Monday, October 31, 2016

NOSSO ANIVERSARIANTE DE HOJE É UM DOS MAIORES "HONKERS" DE TODOS OS TEMPOS



NOSSO ANIVERSARIANTE DE HOJE
É UM SAXOFONISTA QUE PASSOU SUA CARREIRA
TRANSITANDO ENTRE O JAZZ E O RHYTHM & BLUES
COM UMA "NONCHALANCE" ABSOLUTAMENTE ÚNICA,
TANTO NA HISTÓRIA DO JAZZ
QUANTO NA HISTÓRIA DO RHYTHM & BLUES.
FIQUEM COM UM TRECHO (30 MINUTOS)
DE UM DOCUMENTÁRIO QUE FIZERAM SOBRE ELE,
ILLINOIS JACKET,
TALVEZ O MAIOR "HONKER" DE TODOS OS TEMPOS,
INTITULADO "TEXAS TENOR"

(nota: "honker" é uma gíria do pessoal do rhythm & blues
para designar "saxofonistas tenor") 







POEMINHA DA SEMANA: OLHOS DE RESSACA (por Geraldo Carneiro)



OLHOS DE RESSACA
Geraldo Carneiro

minha deusa negra quando anoitece
desce as escadas do apartamento
e procura a estátua no centro da praça
onde faz o ponto provisoriamente

eu fico na cama pensando na vida
e quando me canso abro a janela
enxergando o porto e suas luzes foscas
o meu coração se queixa amargamente
penso na morena do andar de baixo
e no meu destino cego, sufocado
nesse edifício sórdido & sombrio
sempre mal e mal vivendo de favores

e a minha deusa corre os esgotos
essa rede obscura sob as cidades
desde que a noite é noite e o mundo é mundo
senhora das águas dos encanamentos

eu escuto o samba mais dolente & negro
e a luz difusa que vem do inferninho
no primeiro andar do prédio condenado
brilha nos meus tristes olhos de ressaca

e a minha deusa, a pantera do catre
consagrada à fome e à fertilidade
bebe o suor de um marinheiro turco
e às vezes os olhos onde a lua

eu recordo os laços na beira da cama
percorrendo o álbum de fotografias
e não me contendo enquanto me visto
chego à janela e grito pra estátua

se não fosse o espelho que me denuncia
e a obrigação de guerras e batalhas
eu me arvoraria a herói como você, meu caro
pra fazer barulho e preservar os cabarés.





Geraldo Carneiro nasceu em Belo Horizonte em 1952, 
mas vive no Rio de Janeiro desde os três anos de idade.
É poeta, roteirista de cinema e TV e teatrólogo.
Participou ativamente da geração de poetas da chamada 
poesia marginal (da qual sempre se considerou marginal).
Estreou em livro quando ainda era estudante de Letras
na PUC-Rio em 1974, ao lado dos poetas Cacaso, 
Francisco Alvim, João Carlos Pádua e Roberto Schwarz.
Publicou mais tarde os livros "Verão Vagabundo" (1980), 
"Piquenique em Xanadu" (1988), "Pandemônio" (1993), 
"Folias Metafísicas" (95), "Por Mares Nunca Dantes" (2000), 
"Lira dos Cinquent’anos" (2002), "Balada do Impostor" (2006) 
e "Poesia Reunida" (2010).
Publicou os livros de prosa "Vinicius de Moraes: a Fala da Paixão" 
(Ed. Brasiliense, 1984) e "Leblon: a Crônica dos Anos Loucos" 
(RioArte-Relume-Dumará. 1966), e traduziu sonetos de Shakespeare
na coletânea "Sonhos da Insônia" (1977), ilustrado pelo ator 
e humorista Bento Ribeiro, filho do escritor João Ubaldo Ribeiro.
Acaba de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras.







O CRÍTICO DE CINEMA CARLOS CIRNE INDICA 'LOUIS DRAX" E "ROMANCE À FRANCESA"


“A NONA VIDA DE LOUIS DRAX”: O SAMBA DO ROTEIRISTA DOIDO
por Carlos Cirne para Colunas & Notas


Louis Drax (Aiden Longworth) não é um menino comum. Ele é uma criança “propensa a acidentes”. Segundo sua própria mãe, Natalie (Sarah Gadon, de “Drácula: A História Nunca Contada”), se ele fosse um gato, já estaria gastando sua nona vida. E desta vez, sofreu mais um acidente, bastante grave.

Louis é encontrado na base de um despenhadeiro, sua mãe é encontrada vagando, em choque, e seu pai, Peter (Aaron Paul, da série “Breaking Bad”), desapareceu. Não se sabe bem o que aconteceu, pois a família estava comemorando o nono aniversário do menino.

Louis é levado desacordado para o hospital e, chegando lá, dado como morto. Duas horas depois, ele desperta de um severo caso de hipotermia, e entra em coma profundo. A partir de então, fica numa unidade de acompanhamento de pacientes comatosos, sob os cuidados do Dr. Allan Pascal (Jamie Dornan, o Mr. Grey de “50 Tons de Cinza” e da espetacular série “The Fall”), que talvez seja o médico mais antiético da face da terra.

Explico: além de se envolver pessoalmente, além dos limites, com Louis, seu paciente, ainda se enreda romanticamente com a mãe dele, cujo marido está desaparecido e é o principal suspeito do acidente de Louis, seu filho que está em coma! E, o pior de tudo: eles formam o casal mais sem graça do cinema nos últimos anos; química zero. E tudo isso, que parece um grande spoiler, não é nem metade das reviravoltas que o filme dá.

Dramaturgicamente, o roteiro de “A Nona Vida de Louis Drax” é um verdadeiro queijo suíço, dada a quantidade de buracos que apresenta. Além de não se definir entre um romance, um suspense, uma fantasia, um thriller policial ou um filme sobrenatural – porque atira em todas estas direções – ainda coloca em cena algumas das mais inapropriadas cenas hospitalares que se tem notícia, dignas de um “General Hospital” (novela vespertina norte-americana, que já dura mais de 50 anos), com direito a cena de sexo, inclusive. Sem falar no “samba do roteirista doido” que é a solução encontrada para desenredar a trama, no terço final do filme.

Tudo isso e mais personagens bizarros, incluídos aleatoriamente, confusas idas e vindas no tempo, acabam por colocar por terra um filme que poderia até ser interessante (como o trailer sugere), mas que se perde no roteiro absurdo de Max Minghella (estreia do filho do saudoso Anthony Minghella, diretor de “O Paciente Inglês”, 1996; “O Talentoso Ripley”, 1999; e “Cold Mountain”, 2003), na direção frouxa do francês Alexandre Aja, e desperdiça bons atores como Oliver Platt (o Dr. Perez, analista de Louis), Barbara Hershey ( a avó de Louis, Violet) e o próprio Aiden Longworth, o Louis Drax, bom ator mas sem muita chance aqui. A conferir.

A NONA VIDA DE LOUIS DRAX
(The 9th Life of Louis Drax, 2016, 108 minutos)

Direção
Alexandre Aja

Elenco
Jamie Dornan
Aiden Longworth
Sarah Gadon
Aaron Paul
Oliver Platt
Barbara Hershey

em cartaz no Cinespaço Miramar Shopping




"ROMANCE À FRANCESA": UM POÇO DE CONSIDERAÇÃO
por Carlos Cirne para Colunas & Notas


Clément (Emmanuel Mouret, também roteirista e diretor do filme) é um poço de consideração. Além de professor dedicado de pequenas crianças, é um bom pai e mantém uma sincera amizade com a ex-esposa, que o abandonou por seu melhor amigo. Sua única “extravagância” é não perder nenhuma peça ou filme da famosa atriz Alicia Bardery (a bela Virginie Efira, da comédia “Um Amor à Altura”, 2016), que ele considera a “mulher perfeita”.

Por uma armação do destino (e de um duvidoso roteiro), Alicia precisa de um professor para ser tutor de seu sobrinho, e Thomas (Laurent Stocker), diretor no colégio onde Clément dá aulas (além de seu amigo pessoal), o indica para a posição. E, é claro, Alicia acaba se enamorando de Clément. Apaixonados, vão morar juntos. Fim do filme? Não é nem o começo.

Só que no segundo ato, praticamente todos os personagens parecem dar uma guinada de 180° em suas atitudes. Menos Clément. Ele continua bom, considerado e, digamos, um banana. Porque nesta parte entra em cena a aspirante a atriz Caprice (Anaïs Demoustier, beirando a insuportável), que se interessa por Clément, e faz de tudo para se instalar em sua vida, mesmo sabendo de sua relação com Alicia. Sem pudicícia ou resquício de culpa, chega a ser desagradável de se observar a insistência com que Caprice se insinua para Clément, até declarar que não se importa em ser sua amante. Desapego, independência ou baixa autoestima? Ou extrema misoginia do roteirista?

Mas, o pior de tudo são as relações entre Clément e os outros a seu redor, assim como de Alicia e do próprio Thomas entre eles. Parece que a paixão está no ar constantemente, e é acionada por um interruptor de muito fácil acesso.

Pior ainda é o desfecho, que contrapõe tudo o que se pregou até então na história, investindo num otimismo descabido em personagens tão cosmopolitas ou resolvidos como estes. Sem falar numa incômoda narração em off (santa praga!), que tenta explicar o inexplicável.

O diretor/roteirista Emmanuel Mouret deve ser grande fã de Woody Allen – repare na fotografia ensolarada e na trilha sonora jazzística, além dos diálogos ágeis e jocosos –, principalmente de sua fase de comédias mais leves, mas certamente Allen teria revisto este roteiro, ou então o radicalizaria definitivamente. Neste meio-termo, dificilmente. De qualquer forma, experimente.

ROMANCE À FRANCESA
(Caprice, 2015, 100 minutos)

Direção
Emmanuel Mouret

Elenco
Virginie Efira
Anaïs Demoustier
Laurent Stocker
Emmanuel Mouret
Thomas Blanchard
Mathilde Warnier


em cartaz no Cinespaço Miramar Shopping

Carlos Cirne é crítico de Cinema
e há 14 anos produz diariamente
com o crítico teatral Marcelo Pestana
a newsletter COLUNAS E NOTAS,
de onde o texto acima foi colhido.




ESCRACHANDO O DEMÔNIO COM UM CHUTE NOS BAGOS #2 (um folhetim de J R Fidalgo)


MIJANDO NO BECO, O ESPÍRITO SANTO
E A ARTE DE FICAR INVISÍVEL
(1ª temporada, episódio 02)


Ainda estava no palco e alguém avisou que tinha que ir até o saguão da entrada do auditório para autografar o livro.

Disse que antes precisava ir ao banheiro. Nos bastidores escuros, vi um luminoso vermelho dizendo SAÍDA. Escapei por ali.

Realmente desesperado pra mijar, fiz xixi no beco atrás da faculdade onde havia feito a palestra, o workshop ou sei lá o quê.

Aliviado por esvaziar a bexiga, feliz por ter conseguido fugir da sessão de autógrafos e com medo de ser flagrado mijando quando deveria estar assinando livros, comecei a lembrar da loucura que me levou àquela situação, numa sequência de coincidências estúpidas, fatos improváveis e mal entendidos sem sentido.

Um velho amigo, com quem não mantinha contato há anos, me localizou no esconderijo onde tentava me aperfeiçoar na arte de ficar invisível.

Por e-mail e depois por celular, primeiro pediu desculpas por invadir minha “caverna”, depois perguntou se eu não estaria interessado em levantar alguma grana para continuar a bancar financeiramente a minha jornada espiritual rumo à invisibilidade.

Meses atrás, um antigo colega de uma editora onde trabalhou comentou que havia recebido uma encomenda de uma igreja onde havia um pastor pentecostal prodígio, na faixa dos 11 ou 12 anos. O garoto começava a fazer sucesso nos programas de rádio e televisão que a igreja mantinha em várias emissoras espalhadas pelo país.

Uma espécie de conselho superior da igreja, após “consultar o Espírito Santo”, decidiu que era hora de transformar o pastor prodígio em um poderoso líder espiritual, capaz de enfrentar e superar o nível de popularidade dos mais famosos pastores midiáticos do momento. Afinal, um pré-adolescente que tinha o poder de falar em nome do Espírito Santo era, sem dúvida, um apelo de marketing muito forte.

O tal conselho concluiu que, para completar a estratégia de criar seu superstar neopentecostal, o pastor-prodígio precisava lançar um livro.

Não podia ser um livro parecido com os que dezenas de pastores andavam lançando nos últimos tempos.

O conselho achava que tais livros eram todos iguais, muito impregnados de citações bíblicas e redundantes menções a Deus e Jesus Cristo, mas distanciados do cotidiano onde os fiéis lidavam com seus problemas materiais, sentimentais, sensoriais, etc., etc.

Outro problema é que esses livros usavam uma linguagem muito “litúrgica”, ou algo que o valha. Então, o “pulo do gato” para turbinar a carreira do pastor-mirim seria uma espécie de livro de autoajuda explícita, com o aspecto religioso colocado sutilmente em segundo plano.

Pesquisas de instituições estrangeiras ligadas à igreja, além de algumas “revelações feitas diretamente pelo Espírito Santo”, haviam indicado que as pessoas estavam ansiando por um “neopentecostalismo de vanguarda”, seja lá o que isso significasse.

Haveria mensagens “evangelizadoras” baseadas em métodos de pensamento positivo simples, tipo os que apareciam nos calendários Seisho-No-Ie.

Seriam incluídas ainda algumas “citações científicas” coletadas de certas revistas femininas e programas vespertinos de TV, além de dicas para emagrecimento e outras “modernidades cotidianas”.

Isso traria o Evangelho para mais perto do dia a dia das pessoas. E tudo dito por um garoto iluminado que conversava diretamente com o Espírito Santo.

Resumindo, mais autoajuda secular de fácil assimilação e “menos Deus bíblico”, embora este continuasse sendo o “psicanalista supremo do Universo” e aquele que acabava realmente resolvendo as coisas, como os leitores acabariam descobrindo no final do livro.

Para fazer tudo isso acontecer, muito dinheiro estava sendo arrecadado para o projeto, por meio de generosas doações secretas de muitas pessoas importantes, no país e fora dele, cuja identidade ninguém seria capaz de imaginar.

O grande senão nessa história toda era que o colega de meu amigo estava se separando da esposa e, por causa disso, pretendia sumir para um lugar bem distante, tipo Austrália ou Groelândia. Sendo assim, não poderia aceitar a encomenda dos pastores, até porque já havia pedido demissão da editora que recebera a encomenda.

Encharcado de vinho, depois de ouvir a história de seu colega e de tentar consolá-lo um pouco a respeito da separação, meu amigo disse de repente: “Tenho o cara ideal para fazer esse troço funcionar. Só preciso saber se ainda está vivo e onde diabo se meteu.”

Os motivos que o fizeram lembrar do meu nome são até hoje um mistério, para ele e para mim. De qualquer forma, meu amigo saiu do restaurante com a ideia fixa de que precisava me localizar de qualquer maneira. Eu era “o cara” certo pra escrever o livro de autoajuda da porra do pastor prodígio.

Como eu não estava vivendo no Polo Norte nem no Tibete, nem na Austrália nem na Groelândia, não foi tão difícil assim seguir meu rastro, após mandar alguns e-mails e dar alguns telefonemas. No nosso primeiro contato telefônico, achei que ele estivesse chapado acima do normal ou tivesse virado o filme de vez, como se dizia antigamente quando alguém entrava em surto agudo. Mas ele começou a contar que, no dia seguinte ao porre de vinho no jantar, ainda tremendo da ressaca, ligou para seu antigo colega de editora e perguntou como poderia conversar com os pastores.

Dois dias depois, durante uma reunião marcada em “caráter de urgência”, convenceu-os de que ele era a pessoa indicada para por em prática o projeto do pastor-mirim superstar. Afinal, já havia editado uma série de livros de autoajuda de sucesso “escritos” por pessoas famosas.  Mais do que isso, conhecia o “cara” ideal para tocar a coisa.

Seja por interferência do Espírito Santo, por mera lógica mercadológica ou por algum acidente cósmico, os pastores compraram a ideia.

Só não entendia por que ele tinha lembrado de mim para fazer aquele tipo de trabalho. Já havia escrito, por iniciativa própria ou sob encomenda, a respeito de inúmeros assuntos bizarros, mas jamais tinha feito qualquer coisa parecida com a que meu amigo estava propondo.

Além disso, havia pulado fora do circuito há tempos, avisando a quem interessasse que ia “mudar de vida”. Para os iniciados, isso significava que não planejava escrever mais porra nenhuma sobre porra nenhuma pelo resto da vida.

Contudo, irônica – ou tragicamente ou acidentalmente ou por obra do Espírito Santo, dependendo do ponto de vista -, eu me encontrava numa daquelas fases cíclicas de achar que minha passagem pelo planeta estava acabando de forma completamente irrelevante.

Estava de saco mais do que cheio de procurar a brecha e não encontrar porra de brecha nenhuma. Além disso, meu dinheiro estava há tempos na reserva, quer dizer, o meu carro estava cada vez arriscado de parar na estrada, de noite e sem nenhuma alternativa de socorro, privado ou público. Vai daí, resolvi continuar escutando o que meu amigo dizia ao telefone.

Aos poucos, comecei a imaginar que não devia ser assim tão difícil fazer o que ele estava propondo. Na pior das hipóteses, eu acabaria desistindo no meio do caminho (uma das minhas especialidades em projetos mais ou menos longos) e voltaria pra minha caverna.

Ou, quem sabe, poderia, durante o processo, acabar virando o filme de vez, possibilidade que as cobras na cabeça sempre deixavam em aberto.

Sem deixar claro se aceitava ou não, comecei a colocar algumas condições absurdas que classifiquei como “inegociáveis”.

Não teria, em hipótese alguma, contato pessoal com o tal pastor-prodígio ou com qualquer outro representante formal ou informal da igreja deles. Os contatos, se necessários, só aconteceriam por escrito, via internet e sempre intermediados por meu amigo.

Meu amigo respondeu que eles iam achar esse tipo de coisa muito estranha, mas tentaria convencê-los de que esse tipo de “esquisitice” fazia parte do meu “sistema de trabalho” e era essencial para o bom andamento do projeto.

Despedimo-nos e ele ficou de entrar em contato novamente quando e se os detalhes avançassem.



JR Fidalgo,
um jornalista que tem preguiça de perguntar,
um escritor que não tem saco pra escrever
e um compositor que não sabe tocar.

(mesmo assim escreveu dois romances
e uma quantidade considerável de canções
ao longo dos últimos 40 anos - nota do editor)




AH, O AMOR #48 (por Luiz Antonio Cancello)



— A gente tá precisando fazer alguma atividade física.

— Lá vem de novo essa história. Eu já trabalho muito, fico o dia inteiro pra lá e pra cá.

— Isso não dá condicionamento físico nem tonifica os músculos.

— Mas eu não tenho tempo pra fazer uma atividade regular.

— A gente se matricula numa academia. Não tem horário fixo, pode ir na hora que quiser.

— O quê? Ficar lá fazendo aqueles movimentos monótonos, no meio de um monte de gente narcisista? Tô fora.

— Bem, então vamos ficar balofos, flácidos e cansados. Legal.

— Não estou impedindo você de ir. Mas me inclua fora disso.

— Sei. Aí eu fico em forma e você não. Isso não vai dar certo.

— Por quê? Vai ficar em forma e arrumar alguém mais atraente, com tudo no lugar?

— Não estou dizendo isso. Só quero que a gente seja um casal legal, com um certo equilíbrio estético.

— Equilíbrio estético! Essa é ótima! Em que programa estúpido de televisão você ouviu isso?

— Opa! Não apela. Ninguém é imune à beleza. Não vem com esse papo de "gostem de mim como eu sou". Isso não funciona.

— Quer dizer que você continua me ameaçando.

— Nada disso. Funciona pra nós dois. Vai me dizer que se eu ficar um bagulho você vai continuar a gostar de mim?

— Como é que eu posso responder essa pergunta? Você não é um bagulho.

— Ainda bem! Mas posso ficar, se não me cuidar. Você hoje está muito bem, mas ninguém sabe o dia de amanhã.

— Se hoje não estou um bagulho, por que iria pra academia? Por causa desse tal amanhã? E se eu morrer antes?

— Eu não pretendo morrer logo e quero envelhecer bem. Pra continuar com um shape razoável vou malhar. Acho que você devia fazer o mesmo.

— Mas eu não tenho a menor paciência pra academia. E agora fico com essa ameaça pairando na cabeça. Pra amanhã.

— Não é ameaça. É a realidade. E a realidade é cruel.

— Você é que está sendo cruel.

— É o seguinte. Vou me matricular na academia. Se você quiser vir comigo vou adorar.

— Você quer que eu vá por causa da minha companhia ou pra eu não ficar um bagulho?

— Quero ir pela sua companhia e pra gente ficar bem.

— Mais pela companhia ou pra eu não ficar um horror?

— Sei lá, como é que eu vou medir isso? A pergunta não faz sentido.

— Você sabe, mas não quer me falar. Claro que é por medo da minha decadência física.

— Bagulho, horror, decadência física. Estamos chegando ao fundo do poço. À decrepitude.

— É assim que eu estou me sentindo. Desde já.

— Menos, por favor. Não foi minha intenção.

— Você ainda gosta de mim?

— Eu amo você.

— Mesmo se eu não for à academia?



Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com

ASSISTA LOGO ABAIXO
O TERCEIRO EPISÓDIO DA WEB-SÉRIE
"AH, O AMOR!"





Friday, October 28, 2016

O ANIVERSARIANTE DO DIA É O CANTOR E COMPOSITOR CALIFORNIANO BEN HARPER



LEVA UM CASAQUINHO SAÚDA
O GRANDE BEN HARPER
NO SEU ANIVERSÁRIO DE 47 ANOS
TRAZENDO UMA PERFORMANCE FULMINANTE
COM O GRUPO THE INNOCENT CRIMINALS
GRAVADA HÁ APENAS 3 MESES






JULIA ROBERTS COMPLETA 49 ANOS E NÓS ESCOLHEMOS 5 DE SEUS MELHORES FILMES

por Chico Marques


Julia Roberts nasceu há exatos 49 anos, no dia 28 de Outubro de 1967, em Smyma, no Estado da Georgia, Estados Unidos. Seu sorriso largo e seu rosto esguio viraram rapidamente a cara dos Anos 90, graças ao sucesso estrondoso de "Pretty Woman", que fez dela uma estrela implacável há exatos 25 anos. 

Depois de colecionar diversos sucessos de público em filmes relativamente ligeiros e fazer fortuna logo na primeira década de sua carreira, Julia começou a escolher melhor seus papéis na esperança de ser levada um pouco mais a sério como atriz. 

Deu sorte: faturou um Oscar de Melhor Atriz por sua performance soberba em "Erin Brockovich" (2000).

Daí pra frente, fez apenas o que quis.


A carreira de Julia Roberts tomou um rumo bem aventuresco desde então. 

Ela embarcou em projetos de prestígio, voltados para um público mais segmentado. Trabalhou diversas vezes com Steven Soderbergh e Mike Nichols em projetos pouco apelativos em termos comerciais, que ela, com seu prestígio pessoal, conseguiu levar a platéias mais amplas.  

Graças a iniciativas ousadas como essa, Julia vem conseguindo manter sua carreira num patamar bastante alto de dignidade e de respeitabilidade. 

Sem contar que continua uma "bela mulher" às vésperas dos cinquenta anos. 

Seu lindo sorriso permanece cativante. 

E a amplitude de seu talento é cada vez mais indiscutível.


Saudamos a adorável Julia Roberts nesta data querida resgatando 5 filmes não muito festejados -- talvez até subestimados -- de sua longa filmografia. 

Em comum entre eles, apenas o fato de estarem disponíveis para locação nas estantes da Vídeo Paradiso.

ADORO PROBLEMAS 
(I Love Trouble, 1994, roteiro e direção Nancy Myers e Charles Shyer)
Um veterano jornalista (Nick Nolte) descobre que uma linda novata (Julia Roberts) deu um furo de reportagem na sua frente, sobre um acidente de trem que foi fruto de sabotagem. Os dois começam se odiando por conta disso, mas, com o passar do tempo, começam a se envolver emocionalmente. Mas não sem antes se envolverem em uma série de encrencas com gente do submundo do crime. Nolte odeia esse filme, sabe-se lá porquê. É extremamente bem escrito, na melhor tradição de "A Primeira Página", de Billy Wilder. E Julia está mais linda do que jamais esteve até então. Diz ela que sua experiência de trabalhar ao lado de Nick Nolte foi péssima, e o classifica como "o pior ator com quem já trabalhei" (110 minutos)
O SEGREDO DE MARY REILLY
(Mary Reilly, 1996, direção Stephen Frears)
O filme conta a história de Mary Reilly (Julia Roberts) , uma moça de origem humilde que teve uma infância muito violenta, e que vai trabalhar na casa do tímido Dr. Jekyll (John Malkovich) . Ela conhece o assistente do médico - Mr. Hyde - e acaba descobrindo o segredo de Dr. Jekyll e de seu assistente, mas o guarda consigo mesma porque acaba se apaixonando por ele. O roteiro é baseado no livro "Mary Reilly", de Valerie Martin, obra inspirada em "O Médico e o Monstro", do escritor escocês Robert Louis Stevenson. Tanto Julia Roberts quanto John Malkovich estão exuberantes neste drama de suspense extremamente climático do talentosíssimo Stephen Frears. (108 minutos) 
UM LUGAR CHAMADO NOTTING HILL
(Notting Hill, 1999, roteiro Richard Curtis, direção Roger Mitchell)
Will (Hugh Grant) é dono de uma livraria especializada em guias de viagem, e recebe a inesperada visita de uma cliente muito especial, a estrela de cinema americana Anna Scott (Julia Roberts). Depois de um início meio atrapalhado, iniciam um romance confuso, cheio de idas e vindas, mas absolutamente encantador e estranhamente convincente. Com um time soberbo de atores coadjuvantes e um roteiro simplesmente perfeito, "Notting Hill" ajudou a humanizar a figura pública de Julia, e foi um merecidíssimo sucesso de crítica e público. Impossível não ficar encantado com ela nas cenas em que abre o coração e revela o quão difícil é lidar com o fato de ser uma atriz célebre. Sem sombra de dúvidas, a melhor de todas as comédias românticas que Julia protagonizou. (124 minutos)
A MEXICANA
(The Mexican, 2001, direção Gore Verbinski)
Jerry Welbach (Brad Pitt) recebeu dois ultimatos. Seu chefe quer que ele viaje para o México a fim de buscar uma pistola antiga caríssima chamada "A Mexicana" ou ele sofrerá as consequências. O outro ultimato vem de sua namorada Samantha (Julia Roberts), que quer que ele acabe com os negócios junto com esse chefe. Jerry percebe que estar vivo, mesmo que seja brigado com a namorada, é a melhor saída. Achar a pistola é fácil, mas voltar com ela para casa já é outra história. Supõe-se que a pistola carrega uma maldição e Jerry, com todos os problemas de sair do México, sua (ex) namorada raptada, começa a acreditar. Mal recebido pelo público na época, que o achou o tom do filme "independente demais", "A Mexicana" é um filme inusitado, conduzido de forma muito criativa pelo diretor Gore Verbinski e com participações especiais deliciosas de James Gandolfini, Gene Hackman e Pedro Armendáriz Jr. (120 minutos)
PERTO DEMAIS
(Closer, 2004, roteiro Patrick Masber, direção Mike Nichols)
Anna (Julia Roberts) é uma fotógrafa bem sucedida que conhece e seduz Dan Woolf (Jude Law), um jornalista sem sucesso tentando lançar um livro, os dois acabam tendo um rápido envolvimento. A seguir, Anna conhece Larry Gray (Clive Owen) de uma forma um tanto inusitada, e, mais tarde, se casa com ele. Dan mantém um caso com Anna mesmo depois de seu casamento e usa a misteriosa Alice (Natalie Portman), uma stripper, como sua musa inspiradora, sem saber que Alice carrega diversos segredos ainda não revelados. Adaptação de uma peça de teatro de muito sucesso que se transformou num filme nada menos que espetacular, com seus quatro atores testando seus limites sob a orientação segura e desafiadora do grande diretor Mike Nichols. De tirar o fôlego. (104 minutos)





CAFÉ E BOM DIA #40 (por Carlos Eduardo Brizolinha)



Houve um momento que me senti Jorge Luis Borges pela simples razão de oferecer minha opinião pelo prêmio Nobel conferido ao Bob Dylan. Tomando como ponto de partida a literatura francesa que nasce com o " Juramento de Estrasburgo " e " Cantilena de Santa Eulália ", de certa forma não oferecem muito interesse literário, mas nos dois séculos subsequentes ( XI e XII ) com as canções de gesta, retrato da civilização feudal, sim. A literatura ganha com essa forma grandiosa, e Chanson de Roland é o marco zero. Foram trovadores de profissão, retocando tradições que transmitiam o sentimento em versos cantados. Chanson de Roland tem mais de 3000 versos que narram a morte de Olivier e Roland no vale de Roncesvales. Estaria eu negando toda epopeia romanesca do século XII. O que faria com o que é designada como literatura cortesã? Pois não me levaram a sério, ainda que não haja como negar que alguns poetas tem musicalidade e que as palavras são um código que designa imagens e o instrumento usado para transmitir sejam cordas vocais. Perdi por três a dois e paguei uma rodada de cerveja. Os ganhadores votaram por destaques da literatura que tenham qualidade para atravessar fronteiras ou mesmo os que atravessaram dentro de que concebemos como boa literatura nos tempos atuais. Vivos como é critério do prêmio. Conversando com o escritor Manoel Herzog/Germano Quaresma considerou ser saudável a polêmica, tanto quanto eu. Julinho Bittencourt gostou. Me surpreendeu Betty Rabinovich ter odiado e Lucy Scatamacchia que o premio não fará dele uma referência para a literatura. Salomon Rabinovich meu psicanalista favorito acha que o fator contributivo para a literatura faria justiça cultural dar o premio para o Roth, Philip. Não me ocorreu perguntar se havia ironia. Dos 113 premiados 44 nunca tive a oportunidade de ler e tampouco vi uma só edição. CAFÉ E BOM DIA.



Por ter pesquisado sobre alguns autores ganhadores do premio Nobel não pude deixar de me fixar nas poesias de René François Armand Prudhomme, escritor francês nascido em Paris, em março de 1839. Filho de um comerciante francês, não pode estudar engenharia por problemas de saúde e só completou sua educação num Instituto Politécnico. Após uma tentativa frustrada na indústria e um emprego como assistente de um escritório de advocacia, ingressou como membro da «conferência La Bruyère», associação literária, que o encorajou a publicar os primeiros poemas. Cabe lembrar que posteriormente estudou as ciências e direito na Universidade de Paris. A primeira coleção "Versos e poemas" , em 1865, caracterizada pela grande perfeição no formulário, o levou à fama. Sua coleção, Stances et poèmes (1865), lhe trouxe fama. Ele entrou no grupo de parnasianos pelo respeito adquirido com seu trabalho. Sully foi influenciado por Vigny e, em alguns aspectos, antecipou os simbolistas O resto da sua obra, escrita sob influência parnasiana, faz se merecer serem destacados os livros "Caderno italiano" 1866, "Solidões" 1869, "Destinos" 1872, "A rebelião das flores" 1872, "A ternura vaidosa" 1875 "justiça" de 1878 e 1888 "Felicidade" .Em 1881 foi eleito membro da Academia francesa e em 1900 foi agraciado com o primeiro do Prêmio Nobel. Deixou um legado que descreve o mundo interior do homem analisando experiências intimas, outro aspecto muito importante é ter refletido ideias morais, filosóficas e cientificas. Confesso que seus tratados dentro da linha filosófica do Positivismo não passei perto, mas em contrapartida a tradução de Lucrécio foi o primeiro caminho para a tradução em português, A verdadeira religião de Pascal e nas criticas de arte ( essas pela generosidade de Didier koch, além do filme de Yves Robert " Alexander Le bienheureux ". Muito produtivo. Ele morreu em 6 de setembro de 1907.



Nunca temos diante dos olhos o devir-puro, o puro caos da physis. Como disse Nietzsche: “Somos nós apenas que criamos as causas, a sucessão, a reciprocidade, a relatividade, a coação, o número, a lei, a liberdade, o motivo, a finalidade; e ao introduzir e entremesclar nas coisas esse mundo de signos, como algo em si, agimos como sempre fizemos, ou seja, mitologicamente. Qual o problema? É que junto a nossa propensão histórica para mentiras bem contadas, surgiu a estranha tendência de desfazê-las, de caminhar em direção a verdade que velamos, e precisamos velar, de nós mesmos. Cada passo nesta direção, porém, sempre nos parecerá um misto de revelação e de loucura. Ocorre que não sinto sabor nas imagens sonorizadas mascadas e cuspidas de informativos alucinógenos, não molho minha alma nas ondas do radio e não mais lavo minhas mãos para tirar a tinta negra da impressão do jornal. Minhas manhãs são de astronauta libertado segurando uma corda como Godot sem esperar o absurdo das revelações e disposto ao exercício da minha própria loucura, abro as páginas somente para artistas. Quando acordo para o dia olho para meus livros, musicas, filmes escolhidos por anos e anos. Reservei um canto para minha armadura de lutas, as inscrições dos meus ideais estão gravados tal como nos portais de Gaudy. Mantenho cada frase conservada e polida, pois não tenho mais o vigor de outrora. Minhas palavras de lutas repousam veladas pela sensibilidade dos ouvidos e do olhar para o sublimado e eterno amanhecer que se chama arte, repouso do guerreiro. Ouço a voz de querida amiga confidenciando a mesma decisão.

BOM DIA E CAFÉ.

Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta
é poeta e proprietário
da banca de livros usados
mais charmosa da cidade de Santos,
situada na Rua Bahia sem número,
quase esquina com Mal. Deodoro,
ao lado do EMPÓRIO SAÚDE HOMEOFÓRMULA,
onde bebe vários cafés orgânicos por dia,
e da loja de equipamentos de áudio ORLANDO,
do amigo Orlando Valência.