Monday, February 29, 2016

MINHAS IMPRESSÕES SOBRE A FESTA DO OSCAR DESTE ANO (QUE EU NÃO VI, FUI DORMIR CEDO)

por Odorico Azeitona


Há pelo menos dez anos eu deixei de acompanhar a Festa dos Oscars. Encheu o saco. Festas corporativas, em geral, são muito chatas. É que cinema tem um certo glamour, e a gente finge que tudo o que o envolve ainda é interessante. Mas não é mais. O Oscar era tolerável quando concorria apenas com a transmissão dos Golden Globes pela TV. Hoje, a quantidade de premiações de cinema é tamanha que até o Sindicato dos Continuistas deve ter a sua Festa. E todas elas são exibidas pelos canais por assinatura. Deve ser irritante ser ator ou atriz nessa época do ano, não poder assumir compromissos de trabalho, não poder sair em férias, e ter que viver dois meses seguidos -- desde os Golden Globes até a Noite dos Oscars -- na iminência de ser premiadoMuito, muito chato! Não há quem aguente...

Ah, bons tempos em que Geena Davis e Cher arrombavam a Festa com aqueles vestidos espalhafatosos que desafiavam as leis da gravidade, e Jack Nicholson sentava sempre na fileira da frente logo atrás de seus indefectíveis óculos de sol, e Billy Crystal destilava seu humor implacável sobre as celebridades presentes, e Randy Newman concorria todo ano na categoria melhor canção, mas nunca saía premiado. Hoje, a Academia distribui prêmios para todos na Noite dos Oscars, para evitar as injustiças que cometia no passado quando enchia a bola de filmes ruins como "Dança Com Lobos" ou "Coração Valente" descarregando muitos prêmios numa mesma produção. Acabou. Desde "Titanic", que ganhou 9 estatuetas, isso nunca mais aconteceu.


Hoje, em tempos politicamente corretos, uma festa corporativa como o Oscar fica absolutamente rendida a politicagens e aporrinhações de várias naturezas. Lady Gaga -- sempre ela, meu Deus! -- foi convocada este ano para comandar um réquiem minuciosamente coreografado -- e absolutamente fake, claro! -- para as jovens estudantes que são estupradas por veteranos descontrolados nas festas de calouros nas Universidades Americanas. Teve ainda o insuportável cantor inglês Sam Smith, que se declarou gay durante a cerimônia, como se todo mundo já não soubesse disso. 

E o que dizer dessa aporrinhação envolvendo cotas para negros entre os eleitores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood? Acabo de ver no You Tube a íntegra do ao discurso de abertura de Chris Rock na cerimônia de ontem. Tudo bem, o argumento dele é válido, e bem estruturado. Mas já pensou se todo ano tivermos que tolerar filmes como "Preciosa" na vitrine dos Oscars por conta dessa reserva de mercado exigida -- na surdina, claro! -- por Oprah Winfrey e pelos empresários negros que investiram pesado no Pólo de Cinema para Filmes Sobre Negros em Chicago?


Mas não adianta: entra ano, sai ano, e a Festa dos Oscars continua sendo apenas um espetáculo ruim da Broadway, e não há quem conserte isso, pois o roteiro é irremediavelmente engessado e o desfile de estrelas entrando e saindo do palco, que em outras épocas agregou valor à Festa, parece servir apenas para tentar vender a idéia de que aquilo tudo ainda é importante -- e todos nós sabemos que não é faz tempo. Basta ver por todo o Brasil o desinteresse escancarado dos exibidores em manter os filmes concorrentes ao Oscar em cartaz. Na Rede Cinemark praticamente todos os filmes oscarizáveis não estão mais em cartaz, pois "Deadpool" e "Os Dez Mandamentos" expulsaram a todos das salas de exibição da última semana para cá. E durma-se com um barulho desses.

Mas o pior de tudo envolvendo a Festa dos Oscars é a maneira com que os coleguinhas da Imprensa insistem em vendê-la como o Maior Espetáculo da Terra. É de doer! Tudo over demais! Tudo chato demais! O que há de errado em Leo DiCaprio não ter ganho até este domingo um Oscar de Melhor Ator? Leo é um bom ator, mas não é lá tudo isso. Quase todas as cinco vezes em que ele foi indicado, foi através de filmes de Martin Scorsese -- que, diga-se de passagem, nunca foi muito bem quisto em Hollywood. Dessa vez, Leo finalmente ganhou porque não estava defendendo um filme de Martin Scorsese. É simples assim. Só quem não sabe como Hollywood funciona ainda leva essas coisas a sério.


É por essas e outras que eu não perco mais o meu tempo ficando acordado até tarde para ver a Cerimônia dos Oscars. Definitivamente, não vale a pena. É uma festa jeca. E essa gente de Hollywood é muito babaca. Todo ano, a Estação de Prêmios em Hollywood começa com Ricky Gervais colocando toda a comunidade hollywoodiana no seu devido lugar na Festa dos Golden Globes, e termina com o lamê azedo triunfal da Noite dos Oscars. E não muda jamais. Tudo muito, muito chato!

Há de chegar o dia em que todos vão agir com a franqueza arrebatadora de Glória Pires, que foi convocada para comentar a festa na TV Globo e, como não viu boa parte dos filmes concorrentes, nem se deu ao trabalho de disfarçar seu desinteresse implacável pelas premiações.

Quando esse dia chegar, talvez a Festa dos Oscars volte a ser uma premiação séria e digna de atenção. Desde já, Glória querida, conte com a minha total solidariedade.



Odorico Azeitona
gosta muito de cinema
e acha toda essa futricagem
"nouveau riche" de Hollywood
chata pra cacete.
Escreve toda semana
em LEVA UM CASAQUINHO







ESCRITOR NÃO PEDE DESCULPAS

por Flávio Colker


Escritor não pede desculpas por seu texto. Artista não pede desculpas por suas telas. Humorista não pede desculpa por piada. Cientista não pede desculpa por descobrir a velocidade da luz. Pensadores não pedem desculpas a turba de linchamento e a seus Cappos, sargentos, carcereiros.

Quem pede desculpas por ter pensado não deveria pensar alto.

Quando se trata do trabalho intelectual, da coragem de chegar as próprias conclusões, não existem diferenças entre homens e mulheres; entre cristãos, judeus ou muçulmanos; entre progressistas ou conservadores. Quando se trata de pensar em voz alta, existem pensadores e criadores.. apenas seres humanos. Para ser humano … tem que aguentar o tranco.

Ninguém tem mais razão por ser mulher, por ser homem, por ser negro, por ser homossexual, por ser judeu ou palestino, trabalhador ou patrão, senhor ou escravo… Tem razão quem pensa o melhor para todos e para cada um de todos nós; isso significa que há mais de uma boa razão. Significa que há razões conflitantes. A grande conquista da cultura é a liberdade para que todas as razões se expressem em sua riqueza e complexidade. Quem exige suprimir o relato de experiência vivida em nome do coletivo, não sabe o que fala e perdeu o rumo, a conexão com a tradição filosófica do Ocidente. Ignorar a realidade é … ignorância.

Cada vida e cada experiência vivida tem o mesmo valor de qualquer outra e merece ser narrada do ponto de vista de quem a viveu. Para isso existem as palavras.. para que o ser humano desafie o senso comum e afirme sua individualidade. Para que seja livre e não precise ceder sob pressão.

Abaixo a Ditadura do Pensamento Politicamente Correto. E vivam os homens livres.

(Rio de Janeiro, 28 de Fevereiro de 2016)

Flávio Colker
é um dos maiores
fotógrafos brasileiros.
Conheça suas ideias
e seu trabalho
em seu blog




"BONITA AVENUE", ÓTIMO ROMANCE DE PETER BUWALDA, HOJE AQUI EM CANTO DE PÁGINA

por Chico Marques



Sempre que eu entro numa livraria e começo a dar uma geral nos livros novos que estão em destaque logo nos displays da entrada, sigo invariavelmente uma pequena lista de procedimentos para ver quais livros vão me surpreender de forma positiva. O primeira delas é alguma recomendação na contracapa de um crítico de alguma publicação de relevo. Outra é a breve biografia do autor,  que normalmente vem na segunda orelha do livroe: se eu estiver diante de um romance de estreia de algum escritor, as chances de levar o livro para casa são altíssimas. E, por último, o teste mais importante: o do parágrafo de abertura. Se ele for interessante o suficuente para me despertar interesse em ler o segundo parágrafo, já pode se considerar um feliz morador da minha estante de livros.

"Bonita Avenue", romance de estreia do holandês Peter Buwalda, conta a trajetória de Siem Sigerius, matemático de renome que é chanceler de uma importante Universidade holandesa, apaixonado por jazz e pelas coisas boas da vida. Ele esconde da comunidade acadêmica que seu filho de um casamento anterior foi condenado por homicídio, e trata tanto Joni, sua filha do segundo casamento, quanto seu namorado Aaron como filhos, tamanha sua carência paternal. Mas então, de uma hora para outra, seu casamento desmorona por conta de uma série de acontecimentos meio escabrosos, e sua família se dispersa. Ele é deixado para trás, mas segue seu caminho. Anos mais tarde, é nomeado Ministro da Educação, e isso acontece ao mesmo tempo em que fica sabendo que seu filho saiu da cadeia, e que sua filha faz agora exibições pornográficas na internet se apresentando como parente de uma importante figura pública. Sigerius começa a ser chantageado tanto pelo filho quanto por alguém que controla sua filha, e sua vida vira um inferno.

Esse é apenas o ponto de partida de "Bonita Avenue", um romance que se lê como um thriller, apesar de ser muito mais denso, mais estilizado e menos formulaico que um thriller pretenderia ser. O autor Peter Buwalda trabalha um conceito narrativo extremamente intrincado, com nada menos que três narradores diferentes atuando, e a ação saltando do passado para o futuro, e depois voltando ao passado diversas vezes. Por conta disso, a tensão provocada pela sucessão de fatos opressores de "Bonita Avenue" é não apenas engenhosa, mas também extremamente ambiciosa em termos literários.


Em meio a esse festival de malabarismos estilísticos, Peter Buwalda expõe uma distropia doméstica assustadora, onde a loucura, a violência e perversões sexuais passeiam diante dos nossos olhos, numa narrativa caleidoscópica sobre choques de valores entre diferentes gerações que deixa o leitor sem chão em diversas ocasiões diferentes.

Constantemente comparado a Jonathan Frazen e a Michel Houellebcq por alguns críticos mais apressados, eu diria que Peter Buwalda lembra mais o Philip Roth de "Goodbye Columbus", "When She Was Good" e "Portnoy's Complaint", seus primeiros romances, do que qualquer outro autor. A perplexidade de seu personagem diante da complexidade dos fatos que o envolvem de uma hora para outra acontece de uma maneira muito inusitada e envolvente. E não há nada mais interessante do que estar diante de alguém que, à primeira vista, parece vítima de uma situação conturbada, mas está longe de ser apenas isso.


Mas, falando francamente, o que mais me surpreendeu em "Bonita Avenue" foi a maneira com que Peter Buwalda conseguiu imprimir pitadas de humor num meio de campo literário que é, em princípio, hostil a investidas desse tipo. São ousadias como essa que romancistas de primeira viagem, que querem a todo custo impressionar seus leitores, cometem sem pensar muito se vai funcionar ou não. E quando acertam, deixam seus leitores boquiabertos.

Pois no caso de "Bonita Avenue", não funcionou extremamente bem como talvez seja sua maior credencial de recomendação.

Guarde bem esse nome: Peter Buwalda. Você ainda vai ouvir falar muito dele. 

BONITA AVENUE
um romance de
Peter Buwalda
tradução de
Cássio de Arantes Leite
Editora
Alfaguara
536 páginas
64,90 reais


Chico Marques devora livros
desde que se conhece por gente.
Estudou Literatura Inglesa
na Universidade de Brasília
e leu com muito prazer
uma quantidade considerável
de volumes da espetacular
Biblioteca da UnB.
Vive em Santos SP, onde,
entre outros afazeres,
edita a revista cultural
LEVA UM CASAQUINHO


HISTÓRIA QUE NOSSOS NETOS VÃO CONTAR PARA NOSSOS BISNETOS

por Antonio Luiz Nilo


Era uma vez um pequenino país chamado Uruguai. Seu presidente, acreditem, doava 90% do seu salário para programas sociais. Ele vivia numa chácara, onde dividia o espaço de sua casa de um quarto, de teto de zinco, com a mulher e um cachorro de 3 patas.

O presidente se chamava Pepe Mujica e, além da modestíssima residência, possuía apenas um fusca 87. Somente dois policiais faziam a sua segurança e normalmente o acompanhavam no carro presidencial, um Corsa sedan.

Mujica tinha um passado revolucionário, de esquerda, mas quando chegou ao poder, diferente de outros presidentes muito próximos, continuou pobre. O país que ele governava era considerado o mais seguro e menos corrupto de toda a America Latina. O sistema de saúde funcionava perfeitamente e o de educação era modelo: cada um dos 300 mil alunos da rede pública tinha um computador pessoal doado pelo governo.

Mujica possuía uma visão social tão justa e corajosa que chegou a vender inúmeros prédios públicos, incluindo uma residência oficial em Punta del Este, para construir casas populares.

“El Viejo”, como era conhecido, tinha, em 2016, 80 anos de idade. E de sua experiência e estilo pessoal irrompia uma conversa simples, inteligente e bem humorada.

No ano de 2012, depois de ir a três enterros em pouco mais de uma semana, comentou com um amigo: “deixa eu ir embora logo senão aprendo o caminho”. Mas era de seu discurso que nasciam as mais respeitadas e importantes reflexões do mundo globalizado.

O mais espetacular, sem dúvida, foi o proferido na conferência Rio + 20: “Estamos governando a globalização ou é a globalização que nos governa?” Depois de sentenciar aos presentes de que não se tratava de uma crise ecológica e sim política, Mujica ferroou com precisão: “Não viemos ao planeta para nos desenvolver. Viemos para ser felizes”. E explicava, num texto pausado e professoral, que nenhum bem material valia um milionésimo do que valia a vida. E que era o hiper-consumo que de fato corroia o planeta. E parafraseando pensadores antigos, emendou: “pobre não é o que tem pouco, mas sim o que necessita muito...e que deseja cada vez mais.”

Explicou que em seu rico país, os companheiros lutaram para conseguir uma jornada de 6 horas de trabalho. Mas que esse benefício só serviu para que trabalhassem em dois períodos com o propósito de pagar suas contas, sua moto, seu carro, suas ilusões. E que quando acordassem já estariam velhos como ele, sem esperanças. E concluía: “É esse o sentido da vida? Me desculpem, mas o desenvolvimento não pode ir contra a felicidade. Ele tem que ir a favor das relações humanas... e para isso basta ter o necessário.”

A vida de um homem assim, de tanta sabedoria e tamanho desapego material, pode até parecer uma fábula, mas é uma história linda. Feio é viver num país onde uma fábula é o que nos custa um governante.


Antonio Luiz Nilo nasceu em Santos
e é redator publicitário
e diretor de criação
há quase 30 anos,
com prêmios nacionais e internacionais.
Circulou a trabalho por todo o país,
com paradas prolongadas em
Brasília, Belo Horizonte e Salvador.
Publicou em 1986
"Poemas de Duas Gerações"
e, mais recentemente, o romance
"Ascensão e Queda de Pedro Pluma"
(disponível para venda em alnilo@gmail.com).
Além disso, atuou como cronista
para o diário Correio da Bahia.
De volta a Santos desde 2013,
Antonio segue sua trajetória
cuidando de Projetos Especiais
na Fenômeno Propaganda
e como sócio-diretor
da Agência de Textos
TP Texto Profissional.




QUAL É O SEU SIGNO?

por José Luiz Tahan



Nunca fui muito na onda da astrologia, sempre com um pé atrás com aquelas previsões que diziam sobre a fase que enfrentávamos em nossas vidas. Hoje não mudei, com um agravante, acredito um pouco menos nos livros de astrologia. Para falar mais diretamente, acredito menos nas vendas deste gênero. Acho que já se passaram mais de 20 anos, quando me lembro que os esotéricos estavam no auge, e dentro da categoria, os livros de horóscopo. Muitos deles eram sérios (uma coisa é ser descrente, outra é ridicularizar o gênero) e as pessoas também, apenas não participo do movimento.

Naquele tempo os livros das editoras Cultrix e Pensamento eram o carro-chefe da turma dos astros, ajudavam a pagar aluguéis e claro que simpatizávamos com os clientes, sempre ávidos por novidades da área. O problema era o nosso total distanciamento com a crença, quando chamados a dar opiniões sobre os títulos falávamos algo como “Esta editora é muito tradicional, séria...”

Fazíamos todos os anos um encontro dos batutas dos planetas, no SESC. Era demais! Eu e o Luigi - ele dez anos mais velho – atendendo o pessoal, com um ar de sabidos e um tanto ansiosos para os ponteiros do relógio caminharem.


O Luigi é um baita cara engraçado, e tirava um sarro da minha cara, que era um calouro. Estávamos matando o tempo entre um dos intervalos, esses eventos duram o dia todo e entre as palestras se apresenta um tédio completo. Na volta da cantina ele trazia um guardanapo com uma marcha de carnaval, ele sacudia o papel dizendo “Zé, acho que criei um sucesso! Ouça, até musiquei! Linda morena, morena, morena que me faz penaaarr,A Lua cheia, que tanto brilha, não brilha tanto quanto seu olhar...” Eu estava boquiaberto. Luigi, vai pegar, vai pegar! Meus parabéns!, eu dizia.

O evento prosseguia, cada vez mais curioso. Uma senhora disse à amiga que tinha um peixe de aquário, juro que ouvi e pensei, onde fui amarrar meu burro.

Se passaram uns dias do evento quando fomos ao café vizinho à Livraria Iporanga (da qual éramos sócios) para jogar palitinho com alguns amigos e lembrei da canção. Em meio a partida que definiria quem pagaria a rodada de cafés falei pro Luigi da marchinha, lembro que cantei um trecho, e o Luigi não deu a menor importância. Fiquei um tanto contrariado. Como se esquecer de uma criação tão boa Daí que ele estalou, rachando de rir e disse. Pô Zé, eu estava brincando, aquilo é Lamartine, Lamartine Babo.

Dali em diante prestei muito mais atenção nas marchas de carnaval, um mundo novo se abriu. Valeu Luigi! Ah! Tanto eu quanto o Luigi somos de escorpião, eu com ascendente em sagitário.




José Luiz Tahan é livreiro e editor, 
e proprietário da Realejo Livros e Edições, 
a livraria e publishing house 
mais charmosa de Santos
e de todo o Litoral Paulista.




POEMINHA DE SEGUNDA: A LUA FOI AO CINEMA, de Paulo Leminski



A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!

Paulo Leminski Filho (1944-1989)
foi um grande escritor, poeta,
tradutor e professor brasileiro.
Sua obra poética está reunida
num único volume,
publicado 3 anos atrás
pela Companhia das Letras.
Foi também faixa-preta de judô.



BOFETADA DO PASSADO: O QUE ELES DISSERAM ANTES DO ÚLTIMO SUSPIRO

por Sérgio Augusto
(publicado originalmente pelo ESTADÃO em 15 de Junho de 1996)



Ainda vão dizer que a morte nunca mais foi a mesma depois que o psicodélico Timothy Leary a curtiu numa boa, via Internet. Ao contrário de Woody Allen, ele não só não temia a morte como adorou estar vivo quando ela bateu à sua porta. Como ela há muito se anunciara, sobrou tempo para Leary bolar suas últimas palavras com o mesmo capricho de quem vai, não para os campos elíseos, mas para a entrega do Oscar. Na hora h, preferiu ser breve: "Why not? Yeah!" (Por que não? Sim!).

Breve, impávido, mas nada brilhante.

Em seu lugar, Woody Allen talvez dissesse algo mais inteligente ou mais engraçado. "Rosebud", por exemplo. Ou, então, "Misericórdia divina, será que Rico chegou ao fim?"

(Quase todo mundo sabe que "Rosebud" foi a última coisa que o personagem de Orson Welles em Cidadão Kane pronunciou antes de morrer. Poucos, no entanto, ainda se lembram do epílogo de Alma no Lodo, quando o gângster Rico Bandello, aliás Edward G. Robinson, crivado de balas pela polícia, perguntava aos céus se sua hora afinal havia chegado.)

Mas é bem possível que Woody Allen, ao bater as botas, trema nas bases, perca o senso de humor e não se saia tão galhardamente quanto o poeta americano Hart Crane e o romancista inglês H.H. Munro, mais conhecido como Saki. Ao se jogar ao mar de um navio que o trazia do México, em 1932, Crane não se esqueceu de se despedir da turma do convés: "Adeus, pessoal!" Saki, apesar de atingido mortalmente por um tiro, em plena guerra, ainda encontrou forças para ordenar a um tabagista a seu lado: "Apague a porcaria desse cigarro!" Bravos rapazes. Enfrentar a morte com galhardia é proeza pra macho. Apesar das aparências, Oscar Wilde era um deles. Segundos antes de abotoar o paletó, pediu mais uma taça de champanhe e, sem perder o velho aplomb, comentou: "Estou morrendo como sempre vivi, além das minhas posses."

A despedida de Wilde é uma das minhas favoritas. Páreo duro com a de Goethe ("Mais luz!"), talvez a mais conhecida de todas depois do perdão que Cristo reivindicou na cruz para seus algozes.

Parece que sempre escurece quando entregamos a alma a Deus. "Acendam as luzes", ordenou o escritor O. Henry em seu leito de morte. "Eu não quero ir pra casa no escuro", acrescentou – e em seguida esticou as canelas. Acontece que na casa para onde ele ia tampouco havia luz, pois, segundo consta, do "outro lado" reinam as trevas – ao menos enquanto não decidem o nosso destino final, se o paraíso ou o inferno. Precavido, o filósofo Jean-Jacques Rousseau, ao empacotar, anunciou: "Vou ver o sol pela última vez."

Dorothy Parker morreu dormindo. É de se esperar que ela fizesse alguma gracinha antes de dar seu último suspiro. Na verdade ela fez, porém muito antes de vestir a camisola de madeira, quando escolheu os dizeres de sua lápide: "Pardon my dust" (Desculpe o pó), debochada alusão à substância a que a morte nos remete. Nisso igualou-se ao poeta inglês John Keats, que embora tenha sucumbido à tuberculose na presença de uma testemunha (o pintor Joseph Severn, a quem disse: "Vou morrer naturalmente. Não se assuste. Graças a Deus chegou a minha hora", tendo ao fundo uma sonata de Brahms), será sempre lembrado pela inscrição que sugeriu para a sua tumba: "Sinto as flores crescendo em cima de mim."

A propósito, nem todas as pessoas engraçadas que não morrem dormindo expiram com um chiste na ponta da língua. Sérgio Porto, o saudoso Stanislaw Ponte Preta, não soltou uma piada ao ser fulminado por um enfarte em 1968, mas a maneira como pediu à empregada que se comportasse naquele momento traiu o humorista: "Não olhe para mim, não, Lena, que eu estou apagando." Também era uma criada que o ex-campeão mundial de pesos pesados Max Baer tinha a seu lado quando, no ano seguinte, entregou suas luvas ao Todo Poderoso: "Oh, Deus, lá vou eu."

O estilo é o homem. Assis Chateaubriand exibiu sua autoridade até o fim: "Não vou escrever nem editar mais nada!". Se Voltaire foi trivial ("Me deixem morrer em paz"), Diderot nem a um passo da eternidade parou de filosofar. "O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade", sentenciou em seu leito de morte. Charles Darwin mostrou-se modesto na hora de ajustar suas contas com o Criador. "Eu não tenho menos medo de morrer que os outros", confessou – e, como os outros, foi virar comida de minhoca.

No extremo oposto, encontramos Hegel, que mordeu o pó com a seguinte observação: "Só um homem conseguiu me entender... e não me entendeu direito." Um século mais tarde, outro gênio da opacidade, James Joyce, se despediria desta com uma pergunta enigmática: "Será que ninguém entende?". Joyce foi fiel a si mesmo até na hora de entregar a rapadura.

Seu conterrâneo George Bernard Shaw não ficou atrás. Ranzinza como ele só, irritou-se com a enfermeira que se esfalfava para mantê-lo vivo: "Irmã, você está tentando me manter vivo como uma peça de antiguidade, mas eu já acabei, cheguei ao fim, estou morrendo." E morreu mesmo. Com uma antiga idade, 94 anos.

Outro modelo de autenticidade, o empresário P.T. Barnum, dono dos mais luxuosos picadeiros da América no final do século passado, despediu-se do mundo dos vivos falando do que mais entendia: negócios. "Como foi a venda de ingressos hoje no Madison Square Garden?", perguntou a um assistente – e apagou. Se não me engano, demorou a morrer, padecendo um longo coma, do qual nunca emergiu. Tal não foi o caso do teatrólogo e grande frasista da Broadway Wilson Mizner, que ao sair do coma ainda teve cabeça para dar um fora no padre que tentava convencê-lo dos benefícios da confissão: "Por que me abrir com você se já falei com o seu patrão?"

As últimas palavras de Graciliano Ramos também foram proferidas na volta de um coma. Não, ele não se queixou de estar perto do fim ("Estou acabado", teria dito, segundo algumas versões). A víuva do escritor, Heloísa Ramos, conta que na verdade ele saiu do coma, olhou para ela, deu um sorriso crivado de ternura e dor, encostou a mão espalmada no rosto dela, sussurou "mamãezinha" e dormiu para sempre.

A morte do velho Graça não foi a única a ter mais de uma versão. Há quem sustente que Rabelais, ao morrer, disse estar indo "para o grande talvez". Outros, no entanto, asseguram que ele, bem ao seu estilo, ordenou aos circunstantes: "Desçam as cortinas, a farsa acabou." As last words de Byron também produziram discussões, a meu ver irrelevantes. Afinal, que diferença existe entre "agora, vou dormir" e "tenho de dormir agora"? Controvérsia mais procedente suscitaram as últimas palavras de Edgar Allan Poe. Para uns, ele teria clamado "Deus tenha pena de minha pobre alma". Segundo outros, Poe implorou que lhe estourassem os miolos com um tiro.

O dramaturgo norueguês Henrik Ibsen e o compositor alemão Arnold Schoenberg saíram de cena do mesmo jeito. A enfermeira entra no quarto e diz que ele (Ibsen, em 1906; Schoenberg, em 1951) está melhorando. "Ao contrário", contesta o moribundo, morrendo logo depois. Com o escritor inglês D.H. Lawrence ocorreu justamente o inverso. Suas últimas palavras traíam um otimismo descabido: "Estou melhor agora."

Tolstoi preocupou-se mais com a forma de sua morte ("E os camponeses? Como é que os camponeses morrem?") do que com o seu, digamos, conteúdo. Sócrates revelou-se um moribundo tão pragmático quanto P.T. Barnum. Antes de baixar sepultura, pediu a Cristo que saldasse uma dívida para ele. Platão? Limitou-se a agradecer por ter nascido homem, grego e contemporâneo de Péricles.

Nossa maior glória literária, Machado de Assis, foi mais abrangente que Platão. Cercado por seis amigos, entre os quais Euclides da Cunha, José Veríssimo e Coelho Neto, reservou o que ainda restava de seu fôlego para admitir que "a vida é boa". E só então partiu de vez.

Para amainar um pouco o tom forçosamente fúnebre desta página, ressuscito a mais divertida de todas as despedidas desta vida. Protagonista: o trêfego José do Patrocínio Filho, finado em 1929. Quando estava nas últimas, arruinado por drogas e biritas, sem apetite para nada, seu médico apelou para um alimento especial: leite humano. Ao ver a dificuldade com que a enfermeira tirava o leite dos belos e fartos seios de uma doadora profissional, para depositá-lo numa minúscula colher, Zequinha do Patrocínio arregalou os olhos e sugeriu: "Doutor, não é melhor eu mamar?". E em seguida foi mamar no além.


Sérgio Augusto (Rio de Janeiro, 1942)
é um jornalista e escritor brasileiro.
Começou sua carreira como crítico de cinema
na Tribuna da Imprensa, em 1960.
Trabalhou também no Correio da Manhã,
no Jornal do Brasil, na Folha,
e nas revistas O Cruzeiro,
Fatos & Fotos, Veja, IstoÉ e Bravo!,
além dos semanários O Pasquim, Opinião e Bundas.
Desde 1996, ele escreve para o Estadão.

ESQUEÇAM O OSCAR: O GRANDE FILME DO ANO ATENDE PELO NOME "O QUARTO DE JACK"

por Fábio Campos


O Quarto de Jack é um filme perturbador. Apesar de ter visto o trailer, não sei se por ingenuidade ou distração, não compreendi o real motivo da mãe e do garoto viverem confinados num quarto. Acho que isso amplificou o impacto do filme, que já é enorme. Por isso, se você não viu o filme, recomento ir ao cinema, assistir e depois voltar aqui.

O filme é duma intensidade absurda e, ao mesmo tempo, a história é contada com tamanha simplicidade que intensifica o seu impacto. Não vou resumir a história, como disse, ela é simples e intensa.

Vou tentar colocar alguma ordem no que passou na minha cabeça durante e depois da exibição. Vou tentar evitar spoilers, mas, qualquer reflexão a respeito do filme vai acabar dando pistas sobre ele.


Apesar da situação extrema, o dia a dia nos vai sendo apresentado de maneira quase rotineira, não muito diferente do de algumas mães. Aos poucos o elemento particular da situação nos vai sendo apresentado, sem maniqueísmos. Somos, literalmente, espectadores de uma situação grotesca - acho que isso é o que perturba mais no filme, assistir a tudo impotentes, ter que aceitar aquilo.

A partir da metade a situação se inverte. O que deveria nos causar alivio passa a causar desconforto. O filme trabalha isso muito bem. Durante os momentos mais desesperadores a mãe age com uma quase normalidade, para preservar o filho. Aquela rotina, e o foco absoluto em salvar a vida do garoto, acaba preservando a sua sanidade, fazendo com que ela aceite o inaceitável.

O que deveria ser alívio, acaba gerando angústia. Como lidar com o julgamento alheio depois de tanto tempo sobrevivendo por conta própria? Como não pensar no tempo perdido? Como lidar com as inúmeras possibilidades de futuro ao invés de se concentrar somente no dia seguinte? Como voltar para um mundo tão diferente daquele que estava na memória?


Algumas coisas me chamaram muito a atenção. A reação dos avós do garoto. Para o homem o garoto é a prova viva do seu fracasso em proteger a filha, algo muito masculino. Para a mulher, ele é simplesmente o neto, que precisa de cuidado. Uma abordagem muito mais generosa, e mais feminina.

Outra coisa interessante é observar que quando colocamos todas as nossas forças em algo, e atingimos esse objetivo, muitas vezes perdemos o rumo. A conquista acaba gerando frustração ao invés do jubilo.

Mas a principal força do filme está em apresentar dilemas da maternidade sem ser piegas. Salta aos olhos como o amor de mãe consegue definir uma imagem do mundo para os filhos. Fiquei pensando que isso pode ser uma dadiva e, ao mesmo tempo, uma maldição. As mães conseguem transformar o mundo em algo agradável e, muitas vezes, podem impor uma visão tacanha e limitante do mundo. Afinal, ignorância, preconceito e brutalidade também nascem em casa.

É, sem dúvida, uma tarefa das mais difíceis e inglórias. Não é à toa que, depois de tudo, a protagonista termine o filme questionando seu desempenho como mãe. Esse é o verdadeiro desafio da maternidade!


Fábio Campos convive com filmes
desde que nasceu, 49 anos atrás.
Seus textos sobre cinema passam ao largo
do vício da objetividade que norteia
a imensa maioria dos resenhistas.
Fábui é colaborador contumaz
de LEVA UM CASAQUINHO.