Saturday, July 15, 2017

A LINDÍSSIMA LIV TYLER CHEGA AOS 40 ANOS, E NÓS A OVACIONAMOS E A HOMENAGEAMOS COM TODAS AS HONRAS POSSÍVEIS E IMAGINÁVEIS

por Chico Marques 


A partir do momento em que o mundo viu pela primeira vez Liv Tyler, ele não foi mais o mesmo.

Foi em 1994, ainda adolescente, no videoclip da canção "Crazy", do grupo americano Aerosmith.

Liv contracenava com a também adolescente Alicia Silverstone em cenas de fuga que despertaram a libido de muitos adolescentes e de muitos marmanjos também.


Liv nasceu em Nova York.

Seu pai é Steve Tyler, cantor do Aerosmith.

Sua mãe, a modelo e ex-playmate Bebe Buell.

Para proteger Liv -- que foi batizada em homenagem à atriz sueca Liv Ullmann -- da reputação de junkie do pai, Bebe a batizou com o sobrenome Rundgren, de seu ex-marido Todd Rundgren.

Só na adolescência, Liv ficou sabendo quem era realmente seu pai biológico, e mudou seu nome para Tyler.


Começou sua carreira como modelo aos 14 anos de idade, e o pontapé inicial que ela precisava acabou vindo do próprio pai, que a escalou para o clip de "Crazy" e com isso abriu para ela as portas das Agências de Modelos e das Produtoras de Cinema.

É uma atriz natural, nunca fez curso algum.

Mesmo assim, desenvolveu uma carreira extremamente interessante, participando de filmes curiosos e inusitados.

Suas escolhas nada óbvias revelam uma figura humana extremamente interessante.


Liv Tyler completou 40 anos duas semanas atrás, dia 1 de Julho, enquanto LEVA UM CASAQUINHO estava em recesso, o que explica o atraso imperdoável na comemoração.

Mas antes tarde do que nunca.

Liv continua tão linda e tão maravilhosa hoje quanto era aos 14 anos.

Nós aqui a saudamos escolhendo e indicando 6 de seus melhores e menos conhecidos filmes.

Em comum entre eles, apenas o fato de estarem todos disponíveis para locação nas estantes da Vídeo Paradiso.




BELEZA ROUBADA
(Stolen Beauty, 1996, 108 minutos, direção Bernardo Bertolucci)

Após o suicídio de sua mãe, Lucy Harmon uma jovem americana de 19 anos (Liv Tyler), viaja para a Itália, com o propósito aparente de reencotrar alguns amigos e ter seu retrato pintado, mas planeja rever especialmente um jovem com quem ela dera seu primeiro beijo, quatro anos antes. Simultaneamente, pretende decifrar um enigma que foi encontrado no diário da sua mãe, mas gradativamente sua presença exuberante transforma a vida dos seus amigos. Filme exuberante de Bernardo Bertolucci sobre a juventude, que, de certa forma, encabeça uma trilogia com os fascinantes "Os Sonhadores" (2002) e "Eu e Você" (2012). No elenco: Jeremy Irons, Rachel Weisz, Joseph Finnes, Jean Marais e Jason Flemyng.
 THE WONDERS - O SONHO NÃO ACABOU
(That Thing You Do, 1996, 10 minutos, direção Tom Hanks)

Em 1964, logo após os Estados Unidos serem "tomados" pelos Beatles, surge em uma pequena cidade da Pensilvânia os Oneders, mais tarde rebatizado pelo empresário como Wonders. Porém, às vésperas de uma apresentação de calouros, o baterista do grupo quebra o braço, o que faz com que, em cima da hora, um jovem infeliz (Tom Everett Scott) que trabalhava na loja de eletrodomésticos da família seja convidado para substituí-lo. O jovem baterista, um aficionado de jazz, imprime durante a apresentação uma batida mais ritmada no que deveria ser uma balada, causando o descontentamento do vocalista e compositor do grupo (Johnathon Schaech). Mas seu instinto funcionou e a música se torna sucesso nacional, levando o grupo aos primeiros lugares da Billboard. Deliciosa estréia de Hanks na direção, com um roteiro excelente e um elenco extremamente bem escolhido, onde todos brilham por igual.



QUE MULHER É ESSA?
(One Night At McCool's, 2001, 93 minutos, direção Harold Zwart)

Um crime é contado em flashback por diversos pontos de vista. O local do assassinato é um bar chamado McCool's, e a vítima é o namorado da sensual Jewel (Liv Tyler). O detetive Dehling (John Goodman) conta sobre o crime para seu pastor, o balconista Randy (Matt Dillon) dá sua versão a um matador e o advogado Carl (Paul Reiser) levanta o assunto numa sessão de análise. O que se percebe é que a bela Jewel, por quem os três homens babam, consegue manipulá-los como bem entende. Liv está ruiva neste filme, e está ainda mais linda e sensual do que nunca.
REINE SOBRE MIM
(Reign Over Me, 2007, 124 minutos, direção Mike Binder)

Preso na angústia e na solidão depois de perder a família no atentado terrorista de 11 de setembro, Charlie Fineman (Adam Sandler) reencontra por acaso seu antigo colega de quarto dos tempos da faculdade, Alan Johnson (Don Cheadle), e passa a resgatar bons momentos de sua vida. Nas ruas de Nova York, o órfão tenta se recuperar da tragédia durante os encontros com o velho amigo e seu passado esquecido. Belas performances de Sandler e Cheadle, com o suporte luxuoso de Liv Tyler e Jada Pinkett Smith.


O SOLITÁRIO JIM
(Lonely Jim, 2005, 98 minutos, direção Steve Buscemi)

Depois da frustrada tentativa de morar sozinho em Nova York, Jim (Casey Affleck) retorna à cidade natal, em Indiana, onde é forçado a voltar para a casa dos pais e dar de cara com a realidade que um dia o fez ir embora da cidade. Sua vida melhora um pouco quando conhece a enfermeira Anika (Liv Tyler) e seu filho. Jim, então, aprende lentamente como continuar seu caminho sem deixar todos para trás. Belo filme de Steve Buscemi, muito pouco visto, mas muito admirado por quem teve o prazer de vê-lo.

SEM GRAVIDADE, SEM CÉREBRO
(Space Station 76, 2014, 95 minutos, direção Jack Plotnick)

Com certeza, o filme mais curioso dessa lista. Imaginem uma comédia de erros passada numa estação espacial envolvendo relações confusas entre oficiais e tripulantes num futuro próximo, em 1975 (sic)? Isso é Space Station 76, uma sátira aos seriados espaciais de TV dos Anos 60 e 70, com uma levada de humor negro irresistível. O roteiro é um pouco confuso às vezes, já que o diretor permitiu uma infinidade de cacos dos atores durante as gravações, mas trata-se de uma ideia absolutamente original. Por mais ridículo e repelente que possa soar o título em português, não se engane: esta é uma comédia maluquinha que merece ser vista. Sem contar que Liv está lindíssima.









FICO LOUCO, FAÇO CARA DE MAL, FALO O QUE ME VEM NA CABEÇA (uma crônica de Antonio Luiz Nilo)



Há pouco mais de 15 anos tive a honra de trabalhar com o amigo e diretor Rogério Velloso escrevendo alguns roteiros para comerciais da TIM que ele, como sempre, dirigiu com brilhantismo.

Não sei o motivo, mas ontem de noite me bateu uma rara e inexplicável tristeza. Depois de alguns minutos de inquietação, finalmente alcancei o controle. O remoto.

Ao passar zapeando pelo Canal Curta fui atingido por um fulminante flash informativo de 2 segundos que anunciava, para minha surpresa, algo relacionado com Rogerio Velloso e Itamar Assumpção. Foi o suficiente para tranquilizar o meu dedo nervoso e tentar entender o porquê daquela parceria. Dois segundos podem parecer pouco, mas são uma eternidade para justificar o meu lento raciocínio: obviamente se tratava de um documentário sobre o extraordinário compositor Itamar Assumpção dirigido pelo talentoso Velloso. O Rogério.

Por sorte, faltavam apenas 15 minutos para começar o filme, tempo suficiente para desestabilizar a minha dieta semanal com as 625 calorias de um saco de pipoca de micro-ondas e os 36g de açúcar do copo de suco de uva “do mal”. Como diria o próprio Itamar em Milágrimas, “...em caso de tristeza, vire a mesa... coma só a sobremesa”.

Itamar Assumpção é um capítulo à parte na história da música brasileira. Apesar de ser a maior e mais criativa representação da vanguarda paulista da década de 80 (talvez o movimento mais alternativo da história da MPB), o único título que o genial compositor conquistou em vida foi o de maldito.

Maldito, vulgo Nego Dito. Nego Dito Cascavé. Maldito pode até ser um elogio em “outras artes”. Na literatura, por exemplo, Baudelaire, Céline, Henry Miller, John Fante e Bukowski receberam o mesmo rótulo e são considerados monstros sagrados das letras. Isso na França e nos Estados Unidos, é claro. No Brasil, e ainda mais na música popular brasileira, tão historicamente comportada e politicamente correta (com exceção, é claro, dos simbolismos e hermetismos de Caetano, Chico e companhia), a alcunha com certeza lhe privaria do sucesso.

E foi exatamente o que aconteceu.

O genial autor de Nego Dito, Dor Elegante, Fico Louco e as incríveis versões de Ataulfo Alves, morreu praticamente no anonimato. Cultuado apenas por um público super seleto e pela classe musical mais esclarecida, o maldito Nego Dito negou a indústria fonográfica, tentando manter-se fiel ao seu estilo áspero de se comunicar e tortuoso de compor melodias e letras. E essa ousadia lhe fez perder contratos, ganhar desafetos e encarar uma vida sem luxos, mas repleta de orgulho e amor-próprio. Possuía aquela mistura perigosa de introspecção e controvérsia. É como diz a letra de sua música: Sou galo no meu terreiro, nos outros abaixo a crista. Me calo feito mineiro, no mais vida de artista.

O documentário, produzido em 2011, é cirúrgico ao narrar a trajetória desse artista incomum, discriminado não apenas por sua cor, mas por suas ideias extravagantes. E precioso ao desmontar a figura frenética e intransigente do personagem central e retratar o seu perfil humano, amoroso, familiar e melancólico.

Com o título “Daquele Instante em Diante”, o filme destila depoimentos carregados de paixão e saudade. A poetiza e parceira Alice Ruiz, sua filha e herdeira musical Anelis Assumpção, a mulher, a primogênita e os artistas que dividiram o palco e as angústias com ele, intercalam suas histórias com trechos de shows, entrevistas e depoimentos do próprio Itamar numa edição de tirar o fôlego.

O documentário, construído com sensibilidade e apuro por Velloso, revela momentos memoráveis como o de um show de Itamar onde Elke Maravilha entra em cena interpretando a Morte (a morte iminente do compositor):

Eu só vim te advertir
apenas te dar um toque
Inútil tentar fugir
Cuide-se bem, se comporte

Aliás, um dos pontos trabalhados com mais delicadeza na montagem do filme é sem dúvida a evolução gradativa da sua profunda mágoa por não atingir o sucesso, culminando na doença que o tiraria de cena aos 53 anos de idade.

Tentando cortar o rabinho do spoiler, uma boa notícia para os que ainda não assistiram ao documentário: hoje, 15/07, tem reapresentação no Canal Viva às 22h. Vale a pena conhecer um pouco mais sobre a vida desse mestre da música brasileira. Uma vida cheia de amor, sofrimento e coragem. Para fazer um resumo da obra, um trecho da letra de uma de suas grandes parcerias com Leminski:

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo o que me sobra
Sofrer vai ser a minha última obra.


Antonio Luiz Nilo
nasceu em Santos
e é redator publicitário
e diretor de criação
há quase 30 anos,
com prêmios nacionais
e internacionais.
Circulou a trabalho
por todo o país,
com paradas prolongadas
em Brasília,
Belo Horizonte
e Salvador.
Publicou em 1986
"Poemas de Duas Gerações"
e, mais recentemente, o romance
"Ascensão e Queda de Pedro Pluma"
(à venda em alnilo@gmail.com).
Além disso, atuou como cronista
para o diário Correio da Bahia.
De volta a Santos desde 2013,
Antonio segue sua trajetória
cuidando de Projetos Especiais
na Fenômeno Propaganda
e como sócio-diretor
da Agência de Textos
TP Texto Profissional.



 

CAFÉ & BOM DIA #66 (por Carlos Eduardo Brizolinha)


"...Guillaume Apollinaire (1880 - 1918) nasceu em Roma, Itália. Mas seria em Paris, França, que faria carreira como grande poeta e agitador cultural. Escreveu artigos, poemas, contos, romances eróticos e interessava-se bastante por pintura moderna. Em 1905 escreveu o artigo Picasso, Pintor. Em 1912 escreveu o catalogo para a mostra de Delauney e em 1918 faria o mesmo para a mostra Picasso-Matisse. Tornou-se um dos expoentes da vanguarda artística do início do século XX, defendeu e empresariou os pintores cubistas. Morreu em 1918, de gripe infecciosa em Paris. Dele Gertrude Stein escreveria em Autobiografia de Alice B. Toklas: "Apollinaire era muito atraente e interessantíssimo. A cabeça lembrava a dos últimos imperadores romanos. Extraordinariamente brilhante fosse qual fosse o assunto abordado, independente de estar bem informado ou não, imediatamente compreendia todo o sentido da questão e elaborava-a com espírito e imaginação, levando-a mais longe do que poderia ser pelos próprios entendedores do assunto e, por estar acertando". Não há sequer uma vez que não lembre do Dr. Lafayette, principalmente por repetir inúmeras vezes que Apollinaire não só abrigou Picasso como bancou despesas. 


"...BAUDELAIRE SE TORNOU UMA LENDA EM PARIS, GRAÇAS AO SEU ASSUMIDO ATAQUE A BURGUESIA. SEU MODO PROVOCATIVO CHAMAVA ATENÇÃO. NEM HORA E NEM LUGAR PARA FAZER OBSTÁCULOS. Incomodava até clientes de locais decadentes como o restaurante Chez Dinocheau. Um dos incomodados foi Maxime Rude que lembrou de Baudelaire no seu livro " Confissões de um jornalista ". Se refere ao poeta como um bohéme de longos, finos e acinzentados em seus momentos bárbaros de cabelo suflé e sem perder em nada a sua facilidade em chocar os outros com palavras - DEPOIS ME DEPARO COM O NASCEDOURO DO TERMO. O termo bohème e bohèmien entraram para o idioma francês indicando uma geração de homens jovens que odiavam dinheiro e trabalho e os confortos medíocres da burguesia. Vagabundos, bêbados, desajustados, poetas, jornalistas, sátiros, narcisistas, filósofos e, todos reunidos no mesmo espaço ao mesmo tempo numa Paris fervendo nos anos 1830.


"...E HORA DE REVER MACUNAÍMA. Macunaíma tinha acabado de ser cagado por um urubu enquanto dormia embaixo de uma árvore e é onde começa uma aventura do gênero fantástico, surrealista, com elementos absurdos, sobrenaturais, resgatou lendas e superstições, e inventou muitas, tudo isso permeado com muito humor. Maanape: um dos irmãos de Macunaíma simboliza a figura do negro. Jiguê: um dos irmãos de Macunaíma. Simboliza a figura do índio. Sofará: mulher de Jiguê era bem moça, apanhava de Jiguê por ficar “brincando” na mata com Macunaíma enquanto devia trabalhar. Iriqui: nova mulher de Jiguê. Era linda, mas também foi deixada por Jiguê quando este descobriu que ela também “brincava” com Macunaíma. Ci: é a responsável pela peregrinação de Macunaíma, já que foi ela quem lhe deu a pedra Muiraquitã. Ela foi o verdadeiro amor de Macunaíma. Capei: uma grande cobra que Macunaíma teve que enfrentar. Piaimã: é o gigante que roubou a muiraquitã de Macunaíma. Torna-se a principal oposição do herói e motivo pelo qual ele parte em sua jornada para São Paulo. No final, o herói mata Piaimã e toma de volta a pedra. Vei: é a representação do sol, apesar de ser mulher. Tem duas filhas e quer que Macunaíma se case com uma delas. Porém Macunaíma não fica com nenhuma de suas filhas. Ceiuci: mulher do gigante. Era gulosa e já tentou devorar Macunaíma. É herói sem caráter? Na verdade ele é um anti- herói, porque faz coisas absurdas, judia e ama ao mesmo tempo as mulheres, come sem trabalhar, xinga, entra em briga, prega peça em todo mundo, mas ele tem alguns dons mágicos e uma sorte fora do normal, é preguiçoso, mas consegue tudo o que quer. Adoro Macunaíma e junto com Vidas Secas são livros para ler sempre.


Descartes disse que a leitura era conversa com os grandes homens dos séculos passados, mas uma conversa selecionada, na qual estes nos revelam apenas o melhor de seus pensamentos. Isso pode ser verdade para os grandes homens, mas como grandes homens existem em pequeno número, incorreríamos em erro se estendêssemos esta máxima a toda espécie de livro e a toda espécie de leitura. Tantas pessoas medíocres e mesmo tantos cretinos tem escrito livros que podemos em geral encarar uma grande coleção de livros, não importando gênero, como um acervo para servir à história da cegueira e da loucura dos homens. Tenho absoluta certeza que Jean Le Rond d'Alembert que adotou o Le Rond por ter sido abandonado nas escadarias da capela parisiense de Saint Jean de Le Rond, ficaria assustado com a quantidade de livros editados e o diminuto número de leitores. Foi filósofo, matemático e físico e em 1751 aceitou o convite de Diderot para desenvolver a " Enciclopédia ", uma síntese dos conhecimentos filosóficos, literários e científicos da época.


A Terra é um pequeníssimo ponto no Universo. É um pequeno fragmento do sistema solar. O sistema solar é um pequeno fragmento da Via Láctea. E a Via Láctea é um pequeno fragmento dos muitos milhões de galáxias reveladas pelos telescópios modernos. Neste insignificante ponto do cosmos há um breve interlúdio entre dois longos períodos estéreis em vida. Neste breve interlúdio, há outro ainda mais curto que contém o homem. Se o homem é realmente o objetivo do Universo, o prefácio parece um pouco longo demais. Superestimar a importância de nosso planeta sempre foi um dos defeitos dos teólogos de todos os tempos. É importante aprender a não se aborrecer com opiniões diferentes das suas, mas se dispor a trabalhar para entender como elas surgiram. Se depois de entendê-las ainda lhe parecerem falsas, então, poderá combatê-las com mais eficiência do que se você tivesse se mantido simplesmente chocado. Quão frágil e inerme é a razão! No entanto, é nosso único instrumento. Existe um artista aprisionado em cada um de nós. Deixe-o solto para espalhar alegria por toda parte. Bertrand Arthur William Russell, III Conde Russell (Ravenscroft, País de Gales, 18 de maio de 1872 – Penrhyndeudraeth, País de Gales, 2 de fevereiro de 1970) foi um dos mais influentes matemáticos, filósofos e lógicos que viveram no século XX. Foi um político liberal, ativista e um popularizador da Filosofia. Inúmeras pessoas respeitaram Russell, e outras tantas continuam respeitando, como uma espécie de profeta da vida racional e da criatividade, ainda que seu posicionamento em alguns temas, como acontece comigo, com você e com todo mundo, tenha sido controverso.

 ETA CAFEZINHO BOM, BOM DIA.

 

Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta
é poeta e proprietário
da banca de livros usados
mais charmosa da cidade de Santos,
situada à Rua Bahia sem número,
quase esquina com Mal. Deodoro,
ao lado do EMPÓRIO SAÚDE HOMEOFÓRMULA,
onde bebe vários cafés orgânicos por dia,
e da loja de equipamentos de áudio ORLANDO,
do amigo Orlando Valência.



PORRA, PARRA! (uma crônica de Marcus Vinícius Batista)


NOTA DO EDITOR:
O texto abaixo foi escrito dois anos e meio atrás -- mais precisamente no dia 10 de Fevereiro de 2015 --, quando o DJ e agitador cultural Wagner Parra teve um infarto violentíssimo pouco antes de dar início a mais uma de suas Vitroladas numa terça-feira no Bar do TORTO. Agora, às vésperas do fechamento em definitivo da casa depois de 33 anos de funcionamento, estamos resgatando aqui no BAÚ DO MARCÃO algumas crônicas que Marcus Vinícius Batista escreveu sobre o TORTO. Na medida em que os últimos anos de vida de Wagner se misturam com a história recente do Torto, nada mais justo que homenagear os dois aqui.  


Não sou muito de dançar. Poderia alegar falta de tempo, dificuldades econômicas ou quaisquer outras desculpas de ordem social ou até biológica (pés tortos, por exemplo). Finjo na pista de dança em casamentos, bodas de ouro e outras comemorações onde é possível se esconder no meio da multidão, dos óculos luminosos e dos vestidos que se usam uma vez na vida.

Mesmo sabendo disso, saí de casa com minha mulher Beth na noite daquela terça-feira. Mais do que ir a um bar com música ao vivo, eu retornaria ao Torto depois uma década, um endereço que me marcou em brasa durante a época como estudante universitário.

Mais do que entrar no Torto e dançar, todos nós poderíamos admirar – embasbacados – as escolhas musicais da Vitrolada, projeto de ressurreição e preservação musical do DJ Wagner Parra. Mais do que ouvir a música latino-americana, com temperos africanos, de Parra, todos participaríamos, em comunhão, da festa com o amigo Chico Marques, o convidado daquela noite.

A Vitrolada era assim. Comunitária, compartilhada, uma ideia eternamente em construção e improvisada, como devem ser os processos criativos. Wagner Parra sabia, na concepção e por princípios, que música é um ato coletivo. Acima de tudo, produzir música, difundi-la e pensá-la é um grito político, no qual a cultura dá o tom das cordas vocais.

Lembrar-me da Vitrolada é, simultaneamente, prazer e melancolia. O prazer descrito nas linhas acima se mistura com a tristeza de quem vê uma cidade perder, pouco a pouco, pessoas relevantes. Não relevantes pelo poder político, eleitoral ou econômico. Importantes pelo que podem dizer, essenciais pela qualidade do que dizem, pouco me interessa a linguagem.

Wagner Parra era um sobrevivente cultural. Enfrentou as tempestades que efervesceram numa Santos mais politizada e se descobrindo pop. Percorreu a caatinga da miséria dos apoios aos produtores e fomentadores da cultura num município que sempre espera por uma galinha com ovos, só mudam as cores, do ouro verde em cifras ao petróleo sem gosto de sal.

Parra era um artista no limite da definição do termo. Eclético, mas de posições políticas públicas. Muitas vezes, não concordava com suas opiniões, mas o admirava pela capacidade de expô-las. Ele me transmitia a contradição que engrandece o humano, as ambiguidades que nos fazem possíveis. Parra, eventualmente, me soava impulsivo e até desorganizado. Isso acontecia quando eu assistia a seus vídeos, o Porra, Parra! Ali, era uma câmera nas mãos e ideias borbulhantes na cabeça, com o perdão do clichê.

Na Vitrolada, observava o músico centrado, disciplinado, de poucas concessões à indústria cultural mais selvagem e rasteira. O foco estava na difusão e fusão de ritmos que poderiam nos fornecer, a conta-gotas e a contragosto (e que precisamos tomar), ingredientes de formação musical; o lado B mesmo!

Conheci Parra à distância. Digo no sentido de entendê-lo melhor, de compreender suas fases da vida, de ouvir sua versão biográfica. No ano retrasado, o amigo André Azenha me pediu que escrevesse uma longa entrevista com o DJ, feita por ele. Agradeço pela oportunidade, pois pude – numa madrugada – ler e reler as palavras de alguém que colocava a cultura da minha cidade sob os holofotes, sem efeitos visuais ou maquiagem. Esta entrevista, depois editada pelo próprio Azenha, talvez seja a mais longa disponível sobre Wagner Parra.

Ironicamente, Parra iniciou sua despedida em seu segundo reino, o território que abre as fronteiras depois das 22 horas. Não foi no primeiro condado, onde vivia cercado de poros culturais, a Disqueria, ponto que visitei algumas vezes, a Serra Pelada onde garimpei pepitas literárias. Parra optou por dar o primeiro aceno no Torto Bar, sua esquina noturna, local em que fazia discursos duros, consistentes, mas flexíveis e tolerantes pela diversidade musical. Ali, passou mal. Enfartou. Wagner Parra, só tenho a agradecer por me fazer dançar. Eu e todos os outros que mexem os pés, reais ou imaginários. Muito obrigado!

Texto publicado originalmente no BoqNews em 14 de Fevereiro de 2015, e também nos sites Culturalmente Santista e Palavra Cultural.


 
Marcus Vinícius Batista
é o cronista santista número um, ponto.
É autor de "Quando Os Mudos Conversam"
Realejo Livros)
coletânea de crônicas escritas
entre 2007 e 2015
e mantém uma coluna semanal
no Boqueirão News
que é aguardada com avidez
por sua legião de leitores.
Atendendo a um pedido
de LEVA UM CASAQUINHO,
ele se dispôs a resgatar
algumas de suas crônicas favoritas
escritas nos últimos anos
para republicação no BAÚ DO MARCÃO.

COM VOCÊS, MAIS UM ELETRIZANTE EPISÓDIO (O 74°) DA SAGA CONJUGAL "AH, O AMOR"



— Oi, amor!

— Oi!

— Como foi sua viagem?

— Três dias de trabalho. Nada de novo. E você? Ficou bem?

— Fiquei.

— Sentiu falta de mim?

— Muita!!

— Ah, que bom! E o que fez nesses dias de solidão?

— Ora, também trabalhei.

— Que sem graça! Conta alguma coisa.

— Ah, li até tarde, na cama. Coloquei as leituras em dia.

— Por quê? Quando eu estou em casa você não lê?

— Você reclama da luz do abajur.

— Sempre se pode ler na sala.

— Não tem a mesma graça.

— Hum... E o que mais você fez, além de ler?

— Almocei de pijama.

— Cacete, tô vendo que você se esbaldou.

— Esbaldar? Ler e almoçar de pijama?

— Tá dizendo que eu te reprimo.

— Não, só tô dizendo o que eu fiz.

— Vai, continua.

— Não tomei banho de manhã. Deixei pra depois do almoço.

— Não consigo fazer isso. Preciso tomar banho logo de manhã.

— Eu sei. Acabo fazendo o mesmo.

— Faz porque quer.

— Você me olha torto, fico me sentindo um lixo.

— Problema seu, né?

— Médio. O seu olhar de reprovação é terrível.

— Ai... tá ficando cada vez pior.

— No outro dia almocei no restaurante chinês.

— Aff! Aquelas comidas engorduradas?

— Pois é. Há muito tempo eu queria ir lá. Foi bem legal.

— Foi só você?

— Fui com o pessoal do trabalho.

— Aquela gente metida?

— Aquela gente que você não suporta.

— Você aproveitou todas as chances, né?

— Eu pedi pra você não ir trabalhar fora. Podia ter mandado alguém no seu lugar.

— Podia, mas ia pegar mal.

— Tudo bem. Foi legal você ter ido.

— Como? Você gostou de ficar sem mim?

— Não apela. Aconteceu de eu ficar sem você e aproveitei pra fazer umas coisas.

— Então não sentiu a minha falta.

— Claro que senti.

— Isso tá meio confuso.

— Nada a ver. Fiz o que eu queria e senti a sua falta.

— Tô vendo. No intervalo de suas peripécias até percebeu que eu não estava na área.

— Quero te contar mais uma coisa que eu fiz.

— Deixa pra lá. É melhor você falar outro dia.

— Vou falar agora. Arrumei o armário dos fundos.

— Ai, que delícia! Deixa eu te dar um beijo.





Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo, Professor e Músico.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com

Thursday, July 13, 2017

FRANK, O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA - PARTE 2 FINAL (por Márcio Calafiori)



Apesar do sucesso no rádio e dos discos gravados na Columbia Records, Sinatra ainda não convencera a crítica. Uma coisa era agradar as adolescentes que iam vê-lo no Paramount, outra muito diferente era conquistar o público adulto. No fim de 1943 ele já passara pelo teste de cantar acompanhado com as filarmônicas de Cleveland, Filadélfia e Los Angeles, e de ter se apresentado em casas que atraíam plateias exigentes. Em ambas as situações foi bem-sucedido. Uma noite, na Wedgwood Room do Waldorf-Astoria, foi aplaudido por ninguém menos que Cole Porter. A fama, porém, lhe trazia mais e mais aborrecimentos. Um deles vinha do preconceito por ser descendente de italianos. As constantes aporrinhações o perseguiam materializadas no jornalismo de fofocas. Embora tenha sido dispensado de servir o exército durante a Segunda Guerra Mundial por causa de uma perfuração no tímpano esquerdo e de uma mastoidite crônica, além de apresentar instabilidade emocional e estar abaixo do peso mínimo para homens de sua altura, mesmo assim o cantor foi cruelmente acusado de covarde e aproveitador.

Os intrometidos colunistas de celebridades ressoavam o que os soldados diziam a seu respeito — que enquanto eles lutavam na guerra, o carcamano ganhava dinheiro a rodo e comia as suas mulheres. Isso era verdade pelo menos no dizia respeito ao dinheiro e ao fato de se comportar como garanhão. Em 1944, de acordo com James Kaplan, Sinatra faturou pelo menos dez milhões de dólares (em valores atualizados). Em 12 de outubro desse mesmo ano, ele encheu seis apresentações consecutivas no teatro Paramount e lá fora havia pelo menos mais 30 mil garotas que queriam vê-lo a qualquer custo. A polícia não conseguia controlar aquela multidão. Foi a última vez que o teatro teve tamanho alvoroço. Apesar de estar casado com Nancy Barbato desde 1939 e ser pai de três filhos — Nancy, Frank Jr. e Tina —, o seu estilo de vida era o de um homem solteiro e rico, que aproveitava tudo o que estivesse ao seu alcance e não dispensava jamais as mulheres e o prazer. No fim dos anos 1940, Sinatra e a atriz Ava Gardner se envolveram seriamente. Ela era uma das mulheres mais cobiçadas do mundo. O romance escandaloso afundou de vez o seu casamento e resultou no divórcio concedido por Nancy em 1951.

Em 1950, Frank Sinatra figurava nos jornais como “um desertor da família”. Foi justamente nesse período, depois de quase dez anos de fama ininterrupta, que ele começou a decair e a ser considerado um nome do passado. Ele gastara dinheiro sem nenhum controle, a separação de Nancy lhe custou uma nota preta, a Columbia achava que ele não vendia mais discos como antes, o imposto de renda estava na sua cola, a sua voz passava por um colapso e começavam os rumores insistentes de que, além de Ava, ele tinha um caso com a máfia. Frank tentava fazer shows, mas as casas lhe fechavam as portas, a sua presença não enchia mais o Paramount, os amigos lhe viravam a cara. Todo mundo passa por momentos difíceis, mas a tormenta que afogava Sinatra não era só uma fase difícil, era algo assombroso, a tal ponto que agora ele podia andar pela Times Square, a encruzilhada do mundo, sem que alguém lhe pedisse um autógrafo, como de fato aconteceu. Enquanto isso, Ava estava cada vez mais bonita, mais famosa e mais rica.

Uma das cenas que jamais esquecemos é aquela de O Poderoso Chefão em que o dono de um grande estúdio de Hollywood, Jack Woltz, acorda todo ensanguentado. O volume monstruoso de sangue vem da cabeça decepada do seu cavalo de raça, que foi posta na sua cama enquanto ele dormia. Esse é o típico humor negro da máfia. Ocorre que Woltz está produzindo um grande filme e se recusa terminantemente a dar o papel principal a Johnny Fontane, um cantor de muito sucesso que está em decadência. Exatamente como Frank Sinatra. Johnny Fontane tem como padrinho Don Vito Corleone, um poderoso chefe da máfia em Nova Iorque. Depois que a cabeça decepada do cavalo vai parar na cama de Jack Woltz, Fontane consegue o papel no filme e a sua carreira é reabilitada.

A cena do cavalo ficou para sempre grudada à imagem de Frank Sinatra. No primeiro volume da biografia, Kaplan narra com detalhes que a impressão de que isso realmente aconteceu se deve à força da ficção de Mario Puzo, autor do livro e do roteiro que deu origem ao filme de Francis Ford Coppola. Na vida real, desde que leu o romance A Um Passo da Eternidade, de James Jones, Sinatra prontamente se identificou com o personagem Angelo Maggio, um soldado de origem italiana, pequeno, bêbado, piadista, viciado em jogo que servia o exército no Havaí às vésperas do ataque dos japoneses a Peal Harbor. O livro foi lançado em fevereiro de 1951 e teve um sucesso tremendo. Em março, o dono da Columbia Pictures, Harry Cohn, comprou os direitos de filmagem da obra.

Sinatra queria muito interpretar Angelo Maggio. Tinha certeza de que o personagem era o seu número. A exemplo de Johnny Fontane, Frank também era amigo de criminosos e mais tarde se associou a eles no negócio de cassinos. Sam Giancana, líder da máfia em Chicago, era seu amigo do peito. Mas desde as suas origens não havia outra alternativa para Sinatra. Hoboken, a sua cidade-natal, era território da máfia e todos ali eram influenciados por ela. Mas para interpretar Angelo Maggio em A Um Passo da Eternidade, ele conseguiu a façanha pelos próprios méritos, com o apoio do diretor Fred Zinnemann e do próprio fundador da Columbia Pictures, Harry Cohn. Em 1954, o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante restabeleceu completamente o seu prestígio, foi a sua ressurreição na vida artística.

Outro lance fundamental na carreira de Frank Sinatra ocorreu em 1953 quando Alan Livingston, vice-presidente das operações de criação da Capitol, num lance ousado, resolveu assinar contrato com o cantor, que fora dispensado pela Columbia Records. Com artimanha, Livingston aproximou Sinatra do arranjador Nelson Riddle. A junção de ambos deu origem ao que a crítica considera como uma das fases mais resplandecentes da carreira de Sinatra como cantor. Ele deixou para trás os violinos melosos de Alex Stordahl com uma série de discos revigorantes que se ouve com prazer até hoje, clássicos indiscutíveis: Swing Easy!(1954); Songs For Young Lovers (1954); Songs For Swing´s Lovers (1955); In The Wee Small Hours (1955); A Swing’ Affair! (1956). Essa boa fase foi alternada com Billy May: Come Dance With Me! (1958), Come Fly With Me (1958) e Swing Along With Me (1961); com Gordon Jenkins, No One Cares (1959); de novo com Nelson Riddle, Nice’n’Easy (1960), Sinatra´s Swing Sessions!!! And More (1961); e com Johnny Mandel, Ring a Ding Ding (1961).

James Kaplan conta que no estúdio Sinatra se tornou um profissional mais rigoroso ainda, perfeccionista. Sovina em elogios, interrompia as gravações se algo, por mínimo que fosse, não o agradava. Nelson Riddle, por exemplo, em várias ocasiões teve que fazer arranjos de última hora ou simplesmente abandonar o que estava feito. Frank controlava tudo, palpitava até na arte gráfica dos discos — com mau humor mandou refazer a capa de Come Fly With Me porque na imagem do avião aparecia o nome da companhia aérea. Outra inovação sua foram os discos temáticos a exemplo de In The Wee Small Hours, que trata do amor melancólico, inspirado no seu casamento conflituoso com Ava Gardner. Assim, Sinatra se comunicava com muitos homens que viviam amores frustrados e acabavam reconhecendo nele uma referência moral importante. O seu público agora era definitivamente adulto.

A segunda parte da biografia de James Kaplan, Sinatra, O Chefão, é a mais extensa, tem 1.212 páginas. Enquanto que o desenvolvimento artístico se concentra no primeiro volume, no segundo o leitor é apresentado ao universo humano do mito Sinatra. Ele agora é o cara que manda e desmanda, que submete todos ao seu redor com as suas explosões de raiva e exige fidelidade e a companhia incessante dos amigos já que costuma passar as noites em claro e se recusa a ficar sozinho. Sob efeito do álcool, se torna valentão. Às vezes, é provocado e parte para a agressão. Com a sua presença os ambientes ficam tensos. Certa vez, num restaurante, ele e os amigos bateram em dois caras e um deles acabou em coma. Sinatra teve de fazer um acordo com advogados envolvendo dinheiro para que o caso não chegasse aos jornais. Noutra ocasião a brincadeira inventada por ele foi a de chutar o pé do garçom para este caísse com a bandeja repleta de copos e bebidas.

As brincadeiras pesadas se estenderam ao palco dos cassinos de Las Vegas com o grupo que ele formou com os amigos Dean Martin, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Joey Bishop, os Rat Pack, na verdade uma invenção de Humphrey Bogart. No início, os Rat Pack representaram uma novidade e tanto. O público ficou realmente boquiaberto com o frescor daquilo, com o ineditismo, com aqueles sujeitos que se divertiam ali no palco como se não estivesse nada planejado. As imitações de Dean Martin e Sammy Davis Jr. eram hilárias. Mas com o tempo as apresentações foram ficando incômodas. Sinatra, Dean e Sammy realmente entravam no palco bêbados e o público ficava muitas vezes sem entender. Por ser negro e ainda por cima judeu e caolho, Sammy acaba sendo o alvo preferido do grupo. Aquilo cansou.

Como ator, Sinatra não tinha a mínima paciência embora tenha feito mais de 60 filmes. Ele cunhou a expressão One-Take Charlie. O que isso significa? Que em cena ele só fazia uma tomada. Poucas vezes Sinatra se dedicou seriamente ao cinema. Ao atuar com Gene Kelly em Marujos do Amor (1945), Um Dia em Nova York (1949) e em A Bela Ditadora (1949). Profissional dedicado, Gene Kelly o ensinou a dançar e o fazia ensaiar exaustivamente. Claro, ele se esmerou na pele do personagem Angelo Maggio em A Um Passo da Eternidade (1953), tentou faturar o Oscar de Melhor Ator com O Homem do Braço de Ouro (1955), em que faz um baterista de jazz viciado em heroína, um trabalho comovente. No entanto, acabou perdendo para Ernest Borgnine, que interpretou o açougueiro Marty Piletti em Marty. Em Eles e Elas (1955), a concentração excessiva de Marlon Brando, que exigia tudo de uma cena, irritou Sinatra profundamente, mas ele teve que se submeter ao perfeccionismo do outro. Outro grande filme em que atuou e se dedicou reverente ao diretor John Frankenheimer foi Sob o Domínio do Mal (1962).

Um dos grandes momentos no segundo volume da biografia escrita por Kaplan é o envolvimento de Frank Sinatra com o então senador e depois presidente John F. Kennedy. Militante democrata desde a adolescência — a sua mãe, Dolly, era representante dos democratas e tinha grande influência política em Hoboken —, a aproximação dele com Kennedy, cujo nome surgia com força na política americana, era motivada, principalmente, pela vaidade. Simplório, Frank queria ser amigo do futuro presidente dos Estados Unidos da América; Kennedy, por sua vez, queria ter acesso a belas mulheres, mas de modo discreto. O bajulador Sinatra desempenhou como ninguém o papel de proxeneta e apresentou Kennedy a várias atrizes, incluindo Marilyn Monroe.

Vista por dentro, a família Kennedy mantém relações com a máfia e com as drogas. O próprio futuro presidente cheirava cocaína. Frank fez de tudo para que ele fosse eleito, usou todo o seu prestígio, empenhou o nome como artista. Além da biografia, esse episódio da vida de Sinatra foi abordado com realismo no filme Os Maiorais (direção de Rob Cohen, 1998). Depois de eleito, aconselhado a se distanciar de Sinatra por causa do seu envolvimento notório com a máfia, Kennedy deixou de se hospedar na casa do cantor em Palm Springs, que foi toda reformada para recebê-lo. Sinatra teve de engolir isso e jamais pôde se aproximar de novo de Kennedy.

A partir de meados dos anos 1960, Frank Sinatra vai sendo superado pela contracultura. Agora, além de Elvis Presley, surgido nos anos 1950, ele tinha que se preocupar com os Beatles e logo em seguida com o rock, que verdadeiramente detesta. Seus discos não vendem mais como antes e as grandes gravações que ele fez do great american songbook — ele gravou ao todo 1.300 músicas — foram substituídas por xaropadas como Strangers in the Night (1966) e My Way (1969), ambas grandes sucessos. Ele odiava Strangers in the Night. “Essa música é coisa de bicha, dizia. E se recusou a ficar repetindo a letra, substituindo-a por “tchu bidu bidu”. Mas em dezembro de 1966, procurando novos caminhos musicais, Sinatra convoca Tom Jobim e grava um grande disco, dessa vez com bossa nova, que é lançado em 1967: Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim.

Dois anos depois, Sinatra chama de novo Tom Jobim a fim de gravar um novo disco, dessa vez com arranjos de Eumir Deodato. As dez faixas do novo trabalho foram gravadas nas noites de 11, 12 e 13 de fevereiro de 1969, um disco belíssimo, segundo quem ouviu. James Kaplan conta que quando o álbum ficou pronto, Sinatra ou alguém de sua equipe implicou com... Bem, ele e Jobim gravaram, entre outras, Samba de Uma Nota Só, Água de Beber, Bonita, Wave, Sabiá e Desafinado... Em relação a esta canção havia, talvez, uma conotação homossexual no modo como ambos a cantaram e Frank ficou preocupado com isso. Em 1971, a Reprise, gravadora de Sinatra, acabou lançando apenas sete das dez músicas gravadas naquela ocasião no lado A de um álbum de Sinatra e Don Costa intitulado Sinatra & Company. O disco naufragou.

Mas agora Sinatra viajava o mundo fazendo grandes shows (esteve inclusive no Brasil, em 1980). Ele tinha um domínio espetacular do público, uma presença sensacional, esbanjava charme, e, por incrível que pareça, cada vez mais começou a atrair gente de todas as idades, do mais simples mortal a reis e rainhas. A sua voz continuava estupenda, embora um pouco cansada. No palco, era irreverente. Às vezes, esquecia onde o local estava se apresentando e perguntava ao microfone: “Qual é o mesmo o nome desta espelunca?”. O público adorava. Como escreveu um crítico, assistir Frank Sinatra era o maior espetáculo da Terra.






FRANK, A VOZ
 James Kaplan
2013 Companhia das Letras
Tradução: Pedro Maia Soares
752 páginas
preço do livro na editora: R$ 82,90
preço do ebook na editora: R$ 48,50
disponível na Estante Virtual
com preços a partir de 40 reais
clique aqui

SINATRA, O CHEFÃO

 James Kaplan
2015 Companhia das Letras
Tradução: Denise Bottmann, Claudia Carina, Paulo Geiger
1.216 páginas
preço do livro na editora: R$ 102,90
preço do ebook na editora: R$ 69,90
disponível na Estante Virtual
com preços a partir de 59 reais
clique aqui



Márcio Calafiori é jornalista.
Nasceu em 1957 e se formou
pela Facos em 1986.
Exerceu quase todos os cargos
em redações de jornais em Santos,
Santo André, Campinas e São Paulo.
Foi redator, repórter, revisor,
editor, secretário de redação,
chefe de reportagem e ombudsman.
Aposentou-se em 2012
como professor da Unisanta,
depois de 29 anos de dedicação
exclusiva ao Jornalismo Impresso.
Colabora eventualmente com
LEVA UM CASAQUINHO.