Tuesday, May 31, 2016

UM LONGO VERÃO BABADO FORTÍSSIMO - PARTE 2 (por Jurema Cartwright)


No episódio anterior,
Jurema passeava pela Praia do Itararé
com sua amiga cigana queijeira Luzinete
e sua nova amiga Vesúvia,
uma caipirona encantadora
que estava hospedada em seu apartamento
na Ilha Porchat no final do ano passado,
juntamente com seu marido, Romildo,
ambos de Muzambinho, sua cidade natal.
Juntas, as três ninfas protagonizaram
uma alegre siririca grupal dentro d'água,
e lembraram das safadezas que faziam
no rio que cruzava a fazenda
onde foram criadas.
Com vocês... Jurema Cartwright!



Quando Vesúvia fez menção a meu irmão Jamil -- a quem tive o prazer de escolar sexualmente -- e a minha querida tia Nilde -- que me apresentou o Mundo Encantado do Velcrolândia, de onde nunca mais me destanciei --, mal pude acreditar no que ouvia! Nós duas tínhamos muito mais em comum do que podíamos imaginar em princípio. Nossos passados definitivamente conspiravam a nosso favor.

Foi quando Vesúvia nos disse que Romildo teria que voltar a Muzambinho para resolver questões de trabalho entre o Natal e o Ano Novo, e que retornaria a São Vicente só no Reveillon para levá-la de volta para Muzambinho. Daí, propôs a Luzinete e a mim que não dessemos bandeira dessas nossas brincadeiras diante dele, para que ele viajasse desencanado e sem desconfiar de coisa alguma. O medo dela era que ele não a quisesse naquele "antro de perdição à beira-mar" e a obrigasse a voltar com ele para Muzambinho, por pura desconfiança. 

Então, seguimos o combinado. Não demos a menor bandeira. Tivemos um Natal chato e caretérrimo. Não víamos a hora de chegar logo a manhã de sábado, quando Romildo finalmente cairia na estrada e nos deixaria em paz. Foi só quando isso aconteceu que nossas Festas de Fim de Ano finalmente começaram.



Tivemos uma semana espetacular a três. Vesúvia ficou encantada com meu arsenal de vibradores, dildos e dildo-belts. Disse que nunca havia visto tamanha variedade antes. Contou que possui um pequeno vibrador que comprou pelo Correio de uma sex-shop paulistana, pelo qual pagou por boleto bancário, pois Romildo controla os cartões de crédito e não poderia saber da compra. Atitude típica de um babaca títipo. Com o passar do tempo, e o uso constante, o vibradorzinho deixou de funcionar com a mesma presteza de antes. Seu motorzinho dele cansou. Dei a Vesúvia dois novinhos em folha de presente de Natal. Um para massagear o clitóris. E outro, pequenininho, para usar durante o dia, enterrado no cu. Ela adorou.

Infelizmente, não pudemos levar Vesúvia para a lage de pedra diante do prédio onde moro para tomarmos banho de lua nuas no meio da madrugada. É que esse tipo de coisa só dá para fazer fora da temporada de verão, quando apenas os moradores regulares do prédio estão na área e a privacidade até existe. Agora, no Verão, tudo fica superlotado de veranistas, e é um Deus nos acuda.



Mesmo assim, inventamos alguns programas bem interessantes. Levamos Vesúvia para passear de bonde no centro da cidade e lembrei que, em Muzambinho, sempre que chegava uma putinha nova no único puteiro da cidade, a cafetina a obrigava a passear de charrete pela cidade, para que todos os homens vissem que tinha "carne nova no pedaço" e se habilitassem a conhecer a moça biblicamente. Disse a Luzinete e a Vesúvia que, apesar de meus 69 anos de idade, me sentia uma putinha nova passeando naquele bonde aberto pelos arredores do Porto. De sananagem, começamos a mostrar nossos peitos e nossas bucetinhas para os bêbados e indigentes que habitam as ruas do centro, só para ver como reagiam. Foi muito engraçado. 

Teve um dia em que levamos Vesúvia para passear de escuna pela Orla e pela entrada da Baía de Santos. Ela ficou deslumbrada. Adorou conhecer algumas praias exclusivas do Guarujá, onde só se chega a pé ou de barco. Nadou em mar aberto, algo que jamais sonhara fazer. Desnecessário dizer que, diante de uma emoção tão intensa, Vesúvia gozou novamente dentro d'água.



Quando voltamos para a Ilha Porchat, o porteiro de prédio me deu um recado: minha velha amiga Helô Pinheiro, que possui um apartamento no prédio, pediu que eu fizesse o favor de ceder minha faxineira para dar um trato no apartamento dela tem no prédio, pois uma de suas três filhas, Kiki, viria passar o Reveillon por aqui. Como não consegui localizar a faxineira em lugar algum, decidimos nós mesmas fazer uma grande faxina no apartamento da Helô. Só que a faxina acabou demorando tempo demais, pois tudo que começávamos a fazer acabava eventualmente se transformando em mote para nossas lesbianices. Luzinete não conseguia passar o aspirador na casa sem ser chupada dos pés à cabeça por Vesúvia e por mim. Vesúvia bem que tentou passar cera no chão, mas antes que fosse muito longe em sua empreitada acabou devorada por Luzinete e por mim com nossos dildo belts numa DP sensacional. Eu mesma fui enrabada pelas duas com dildos de vários tamanhos enquanto tentava desentupir um vaso sanitário com um desentupidor e com um arame. Uma pândega! No final das contas, depois de dois dias de faxina, o apartamento de Helô ficou um brinco. E nós, exaustas!

No meio da tarde do dia 31, nós três já estávamos a postos, comportadíssimas, fazendo cara de santinhas, aguardando a chegada de Romildo, que ligou cedo pela manhã dizendo que já estava pegando a estrada. Vesúvia preparou para a ceia um tender, uma farofa com passas e castanha de cajú, uma salada de batatas com salmão defumado, ovos e azeitonas e ainda empadinhas de camarão -- sem contar as rabanadas e o mousse de maracujá. Eu deixei uma peça grande de salmão e outra de atum a postos na geladeira para preparar sashimis.



Enquanto assistíamos à São Silvestre na TV, o telefone tocou. Era Romildo, dizendo que teve um problema com o carro na estrada e teve que voltar para Muzambinho de carona. Enquanto comemorávamos, ouvimos a campainha: era Kiki, filha de Helô, que já estava instalada em seu apartamento e veio agradecer a faxina e nos convidar para almoçar. Saímos no carro de Kiki, descemos a Ilha Porchat e viemos até Santos para almoçar no Restaurante Da Franco, que fica no 20º andar do Hotel Mercure e tem uma vista privilegiada das praias da região. Ao chegarmos no Hotel, Vesúvia olhou para um carro estacionado quase na porta e o reconheceu: era o de Romildo. Olhou para uma casa de sucos logo atrás do hotel e lá estava Romildo acompanhado de sua secretária -- que ele, pelo visto, trouxe lá de Minas para passar o Verão com ele em Santos.

Vesúvia olhou para Luzinete e para mim com muita raiva nos olhos e disse: "Não é um filho da puta? Se faz de miserável, economiza nas férias me hospedando de favor no apartamento de vocês, para depois ficar no bem bom com essa vagabunda num Hotel 4 Estrelas. O que eu faço com esse safado?"

Foi quando Kiki virou-se para nós e disse: "Raiva não ajuda em nada. Tem que agir friamente numa hora dessas. Me dá seu celular e deixa o resto por minha conta". Kiki entrou sozinha no bar onde os dois estavam, sentou-se numa mesa quase ao lado deles e, sem que percebessem, clicou várias fotos do casalzinho apaixonado. Pediu um suco de melão, pagou a conta e voltou até nós. Entregou o celular para Vesúvia, e disse: "Agora fique calma, procure um bom advogado, entregue essas fotos para ele e deixe que ele cuide disso para você. Vamos almoçar que eu estou morrendo de fome."



Foi um almoço delicioso. O Restaurante Da Franco tem uma vista de Santos simplesmente sensacional. Pouco a pouco, Vesúvia começou a se alegrar. E a nossa noite de reveillon foi sensacional. Servi sashimi sobre o corpo nu de Vesúvia, que ficou deitada de pernas abertas sobra a mesa da sala enquanto Luzinete e eu nos serviámos. Cada pedaço de peixe que tirávamos de seu ventre nós molhávamos em sua bucetinha úmida, só para complementar o sabor. Depois repetimos a dose sobre o corpo de Luzinete e, por último, sobre meu corpo. Venúsia nunca tinha provado peixe cru antes. Adorou o molho de baba de buceta. Foi iniciada neste ritual oriental milenar da maneira mais bacana de todas.

Depois de toda essa putaria, fizemos tesourinhas para trocarmos fluídos sexuais intensamente. Depois voltamos a comer. E voltamos a fuder. E seguimos nessa toada até sábado, dia 2, quando decidimos ir para a praia e ficar por lá o dia inteiro. Domingo, dia 3, Romildo ligou dizendo que não poderia vir buscar Vesúvia, e alegou que o carro ainda estava na oficina e de lá não sairia tão cedo. Propôs que ela voltasse a Muzambinho de ônibus. Ela fez que concordou. Só que não voltou. E não atendeu mais os telefonemas dele. E entregou as fotos do celular para um advogado recomendado por meu amigo Manuel Mann, que abriu um processo de divórcio contra Romildo.



Uma semana mais tarde, Eteovaldo, meu irmão de criação, ligou para saber se Vesúvia estava escondida aqui em casa. Respondi que ela estava aqui sim. Não escondida, mas como minha hóspede. Então ele, coitado, veio querendo posar de macho pra cima de mim, exigindo que ela voltasse imediatamente para seu filho e desistisse dessa coisa de divórcio. Foi nesse momento que Vesúvia pediu para colocar a ligação no viva-voz e começou a falar bem alto: "Vai se foder, velho brocha. Não se meta onde não foi chamado. Seu filho quis dar uma de espertalhão e foi pego no flagra porque e burro! E quem é burro tem mais é que se foder! Eu não fiz barraco quando o flagrei para não virar a vilã da história. Agora pega essa rola mole, dobra e enfia no cu, velho filho da puta. E pode avisar o Romildo para se preparar, pois vou tomar essa porra dessa fazendinha de vocês".

E assim começamos 2016. 

Para Luzinete e eu, tem sido um turbilhão de emoções desde que Vesúvia entrou em nossas vidas. Já para Vesúvia, 2016 é o Ano da Revanche. Demorou, mas ela parece ter decidido finalmente fazer juz a seu nome.



Semana que vem, você vai conhecer em detalhes o cruzeiro marítimo babado forte que fizemos no Splendour Of The Ass, nome carinhoso que demos ao navio que nos recebeu tão calorosamente. Até lá.  

(continua na próxima terça...)


Jurema Cartwright é mineira de Muzambinho.
Tem 69 anos de idade, mas não aparenta.
Fã confessa de Oriana Fallaci,
circulou pelo mundo em busca de reportagens bombásticas
e chegou a ter alguma projeção nos anos 70 e 80.
Mas dos Anos 90 para cá
deixou o jornalismo investigativo de lado,
virou executiva de imprensa na Área Portuária
e passou a escrever exclusivamente sobre lesbianismo
e a fotografar profissionalmente.
Vive em São Vicente, SP.


Monday, May 30, 2016

GRÁVIDA PORÉM VIRGEM (um "conto erótico guerra conjugal" de Dalton Trevisan)



Na volta da lua-de-mel, Maria em lágrimas confessou à mãe que ainda era virgem.

Lembrava dona Sinhara como o noivo se apresentou pálido na igreja, por demais nervoso? Justificou que, filho amoroso, muito se afligia com a mãe doente. No ônibus, a mão suada, e esquecido da noiva, olhava a paisagem.

Primeira noite o varão fracassou vergonhosamente. Foi alegada inexperiência. A estranha palidez na igreja de violenta crise nervosa — a mãe tinha saúde perfeita. Maria iludiu-se que era desastre passageiro. Ai dela, assim não foi: noite após noite João repetiu o fiasco. Arrenegava-se de trapo humano, não tomava banho nem fazia a barba. A pobre moça buscou recuperá-lo para os deveres de estado. Uma noite, envergando a capa pijama, saiu de óculo escuro, a noite inteira entregue às práticas do baixo espiritismo.

— O que me conta, minha filha! Me nego a acreditar. João, um rapaz tão simples, tão dado... Dona Sinhara evocava o noivo delicado e de fina educação.

— É para a senhora ver, mãe!

Dia seguinte ao casamento um tipo esquisito, que vivia aflito. Uma feita e outra feita, submeteu a moça a provas de intimidade, as quais não foram além do ensaio.

Mais que se enfeitasse para agradá-lo, indiferente aos encantos de Maria. De vez em longe, sem resultado, perseguia o impossível ato. Depois a acusava de única culpada. Suspeitando-a de traição com o primeiro noivo, agredida a bofetão e pontapé:

— Tem de apanhar bastante, Maria. Você é uma histérica!

Proibida de pintar a olho, tingir o cabelo, usar saia curta e calça comprida, sem que ele chegasse a conhecer a noivinha.

Pretendia arrastá-la ao suicídio a fim de esconder o seu desastre. Em provocação soprava-lhe no rosto a fumaça do cigarro.

Com a brasa queria marcar-lhe a bochecha para que deixasse de ser vaidosa.

— Por que judia de mim, querido?

— Bem sabe por que, sua cadela!

E, quarenta dias de casada, vinte em viagem e vinte em casa, ali estava Maria, a mais inteira das donzelas.

— Ter uma conversa com esse sujeitinho — bradou furiosa dona Sinhara.

Não era tudo: comprou coleção de fotos pornográficas, obrigada a admirá-las uma por uma. Nem assim prestou-se aos caprichos do noivo — eram quadros imundos e pecaminosos. Suspendendo pelo cabelo ou afogando a garganta, ele a constrangia às suas loucas fantasias. Saciado, era jogada ao chão, dali erguida aos bofetões.

— Ah, o teu pai que saiba... – persignou-se dona Sinhara.

Na volta da lua-de-mel, João em lágrimas confessou à mãe que a noiva não era pura. Desde a primeira noite, mais carinhoso que fosse, acusava-o de trair o seu ideal. Sá havia casado para se livrar dos pais e merecer o título de esposa.

— Por que judia de mim, querida?

— Você não soube ganhar o meu amor.

Ao exigir satisfações, ouviu dela que tinha caspa na sobrancelha. Censurava-o por deixá-la fria e manifestava repulsa física. Se insistia em tomá-la nos braços, atacada dos nervos, atirava-se ao chão em convulsões. Para reanimá-la, sacudia-a gentilmente, batia de leve no rosto.

Não era a ele que amava e sim ao primeiro noivo, de quem se separou por exigência dos pais. Três dias antes do casamento, estivera com a mãe na casa de Joaquim, propusera com ele fugir, mas o outro respondeu que era tarde. Além do mais, segunda dona Sinhara, todos os convites já distribuídos.

Não queria confessar, abrigada revelava toda a verdade — somente nojo sentia por ele, os seus dentes eram amarelos:

— Depois que me beija tenho de cuspir três vezes!

Não saía do espelho, olho pintado, de saía curta ou calça comprida, o cabelo retinto de loiro:

— Nasci para artista. Não mulher de você, um pobretão!

Reclamando de sua presença no leito conjugal, implicava com o assobio do nariz torto de João:

— Vai você ou vou eu para a sala?

Por ter comido salada de cebola — lembrava-se a mãezinha de como gosta de bife sangrento? — forçado a dormir no sofá.

— O que me conta, meu filho! Me nego a acreditar. Maria, moça tão querida, tão dada... Educada no colégio de freiras, toda cuidados com a futura sogra: um beijinho aqui, um abracinho ali.

— É para ver, mãe! Usa roupa de baixo que a senhora não imagina...

Se não a deixasse em paz, Maria acabava seus dias: engolindo vidro moído, escrevia com batom no espelho que era o culpado. Tal intriga fizera para os sogros que, ao visitá-la, conversavam apenas com a filha, nem cumprimentavam o pobre rapaz, como se ausente estivesse. Uma tarde surgiu-lhe o sogro porta adentro, bradando que recolhera a moça descabelada. Queria saber o que lhe fizera para que ficasse tão chorosa. Se era verdade que lhe marcava a coxa, com brasa de cigarro, se lhe surrupiava o dinheiro da bolsa, se ao sair de casa apagava todas as luzes. Sem esperar a resposta, berrou que tinha mais duas filhas para casar e bateu a porta.

— Ter uma conversa com essa sujeitinha — acudiu furiosa dona Mirazinha, com a mão no peito, sofria de palpitação.

Qual a sua surpresa: a náusea da noiva era... de estar...

— Grávida?! — espantou-se dona Sinhara. — Grávida, apesar de virgem?

O incrível resultado de um ato falho do noivo, segundo Maria, tanto bastou para a concepção.

— Grávida?! — surpreendeu-se dona Mirazinha. — E ainda pretende que é virgem?

— Para a senhora ver, mãe, quem ela é. Após a confissão do filho, Maria foi visitada pela sogra:

— Eu vivo para Cristo. Não para o imundo de seu filho!

Após a confissão da filha, João recebeu a visita de dona Sinhara, que se instalou na companhia dos noivos. A moça não deu a menor atenção a João assim não fosse o rei da família. Ele passava o dia no trabalho e, de volta, queria certa liberdade: lá estava a maldita sogra. Negando-se a moça a ir para o quarto, ficavam bocejando na sala diante da televisão, até que dona Sinhara os mandava dormir. Ele não exercia poder sobre a noiva: nem bife sangrento nem cebola na mesa.

Bem desconfiou que ela era amante da própria tia Zezé. Revoltou-se contra a atitude da noiva que, instigada pela mãe, se negava a cumprir o dever conjugal, arrependida de ter casado tão novinha quando podia aproveitar a vida.

Sempre na casa do pai, Maria confidenciava que João dormia a manhã inteira. À tarde, em vez de ir para o emprego, escondido na esquina, espiava se a pobre moça não recolhia o ex-noivo Joaquim. Mostrava uma folha em branco, exigia lhe revelasse o que estava escrito, eram palavras em tinta invisível — bom pretexto para tentar esganá-la a toda custo.

Existe um motivo para o noivo sentir ciúme, pensou dona Sinhara, é não ser o rei da casa. Bradou para Deus e o mundo que João não era homem bastante para sua filha.

O moço confidenciou para a mãe que, na tarde anterior, entrara a noiva batendo a porta (ó família que tanto bate a porta) e gritando bem alto:

— Fomos a uma parteira. Ela provou que sou virgem!

O pobre rapaz discutiu com o sogro que era detalhe para ser esclarecido.

— Quantos anos você tem, João?

— Vinte e três, sim senhor.

— Com essa idade, João, não sente vergonha de uma esposa virgem?

— Virgem, porém grávida.

O velho indignado exigiu a filha de volta. Respondeu João que Maria estava muito bem com ele. O sogro berrou que se retirasse imediatamente, e a partir daquele dia, proibido de pisar nos seus domínios.

Dona Mirazinha perguntou a uma amiga:

— Como vai a grande cadela?

Porque a chamava de cadela, Maria nunca mais foi visitá-la.

Cada um se queixa do outro para a respectiva família. Ora, a família de Maria está ao lado dela. E a família de João ao lado dele. Casados de três para quatro meses e Maria, segundo ela, sempre virgem. Como pode ser, contesta João, se está grávida?

Um mistério que até hoje não foi decifrado.



Dalton Trevisan nasceu em Curitiba
em 14 de Junho de 1925.
Dono de um estilo minimalista
absolutamente único na literatura brasileira,
Trevisan divide com Rubem Fonseca
o título de contista número um no Brasil,
com 40 volumes de contos publicados,
todos pela Editora Record.
Aos quase 91 anos de idade,
continua ativo como escritor.



DA ALVORADA DA SACANAGEM À PUTARIA DOS DIAS DE HOJE #2 (por Odorico Azeitona)



EPISÓDIO DE HOJE: A PORNOGRAFIA NA GRÉCIA ANTIGA


A palavra Pornografia é de origem grega.

Vem de “Pornographos”, que, originalmente, significava “Escritos sobre Prostituição”.

O termo apareceu pela primeira vez no livro “Diários de uma Cortesã”, em que o escritor grego Luciano narra histórias de prostitutas e orgias.

Com o tempo, a palavra ganhou outros significados.

Segundo a maioria dos Dicionários, Pornografia virou sinônimo de Indecência, Licenciosidade, Obscenidade, Libertinagem e Imoralidade.

Impressionante como a Raça Humana ficou careta e aborrecida da Grécia Antiga para os dias de hoje.



Na Grécia Antiga, por volta de 2.500 anos atrás, Atenas foi a capital mundial da sacanagem.

Suas ruas eram enfeitadas com estátuas de corpos nus bem definidos e os habitantes da histórica cidade adoravam admirar representações de sexo e nudez.

Em casa, vasos e outros objetos de decoração eram adornados com cenas eróticas.

E festas (ou melhor: orgias) faziam parte do roteiro de fim de semana.

Ao que tudo indica, os gregos se divertiam – e muito!



Entre os helenos, a dedicação ao sexo era tanta que Aristófanes, em “Lisístrata”, ilustra com maestria essa tara do povo que inventou os Jogos Olímpicos e criou os conceitos de cidadania e democracia pelos prazeres mundanos.

No livro, a personagem principal convoca as atenienses à greve de sexo enquanto durar a Guerra do Peloponeso.

Aos berros, as insaciáveis mulheres de Atenas bradam palavras de ordem: “Não erguerei ao teto minhas sandálias persas” ou “Nenhum amante se aproximará de mim com ereção”.

Já subindo pelas paredes, os bravos guerreiros gregos logo encerram o conflito em nome de um retorno urgente das atividades sexuais de suas parceiras.



Alguns registros indicam que foram os gregos que também inventaram o “dildo”, também conhecido como consolo, imitação do pênis.

Acrescentam que a cidade de Mileto, terra natal do famoso Tales, considerado o primeiro filósofo grego, teria se transformado no maior centro produtor e exportador desse brinquedinho erótico.

Tudo conversa mole.

Há um exemplar de “dildo” que data de aproximadamente 4 mil anos e está exposto no Ancient Chinese Sex Culture Museum, próximo a Shangai, na China.

Outro, encontrado na Alemanha, conta 28 mil anos, tem 20 cm de comprimento por 3 cm de diâmetro e, segundo os cientistas, deve ter sido usado para fins sexuais na longínqua Idade do Gelo.



Hit número um em qualquer sex shop, o “dildo” usado por nossos ancestrais era feito de pedra, madeira ou couro acolchoado.

Na hora de usá-lo, untava-se essa rudimentar imitação do órgão sexual masculino com azeite de oliva – uma versão pré-histórica do gel lubrificante.


A liberdade sexual na Grécia Antiga também é notável no que se refere à homossexualidade.

Sócrates, o filósofo do “sei que nada sei”, era adepto do amor homossexual como a mais alta forma de inspiração para homens bem-pensantes, e achava que o sexo heterossexual servia apenas para a reprodução.

Acreditando que dois amantes, juntos, lutariam até a morte, o exército grego encorajava o alistamento de casais homossexuais.

Os homens mais bonitos eram escolhidos para o comando.



Como já dissemos, não foram os gregos que inventaram a pornografia, eles apenas a aperfeiçoaram, deram a ela dignidade cultural e se deleitaram com ela.

Como o impulso sexual é a força motriz da natureza humana, ela sobrevive bravamente desde então, sempre se adequando aos novos tempos e sempre se apresentando como válvula de escape para civilizações sufocadas por religiões monoteístas.

Felizmente, todas as religiões tem horror à pornografia, e, graças a elas, toda essa adorável putaria sobrevive indefinidamente.


Odorico Azeitona pensa em sacanagem
24 horas por dia.
Por conta disso, decidiu começar a escrever
uma Breve História da Sacanagem
desde o início da Humanidade
até os dias de hoje.
Este é o segundo de sete artigos
sobre este assunto tão palpitante
e tão querido a todos nós.
Odorico escreve todas as semanas
em LEVA UM CASAQUINHO

A RESSURREIÇÃO DO COLUNISTA SOCIAL NATANIEL JEBÃO, VULGO FAUSTO WOLFF

publicado originalmente em O PASQUIM em data incerta


Eu, o grande Jebão, descendente de nobres alienígenas, imperadores, reis, príncipes e papas, jamais me preocupei muito com as questões espirituais. Uma vez que sou imortal, necessito apenas de dinheiro, mulheres e um alfaiate inglês. Tenho-os. Eventualmente, porém, comunico-me com o Além através do computador. Outra noite - depois de realizar com admirável sucesso a posição do coração da magnólia negra sobre a virgem neve - liguei o computador e alva ainda estava a tela quando por ela (viram como rimou?) passou um inseto mínimo, a décima parte de uma formiga.

Preparei-me para esmagá-lo quando uma voz tonitruante soou aos meus sensíveis ouvidos: ''Pense no que vais fazer, Jebão, pois sou Deus''. Para resumir uma longa e instrutiva conversa, direi apenas que ele me explicou tudo. E o tudo, como o nada - e confesso que esta parte não entendi direito, pois as esposas me chamavam para ver o último capítulo da novela Os ricos também broxam - é o ritual, o espetáculo. Houve uma época em que o show era o show e a realidade, a realidade. Hoje, apenas os eleitos, como Berzoini, conseguem distinguir o que é real do que é ficção. Os meios de comunicação usam o ritual para seu jornalismo e os ritualistas usam o jornalismo para o ritual. Por isso precisamos estar sempre atentos: a pedra pode ser nuvem e a nuvem pode ser o que bem quiser, uma vez que toma todas as formas.

Neste momento o mundo real tornou-se tão ficcional que a ficção decidiu vingar-se da realidade. A ficção pode matar a fome e o peixe pode estar podre. O Negro Preto (demorei a entender que ele se referia a Schwarzenegger) bem como a Rainha das Flores (esta foi fácil, referia-se à governadora Rosinha) são apenas alguns sinais que precisam ser decifrados. Depois do Negro Preto virá a Lassie (que em verdade é macho) e depois da Rainha das Flores virá o Baiuno Fresco, que ninguém sabe quem é. Quando a realidade houver se transformado em ficção e a ficção em realidade, Heráclito Fortes levantará um exército famélico no Piauí e invadirá a Venezuela. As autoridades venezuelanas darão de comer aos piauienses e Heráclito será contratado por um circo e fará sucesso no papel de Chico Banha.

Ele (e vocês sabem a quem me refiro) apontou com uma das suas milhares de patinhas para o imenso telão do tálamo, onde as minhas esposas se deliciavam com o último capítulo da novela, e desapareceu num canto da tela do computador antes que eu pudesse lhe perguntar sobre a quadratura do círculo, os limites do universo e o colossal universo dos limites. A resposta só poderia estar no telão e estava. No oitavo mês, Rachel descobriu que estava grávida de Fred, a doméstica. Júlio e Cláudio casaram no civil discretamente, mas no religioso, na boate do Taj Mahal. Arlindo descobriu que Salete é sua filha e mãe do dr. Valcour. Albertinho Limonta será governador da Bahia e descobrirão um poema de João Cabral de Melo Neto no qual ele confessa que a reforma agrária não passa de uma licença poética de sua autoria.

Abricós querem direito legal de casar com breubas

Os eternos descontentes aproveitam-se da falta de transparência da Transparência Internacional para atacar o rei Çilva I. Dizem eles que o monarca, ao contrário do que declarou em campanha, não acabou com a corrupção. Ora, quem quer que tenha um contato minimamente sexual com a arte da política sabe que ela é elástica como hímen barbarizado. O rei disse que acabaria com a corrupção antiga mas não falou da nova. Se falasse, não elegeria. Já o Vingador Careca não podia dizer que acabaria com a antiga porque era a dele. Por baixo do pano, o operário foi obrigado a deixar a nova corrupção correr solto para que os que não conseguiram roubar durante os oito anos do Mulatinho conseguissem pelo menos comprar um apartamentinho em Paris para mostrar aos netos. Isso se chama realpolitik, seus mongróvios!

Carrancas de São Francisco sorriem para bispo

Se não estivessem fazendo meia com os bombeiros nos intervalos de um ato para outro, os atores do teatro brasileiro já teriam copiado os políticos e ninguém os suplantaria. Nem Olivier em Lear, nem Gassman em Orestes. Esqueçam Stanislavski e consultem Duda Mendonça; esqueçam-se do Método e lembrem-se do Palanque. O que dói é que os políticos, esses grandes terpsicoristas, não podem nem receber os aplausos da platéia por suas atuações. Papéis decorados, lágrimas nos olhos, os ministros putrefatamente ricos, mas ainda assim mais preocupados com a polícia, já não explicam por que devemos entregar o Brasil à Alca. Enquanto isso, o rei Çilva I evita José Dirceu, que se transformou num homem-bomba prenhe de ameaças veladas. A vida é um palco cheio de som e fúria, que não significam nada para quem tem três Mercedes na garagem. Graças às informações de Deus, posso gritar, pois a acústica é excelente: ''Tudo pelo Teatro Social''.

Escravos de Jó não dão mais caxangá

Ariel Sharon jogava biriba sábado último com seu neto, o Jacozinho. - Pô, vô, este jogo está chato - disse o traquinas. O bom Sharon perguntou: - E o que sugere o Jacozinho para acabar com este tédio sabatinal? - Vamos bombardear terroristas. - Mas hoje, num sábado, dia de descanso? - Bombardear terrorista não é trabalho, é diversão. - Mas onde? Eles estão por toda a parte. - Bota o mapa do Oriente Médio no meio da mesa, vovô. O bom vovozinho fez o que lhe pediu o neto, que começou a contar batendo com o dedinho indicador no mapa: - Uni, du, ni, tê, um sorvete colorê, o escolhido foi você. - Líbano, de novo? - pergunta Sharon. E o menino: - Bem, a gente pode recomeçar. - Não, senhor. Jogo é jogo. Adoro este espírito esportivo que, como se sabe, nunca foi o forte de Hitler.

Mijões de rua querem proteção contra voyeurs

Ninguém pode negar que o moreno povo do torrão tem sorte. Ao contrário dos americanos e russos, dos franceses e ingleses, dos japoneses e coreanos, ele aprende na paz o que os outros sofrem na guerra. Alguns singelos exemplos: a tarifa de água e esgoto aumentou 22%, mas em compensação as contas telefônicas aumentaram apenas 2,5%, depois do aumento de 17%. É verdade que temos de pagar 20% na gasolina, o que fez com que tudo aumentasse o quanto quisesse, pois isso aqui ainda é uma democracia privatizada graças a Deus, privatizada também pelos bispos ladrões que nunca ouviram falar no São Francisco, o rio casamenteiro. Apesar disso, a inflação inexiste.

JEBARBOSAS

Alemãs de Hamburgo abriram uma creche onde deixam os maridos do meio dia às seis da tarde, enquanto elas se divertem nos rendez-vous locais.

* Apesar disso, o número de cornos teutônicos continua estável.

* Lágrimas nos olhos, Çilva I implorou aos banqueiros que emprestassem dinheiro aos pobres, jurando pela honestidade deles. Os banqueiros não se comoveram.

* O Fluminense perdeu de 6 a 1 para o Paraná e depois foi até Caxias do Sul e ganhou de 4 a 3 do Juventude. Estranho, muito estranho.

* Vote sim ou vote não ao desarmamento. Não importa o resultado, o número de armas dobrará.

* O Brasil tem duas leis não escritas que não podem ser quebradas: "Por baixo do pano" e "Pacto de silêncio", este último inaugurado pelo ministro Nelson Jobim. Elas podem ser invocadas por qualquer parlamentar apanhado com a bunda de fora.

* O Vaticano sempre teve um papa para aparecer – o oficial – e um papa para mandar – o Papa Negro, que sempre foi branco.

* Por enquanto só se sabe que o Papa Negro do alemão é cambojano.

* O desenhista do belo filme A Fuga das Galinhas inspirou-se no sorriso das senhoras que alegram a crônica social brasileira e que – desconhece-se o motivo – são chamadas carinhosamente de peruas.

* Palavra de Jebão: o Congresso aprovará o casamento entre os senhores viados por larga margem se a votação for secreta.

* Muitos parlamentares alegres não querem tornar pública a sua alegria.

* Desmentida a notícia de que o decorador Cesar, o Maia, teria sido vítima da febre aftosa.

* A ONU declarou que a responsabilidade de acabar com a tortura no Brasil é do seu Sardinha, vendedor de pipoca em Aldeia Campista.

* Numa tentativa de agradar aos religiosos, os traficantes têm batizado a cocaína.


Nataniel Jebão é uma criação imortal
do jornalista gaúcho Fausto Wolff.
Nascido em Santo Angelo em 1940,
Wolff começou como repórter policial
no Diário de Porto Alegre.
Já no Rio, dava nó em pingo d'água
escrevendo diariamente 3 colunas
para 3 jornais diferentes.
Colaborador de O Pasquim desde o início,
Fausto decidiu virar romancista
em meados dos Anos 70
e cometeu alguns romances de sucesso como
O Acrobata Pede Desculpas e Cai,
Matem o Cantor e Chamem o Garçon
e O Dia Em Que Comeram O Ministro,
todos lançados pela Editora Codecri de O Pasquim.
Morreu em 5 de Dezembro de 2008 no Rio.


POEMINHA DE SEGUNDA - ESCRITO A SANGUE (por Ademir Assunção)



ESCRITO A SANGUE

ruas escuras
atravessado
eu atravesso
reviro o avesso
nele me meço
olho de lince
encaro a face da fera
espelhos se estilhaçam
rasgam minha cara
cai a neblina
do vazio frio na barriga
pago o preço
erva bola cogumelo
volto ao começo
escapo com vida
desconverso
verso escrito a sangue
desapareço
quanto mais
menos
me pareço
eco de bicho homem
ego sem endereço



Ademir Assunção nasceu em Araraquara SP
em 02 de junho de 1961.
Formado em Jornalismo
pela Universidade Estadual de Londrina,
trabalhou como repórter cultural
nos jornais Folha de Londrina,
O Estado de São Paulo e Jornal da Tarde.

Publicou os livros LSD Nô (poesia, 1994),
A Máquina Peluda (prosa, 1997),
Cinemitologias (prosa poética, 1998)
e Zona Branca (poesia, 2001).
Ademir ganhou o Prêmio Jabuti
em 2013 na categoria Poesia
pelo livro A Voz do Ventríloquo.



CONSCIÊNCIA (um conto mínimo por Márcio Calafiori)



“Achar dinheiro na rua é sinal de sorte ou azar?”

“Depende.”

“Do quê?”

“Está com a consciência tranquila?”

“Claro, eu achei a grana.”

“Quanto?”

“Cinquenta reais.”

“Onde?”

“Aqui perto de casa.”

“Vejamos: você mora próximo ao shopping... Cinquenta reais?”

“Cinquenta reais.”

“Como foi?”

“Eu ia atravessar a rua, vinha um carro, dei um passo pra trás, e pisei em cima da nota.”

“Percebeu isso imediatamente?”

“Só sei que quando olhei pra calçada a grana estava embaixo do meu pé.”

“Por acaso imagina quem perdeu o dinheiro?”

“Qualquer um pode ter perdido.”

“Discordo.”

“Discorda? Por quê?”

“O dinheiro estava enroladinho?”

“É, estava.”

“Ou seja, quem perdeu os cinquenta reais não foi um milionário. Isso está descartado. Certo?”

“É, concordo.”

“Então, só há duas hipóteses: ou foi uma velhinha ou um garoto.”

“Como assim?”

“Vejamos: as velhinhas costumam sair de casa com o dinheiro contado, um canudinho preso à cintura da saia; elas não levam bolsas ou carteiras, pois têm medo de ser assaltadas. Já um garoto de uns doze anos também não usa carteira e costuma andar na rua distraído. Ele leva o dinheiro enroladinho na mão, portanto pode ter deixado a nota cair. Provavelmente, a mãe pediu que ele fosse ao açougue ou à padaria. As meninas estão definitivamente descartadas, pois meninas não perdem dinheiro. É científico isso.”

“Interessante. Mas por que eu estaria com a consciência pesada?”

“Porque não devolveu o dinheiro, óbvio.”

“Devolver pra quem?”

“Pra quem perdeu, ora!”

“Mas o nome de quem perdeu não estava escrito na nota.”

“Qual foi a tua primeira reação quando achou o dinheiro?”

“A primeira coisa que fiz foi olhar para os lados, tentando verificar se eu via alguém procurando alguma coisa. As pessoas ao redor me pareciam despreocupadas. Então, enfiei a grana no bolso e segui em frente.”

“Não, meu caro! Eu só acreditaria nisso se eu não conhecesse a espécie humana. Vou descrever exatamente o que aconteceu: primeiro você embolsou a grana, e só depois é que tentou verificar se avistava alguém procurando alguma coisa. Foi ou não foi?”

“Pode ser, não me lembro dos detalhes.”

“E mesmo assim está com a consciência tranquila?”

“Queria que eu fizesse o quê? Que parasse todo mundo na rua e perguntasse: ‘Você perdeu dinheiro?’”

“Eu não faria isso, claro. Mas sabe como eu agiria? Eu ficaria parado na esquina por um bom tempo a fim de verificar se passava alguém por ali procurando alguma coisa.”

“Eu estava com pressa.”

“Ah, então você tá com a consciência pesada.”

“Ah, não, agora você é a madre imaculada?”

“Não, não sou a madre imaculada; mas se eu saio de casa duro, me recuso a retornar para o meu sagrado lar com o bolso cheio de grana sem ter passado antes no banco. É uma questão de princípio.”

“Mas eu achei a grana, achei! E tive uma atitude ética: olhei para os lados e não vi ninguém com cara de quem tinha perdido dinheiro.”

“O que você fez com a grana?”

“Guardei. Vou depositá-la na poupança.”

“Não seja hipócrita! Você já deve ter torrado o dinheiro. Confessa!”

“Torrei, torrei sim, mas e daí? O que você faria no meu lugar?”

“O que eu faria?”

“Sim, o que você faria?”

“Eu faria exatamente o que você fez. Enfiaria a grana no bolso, pois achado não é roubado.”

“Ufa! Por um momento cheguei a pensar que você estava coberto de razão.”




Márcio Calafiori é jornalista. 
Nasceu em 1957 e se formou 
pela Facos em 1986. 
Exerceu quase todos os cargos 
em redações de jornais em Santos, 
Santo André, Campinas e São Paulo. 
Foi redator, repórter, revisor, editor, 
secretário de redação, 
chefe de reportagem e ombudsman. 
Aposentou-se em 2012 
como professor da Unisanta, 
depois de 29 anos 
de dedicação exclusiva 
ao Jornalismo Impresso.
Colabora regularmente com
LEVA UM CASAQUINHO.