa é feita dele ou se ele é feito da casa. A casa e Jennifer Lawrence têm o mesmo tipo de relação. Por isso, gritamos: socorro! Já viramos em Black Swan (Cisne Negro, 2010) como Aronofsky é capaz de fabricar um terror localizado na carne, mas é aqui que ele filma a sua grande “metamorfose”, a meio caminho entre a carne e a parede, entre o sonho capitalista – a casa como o paraíso de todas as comodidades – e o terror descontrolado da criação – Bardem interpreta um poeta martirizado, que não consegue escrever, que não consegue foder.


O que se passa é que Mãe!, dividido em dois grandes blocos, é em si mesmo um filme que se transforma na sua própria pele. O que assinala definitivamente a mudança – de pele, claro – é a entrada em cena de Kristen Wiig. Para os cinéfilos mais atentos, por exemplo, apreciadores das comédias de Paul Feig, a aparição de Wiig é a mensagem mais eloquente sobre o que muda. No primeiro bloco, temos o registo horrífico, de home invasion, devedor de Repulsion (Repulsa, 1965) e The Strangers (Os Estranhos, 2008); o olhar implacável do matrimónio e da maternidade, algures entre Rosemary’s Baby (A Semente do Diabo, 1968) e Possession (Possessão, 1981); um princípio de reflexão sobre o isolamento e a natureza perversa da criação vizinho de Un tranquillo posto di campagna (Um tranquilo lugar na província, 1968); e a desfaçatez extrema que nos mordisca a alma tanto quanto… esse verdadeiro naco de cinema anarquista chamado Killer Joe (2011). No segundo bloco, nomeadamente quando Wiig entra em cena, acresce a mais exclamativa comédia própria de uns Monty Python salpicada pelo body horror de David Cronenberg.

Disparando para todos os lados, o delírio – um delírio audaz, incisivo, controlado, nunca vaidoso e aleatório como se tem bradado – toma conta da casa e transforma-a num circo que faz troça das mais variadas representações de convulsão, de destruição e de guerra que preenchem, em zapping, os ecrãs dos nossos Iphones e televisores. É uma mass mediática orquestração do horror em plena casa familiar – havíamos visto algo assim nos filmes de Kleber Mendonça Filho. Esta casa é a nossa casa, a do filme e a de Jennifer Lawrence – já a percorremos tanto e tão intensamente até aí que, quase por osmose, ela passou a ser parte de nós. É aqui que Mãe! se constitui como um cocktail molotov arremessado contra as nossas mais cristalizadas expectativas.


A torrente de situações é de tal ordem que perdemos as nossas coordenadas. Apesar disso, sabemos muito bem onde estamos fisicamente, tal como sabemos perfeitamente que estamos numa saga sem fim, e sem redenção. Mas é só por isso que Mãe! grita? Não, até porque a grande revelação está no começo, no começo antes do começo do terror, o que marca a entrada na casa dos “estranhos”. É aí que aparece o tema do acto poético como acto de destruição e renovação. O filme deleita-se com a ideia de fim e, por isso, o fim é o começo e o começo é o fim. Como Lawrence perdida na sua própria casa – desapossada do que é seu.

Lembra-se o leitor de Luis Buñuel e da mensagem escrita no quadro da sala de aula em Las Hurdes (As Hurdes: Terra Sem Pão, 1933), esse documentário que o espanhol filmou e montou como se fosse um filme de horror? “Respetad los tienes ajenos.” Mãe! exclama esta lição também. E à sua maneira põe o dedo na ferida, numa parábola política audaz, no que diz respeito às nossas fobias pelo “lugar do outro”, por aquilo que não controlamos e que nos entra em casa, pele adentro. Esta ideia de que estamos sós, entregues aos nossos medos pré-fabricados – pelos media -, podia pertencer a uma fábrica de nada, mas ocupa, em pleno, esta fábrica de tudo, este circo terrífico que é a casa de Lawrence e Bardem neste filme de puta madre de Darren Aronofsky.


MÃE!
(Mother!, 2017, 121 minutos)

Roteiro e Direção
Darren Aronofsky

Elenco
Jennifer Lawrence
Javier Bardem
Ed Harris
Michelle Pfeiffer
Domhnall Gleeson
Kristen Wiig
Brian Gleeson
Jovan Adepo
Stephen McHattie

em cartaz nas redes Roxy e Cinemark

 




COISAS DO BRASIL: PROCURA-SE UM BOM FANTASMA (por Álvaro Carvalho Jr.)


Procura-se um fantasma. Mas não um fantasma comum: um lençol branco com dois olhos negros saracoteando por corredores escuros. Precisamos de um que venha substituir um exército de mortos-vivos que vêm nos infernizando por muitos anos. Eles estão perambulando em todas as direções, por todo País, particularmente Brasília, arrastando suas correntes malditas e infernizando nossas vidas. É preciso dar um fim nisso...

Esses mortos-vivos têm uma resistência incrível. Multiplicam-se como a velocidade dos leporíados; conhecem tudo de hereditariedade, tanto que seus filhos e filhas seguem seus passos sem pestanejar e repetem os mesmos desmandos de seus pais sem a menor cerimônia. Isso sem contar com a mania que têm de distribuir cargos a torto e a direito para familiares, amantes, agregados e afins.

Não poderemos ter, por exemplo, um fantasma trágico como o da Ópera. Não duraria muito tempo no meio de tamanhas raposas mortas-vivas. Sentimentalismo, baixa auto-estima e, um sério empecílho: fiel demais a um grande amor, coisa que praticamente não existe entre os mortos vivos.

Talvez a melhor solução fosse um Bras Cubas. Esse incrível fantasma/autor, que nasceu da maravilhosa cabeça de Machado de Assis. Ele poderia destilar sua ironia, seu sarcasmo e sua sagacidade no meio dessa cambada de mortos vivos e desmoralizá-los, transformá-los num ridículo tão grande que acabariam no descrédito e iniciariam uma espécie de auto-destruição, livrando nos desse martírio infindável que é a história da política brasileira. O risco é Bras Cubas aderir aos mortos-vivos, o que seria uma tragédia total. Outra boa opção seria o Cavaleiro sem Cabeça, uma solução bem mais radical, violenta e estúpida. Mas aí os Direitos Humanos...

Assim, a escolha de um bom fantasma é quase impossível. Não precisamos de um Sir Simon, o imortal fantasma de Canterville, criado por Oscar Wilde, e que é atropelado pela família Ortis, americanos práticos e sem qualquer senso de espiritualidade. No meio dos mortos vivos de Brasilia, o assombrado sairia assombrado e, pior, desmoralizado. Muito menos nos ajudaria um fantasma como Rei Hamlet, da Dinamarca, um sujeito cheio de problemas, baixa auto estima, complicado e que passa o tempo inteiro na dúvida:”ser ou não ser, eis a questão...”.Nem seria ouvido, mesmo exigindo questão de ordem...

Precisamos, isso sim, de um fantasma que tenha a capacidade de unir este País. De jogar no lixo, definitivamente, jargões como “nóis e eles”, como se um país pudesse ser tratado dessa maneira. Um fantasma que faça as reformas necessárias para que nossa economia deixe de ser uma caixa de Pandora que, aberta, transforma-se numa tragédia. Precisamos de alguém sério, mais cambado para o pragmatismo do que para a ideologia.

Não precisamos de um Fantasma de Natal (Dickens é um saco...) mas, talvez, nossa grande solução seja um Vadinho, o imortal fantasma de Jorge Amado que satisfaz Sônia Braga mesmo depois de morto; que quebra tabus e passa por cima de dogmas. Irônico, beberrão, farrista e irreverente, talvez ele seja o cara que possa trazer de volta aquele Brasil alegre e feliz e enterrar este Brasil atual: chato, que defende o politicamente correto, onde tudo pode se transformar numa enorme guerra de palavras e onde ideologia começa a superar a razão. Sim, talvez o grande Vadinho seja nossa solução...quem sabe?

Álvaro Carvalho Jr. é jornalista aposentado
e trabalhou para vários jornais e revistas
ao longo de 40 anos de carreira.
Colabora com LEVA UM CASAQUINHO
quando quer e quando sente vontade,
pois, como dissemos acima,
Álvaro Carvalho Jr. é jornalista aposentado.

 


O NORUEGUÊS E OS PINGUINS (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)



Roald Amundsen é um herói europeu e de grande parte daqueles que se apaixonaram por expedições. Ele é fruto de uma mentalidade que renasceu com impacto na passagem do século XVIII para o século XIX, quando cientistas e aventureiros resolveram conhecer e explorar lugares exóticos e distantes do planeta, muitos deles infelizmente a serviço de governos com o olhar colonizador. Tratava-se, em parte e com algumas diferenças, da retomada do período das grandes navegações.

O vírus colonizador não infectou Amundsen, nascido na Noruega e, portanto, habituado ao mundo gelado desde a infância. Em 1899, ele foi imediato do navio Bélgica, que fez a primeira invernagem no continente antártico. Um dos integrantes da embarcação era o cientista polonês Henryk Arctowski, o primeiro a fazer um estudo meteorológico da Antártida.

O norueguês, no entanto, entrou para a história em 14 de dezembro de 1911 quando, acompanhado por 52 cães e quatro trenós, alcançou o Pólo Sul, penúltimo extremo do planeta a ser atingido pelo homem. O último foi o Monte Everest em 1953. Na corrida ao Pólo Sul, Amundsen derrotou o capitão inglês Robert Scott, que chegou ao mesmo ponto em 14 de janeiro de 1912 e morreu de frio, ao lado de dois homens, no retorno da expedição.

Esses viajantes tiveram influência na transformação da Antártida no único continente neutro da Terra. O espaço não pertence a nenhum país e há um acordo de preservação coletiva e desenvolvimento de pesquisas científicas até 2050. O Brasil é um dos países que trabalham no local. Cerca de 50 cientistas de várias universidades pesquisam e monitoram a Antártida a partir da Estação Comandante Ferraz. Aliás, o nome é estação, pois base apresenta conotações militares, o que difere dos objetivos idealizados para a Antártida.

Nesta semana, as comunidades científica e ambiental arregalaram os olhos com a divulgação de um estudo chefiado por Eric Rignot, do Instituto de Tecnologia da Califórnia. De acordo com a pesquisa, o aumento de perda de gelo no continente cresceu 75% nos últimos dez anos. São 192 bilhões de toneladas de gelo a menos apenas em 2006. O cientista Jonathan Bamber, em entrevista a Eduardo Geraque, da Folha de S. Paulo, disse que quatro bilhões de toneladas de gelo, por exemplo, abasteceriam de água o Reino Unido por um ano.
O estudo não foge á regra recente e aponta as mudanças climáticas como responsáveis pelo problema no continente antártico. Em outras palavras, a temperatura marítima esquentou, provocando o derretimento acentuado das calotas polares, em função da elevação da temperatura atmosférica.

Se a Amazônia é considerada o pulmão do planeta e, a partir daí, ganhou importância geopolítica na agenda diplomática, a Antártida pode ser vista como os rins, de igual peso para o equilíbrio do sistema ambiental, principalmente nos oceanos. O degelo na Antártida afeta, por exemplo, o nível do mar. A relação entre os dois lugares é tamanha que cientistas já localizaram na Antártida partículas decorrentes de queimadas da Amazônia.

Ninguém se arrisca a fazer previsões. Contudo, as reações ambientais em cadeia já são suficientes para gerar temores, inclusive com base histórica. Na Península Antártica, região do continente onde fica a estação brasileira, a temperatura subiu 5 graus Celsius nos últimos 50 anos.

O ecossistema na Antártida é um dos mais frágeis do planeta. Os organismos apresentam maiores dificuldades em se adaptar às mudanças no clima. Muitas espécies, entre elas os pingüins, tem que percorrer distâncias cada vez mais longas em busca de alimentação. Os verões, nesta década, foram mais extensos, o que interfere também o ciclo reprodutivo de muitos animais e plantas.

Este cenário se constitui somente em mais um indicativo de que as discussões ambientais devem sair da mesa dos burocratas ou dos debates de boutique de shopping center. O investimento em ciência também se posiciona como fundamental para se buscar saídas de curto, médio e longo prazos, além de mecanismos de prevenção. O recado vale ainda, com força na palavra, para o Governo brasileiro, que investiu míseros R$ 25 milhões no Programa Antártico (Proantar) em 23 anos. A prática política tem que incorporar o valor da ciência, que traz intrinsecamente a curiosidade pelo mundo e a relação apaixonada entre homem e natureza, que colocaram indivíduos como Amundsen na história.


(publicado originalmente em 28 de Janeiro de 2008)

Marcus Vinícius Batista
é o cronista santista número um, ponto.
É autor de "Quando Os Mudos Conversam"
Realejo Livros),
coletânea de crônicas escritas
entre 2007 e 2015,
e mantém uma coluna semanal
no Boqueirão News
que é aguardada com avidez
por sua legião de leitores.
Atendendo a um pedido
de LEVA UM CASAQUINHO,
ele se dispôs a resgatar
algumas de suas crônicas favoritas
escritas nos últimos anos
para republicação no BAÚ DO MARCÃO.

 


CAFÉ & BOM DIA #75 (por Carlos Eduardo Brizolinha)


Não é só Wally que sofre de incompletude, tenho a mais absoluta certeza que sofro também. Sou carente como ele de ser mais, um bolo mal assado, um leitor fóssil por meia opção e tenho urticária com obras de autores de condomínio. Pirandelamente recebo do olhar dos outros que sou esquisito, hermético e tenho o nariz torto. O viés torto, oblíquo de través como Wally. Sigo na incompletude que me afasta da mesquinhez dos submetidos e nos limites aconselháveis para manter distância da exterior descrição metafísica do cotidiano, carregada com o predador vírus da mesmose. Meu fichário de arte parou no século XX. Não sei se Wally Salomão foi além, mas cada um com sua incompletude.


Monsieur Cognac rouba a cena e Tony Curtis vira coadjuvante. Tristão batizou seu cão com o nome de Husdent, Isolda para não sentir saudades de Tristão fica com Husdent, quando Tristão volta disfarçado de louco seu cão o reconhece. Milênios antes Ulisses é reconhecido pelo seu cão Argos. Cesar Lattes ministrava suas aulas voltado para seu cão. Goya tem uma fantástica tela batizada com o nome " Cachorro enterrado na areia ", confesso desespero, solidão absoluta, com os olhos voltados para um céu vazio. Roosevelt imortalizou seu cão num discurso que ficou conhecido como " Fala Speech ' , pois usou a figura de seu cão. França Mitterrand teve a cadela Baltique, labrador negro que suavizou seus últimos dias e foi a seu funeral. Paul Jean Toulet, poeta, imortaliza seus dois cães. "Meu cão se chama Tom, e minha cadela Djaly”. Josefina compartilhou o leito com Napoleão e o seu inseparável Fortuné. Gustave Flaubert, um dos grandes escritores, dono de incrível senso de humor, faz registro de Piton na sua obra Salambo. Albert Camus em "O estrangeiro", Salamano maltrata seu cão, mas não se separam. Kafka faz Karo odiar seu dono, merecia ser odiado. Nos anos loucos Scott Fitzgerald e Edmund Wilson compuseram uma cancioneta "Dog dog dog" que num trecho diz " apesar de eu estar na pior/você vem para mim...". Fitzgerald não parou por aí e escreveu a novela, A manhã de Shaggy, na qual o herói é o cão. Inesquecível final do Vida de cachorro. Chaplin e Edna Purviance vivendo o amor no campo e Scraps contemplando com orgulho sua ninhada. Não há um só dia que o meu companheiro tenha deixado de fazer festa quando chego em casa.


Mesmo antes de ter a companhia de meu primeiro amigo de quatro patas, tinha eu um cão imaginário que diante das contrariedades pré-adolescente me levava a responder assim, "...E lá vou eu, eu e meu cachorro". Desde estes tempos anotava tudo que lia, coisa que faço até hoje, sempre anotei os cachorros citados na literatura. Essa maluquice começou com Rin-tin-tin, Capeto, Lobo e por ai vai. Baleia me fez derramar lágrimas, Quincas Borba me divertiu e meu sentimento construiu um respeito muito grande. Creio que este sentimento foi para muitos, é para alguns. Veja, nos anos loucos Scott Fitzgerald e Edmund Wilson compuseram uma cancioneta "Dog dog dog" que num trecho diz "apesar de eu estar na pior/você vem para mim..." Fitzgerald não parou por aí e escreveu a novela, A manhã de Shaggy, na qual o herói é o cão. Jack London nos legou Buck em "O Chamado da Floresta", e Caninos Brancos ambos uma lição da relação com os cães. Virginia Woof nos legou "Flush - Memória de um Cão" que foi baseado no cão de estimação de Elisabeth Browning. O autor de "Matadouro 5" - Kurt Vonnegut, um grande livro, teve como companhia o seu cão chamado Pumpkin. Posso falar de E. L. Doctorow com seu cão Becky e Dorothy Parker autora que gosto muito com sua cadela Misty. E Lord Byron com a poesia para o Pilot? Me traz muita alegria lembrar de Brigitte minha gata, Juca meu gato e minhas cadela Xantipa, Poliandra, Penélope. Todos ao lado de Argos no Olimpo e conviver com meu parceiro atual Titus Andrônico Tuco que é a soma de todas as raças caninas.


Doce memória na manhã tropical brasileira. George Sand (Amandine-Aurore-Lucile Dupin, baronesa de Dudevant, Paris, 1804 — Nohant, 1876). Participou do movimento romântico, aderiu aos ideais socialistas de Saint-Simon e adotou o modo de vida da boêmia literária. Seus romances, sentimentais e idealistas, em que os personagens se preocupam exclusivamente com o amor, conquistaram os leitores da primeira metade do século 19. Principais obras: Indiana (1832), Mauprat (1837), La Petite Fadette (1849). Em 1836, em uma festa organizada pela condessa Marie de Agoult, amante do compositor Franz Liszt, Chopin conheceu Amandine-Aurore-Lucile Dupin, baronesa Dudevant, mais conhecida por seu pseudônimo, George Sand. Ela foi uma escritora romântica francesa, conhecida por seus inúmeros casos amorosos com Prosper Mérimée, Alfred de Musset (1833-34), seu secretário Alexandre Manceau (1849-1865) e outros. Chopin inicialmente não encontrou atrativos nela. "Algo sobre ela me repele", disse ele à sua família. Sand, entretanto, em uma carta datada de junho de 1837 a seu amigo o conde Wojciech Grzymała, discutiu sobre o que fazer para afastar Chopin de sua namorada Maria Wodzińska, ou para abandonar outro caso. Sand sentiu uma grande atração por Chopin e o persuadiu até começar um relacionamento. George começou a escrever para o jornal Le Figaro, com a colaboração de Jules Sandeau. Usavam, então, o pseudônimo de Jules Sand – inspirado no nome de Sandeau. Em 1831, seu primeiro livro " Rose et Blanche ". Passou a usar o pseudônimo de George Sand em 1832, quando escreveu, sozinha (obrigada a usar um pseudônimo masculino, para ser aceita no meio literário), o romance Indiana, seu primeiro livro, seu primeiro sucesso. Em 1832, já com o pseudônimo de George Sand, público em Indiana e Valentine e no ano seguinte foi um grande sucesso com o romance Llia .Depois da ruptura com Sandeau começou sua relação com a.de Musset (1833-1834).Neste período em novelas Jacques (1834), André (1835) e Mauprat (1837). Em 1838 ela começou sua longa relação com Chopin. A História de Minha Vida (Histoire de Ma Vie, 1854-1855) e Ela e Ele (Elle et Lui, 1859), referência à sua vinculação a Musset. e a Pequena Fadette merecem atenção.


SOU ENCANTADO COM O CONHECIMENTO DE JOSÉ PAULO PAES E DELE VOU PREGAR SUA DELICIOSA BRINCADEIRA

Poeta, tradutor, ensaísta. Nasceu em Taquaritinga, São Paulo. Na casa em que veio ao mundo havia livros de seu avô para ler desde criança... Estudou química industrial em Curitiba e iniciou-se na literatura nos círculos paranaenses em voga em meados dos anos 40 que frequentavm o Café Belas Artes. Publicou seu primeiro livro de poema em 1947 – O aluno. Mas é em São Paulo, a partir de 1947, que amadurece em convivência com personalidades fulgurantes como Oswald de Andrade e outros modernista, depois pela amizade com os concretistas sem nunca chegar a filiar-se a tais grupos.

SEU METALÉXICO
economiopia
desenvolvimentir
utopiada
consumidoidos
patriotários
suicidadãos

Eis que com óculos Miguilin deve ter visto o mundo televisivo assim.

BOM DIA E CAFÉ É E SEMPRE SERÁ.


Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta
é poeta e proprietário
da banca de livros usados
mais charmosa da cidade de Santos,
situada à Rua Bahia sem número,
quase esquina com Avenida Mal. Deodoro,
bem ao lado do Empório Homeofórmula,
onde bebe diversas xícaras de café orgânico
ao longo de seu dia de trabalho.