Wednesday, July 25, 2018

LETTERE DA LECCO #2 (por Solange Menegale Piasentin)



Eccoci. Sob uma arvore em Viale Turati. Mais ou menos uns 300 metros de alameda, na calçada de um bar, grudadinha na rua principal. Sim, digamos que é a Champs-Elysées de Lecco. Ok, pura sacanagem... Só que não.

O verão esse ano encontra sérias dificuldades para se afirmar. Os ciclones são frequentes e estão ameaçando a "bella stagione". Bela pros outros, eu acho um horror. Quente demais com um mormaço killer!! O anti-ciclone africano, ou o dos Açores, lambe a região mediterrânea com muito esforço. O italiano em geral ama falar do tempo. Nessa estação, vivemos preocupados e ocupados com os  anti­ciclones quotidianamente. Eu já estou viciada nisso. Todos eles tem nomes inspirados na mitologia grega ou romana, o que torna o evento meteorológico de uma elegância quase cultural: Annibale, Scipione, Caronte, Nerone, Caligola, Lucifero ou o Colosso dos Desertos... Obviamente, os nomes já predizem o inferno dantesco que teremos de afrontar. Pois é. Agora beiramos os 29°C, mas ainda chegaremos aos 38°, com certeza. Eu sei, podem rir. E' fichinha comparado ao Rio. Mas aqui a umidade é quase 90% e a gente fica pronta prá um harakiri...

Estou bebendo um "spritz", que é o verdadeiro aperol italiano, com esse produto altamente químico artificial-corantico que é o aperol, mais o pro-seco. Na realidade, é uma bebida muito chulé, se pensarmos bem. Mas quem nao gosta? Beber aqui na Italia é um evento. Muita coisa boa e sobretudo o café. Que eu já tomei hoje de manhã. Olha quantos temos: café normal, café macchiato quente, frio, com leite desnatado, com espuma, marroquino, correto, de orzo em xicara pequena, em xicara grande, ginseng, café duplo, café longo, café curto, frio, com creme, com gelo, shakerato, cappuccino claro, escuro, no vidro, na porcelana, decafeinado, com leite desnatado, seco, com café quente e leite frio, com chocolate, café com leite, todo frio ou só metade frio. Que maravilha... ninguém se entedia por aqui. E ai de você se achar que um vale o outro!! Nãooo! E' uma ofensa à bandeira nacional!!

Eu odiava café. De qualquer jeito.

Hoje é um vício. Tudo aqui vicia, cedo ou tarde.

Passear na beira do Lago de Lecco vicia. O final da tarde vicia. Os barcos a vela viciam. As badaladas dos sinos italianos viciam. Os pombos defecando em todos os monumentos viciam. O amor então...mas esse fica pra próxima.

O que mais me surpreende é quanto vicia também a vida pequena, estreita de uma cidadezinha de menos de 50.000 habitantes! Também vicia, se você se adapta bem. Sempre amei cidades pequenas. Já vivi na montanha, nos pré-alpes lombardos, numa lugarzinho de 700 habitantes. Era praticamente um dormitório. As pessoas desciam para trabalhar nos centros maiores. Mas é extremamente importante a experiencia de vida num território limitado em extensão. Você é alguem com nome, sobrenome, apelido, alcunha, identidade, referência. Nao que isso seja imprescindível para sua vida mas é imprescindível para a dimensão de si mesmo!

Numa cidade pequena, você se vê muito mais inserido no mundo circunstante do que numa cidade grande, onde o ritmo psicológico e temporal exige maior velocidade. A dimensão do tempo é outra. Tudo desacelera inevitavelmente. Como se nao houvesse espaço nem mesmo para a pressa. Bom, eu a vivo assim. Posso ter que fazer as coisas mais chatas do mundo, como ir à prefeitura, ao correio, refazer documentos, pagamentos, compras, qualquer outra coisa que não seja um prazer imenso, mas nunca deixo de olhar as montanhas que circundam a cidade inteira. Todas as árvores, os pássaros, os sinos que tocam em campanários seculares, o lago de Lecco na sua vastidão de águas, as gaivotas, os pombos. Ontem um pombo quase pousou na minha cabeça. Levei susto e me maravilhei. Eles também tem tempo pra isso. Até eles tem tempo.

Aqui eu sou a francesa. Ou a brasileira. Ou a prima do Neymar (!!!!!)... A escritora. A poetisa. Aquela que tinha o Café Blondel. A avó da cubaninha. Você é tanta coisa. E essa dimensão de várias em uma só é muito Pessoa. E isso te dá a cidade pequena.

O unico problema é a mentalidade dos nativos. Esse sim é um pequeno problemão. Mas fica pra próxima. Vale a pena, muito a pena, entender o universo psicológico de quem vive esprimido entre as montanhas alpinas e o lago. Entender como essa cidade nasceu, sua origem, sua tradição. Tudo isso explica uma certa limitação, um certo materialismo, uma certa visão de vida quase banal, sem altos voos. Mas também tem seu encanto.

Só uma coisa foi muito difícil ultimamente: numa festa de rua, ha três dias atras, entre músicas dos anos 70, 80 e 90, entre as milhares de músicas cubanas (como diria minha irmã, você ouve uma musica cubana e já ouviu todas...), o dj tinha à disposição so umazinha brasileira:  Michel Telò que cantava "ai se eu te pego..." Sim, tive que beber um pouco mais do costume. E pensei ateéem fazer um livro: "Confesso que bebi". E bebi muito. Mas dancei. Com duas salvadorenhas lindas, negras como o ébano, e arrasamos com as nossas bundonas sudamericanas. Uma se chamava Cherie e a outra Charlotte...ok, entendi tudo... mas nao tenho nenhum preconceito. E elas nao estavam no horário de trabalho...

Ate a próxima amici miei. Com mais consideraçoes de Lecco.

Bom café da manhã pra todos. Um beijo.

Sole

Microscópica Biografia
Solange Menegale Piasentin nasceu no Rio de Janeiro e foi pra Brasilia aos 6 anos. Tem 58 anos. Cursou Letras na Unb, fez curso de extensão em Linguística na Universidade Clássica de Lisboa, professora de português e de italiano na UnB (Universidade de Brasília), funcionária no Consolado-Geral do Brasil em Milão (grandes merdas), e dedicou a vida toda à poesia, com livros publicados e vencedora de concursos em Roma e Pistoia. Vive na Itália ha 20 anos e hoje é proprietária/gestora do Café Blondel, um café literário que promove apresentações de livros, autores novos, peças de teatro, música, quartetos de jazz, duo de blues, encontros sobre mercado business, saúde, naturopatia, xamanismo, filosofia etc. De fato, faliu...

E LÁ VAMOS NÓS... (por Alvaro Carvalho Jr.)



Fim de Copa nos leva a encarar a realidade, depois de 32 dias entorpecidos pelos jogos. E, como era de se esperar, as coisas pouco mudaram nestas terras tropicais descobertas por Cabral (o navegador português, não o preso). A política continua chafurdando na lama; a proximidade das eleições começa a afunilar e apertar o bom senso e o começo de espaço de TV e rádio anda movimentando mais dinheiro que a Bovespa. Sim, meus caros, a coisa está feia e a gente não vê possibilidade de melhorar, pelo menos a curto prazo.

Os candidatos até agora apresentados são de dar piriri em qualquer um. Considerando-se os grandes partidos, não há um candidato sequer que entusiasme, que nos tire do sério. Bolsonaro, Ciro, Alckmin, Álvaro Dias, Marina...mais uma grande dose do mesmo. Fica-se com a impressão de que o País está viciado em incompetência, em mesmice; atolado em desesperança, sem sonhos, sem nada. Como explicar isso?

Bolsonaro, que vem liderando as pesquisas, dificilmente chegará ao segundo turno, apesar de todos afirmarem ao contrário. Na minha opinião, o povo não é tão cego assim: na hora do vamos ver, o bom senso acaba prevalecendo e qualquer atitude de extremos será combatida. A mesma coisa se pode dizer de Ciro Gomes, o coronelzinho de segunda classe que sonha em chegar à presidência para tentar transformar este País numa enorme ditadura. Quem o definiu bem foi Vera Magalhães, do Estadão: “Ciro flex”. Ou seja: para fechar um acordo, ele se agarra na direita, no esquerda, no centro,  no céu, em fio desencapado...

Aliás, Ciro Gomes, o destemperado, vai contra tudo aquilo que o País precisa. Não é o momento de extremismos, não é o momentos de verborragia;não é o momento de confrontos.A conciliação será o único caminho que poderá levar o país a outros patamares; a única maneira de conseguirmos realizar as tão esperadas (e necessárias)reformas tão anunciadas por 10 entre 10 economistas. Ciro significa truculências, oportunismo barato, populismo burro. Desperdiçar um voto com Ciro Gomes  beira a irresponsabilidade. Basta conhecer sua carreira política e descobriremos que ele não tem qualquer formação ideologia coerente. Tanto que já passou por diversos partidos, fazendo agora sua estréia no PDT, aquele mesmo do Lupi. Ou seja, um oportunista barato...

Alckmin significa o continuísmo atrasado, lerdo, cansativo, monótono. É outro que a gente não sabe bem o que apita. Se é um social-democrata mesmo ou se assume sua postura de direito definitivamente. Não há qualquer pecado em ser de direita ou esquerda, mas é preciso que se tenha uma definição. Como o alto do muro é o lugar preferido por seu partido, não chegou a surpreender seu acordo com o famigerado Centrão, um pântano político de assustar. Com isso, ele consegue 40% do horário eleitoral, um passo importantíssimo para o segundo turno. E com a força que tem no Interior de São Paulo, não será novidade levar ainda no primeiro turno. Na minha pobre e pequena opinião, não será bom para o Brasil...mas será a menos ruim de todas as opções.

Isso porque Marina Silva chega como sempre chegou: quase morrendo. Não diz coica com coisa, não assume uma postura de luta definitiva; deita-se no berço esplêndido ambiental que seu marido faz questão de chutar para o alto (envolvido com venda de madeira ilegal...); faz cara de vítima, conta mais uma vez a história de sua vida e não muda absolutamente nada. Parece que entra na disputa única e exclusivamente para encher o saco dos outros ou para se colocar politicamente no país e conseguir um cargo aqui, outro ali para agradar seus seguidores. Convenhamos, Marina Silva é um porre...

Meu xará, Álvaro Dias, pode até ser um bom nome. Mas, honestamente, falta-lhe pegada, falta-lhe aquele algo mais que um candidato a presidente precisa ter. Ele recebe apenas seu salário de senador, abriu mão de assessores, luta por uma política mais limpa; anda por todo o País pregando o combate à corrupção, apoia de peito aberto a Lava Jato, o Juiz Sergio Moro, mas, sejamos honestos, anda pregando no deserto. Por mais que lute e esperneie, não consegue fazer com que sua campanha saia do chão. Talvez o fato de fazer parte do atual Congresso Nacional o coloque na mesma bacia da camarilha. E como todo mundo anda de saco cheio, ele acaba se borrando na lama dos outros. Enfim...

Enquanto isso...

E enquanto o País luta para encontrar um nome que possa se transformar num líder, num estadista, a nossa brava esquerda, liderada pela grande e brilhante  Gleise Hoffman, participava do tal Forum de São Paulo, desta vez em Havana, Cuba. Confesso:  imaginava que esse estrovenga já tinha acabado, mas lá estavam eles com os mesmos slogans dos anos 60, 70, 80, completamente esquecidos que a Guerra Fria já acabou faz muito tempo e que agora, a  velha União Soviética  transformou-se em Rússia e que os Estados Unidos da América não mudaram de nome, apenas de gerente. E o atual gerente parece ser íntimo amigo do gerentão Putin, tanto que prefeiu defender o líder russo a respeitar as investigações feitas pelo seu próprio Serviço Secreto. Quem diria...

Difícil acreditar que pessoas com um mínimo de integridade tenham fígado para ouvir um tonto como Nicolas Maduro, líder da pobre Venezuela. Logo ele que acabou de vez com a oposição ao seu governo, conseguiu exilar todos os dissidentes, jogou seu povo  numa penúria de dar medo e ainda expulsou todos os dissidentes! Animado, atacou a política brasileira com fúria, exaltou Lula (o presidente preso por corrupção) e atacou os Estados Unidos com aqueles slogans de sempre: imperialismo america, neoliberalismo e outras palavras e ordem que nem merecem ser repetidas.

Na verdade, para Maduro, todos os problemas da America Latina são de responsabilidade dos norte americanos. Para ele, a perseguição aos “líderes progressistas” (que diabo será isso?) de todo o continente, “é uma guerra de caráter não convencional” e que teve seu ponto mais alto com a prisão do meliante conhecido por Lula, ex-presidente brasileiro. Maduro teve o desplante de exigir a liberdade do prisioneiro famoso, afirmando que sua prisão era “uma ofensiva reacionária, conservadora e restauradora neoliberal”. Durma-se com um barulho desses....Inté.


Álvaro Carvalho Jr. é jornalista aposentado
e trabalhou para vários jornais e revistas
ao longo de 40 anos de carreira.
Colabora com LEVA UM CASAQUINHO
quando esquece que está aposentado.

INDIGÊNCIA (por Marcelo Rayel Correggiari)



Há certo sofrimento para um país periférico como o Brasil construir um ícone, uma imagem: em geral, é um lugar pouco dado a se referir ao que realmente vale, ou tudo aquilo que lhe permitisse bom lastro a partir de algo erigido como resultado da própria lavra.
Ao fim de mais uma Copa do Mundo, cabe aproveitarmos o ensejo para uma de nossas referências domésticas, a “camisa 10” dos times de futebol, por exemplo. Uma assinatura tipicamente brasileira. Cada time tinha o seu: o Corinthians ia de Rivelino, o Santos de Pelé, o Flamengo de Zico, o Palmeiras de Ademir, a Ponte de Dicá... isso para tentar encurtar o parágrafo.
Todos na equipe nacional para quase mitificar o número: a contribuição de cada um para esse ícone internacional que se tornou a camisa 10 amarela.
E não é invenção do delírio nacional: esse envelhecido merceeiro, no exterior, já presenciou o que esse símbolo, de fato, significa.
Até que...
... vindo do mesmo clube do principal “camisa 10” de todos os tempos, o jovem Neymar da Silva Santos Júnior aportou no mundo do futebol. Chamado de “filé de borboleta” pelo ‘profexô’ Wanderley ‘Louxemburg’, o franzino jogador voava longe com o impacto dos mais viris lances protagonizados pelos zagueiros das equipes adversárias.
“A oportunidade faz o ladrão”: o grande expediente de induzir o árbitro a entender que todo lance é falta, quando, na verdade, parte do ‘teatro’ é mera encenação.
Isso elevado a ‘enésima’ potência, deu no que deu: na última Copa, o #neymarchallenger virou a maior piada internacional, elaborada pelos seus mais contundentes críticos e praticada por quase todas as pessoas na face da Terra.
A “camisa 10” amarela, construída com tanto sacrifício, foi para o vinagre: agora, por conta do famigerado jogador, é vista esfregada em qualquer canto do solo terrestre. Nunca um símbolo brasileiro foi tão menosprezado com tanta ‘técnica de solo’ e ‘rolamentos’ mundo afora.
Qual seria o próximo passo? Tal símbolo rolar tanto até parar na sarjeta?
Olá, querido(a) freguês(a)! Neymar Jr. não é uma criação dele mesmo, ou de uma ‘entourage’ que o cerca completamente descolada da realidade (conhecidos(as) nessa última Copa como “... parças”): ele é resultado de, no mínimo, uma desatenção e covardia bem, bem nossas!
Ele é resultado de um grave defeito dos(as) torcedores(as) brasileiros que não torcem para os seus times ou para a equipe nacional: torcem pela vitória! Como na própria vida nacional, vale a “Lei de Gerson”, onde os meios pouco contam diante dos benefícios que somente uma vitória pode trazer.
Coincidentemente, Neymar Jr. revelou-se jogador de bola a partir de um clube que leva o nome de uma cidade pouco afeita sobre “... como você conseguiu esse dinheiro todo?!”. Basta tê-lo, e os tapetes vermelhos da glória de estenderão para você. Independente se essa grana foi conseguida da forma mais ilícita e espúria possível: se está em enormes quantidades na sua conta bancária, isso é o que vale!
Recordemos: não se torce pelo time de coração. Se torce pela vitória!
Em “Fuga de Nova York”, lugar prodigioso por finalmente materializar “em massa” o apequenamento do espírito, todos os valores sobre as construções de ícones, imagens e mediações, sem contar os aspectos humanos que elevem a alma, são colocados na lata do lixo: basta você apresentar seu extrato bancário bem rechonchudo que você será ‘o(a) cara’!
O processo da mais inegável indigência humana, cultural e intelectual que ganhou seu curso em menos de meio-século: peguem o principal “camisa 10” do clube da cidade no final dos anos 1950 e o principal “camisa 10” da mesma agremiação 60 anos depois para verificarem o tamanho do apodrecimento de tudo o que nos cerca.
Neymar Jr. é nossa incapacidade de entender que, desde maio de 1968, fomos incapazes de entregar às novas gerações a democracia massificada. As massas: que fazem desaparecer ‘as castas’... e ainda, nesse início de ‘Era de Aquário’, tem gente falando da carcomida “luta de classes”.
Mais anacrônico, impossível!
As massas: que engolfam o proletariado, a elite, a classe-média, a burguesia, e permitem uma burocracia-de-estado num lugar onde o estado é autoritário e, se bobear, a galera curte um troço desses...
... temos o Neymar Jr. que merecemos!
Neymar Jr. é a nossa mais eficiente incapacidade de ver o que está posto, não como “... o que deveria ser...”, mas “... como realmente é...”. Neymar Jr. é fruto de nosso principal defeito: o “... farinha ‘pouca’, meu pirão primeiro...”, a melhor tradução de nossa horrenda falência de qualquer possibilidade de cognição.
Acima de tudo: a falta de coragem de brecar qualquer um que perpetue a mais baixa das ações iconoclastas. Algo que não é a revolução, ou a transformação para melhor, mas o mais abjeto rastejo que se possa testemunhar.
No caso de Neymar Jr., literalmente.
Poderíamos jogar tudo na conta da educação? Perigoso, isso. Algum olhar um pouco mais atento e verificamos que, às vezes, a educação como ‘estar sensível à percepção’ pode ser uma coisa para lá de subversiva. Nem sempre é vista com bons olhos, por incrível que tal afirmação possa parecer. Ao longo da história dos países, educação também serviu, por exemplo, de fornecimento de mão-de-obra para o que havia de mais asqueroso no que era chamado de ‘burocracia-de-estado’...
... “... a educação como adestramento”. Pensem nisso.
A “camisa 10” brasileira rola muito no chão. E isso não foi inventado da cabeça do próprio jogador: ele, de uma certa maneira, foi educado para tal. É uma (des)educação nossa que, em nome sabe-se lá de quê, veio ao mundo oriunda de um certo amedrontamento de denunciar, “... bater de frente...”, qualquer coisa que eventualmente possa ser prejudicial às nossas construções mais humanas e nacionais, identificadas e respeitadas ao redor do globo.

A “camisa 10” amarela rola pelo chão ultimamente. Qual será o próximo passo em termos de se esculhambar o pouco que produzimos com tanto sacrifício?! Quem terá a coragem de colocar os diversos ‘Neymar Jr.’s espalhados por aí em seus respectivos cantos? Quem será?!


Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 48 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É avesso a hermetismos
e herméticos em geral,
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO

OS INVERTIDOS (um contículo cult de Flávio Viegas Amoreira)



Théo olhava o fim de tarde lembrando o verão passado nas ruas de San Lorenzo em Roma. Uma espécie peninsular da Vila Madalena onde conhecera Andrea por quem ainda suspirava de saudade do seu corpo, das tertúlias particulares sobre filmes noir e o desencanto amoroso na andropausa.  Homens maduros são tão desiludidos sobre romance quanto solteironas desistentes.... Passara a noite lendo um ensaio sobre Max Jacob: por quê afinal todos louvam Picasso, Apollinaire e Jean Cocteau esquecidos daquele burlesco poeta tão a cara de MontMartre que foi Max Jacob?  Refletia quanto o vintage literário é gay e quanto o culto a divas como Kiki de Montparnasse e Arlety eram fenômenos de ´entendidos´.

- Onde minha coleção de filmes soviéticos? -  pergunta a Jerusa, sua faxineira fissurada por LPS de trilhas sonoras dos anos 70.

- Tá aí do lado desse retrato de Rita Hayworth em “Gilda”!

- A tarde quero café fraco, me passa essa cópia de Klimt, olha se chegou correspondência na portaria Je antes de ir embora,

- O Sr. conseguiu aquela cópia de “Senhorita Julia”? Quero levar para minha sobrinha que faz teatro .... prometo devolver em quinze dias...

- Por quê sempre lembro de “Lady Chaterlley” quando releio essa peça de Strindberg? – pensou em silêncio

A hora do Ângelus sempre melancólica, - suspira o langoroso dandy num roupão encardido de vinho...

- Não soa clichê essa sensação,- pergunta Jerusa com ar sarcástico sabendo o patrão policiar milimetricamente seus lugares comuns....

- Pode parecer “Darling”, mas alguns clichês são inevitáveis em minha idade... Essa hora Andrea deve estar sorvendo um chiantti com seu volume de poemas de Umberto Saba, pensa... Escolhia um CD qualquer de Philip Glass enquanto ela limpava o canto de sua poltrona na outra ponta da sala.

- Saio as oito, precisa de alguma coisa na padaria?
- Talvez amendoim japonês ou um aperitivo nessa linha para tomar com cerveja.

- Fecha a janela de trás, vento encanado,  volto logo e trago correspondência da portaria.

Em meia hora com artigos prosaicos e um pacote lacrado: Jerusa deposita tudo ao lado da mesa de trabalho de Théo que verifica a encomenda: um  DVD remasterizado com acréscimos ao clássico “Sunset Boulevard”.  A noite avança, Jerusa se organiza para ir embora com um cigarro básico e uma bicada no café na pia de velho mármore. O celibatário se concentra em alguns takes com Gloria Swanson e Eric Von Stroheim.   Sabendo-se só no “lost weekend”,  sem a sanha alcoólica de Ray Milland, se contenta com duas garrafas de tinto e pede que a mulher abra-lhe para um cálice juntos .  Uma melancolia difusa o invade,  nem Andrea, nem Philip Glass,  o que precisa é de algo imediato, um afago brando mas instantâneo. Procura hits dos anos 80 sua primeira juventude com primeiros embalos: Men at Work, “Hello” de Lionel Ritchie”, “Her Town Too” de James Taylor, belíssimo mas isso não vem ao caso agora ou algo descaradamente brega: “No more bolero” talvez....  Toma Jerusa já vestida com decote para um night and day na Augusta e pede agora um beijo cálido.... Tinha sido 25 anos atrás sua primeira e única amante mulher....

- Boa noite, Darling...

- Até a semana Théo!


Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Vem sendo estudado como uma das vozes
da pós-modernidade literária brasileira
em universidades americanas e européias.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).

JOÃO e JEREMIAS - A PORRA DA HISTÓRIA (um folhetim beat de JR Fidalgo - 17ª de 17 partes - FINAL)



CAPÍTULO XXX


João já tinha passado por ali centenas de vezes e só naquele dia reparou que, no lugar onde agora funcionava uma casa de ferragens, havia, muitos anos atrás, um bar gay. Eles tinham tocado ali uma ocasião, dividindo um pequeno palco com uma outra banda, da qual ele não recordava nem o nome nem os integrantes.

Todos os contatos para a apresentação haviam sido feitos por Sami. Portanto, nem ele, nem Jeremias, nem os outros membros da banda sabiam que iriam tocar num bar gay. Não que isso fizesse alguma diferença, já que todos chegaram ao lugar, como sempre, muito altos, a ponto das pessoas, que se aglomeravam em frente ao palco, serem apenas vultos difusos se balançando ao som das canções que eles tocavam. A única coisa impossível de não perceber, apesar de toda a chapação, era a animação daquele pessoal, com certeza um dos públicos mais receptivos para o qual já tinham se apresentado.

Os problemas começaram mesmo quando alguém se aproximou do palco e avisou que aquela devia ser a última música da seleção, já que a outra banda iria tocar depois.  Jeremias não gostou da idéia e explicou para a mulher que parecia ser a dona do bar que eles ainda estavam embalando e que, se parassem naquele momento, seria difícil retomar a coisa mais tarde.

A mulher explicou que por ela tudo bem, mas que a outra banda estava insistindo pra tocar e que aquele revezamento depois de seis músicas era parte do acordo que Sami havia feito. E como Sami tinha sumido, não havia como checar se era aquilo mesmo ou não. Dessa forma, eles resolveram parar. Desceram do palco e foram, primeiro, para o banheiro, e depois para o balcão.

Aliás, foi no caminho do banheiro que eles repararam que duas garotas estavam se amassando no corredor, muito à vontade, o que continuaram a fazer sem nenhum constrangimento pela presença deles.

Quando alguém avisou que era hora de voltar ao palco, a notícia não provocou muito entusiasmo, já que todos preferiam, àquele altura, continuar onde estavam, isto é, enchendo a cara no balcão e fazendo excursões ao banheiro. Mas, como afinal o Sami havia combinado daquela forma, eles resolveram voltar a tocar. E é o que teriam feito, se alguém da outra banda não houvesse vomitado no palco.

Na verdade, parecia que todos os membros da outra banda tinham vomitado ao mesmo tempo, já que o palco parecia um mar de merda, isto é, de vômito, ou pelo menos era a impressão que dava, naquela iluminação precária do ambiente. Eles disseram então que era preciso que o palco fosse limpo, já que não havia condições de tocar em cima daquele vômito todo.

A mulher do bar disse que todos os funcionários estavam ocupados servindo os clientes e que não seria possível limpar o palco àquela hora. Jeremias respondeu que, em cima do vomitado, ninguém ia tocar. Algumas pessoas na platéia começaram a vaiar, já que a música tinha parado.

Jeremias subiu ao palco, esgueirando-se por entre as poças de vômito, pegou o microfone e explicou que a outra banda tinha vomitado no chão e que assim não daria pra tocar. As pessoas pareceram entender a situação e alguém, lá do fundo, sugeriu que se fizesse uma barricada de mesas em frente ao palco, e que eles tocassem em cima das mesas. Afinal, todos estavam ali para ouvir um som e não era justo que a noite terminasse por causa de algumas vomitadas no palco.

De repente, o bar parecia estar passando por reformas, já que mesas começaram a ser arrastadas de um lado para o outro, até que uma fileira delas se formou em frente ao palco. Várias mãos se ofereceram para ajudar a subida dos músicos em seus respectivos pedestais. Só quando eles chegaram lá em cima é que perceberam que manter-se de pé naqueles poleiros, e ainda por cima tocando, não seria nada fácil, até porque, enquanto se discutia se o som continuava ou não, nenhum deles parou de beber e, agora, lá de cima, a sensação era a de estar dentro de um frágil barco, em alto mar, no meio de uma tempestade.

Contudo, depois de toda aquela confusão, não havia como não tocar. Por isso, eles tocaram, ou tentaram fazer algo parecido com isso. Seja lá o que eles fizeram, as pessoas parecem ter gostado, já que não paravam de dançar e gritar. E tudo continuou assim quase até quase o amanhecer, quando João sentiu o chão, quer dizer, a mesa sumir debaixo de seus pés.

Quando voltou a si, João estava no meio de um círculo de pessoas que o olhavam preocupadas. Alguém disse que era melhor levá-lo até o pronto-socorro. Lá, levou vários pontos na cabeça e ficou em observação.


Aquela apresentação no bar gay, que agora tinha virado uma loja de ferragens, foi a última da banda.

 

CAPÍTULO XXXI


Seus olhos pareciam ter sido hipnotizados por aqueles CDs e DVDs enfileirados desordenadamente na estante. A grande maioria deles havia sido baixada compulsivamente na internet. Quando aquilo começou, alguns anos atrás, ele sentiu-se no paraíso, resgatando tantas coisas que haviam se perdido pelo caminho e que ele jamais imaginou ser possível recuperar. Agora, olhando para aquele monte de música e vídeos empacotado nas mídias digitais que abarrotavam as prateleiras, chegava à conclusão de que, mesmo se vivesse tanto quanto tinha vivido até ali, nunca seria capaz de ouvir e ver aquilo tudo.

Mas o que o angustiava João não era isso, já que, há tempos, sabia que as coisas importantes para se sentir e viver antes de morrer já não estavam mais em estantes como aquela, mas sim dentro dele. O motivo de sua angústia era o fato de ter perdido tanto tempo armazenando tudo aquilo, acreditando que aquilo, de alguma forma, ainda podia salvar a sua vida, como ele achava que acontecera algumas vezes no passado. E nem mesmo a respeito da existência real desses supostos salvamentos ele tinha certeza agora. Em todo o caso, sempre podia estar enganado, a respeito de tudo.

Então sentou ao computador, anexou o arquivo e clicou em enviar.

 Jeremias já havia se esquecido do lance no bar gay e se divertiu bastante relembrando aquela noite, mas ficou se perguntando por que diabos João tinha lhe enviado aquele relato por e-mail. Afinal, era ele, Jeremias, quem pedira a João para escrever a história que ele queria contar, e não ao contrário. Agora, do nada, João, sabe-se lá por que motivo, lhe encaminhara aquele texto. Ora, seria mais coerente se João simplesmente tivesse acrescentado o episódio à narrativa que já estava escrevendo, com base nas coisas que Jeremias lhe mandava.

Bem, era besteira ficar cobrando coerência de João, e o fato de ele ter enviado o relato sobre aquela noite no bar gay era sinal de que estava, na verdade, bastante envolvido com a história que Jeremias estava contando, tanto que ele próprio andava desenterrando fragmentos de coisas ocorridas naquela época.  Mas o que João pretendeu, quando mandou aquilo? Foda-se, pensou Jeremias, enquanto se abrigava numa marquise, tentado escapar da chuva que começara a desabar de uma hora pra outra.


 O vento estava soprando novamente. Há cerca de três ou quatro dias, várias vezes durante cada dia, aquele vento soprava por sobre a cidade. João não sabia explicar por que, mas sentia que aquele vento, soprando e soprando, às vezes mais forte, outras vezes mais fraco, às vezes frio, às vezes quente, queria dizer algo, ou melhor, aquele vento estava “fazendo” algo naquela cidade. Lembrou de Dylan, dizendo que ninguém precisava ser um meteorologista para saber em que direção os ventos sopram. E para onde sopravam aqueles ventos?

Pra variar, de repente, achou que aquilo tudo podia ser uma grande besteira. Estava ventando porque estava ventando, muito provavelmente em função das mudanças climáticas meio malucas provocadas pela primavera, que já avançava rápida rumo ao começo do verão. Estava ventando e isso não significava absolutamente nada além do fato de que estava ventando. Só isso. Como sempre, ele perdia um tempo precioso, atribuindo significados importantes a tudo o que acontecia. Tempo precioso! E por que seu tempo era tão precioso assim? Ele não sabia, e com quase toda a certeza isso também não tinha a mínima importância.

Seja como for, ele sentiu uma necessidade urgente de voltar para casa. Não só voltar para casa, mas de encontrar com ela e dizer que eles precisavam dar o fora o quanto antes. Tinha que convencê-la a fazer isso já. O problema é que ela, sem dúvida, iria querer saber qual o motivo dessa fuga desesperada, e ele não tinha nenhuma resposta convincente para isso, já que apenas sentia que era preciso dar o fora o mais rápido possível, pois, se insistissem em ficar naquela cidade, corriam até mesmo risco de vida. E tudo tinha a ver com aquele vento estranho que vinha soprando nos últimos dias.



Jeremias também sentiu o vento. Caminhava pela praia e se surpreendeu com o fato do vento estar levantando tanta areia. Lembrou-se de uma tempestade no deserto e teve de proteger os olhos. Do nada, como começara, o vento parou. Jeremias começou então a dar tapas na sua camisa e na sua bermuda, para tirar a areia que havia se grudado em suas roupas. Ainda não tinha terminado de fazer isso, quando o vento voltou a soprar, dessa vez ainda mais forte do que antes. Percebeu que as poucas pessoas que caminhavam pela praia naquele fim de tarde começaram rapidamente a fugir da faixa de areia, em direção aos jardins que separavam a praia da avenida. A princípio, Jeremias revolveu resistir e continuar caminhando, mas logo percebeu que isso seria impossível. O vento soprava cada vez mais forte e levantava cada vez maiores quantidades de areia. Decidiu então também fugir para a avenida.

Quando chegou ao final do jardim e se preparava para atravessar a avenida, percebeu que, novamente, o vento havia passado. O ar agora estava parado e denso, como se alguém tivesse apertado um interruptor e “desligado” a ventania. Enfiou-se na primeira lan house que encontrou, decidido a escrever algo sobre aquilo e mandar para João. Mas mudou de idEia e ficou apenas olhando a tela vazia do monitor e se perguntando se aquele vento estranho queria dizer alguma coisa. Lembrou-se então da época em que muita gente dizia que a cidade seria coberta por uma gigantesca onda e como ele achava aquilo tudo estúpido.  Provavelmente, o vento era somente vento e não queria dizer absolutamente nada, era apenas ar soprado de um lado para o outro, naquele momento, na superfície do planeta ocupada por aquela cidade. Levantou-se da bancada do computador, sem ter escrito nada, e foi embora.


 Se Jeremias tivesse aberto sua caixa postal, em vez de ficar viajando como um idiota enquanto olhava para a tela em branco do computador na lan house, saberia que João havia lhe enviado um e-mail, falando exatamente sobre aquele vento que soprava na cidade há alguns dias.

“Tudo tem a ver com esse vento”, disse João para ela, logo que chegou em casa, tentando explicar por que eles precisavam cair fora daquela cidade. “Será que você não está sentindo esse vento?”, perguntou João. É claro que ela tinha sentido o vento, mas não via a mínima relação da porra do vento com aquela ideia maluca de fugir da cidade sobre a qual João não parava de falar desde que chegara da rua.

No e-mail que enviara a Jeremias, João afirmava: “Ela achou que eu tinha pirado de vez, com aquela história de vento e de querer sair da cidade. Na verdade, já há algum tempo vínhamos conversando sobre a possibilidade de nos mudarmos para outro local, onde nos sentíssemos mais ‘em casa’, coisa cada vez mais difícil por aqui. No entanto, ela ficou realmente assustada quando eu comecei a falar do vento e de como corríamos risco de vida, se não déssemos o fora rápido. Pela primeira vez em muitos anos, me perguntou a sério se havia voltado a usar drogas, e não pareceu muito convencida diante da minha negativa. ‘Se não é droga, você tá surtando de novo. É melhor procurar ajuda’, disse ela, me olhando preocupada e esperando uma reação minha. Minha reação foi simplesmente repetir: ‘Precisamos dar o fora já. Ou o vento vai nos destruir.’”


 Jeremias não gostava de admitir aquilo, mas era o vento que, nos últimos dias, o levava diariamente a observar o mar, para checar se seu nível não estava aumentando. Naquela semana, havia sonhado quase todas as noites. O enredo dos sonhos era diferente, mas eles terminavam sempre da mesma maneira. Ele, João, Cris e todos os outros estavam lá, naquela praia, quando um vento forte, às vezes quente, às vezes frio, começava a soprar. Então eles olhavam em direção do mar e, através de uma espessa cortina de areia que a ventania criava, eles viam uma enorme onda se formando e avançando rumo à praia. Logo depois Jeremias acordava, suando e com a cabeça coberta pelo lençol, como se estivesse se protegendo da grande onda que se aproximava.

Desde que os sonhos começaram – e ele tinha quase certeza de que os sonhos haviam começado no momento em que aquele vento começou a soprar sobre a cidade -, Jeremias não havia conseguido escrever mais nenhum trecho da história que ele queria que João contasse. Estava totalmente obcecado pelo vento – e pelo nível do mar.

 Assim que abriu os olhos, João pensou que havia sonhado, mas depois considerou a hipótese de que estivesse apenas recordando, de olhos fechados, aquelas imagens. Afinal, ele não estava dormindo, somente deitado, ouvindo música, quando a cena, de contornos bem nítidos, foi se formando em sua cabeça. Ele e Sara, mais de 30 anos atrás, caminhando à noite na praia. Passaram longo tempo no escuro, se amassando. Depois andaram em direção à avenida. Quando estavam próximos do jardim que separava a areia da avenida, João sentiu-se estranho. Seu corpo parecia mais pesado, mas tinha a impressão de que seus pés deslizavam a alguns centímetros do chão, como que sustentados por minúsculos colchões de ar.

Ao olhar para os prédios, do outro lado da avenida, eles pareciam estar lentamente derretendo. A sensação durou cerca de um minuto. João não sabia se Sara estava sentindo e vendo as mesmas coisas que ele, no entanto tinha a impressão de que sim, por isso, ou talvez por medo, não comentou nada com ela sobre aquilo, nem naquele momento nem em qualquer outra ocasião.

Na época, achou que aquela sensação podia muito bem ser um efeito retardado do ácido, embora tanto ele quanto Sara houvessem então, quando muito, realizado duas ou três viagens, a última delas vários meses atrás. Agora, porém, ao recordar aquela cena João já não tinha tanta certeza de que aquele episódio, ocorrido há tanto tempo naquela praia, tivesse sido causado por um mero efeito colateral lisérgico.

A questão é que agora, ao se recordar daquela cena, João se lembrou também de que, quando os prédios estavam “derretendo”, um forte vento, vindo da praia, soprava através da avenida. O curioso é que, durante todos aqueles anos, ele não havia se dado conta disso, como se a lembrança daquele forte vento, mais de 30 anos atrás, tivesse ficado todo esse tempo bloqueada por seu subconsciente. Por quê? João não sabia responder, mas mandaria um e-mail para Jeremias abordando o assunto.

 No minúsculo quarto da pensão onde estava dormindo – sua nona morada desde que chegara a cidade -, Jeremias acordou com sua cama tremendo. Foi até a janela e viu o bate-estaca no terreno ao lado, cravando na terra mais uma profunda coluna de aço que sustentaria o alicerce de mais um alto prédio que estava sendo construído na cidade. Sentindo tudo tremer à sua volta cada vez que a máquina golpeava a estaca contra o chão, Jeremias se perguntou se tantas estacas, tão longas, cravadas simultaneamente em tantos pontos da cidade, não acabariam, a qualquer momento, provocando alguma séria convulsão sísmica.

Afinal, a cidade ficava numa ilha e, em grande parte dela, quando se cavava um pouco mais fundo no chão, a água aparecia. Depois achou aquilo tudo uma grande bobagem. Afinal, quem era ele para colocar em dúvida a capacidade técnica de todos aqueles engenheiros e arquitetos que estavam construindo todos aqueles grandes e modernos prédios na cidade?

Estava fazendo a barba, na pequena pia que havia no quarto, quando um impacto mais forte do bate-estaca fez com que cortasse o rosto, um corte profundo, que sujou de sangue a louça branca, velha e rachada da pequena pia. Enquanto estancava o sangue, percebeu que o barulho do bate-estaca havia parado. Foi até a janela. O monstrengo realmente estava descansando. Um vento forte, agora muito quente, soprava lá fora.

 João também sentia o vento forte. Só que, no lugar onde estava, o vento era frio. Encostado na amurada de pedra que separava o fim da praia do início do porto, que começava logo adiante, João observava o mar ficando mais e mais encrespado. Volta e meia, João se pegava ali, encostado naquela amurada, com os olhos fixos no mar do canal por onde os navios entravam e saíam da cidade. Aquele era o único lugar onde João ainda conseguia se sentir realmente um pouco mais presente na cidade onde havia nascido.

Pensou em Jeremias e imaginou que ele não tinha mandado mais nenhum e-mail com a continuação da história. Aliás, era ele, João, que nos últimos tempos andava mandando mensagens para Jeremias, e nenhuma delas havia sido respondida. Talvez Jeremias tivesse sumido de novo. Se fosse assim, a história que Jeremias queria contar nunca chegaria ao fim.

Olhando o mar, que ficava cada vez mais agitado à medida que a velocidade do vento aumentava, João gritou da amurada: “Foda-se!”

 “Foda-se” foi o que Jeremias disse, ao decidir ir embora. Aliás, não apenas ir embora, mas mandar tudo aquilo à merda, tudo o que envolvia aquela cidade e, principalmente, aquela história que ele, um dia, achou que seria importante contar. A questão era que, desde que aquele maldito vento começara a soprar, ele não conseguia mais raciocinar direito a respeito de porra nenhuma. Vivia sobressaltado com a proximidade da próxima rajada. Seria mais forte ou mais fraca do que a anterior? Seria quente ou fria? E o nível do mar, havia subido mais um pouco durante a última noite?

Jeremias sentia que estava enlouquecendo e sabia que a única saída era dar o fora. E que diabos estava esperando então? Por que não dava o fora já? Porque, lá no fundo, ele sentia que precisava esperar um pouco mais. Mas esperar o quê? Bem, isso ele não fazia a mínima idéia.

“Merda, merda, merda! Foda-se, foda-se, foda-se!”



João não conseguia explicar para si mesmo por que, naquele estado maníaco-depressivo em que se encontrava nos últimos dias, havia aceitado participar de um debate com outros escritores, numa feira de livros que se realizava na cidade. De qualquer forma, lá estava ele, mais uma vez fazendo essa perguntava para si mesmo, quando o mediador da mesa lhe perguntou o que ele pretendera ao escrever “A Porta dos Fundos do Paraíso”. João pegou o microfone e ficou por longo tempo encarando as pessoas sentadas na platéia. Depois, disse:

– Jeremias.

– Como?, indagou o mediador.

– Jeremias, repetiu João.

– Quem é Jeremias?

– Eu já não sei direito. Na verdade, às vezes eu duvido que ele ainda esteja vivo.

– Mas o que esse Jeremias tem a ver com o seu livro, “A Porta dos Fundos do Paraíso”?

– Eu acho que tem tudo a ver, mas vocês não iam entender. Então por que vocês não me deixam em paz? Talvez vocês todos estejam certos e eu errado, quer dizer, talvez eu esteja apenas enlouquecendo.palestra

– Como?

– É isso, é o como. Não existe um porque, somente um como! E eu não estou sabendo como contar a história que Jeremias me pediu pra contar. O maldito vento…

– Que vento?

– Esse maldito vento. Será que vocês não estão sentindo esse maldito vento?

João jogou o microfone no chão e saiu andando.

Um garoto sentado na última fila aplaudiu. João não percebeu.

 Naquele dia, o vento começou a soprar logo que os primeiros raios de sol apareceram. Na verdade, os raios de sol não apareceram, porque o dia amanheceu nublado. Foi o que Jeremias descobriu ao colocar a cara para fora da janela, sentindo seus olhos arderem por causa da areia que o vento levantava.

Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã o vento não o incomodou. Estranhamente ele sentiu o vento como um companheiro, uma espécie de trilha sonora para a história que estava vivendo ali, embora cada vez mais se convencesse de que aquele enredo não fazia o mínimo sentido.

Jeremias foi caminhando direto para a praia e, durante o percurso, reparou que as pessoas nas ruas não pareciam incomodadas com o vento, que soprava cada vez mais forte, às vezes frio, às vezes quente. Ninguém parecia também dar a mínima para a areia que obrigava Jeremias, de quando em quando, a limpar as lentes de seus óculos escuros, para poder voltar a enxergar alguma coisa. Achou aquilo estranho, mas concluiu que era apenas mais um detalhe inusitado daquele inusitado roteiro que alguém devia ter escrito durante um surto psicótico qualquer.

Ao chegar à praia e pisar na areia, apertou o passo. Tinha a sensação de que ele estaria lá, exatamente no lugar onde imaginara, mas sentia que precisava chegar na hora certa. Talvez a coisa toda tivesse a ver com sincronicidade ou com qualquer outra dessas teorias malucas que procuram explicar acontecimentos inexplicáveis. De qualquer forma, foi um alívio vê-lo lá, sentado na areia, ou melhor, envolvo num rodamoinho de areia que o vento levantava. Sentou-se ao seu lado e logo um outro rodamoinho também o envolveu.


– Eu sabia que ia te encontrar aqui

– Eu tinha certeza de que você apareceria.

– Engraçadas essas coisas, né?

– Muito.

– Então, o que a gente faz?

– Não sei, você tem alguma ideia?

– Minhas idéias acabaram há muito tempo.

– Acho que as minhas também.

– Bem, a gente pode ficar por aqui mesmo, esperando o que vai acontecer.

– Por mim tudo bem, embora esse vento cheio de areia me incomode um pouco.

– Pra dizer a verdade, eu já me acostumei com ele. Agora eu estranho é quando não venta.

– Sabe que você tem razão. Às vezes também acontece comigo. Sinto falta dele, do vento.

– E a história?


– Que história?


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JR Fidalgo: um jornalista
que tem preguiça de perguntar,
um escritor que não tem saco
pra escrever e um compositor
que não sabe tocar.

(mas que, mesmo assim,
já escreveu três romances
e uma quantidade considerável
de canções ao longo
dos últimos 45 anos)