Friday, December 30, 2016

UMA DAS MAIORES ARTISTAS AMERICANAS DE TODOS OS TEMPOS COMPLETA 70 ANOS HOJE


CELEBRAMOS OS 70 ANOS DE VIDA
DESSA ADORÁVEL REBELDE AMERICANA
TRAZENDO A ÍNTEGRA
DE UMA GRANDE PERFORMANCE
GRAVADA NO FESTIVAL DE MONTREUX
ONZE ANOS ATRÁS.





LEVA UM CASAQUINHO ESCOLHE OS DEZ MELHORES LIVROS DE 2016 (por Chico Marques)

1. COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PALIMPSESTO DE PUTAS
(Elvira Vigna - Cia das Letras)
Aos 69 anos de idade, com 10 romances publicados, Elvira Vigna está de volta neste Como Se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas, que passeia pelo universo da prostituição em Copacabana como pretexto para um mergulho profundo nas vicissitudes da vida urbana. Seus personagens são desprovidos de glamour. São seres urbanos com vidas devastadas tanto em termos afetivos quanto em termos emocionais e pessoais, irremediavelmente presos a hábitos que são daninhos a eles próprios, mas sem os quais a vida deles não consegue fazer sentido. Estamos diante de um grande romance que aborda, antes de mais nada, a solidão e o desalento, e que não cai em momento algum em julgamentos morais ou psicologices.
2. ESTAÇÃO ATOCHA
(Ben Lerner - Rádio Londres)
Temos aqui um protagonista que faz coisas incríveis e excepcionais, age de forma imprevisível, talvez até possa ser classificado como um herói do cotidiano, mas se considera um impostor. Adam Gordon é um bolsista de pesquisa em Madri, na Espanha. Seu projeto deveria ser estudar a influência da guerra na literatura e, a partir daí, compor um poema longo sobre o momento atual. Mas, ao invés disso, Adam passa seus dias passeando pela capital espanhola, ou em seu apartamento vendo a luz passar pela claraboia, se chapando de haxixe. Vez ou outra, escreve um poema, mas nada muito a sério. Envolve-se com duas mulheres ao mesmo tempo, mas sem se comprometer com nenhuma delas. É fascinado pelo êxtase que certas pessoas atingem diante da arte. Trocando em miúdos: Adam é um poeta no sentido mais amplo do termo -- mas se considera incompatível com a arte, e não consegue produzir sua própria arte. Estação Atocha é talvez o romance de estreia mais intenso que li nos últimos anos. Guardem bem este nome: Ben Lerner. Vocês vão ouvir falar dele um bocado nos próximos anos.
3. A VIDA NÃO TEM CURA
(Marcelo Mirisola - Editora 34)
Situado na década de 1960, este sétimo romance do incansável Marcelo Mirisola aborda com alguma truculência e muito bom humor assuntos delicados como violência contra a mulher e relacionamentos com travestis. Seu narrador, coitado, foi obrigado pelas circunstâncias a encarar a vida adulta como Professor de Matemática depois de viver uma adolescência idílica. Então, é feito de gato e sapato por sua musa, a mulher-belzebu Natasha -- com quem foi casado e tem uma filha --, e acaba envolvido com o tráfico de meninos travestis e com o submundo das Igrejas neoevangélicas. Duvido que a essa altura do campeonato você não tenha ficado ao menos curioso para conhecer um pouco mais dessa nova aventura literária de Mr. Mirisola. Eu sou suspeito para recomendar A Vida Não tem Cura, pois conheço o autor há muitos e muitos anos. Mas... dane-se! Recomendo mesmo assim, pois Mirisola é um ótimo escritor com muitos desafetos e merece ter mais leitores do que possui atualmente. 
4. TIRZA
(Armon Grunberg - Rádio Londres)
Os brasileiros já conheciam Armon Grunberg de dois romances lançados tempos atrás por aqui pela Editora Globo pouco depois da virada do século: Amsterdam Blues e Dor Fantasma. De uns anos para cá, ele mudou radicalmente seu approach literário e mergulhou de cabeça numa espécie de auto-ficção. Tirza é um exemplo disso. É uma espécie de tragédia em três atos, em que as muitas falhas de caráter do protagonista são
castigadas, uma a uma, até que só reste a ele o amor que dedica à filha, Tirza, que começa a desabrochar, e planeja, logo após sua formatura do colegial, fazer uma longa viagem à África com seu namorado marroquino. O relato, narrado bem próximo ao ponto de vista do pai, inicia-se no dia da festa de formatura. Para piorar, sua esposa ressurge inesperadamente após ter abandonado a família sem uma palavra, três anos antes. E por aí vai. Publicado originalmente dez anos atrás, só agora Tirza ganhou uma tradução no Brasil. Foi
considerado em uma pesquisa entre críticos, acadêmicos e escritores europeus o romance europeu mais importante do século 21 escrito até agora. Mais um bom motivo para você conhecê-lo.
5. BUTCHER'S CROSSING
(John Williams - Rádio Londres)
Na década de 1870, Will Andrews, um jovem de 23 anos, desiste de Harvard e resolve sair da casa paterna em Boston, Massachusetts, rumo ao Oeste em busca de uma forma mais autêntica de viver. Vai parar em Butcher’s Crossing, um pequeno povoado solitário perdido na vastidão da pradaria do Kansas e habitado por uma pequena comunidade de negociantes de peles e rudes caçadores de búfalos. Faz amizade com um caçador e, junto com outros três homens, monta uma expedição de caça a búfalos nas Rochosas do Colorado. Marcada por desafios extremos – sede, frio, calor, exaustão – e por um isolamento quase total, essa caçada vai durar vários meses e se tornar uma árdua aventura na natureza selvagem. Uma excelente introdução ao universo literário do ex-aviador John Williams, que em apenas quatro romances conseguiu ser aclamado como um dos romancistas americanos mais importantes do Século XX.
6. SIMPATIA PELO DEMÔNIO
(Bernardo Carvalho - Cia das Letras)
Bernardo Carvalho optou por surpreender pra valer seus leitores em seu 12°romance. Rato, o protagonista de Simpatia Pelo Demônio, atua há cerca de trinta anos como agente humanitário em zonas de conflito. Sua tese, Tratado Sobre a Violência, facilitou a obtenção de um posto em uma importante organização com sede em Nova York. Aos cinquenta e cinco, Rato é escalado para uma missão com enorme potencial suicida: é designado para levar o dinheiro para resgatar um jovem refém de um grupo extremista islâmico. Enquanto aguarda o contato com os terroristas, revive um romance de juventude que teve com um estudante mexicano em Berlin. Fortemente influenciado por George Bataille, com erotismo e violência se comunicando continuamente, tudo é ao mesmo tempo o seu contrário em Simpatia Pelo Demônio. Se Rato morrer na missão, terá sido pela violência, mas também por amor. Preparem-se para conhecer um dos romances mais inusitados e indigestos deste ano.
7. O TRIBUNAL DE QUINTA-FEIRA
(Michel Laub - Cia das Letras)
Um publicitário faz confissões por e-mail ao melhor amigo. Os textos falam de sexo e amor, casamento e traição, usando termos e piadas ofensivas que contam a história de uma longa crise pessoal. Quando a ex-mulher do protagonista faz cópias das mensagens e as distribui, tem início o escândalo que é o centro deste romance explosivo. O fio condutor da história, que une o destino dos personagens diante de um tribunal inusitado, são os reflexos tardios e ainda hoje incômodos da epidemia da aids, e o que está em jogo são os limites do que entendemos por tolerância — mas para chegarmos a eles é preciso ir além do que seria uma literatura “correta” ao tratar de homofobia, assédio, violência, empatia, liberdade e solidariedade. Este novo romance de Michel Laub é, sem dúvida, o grande destaque de uma carreira bem consolidada. Aqui, ele assume alguns riscos mais intensos, e prova que a força de sua escrita é proporcional à honestidade e à insolência, mas também à perspicácia do narrador.
8. ENCLAUSURADO
(Ian McEwan - Cia das Letras)
McEwan surpreendeu a todos utilizando um feto como narrador deste romance curto. Obviamente, não se trata de um feto qualquer. Pelos nomes de seu pai, sua mãe e do seu tio (que é amante de sua mãe), logo identificamos os personagens centrais de Hamlet, de William Shakespeare. Aprisionado na barriga da mãe, ele acompanha os planos da mãe e do tio para matar seu pai sem poder fazer coisa alguma para evitar. Mas não se engane: apesar dos elementos trágicos que circundam a história toda, Enclausurado é divertidíssimo. O feto escuta a Rádio BBC o dia inteiro e tem opiniões formadas sobre os Conflitos no Oriente Médio e uma infinidade de outros assuntos. Não é o melhor trabalho de McEwan. Mas qualquer um que ouse criar um narrador tão inusitado quanto este aqui, merece ser lido por muitos.
9. OS FATOS
(Philip Roth - Cia das Letras)
Quando Philip Roth decidiu se aposentar e não escrever mais 5 anos atrás, ele se despediu com esse despretencioso livro autobiográfico, onde se revela como um romancista que tentou, à sua maneira, remodelar a maneira como encaramos a ficção. Aqui ficamos conhecendo um pouco melhor as conexões entre sua arte e sua vida. Em Os Fatos, Roth foca em cinco episódios de sua trajetória: sua infância em Newark, sua formação universitária, seu envolvimento com a pessoa mais ríspida que conheceu, seu embate com a comunidade judaica por conta de seu livro Adeus, Columbus e a descoberta do lado adormecido de seu talento que o levou a escrever O Complexo de Portnoy. Os Fatos fala pouco de Roth dos Anos 1970 para cá, e encerra com uma autocrítica muito divertida a suas habilidades discutíveis como biógrafo de si mesmo. Não é um livro fundamental na obra de Roth. Mas é bem bacana, e merece ser lido.
10. PUREZA
(Jonathan Franzen - Cia das Letras)
Pip Tyler não sabe ao certo quem é. Só sabe que seu nome verdadeiro é Purity, que está cheia de dívidas, dividindo um apartamento com um grupo de anarquistas e em litígio com sua mãe. Não sabe quem é seu pai. Não entende porque sua mãe sempre a forçou a viver reclusa. Adoraria ter uma vida normal e um nome que ao menos não fosse tão bandeiroso quanto esse que sua mãe lhe deu: Purity. Um acaso do destino acaba trazendo-a para a América do Sul, para fazer estágio numa organização que contrabandeia segredos do mundo inteiro. E é a partir daí ela começa a esboçar um rumo diferenciado para sua vida. Pureza, este mais recente calhamaço de Jonathan Franzen, é uma história sobre idealismo juvenil, lealdade e assassinato, em sintonia fina com os tempos em que vivemos. Neste romance sobre enigmas familiares, a internet é retratada como vitrine de segredos públicos e particulares, e Franzen analisa os prós e os contras do uso que se faz hoje da Web, além de investigar o que, para ele -- e para muitos de nós também -- é a grande questão filosófica desde novo século: o fim da privacidade com a chegada das redes sociais. Detalhe: faz isso de uma maneira muito incisiva e peculiar, como nenhum outro romancista -- de qualquer nacionalidade -- fez até agora.


CAFÉ E BOM DIA #45 ESPECIAL DE REVEILLON (por Carlos Eduardo Brizolinha)



L’AFFAIRE SARDINHA
O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente

Paródia e intertextualidade de José Paulo Paes.

Se pudesse querer ser alguém não seria John Malkovich e sim José Paulo Paes.


O Avesso e Direito é um livro pequeno, tem só 109 páginas, contando com 20 páginas só de prefácio. Mas é lindo, incrível ver como o Camus pode ter escrito esse livro com só 22 anos. Na verdade, particularmente, acho que os jovens tem muito a dizer, só não são escutados. Esse livro contém 5 peças que para ele são 'ensaios literários', ele fala sobre a solidão, sobre a ausência de Deus, sobre o amor, sobre a morte, sobre o absurdo da condição humana, tudo de uma maneira poética, que quem já leu Camus, sabe como é. É lindo, e no mais, não custa nada, são poucas páginas. Vai aí um dos trechos que eu mais gostei: "Isso tudo não se concilia? Bela verdade. Uma mulher que se abandona para ir ao cinema, um velho que não é mais ouvido, uma morte que nada resgata, e então, do outro lado, toda luz do mundo. Que diferença faz isso, se tudo se aceita? Trata-se de três destinos semelhantes e, contudo, diferentes. A morte para todos, mas a cada um a sua morte. Afinal, o sol nos aquece os ossos, apesar de tudo."


O DESEJO DE PINTAR
Infeliz, talvez, seja o homem, mas feliz é o artista a quem o desejo dilacera! Fico louco de vontade de pintar aquela que me aparece tão raramente e foge tão depressa quanto uma coisa bela, inesquecível, atrás do viajante levado pela noite. E já faz tempo que ela desapareceu!
Ela é bela e, mais que bela, é surpreendente. Nela o negror é abundante: e tudo o que ela inspira é noturno e profundo. Seus olhos são duas cavernas onde cintila, vagamente, o mistério, e seu olhar ilumina como um relâmpago; é uma explosão nas trevas.
Eu a compararia a um sol negro, se se pudesse conceber um astro negro vertendo luz e felicidade. Mas ela faz mais facilmente pensar na lua, que, sem dúvida, a marcou com sua terrível influência; não a lua branca dos idílios, que parece uma fria noiva, mas a lua sinistra e embriagada, suspensa ao fundo duma noite tempestuosa, empurrada pelas nuvens que correm; não a lua pacífica e discreta que visita o sono dos homens puros; mas a lua arrancada do céu, vencida e revoltada, que as Feiticeiras tessalianas constrangem duramente a dançar sobre a relva aterrorizada!
Em sua pequena fronte habitam a tenaz vontade e o amor à presa. Entretanto, sob esse aspecto inquietante, onde as narinas móveis aspiram o desconhecido e o impossível, brilha, com inexprimível graça, o riso de uma grande boca vermelha e branca e deliciosa que faz sonhar o milagre de uma soberba flor que desabrocha em um terreno vulcânico.
Há mulheres que inspiram o desejo de vencê-las e de divertir-se com elas, mas essa dá vontade de morrer lentamente sob seu olhar.
NADA MELHOR DO QUE BAUDELAIRE PARA FECHAR AS CORTINAS DE 2016.
SEM CAFÉ.
BOM DIA.


Carlos Eduardo "Brizolinha" Motta
é poeta e proprietário
da banca de livros usados
mais charmosa da cidade de Santos,
situada na Rua Bahia sem número,
quase esquina com Mal. Deodoro,
ao lado do EMPÓRIO SAÚDE HOMEOFÓRMULA,
onde bebe vários cafés orgânicos por dia,
e da loja de equipamentos de áudio ORLANDO,
do amigo Orlando Valência.



AFOGADO EM PAPEIS (uma crônica de Marcus Vinicius Batista)



Não consigo fugir deles. Guardo cada vez menos. Imprimo o mínimo necessário. Repasso cada vez mais. Um país cartorial como o nosso, quando a papelada chegou nas caravelas antes da nação, não perdoa: tudo precisa de papel. E, com ele, vem os "donos" das pilhas de folhas, os reis do frente e verso: os burocratas.

A burocracia é um esporte cotidiano brasileiro. Tudo passa por um carimbo, um código, um número, uma assinatura, uma sigla, um registro que se sobrepõe a outro registro, que anula o registro anterior, que renova o registro para que tudo esteja devidamente registrado. Por quem? Para quê?

Sempre desconfiei da burocracia. Você aprende com o tempo que, quase sempre, é uma cena para qual você foi convocado, jamais convidado. Seu papel é providenciar e entregar papéis. Folhas que cumprem protocolo, que se avolumam e ganham importância pelo tamanho, quase nunca pelo conteúdo. Poucos leram ou lerão a papelada. Prevalece a conferência, olhar que a ordem é a correta, se os carimbos e assinaturas estão nos devidos lugares.

O burocrata é o símbolo da desconfiança. Antes de dificultar para facilitar, ele te olha de cima abaixo. A mesa ou balcão são seus escudos. Assim, evita-se o contato corporal que vai desnudar a fragilidade de quem "só trabalha aqui", de quem responsabiliza o "sistema", a "fiscalização" pela lista de papéis que tem que ser entregues. Para ontem! O burocrata almoça urgência, janta emergência.

Depois de te medir, o burocrata sorri. O sorriso procura amaciar a carne alheia, antes de bater nela com um formulário, um ofício, uma xerox, uma nova regra em outro formulário, ofício - você já sabe o caminho. Burocracia é, claro, repetição. A segurança da mesa, aliada à pilha de documentos que viraram estátuas. Quanto maior a pilha intocável, mais sagrado será o discurso de que há muito serviço a fazer. São os tempos modernos de Chaplin, versão inércia.

Depois do sorriso falsamente afetuoso, nasce a fala mansa. Um burocrata faz de tudo para evitar o conflito. Berros, só em último caso, e ainda assim quando a hierarquia lhe é favorável em absoluto. Sem riscos de ser apanhado em flagrante delito de estelionato como operário-padrão.

A fala cadenciada traduz o poder concedido. As palavras são mecânicas, próximas de um atendente de fast-food. No combo, a tríade "sanduíche-batata-refrigerante", ou seja, documentos pessoais, as taxas e a nova "velha" documentação que dá novos ares àquele número que você já é. Um novo documento, atualizado esteticamente, para confirmar que você está na lista.

Um burocrata nunca confia em você. Até porque ele não é confiável. Ele só cumpre ordens e, portanto, não pode medir consequências de seus atos. O combustível é a impessoalidade, que contradiz e confirma a frase "Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei." Burocracia é punição para quem não pertence à turma, para quem não pode dizer "você sabe com quem está falando".

O burocrata nos pune pela sua própria desorganização, travestida de mais informações inúteis que - ele mesmo sabe porque geralmente a pratica - cumprem protocolos, mas se posicionam bem distantes da verdade dos fatos. Burocratizar mascara pessoas, esconde dados e pouco representa o papel de cada envolvido no processo que levou à multiplicação da papelada.

A burocracia é a nossa forma de dizer que não acreditamos em nós mesmos, embora digamos que a culpa é sempre do outro. Pudera: vivemos num país onde a palavra vale pouco ou menos daquela registrada, carimbada e homologada no papel, que costuma nascer arquivo morto.


Marcus Vinícius Batista
é o cronista santista número um, ponto.
É autor de "Quando Os Mudos Conversam"
Realejo Livros)
coletânea de crônicas escritas
entre 2007 e 2015
e mantém uma coluna semanal
no Boqueirão News
que é aguardada com avidez
por sua legião de leitores.
Atendendo a um pedido
de LEVA UM CASAQUINHO,
ele se dispôs a resgatar
algumas de suas crônicas favoritas
escritas nos últimos anos
para republicação no BAÚ DO MARCÃO.
É com muito prazer que saudamos
a chegada de Marcus Vinícius Batista
a nosso time de colaboradores.



FECHANDO O ANO, NA GALERIA DO LAURINHO, UM BRASILEIRO QUE VAI DEIXAR SAUDADES







Em 1973, fui à missa, na Catedral da Sé. A missa era para Alexandre Vanuchi Leme, morto pela ditadura. Num tempo em que ninguém tinha coragem de criticar o governo militar em público, eu não acreditava no que o padre falava para a multidão. o padre era Dom Paulo Evaristo Arns. Fiquei impressionado com a coragem daquele homem. Na mesma missa e com a mesma coragem, o cantor Sergio Ricardo cantou "Calabouço".

Em 1975 volto à Sé para outra missa: Wladimir Herzog tinha sido assassinado na tortura. Foi uma missa ecumênica e mais uma vez Dom Paulo nos maravilhou com sua coragem. Muitos anos depois, tive a honra de conhecer pessoalmente Dom Paulo. Um senhor muito alegre e de bem com a vida.

Em 2016 perdemos um grande homem.

(Lauro Freire)



Lauro Freire é um artista admirável.
Desenhista com um traço inconfundível
e dono de um senso de humor muito peculiar,
Lauro poderia estar expondo em salões
e circulando pelo país,
mas prefere mil vezes seguir pela contramão
e pintar pontos culturais da cidade,
como as colunas da Disqueria, no Baixo Boqueirão
(Av. Conselheiro Nébias 850).
É com muito prazer que LEVA UM CASAQUINHO
hospeda em suas webpáginas
a GALERIA DO LAURINHO.


Thursday, December 29, 2016

NOSSA ANIVERSARIANTE DE HOJE FOI A COISA MAIS LINDA, MAIS CHEIA DE GRAÇA DA SWINGIN' LONDON NOS ANOS 60


PARA SAUDAR O ANIVERSÁRIO DE 70 ANOS
DA FANTÁSTICA MARIANNE FAITHFULL,
TRAZEMOS AQUI UM POCKET-SHOW
QUE ELA REALIZOU MÊS PASSADO
NO BATACLAN EM PARIS 







LEVA UM CASAQUINHO ESCOLHE OS DEZ MELHORES DISCOS DE 2016 (por Chico Marques)

1. BLACK STAR (David Bowie)
Em seu disco de despedida, David Bowie convida o ouvinte para um mergulho na noite da alma. Nele, tudo soa estranhamente confortável e familiar. Ecos dos anos 70 saltam aos ouvidos o tempo todo. Tudo é de uma urgência impressionante. Nesse sentido, lembra um pouco "Station to Station", que foi gravado numa época em que ele vivia no limite, num flerte aberto com a morte -- que ele reverteu de forma brilhante ao longo da série incomparável de álbuns "Low", "Heroes", "Lodger" e "Scary Monsters". Apesar das muitas semelhanças musicais com alguns momentos mais densos de seu disco anterior, "The Next Day" (2013), que abria janelas tanto para seu passado quanto para seu futuro, "Blackstar" não é plural, e nem pretende abrir janela nenhuma para lugar algum. Funciona como um trem fantasma que vaga pela noite, contrapondo o passado à frente do futuro, e vice-versa. Sempre mantendo o imaginário a serviço da realidade, sem perder tempo correndo atrás do sentido da vida, pois não há tempo para isso.

2. POST POP DEPRESSION (Iggy Pop & Josh Homme)
Quem diria que duas das figuras mais loucas da cena do rock and roll iriam um dia unir forças num trabalho conjunto? Pois aconteceu: Iggy Pop e Josh Homme entraram no estúdio em Janeiro deste ano -- às próprias custas e ainda sob o impacto do morte de David Bowie -- e gravaram 9 canções cruas e extremamente contundentes compostas em parceria entre os dois e em apenas duas tardes de gravação. O resultado é cru, urgente, e ao mesmo tempo climático. E lembra eventualmente "Lust For Life", que Iggy e Bowie gravaram juntos em 1977, na Alemanha. De todas as homenagens e tributos realizados este ano pela memória de David Bowie, essa aqui é disparado a mais verdadeira e a mais relevante em termos artísticos.
3. BURN SOMETHING BEAUTIFUL (Alejandro Escovedo)
Aos 65 anos de idade, o sempre incansável Alejandro Escovedo continua correndo atrás no novas experiências musicais. Depois de três discos excelentes produzidos pelo lendário Tony Visconti e gravados com a banda do amigo Chuck Prophet, Escovedo uniu forças com Peter Buck (do REM) e Scott McCaughey (do Minus 5) e juntos compuseram as canções de "Burn Something Beautiful". A coisa toda funciona tão bem que dá para sentir claramente em cada canção do disco um pouco da personalidade musical de cada um dos três, tudo devidamente entrelaçado em guitarradas sensacionais e refrões contundentes. Em suma: um disco com espírito de aventura, algo difícil de ver num artista veterano.
4. SHINE A LIGHT (Billy Bragg & Joe Henry)
2016 foi realmente um ano em que muitos artistas apostaram em trabalhos em colaboração. Aqui, temos o príncipe do folk-punk inglês Billy Bragg unindo forças ao multitalentoso guitarrista e produtor americano Joe Henry em releituras delicadíssimas das clássicas canções de estrada que fizeram a fama de Woody Guthrie e tantos outros menestréis errantes. Para entrar no clima das canções, os dois decidiram apostar no inusitado e gravar o disco em plataformas de embarque e salões de estações ferroviárias entre Chicago e Los Angeles. O resultado é absolutamente reverente ao gênero, e ao mesmo tempo aventuresco em termos de produção. Uma ideia brilhante que acabou rendendo um disco delicioso.
5. THE WESTERNER (John Doe)
Desde os tempos do lendário grupo X nos Anos 80, quem segue a obra do ex-punk rocker John Doe está mais do que acostumado com suas idiossincrasias musicais. Mas The Westerner é, sem dúvida, a melhor, mais ousada e mais madura musicalmente delas todas. É um disco sobre o deserto, que alterna guitarradas à moda de Duane Eddy e Dick Dale com rocks e baladas climáticas que remetem aos Doors e, claro, ao X no início de carreira da banda. À primeira audição, pode até parecer que John Doe está fechando um círculo depois de 35 anos de carreira. Ele diz que não. Mas a sensação -- muito agradável -- que fica é essa. Um disco surpreendente.
6. PAGING MR. PROUST (The Jayhawks)
Com mais de 30 anos de carreira oscilando entre o alt-country e o indie-rock, os Jayhawks pareciam no início ser a reencarnação do espírito ousado do grupo Uncle Tupelo, mas acabaram se transformando numa espécie de "versão fim de século" dos country-rockers do Poco. Claro que não há nada de errado ou de indigno nisso, muito pelo contrário. Novamente sem Marc Olson, que já entrou e saiu da banda sabe-se lá quantas vezes, os integrantes remanescentes dos Jayhawks seguem em frente combinando suas preferências musicais, e, mesmo sem grandes pretenções, realizando um disco exemplar. A produção de Peter Buck, do REM, ajudou bastante na hora de colocar todos esses elementos em perspectiva. De resto, as harmonias vocais da banda continuam deliciosas e as canções são todas ótimas.    
7. SCHMILCO (Wilco)
O nome do novo disco do Wilco remete ao grande Harry Nillson, que gostava de usar a alcunha Schmillson, e anuncia mudanças muito curiosas na orientação musical da banda. É como se Jeff Tweedy estivesse trazendo para dentro o Wilco um pouco do clima caseiro experimental do disco que gravou ao lado de seu filho dois anos atrás -- que acabou servindo de trilha sonora para o premiadíssimo filme "Childhood", de Richard Linklater. Paralelo a esses experimentos, Tweedy embarca em canções confessionais com um sotaque country que remetem ao início de carreira do Wilco e ao trabalho dele com Jay Farrar no lendário Uncle Tupelo nos Anos 80. O resultado disso é surpreendente. É o Wilco "de volta para casa", só que musicalmente renovado, tematicamente redimensionado, e pronto para voar alto e longe novamente.
8. THE GHOSTS OF HIGHWAY 20 (Lucinda Williams)
Se hoje o termo Americana acabou virando gênero musical, uma das grandes responsáveis por isso foi Lucinda Williams. Ao lado de Lyle Lovett e outros artistas country crossover, ela conseguiu melhor do que ninguém atrair a atenção das plateias de rock para uma série de trabalhos musicais que desafiavam toda e qualquer classificação em meados dos Anos 90. Esse seu novo trabalho é uma colcha de retalhos espetacular, onde Lucinda trafega pelo country, pela soul music e pelos blues em canções poderosíssimas que são a cara dela -- ou seja: passionais, truculentas e inebriantes. Atenção para a releitura sensacional que ela elaborou para Factory, de Bruce Springsteen. Sem exagero, o melhor disco de Lucinda Williams desde o clássico "Car Wheels On A Gravel Road" (1998).
9. SOLID STATES (The Posies)
Outra banda que chega aos 30 anos de carreira com dignidade artística a toda prova. Sempre sob o comando do genial Ken Stringfellow, os Posies tem gravado pouco -- apenas um disco a cada 5 anos --, mas nunca decepcionam, e nunca abrem mão de correr riscos. Nesse novo disco, o power-pop característico da banda flui tranquilamente através de temas agridoces, como divórcios e perdas afetivas. Uma coleção de canções cativante e despretenciosa. Mas vital.
10. THIS GIRL'S IN LOVE - A BACHARACH & DAVID SONGBOOK (Rumer)
Para quem não conhece, Rumer é uma espécie de Karen Carpenter com alma. Ou uma espécie de Adele com estofo musical. Cantora poderosíssima, e de extremo bom gosto na hora de escolher repertório, ela acaba de gravar um tributo a Burt Bacharach e Hal David que é simplesmente desconcertamente de tão bonito. Desde aquele disco clássico de Ron Isley de 2003, ninguém passeava por esse repertório clássico dos Anos 60 com tamanha propriedade e conhecimento de causa. Se você ainda não conhece os "poderes" de Rumer, não há melhor maneira de começar do que por aqui.



  

LEVA UM CASAQUINHO PRESTA REVERÊNCIA E DIZ ADEUS À ADORÁVEL DEBBIE REYNOLDS









































Na foto acima,
Debbie Reynolds no palco e
Carrie Fisher no backstage