Wednesday, January 31, 2018

O FILME DA SEMANA É "THE POST", COM A TRINCA DE ASES SPIELBERG-STREEP-HANKS


por Luiz Mendonça
de Lisboa para



A construção heróica do jornalismo em “The Post – A Guerra Secreta” (2017) é perto de pífia quando comparada com um filme como “Todos os Homens do Presidente” (1976), a obra-prima de Alan J. Pakula sobre o escândalo Watergate, que encontra aqui uma espécie de prequela. É que no filme de Spielberg toda a intriga gira à volta de uma decisão editorial e administrativa de publicar ou não matéria classificada de altamente confidencial pelo governo norte-americano. A grande aventura do jornalismo, que no filme de Pakula era a procura labiríntica e perigosa da verdade, aparece aqui reduzida à gloriosa decisão de deixar passar ou não material confidencial fornecido por uma fonte secreta – “Garganta Profunda”, no filme como na vida, não havia “feito a papinha toda” aos jornalistas do The Washington Post, ao passo que aqui, o “Whistle Blower”, a quem Spielberg dispensa pouca atenção dramática, e não encontra particular heroísmo, fornece tintim por tintim a história de décadas de mentiras sobre a guerra do Vietnam. A opção é legítima e até podia resultar, mas o gesto enaltecedor aparece cedo demais no filme. Já sabemos que os nossos protagonistas foram “escolhidos pelo destino” para empreenderem grandes mudanças. A retórica de Spielberg dá-nos tudo numa bandeja, cedendo à sua intenção –- pouco sutil –- de transformar este filme ambientado nos anos 70 e na América “democraticamente asfixiada” de Nixon numa caixa de ressonância para o que se passa hoje, no mesmo país, mas sob o jugo de Trump.


Em entrevista ao The Guardian, Spielberg conta que leu o argumento de “The Post” em Fevereiro do ano passado. Movido por um sentimento de urgência em adaptar esta história que tanto diz aos dias de hoje, caiu na ratoeira de toda a arte reduzida a uma urgência: transformar uma história política, que poderia promover uma reflexão importante sobre a liberdade de imprensa e a ética do governante, numa fábula insuflada por uma moralidade de pronto-a-vestir que vem pregar aos convertidos. Este acaba por ser um filme menos sobre a procura da verdade ou a desafiante prática do jornalismo do que sobre um certo modo -– diríamos “justo”, porque o é, no caso –- de fazer política através dos jornais. O título, nesse sentido, não engana: é de postagem que aqui tratamos. A aventura da procura e tratamento da informação interessam pouco ou nada a Spielberg. Nesse sentido, o maior herói aqui é o decisor, o superior hierárquico que dá o sinal verde. Aqui interpretado por uma suposta dondoca que, herdando a direção de um jornal de pouca expressão então nos Estados Unidos, o The Washington Post, decide dar o grito do Ipiranga. Antes do ser já o era: Meryl Streep é símbolo feminista de revolta. O “bate o pé” é estrondoso. Mas Spielberg não dá ao espectador espaço para contemplar o processo dessa decisão. Ou melhor, até dá, mas este vem já revestido desse heroísmo que “antes de ser, já o era”.



Spielberg não sabe fazer aqui o que fizera recentemente com dois filmes poderosamente políticos: “Lincoln (2012)” e “Ponte de Espiões” (2015). Estes filmes remetiam a História para uma espécie de “drama de chambre”, psicologicamente embrenhado e de registo intimista. No centro, está essa figura fordiana do “standing man”, o homem que, apesar de ser só um homem, bate o pé à História e produz uma lição ressonante sobre a resiliência, a bondade e o prazer arguto pela aventura. Tudo isto falta a “The Post”. Está lá, “postado”, mas sem vida interior, sem a chama que queima e que aquece. A vida das personangens afrouxa ante a retórica encomendada pela urgência dos tempos: estes homens e esta mulher aparecem-nos glorificados, mas não há verdadeira glória no relato, apenas sublinhados de câmara e de luz. Contra “os bons”, Nixon é tratado como um boneco diabólico do qual apenas vemos, à distância, a silhueta na sala oval, enquanto ouvimos os seus estratagemas para controlar a imprensa. Não vemos Pakula a fazer isto. Tal como seria impensável na gramática pakuliana a horrenda sequência na escadaria do Supremo Tribunal de Justiça, com Meryl Streep misturando-se entre a turba de feministas, todas “in awe” com o seu exemplo.



De facto, Spielberg deixa recados a Trump, e iria com certeza merecer todos os aplausos do mundo por isso. Mas “The Post” também é um filme puramente reactivo. Ele emprega a mesma linguagem superficial, de auto-glorificação, que encontramos nos “posts” de Twitter do ex-apresentador de “O Aprendiz”. Esta câmara que tanto adjectiva o heroísmo exemplar das suas personagens cede facilmente à retórica chã que também podemos associar ao trumpismo – há até esse momento algo embaraçoso em que o jornalista interpretado por Tom Hanks é apelidado pela sua mulher de “corajoso”, mas… mais corajosa ainda, ressalva a pobre senhora enquanto dobra umas roupas, é a directora do jornal, encarnada por Meryl Streep. Spielberg substantiva pouco, e mal, este heroísmo excessivamente declarado, didáctico ou apriorístico. A sua sobriedade pakuliana -– consubstanciada pelos tons cinzentos, sem dúvida elegantes, de Janusz Kamiński e pelo facto de sair pouco dos interiores do mundo da redação, por exemplo –- é apenas um verniz mal e apressadamente aplicado a uma vontade de “picar o ponto” na agenda política actual. “The Post” é frouxo como documento histórico e ainda mais como panfleto político. O melhor sucessor contemporâneo de “Todos os Homens do Presidente” continua a ser “Spotlight” (2015).



THE POST - A GUERRA SECRETA
(The Post, 2017, 116 minutos)

Produção e Direção
Steven Spielberg

Roteiro
Liz Hannah
Josh Singer
Elizabeth Hannah

Edição
Michael Kahn
Sarah Brosnar

Elenco
Tom Hanks
Meryl Streep
Bruce Greenwood
Matthew Rhys
Bob Odenkirk
Michael Stuhlbarg
Sarah Paulson
Tracy Letts
Bradley Whitford
Alison Brie
Jessie Mueller
Jesse Plemons
David Cross
Carrie Coon
Zach Woods

Cotação
em cartaz nas Redes Roxy e Cinemark



LEVA UM CASAQUINHO MANDA PARAR AS PRENSAS NA ESTREIA DE PARADISO TOP 5

por Chico Marques


Durante muitos e muitos anos, Hollywood se especializou em mostrar jornalistas como figuras abjetas -- como o repórter sensacionalista vivido por Kirk Douglas em “Ace In The Hole” (1951) de Billy Wilder, ou como a dupla de repórteres sensacionalistas vividos por Jack Lemmon e Walter Matthau em “The Front Page” (1974), curiosamente também de Billy Wilder.

Raríssimas vezes, jornalistas foram mostrados como pessoas decentes em filmes hollywoodianos. “Call Northside 777”, de Henry Hathaway, com James Stewart (1948), é uma dessas pouquíssimas exceções à regra,

Os cinco filmes dobre Jornalismo e Política escolhidos para o PARADISO TOP 5 de hoje fogem do lugar comum e das escolhas mais óbvias, como os ótimos e bem conhecidos “Todos Os Homens do Presidente”, “Boa Noite e Boa Sorte” e “Frost Nixon”, e não são filmes muito conhecidos.

Em comum entre eles, apenas o fato de estarem todos disponíveis nas estantes da Paradiso Videolocadora (Rua Nabuco de Araújo 60, Boqueirão, Santos SP Tel: 13 3235-8135)

O ANO EM QUE VIVEMOS PERIGOSAMENTE
(The Year Of Living Dangerously, 1992, minutos, direção Peter Weir)

A ação do filme transcorre no ano de 1965, em meio a uma revolução na Indonésia. Guy Hamilton (Mel Gibson) é um ambicioso correspondente australiano em sua primeira missão internacional: cobrir os últimos momentos do regime de Sukarno. Em Jacarta, ele se envolve romanticamente com uma funcionária da embaixada britânica (Sigourney Weaver, lindíssima) e recebe ajuda de Billy Kwan (Linda Hunt), um fotógrafo anão. Um filme denso, tenso, inteligente e surpreendente, além de um belo showcase para os talentos do australiano Peter Weir, então recém-chegado a Hollywood e precisando mostrar serviço. Caprichou.
A CAÇADA
(The Hunting Party, 2007, 103 minutos, direção Richard Shepard)

 Cinco anos depois que o jornalista Simon Hunt (Richard Gere) teve um colapso nervoso durante uma reportagem que foi mostrada ao vivo em rede nacional de televisão, ele junta-se ao seu colega cinegrafista (Terrence Howard) e um repórter novato (Jesse Eisenberg) para encontrar o paradeiro do maior criminoso de guerra do país, conhecido como "A Raposa". Com apenas pedaços de informações, os três arriscam suas vidas na Bósnia na tentativa de obter o maior furo jornalístico de suas vidas. Filme simpático e eficaz, com uma trama bastante vertebrada e boas performances de todos os envolvidos. Vale uma conferida.
INTRIGAS DE ESTADO
(State Of Play, 2009, 123 minutos, direção Kevin Macdonald)

 O congressista Stephen Collins (Ben Affleck) é uma estrela crescente em Washigton. Bonito, sereno e aparentemente honesto, ele é visto como o próximo candidato presidencial até que sua assistente e amante é encontrada assassinada e segredo são descobertos. O jornalista Cal McAffrey (Russell Crowe) e sua parceira Della Frye (Rachel MacAdams) investigma o assassinato, encabeçando um enorme acobertamento que pode comprometer uma das mais promissoras figuras políticas e corporativas da nação. Thriller político tenso e eficaz, com um bom roteiro e uma direção precisa. Vale uma conferida.
118 DIAS
(Rosewater, 2014, 103 minutos, direção Jon Stewart)

O repórter de origem iraniana Mazair Bahari (Gael Garcia Bernal) trabalha para a Newsweek e volta até seu país de origem durante as eleições de 2010, quando o presidente à época (também conhecido como ditador) Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito em circunstâncias tidas por muitos como fraudulentas. Na ânsia de denunciar os atentados na qual a população revoltosa sofreu após as eleições, Mazair consegue imagens explosivas de ataques de autoridades locais. Não demora a baterem em sua porta com alegações absurdas de espionagem, mas que rendem uma prisão que dura pelo tempo do título nacional, onde torturas físicas e psicológicas serão impingidas a ele. Curioso e eficaz filme de estreia do excelente comediante Jon Stewart como diretor e roteirista. Merece a sua atenção.
CONSPIRAÇÃO E PODER
(Truth, 2015, 125 munutos, direção James Vanderbilt)

Robert  Redford é um centro de gravidade ao longo da trama, interpretando o âncora da CBS-TV Dan Rather. Com suas perguntas precisas e experiência, ele brilha no programa semanal “60 Minutes”, em contraponto à elétrica curiosidade de sua produtora Mary (Cate Blanchett). Tudo começa com papéis, que seriam depois conhecidos como “os documentos Killian”, cópias de relatórios militares que comprovariam as omissões do jovem Bush no serviço militar – como faltar a um exame físico obrigatório e acumular faltas no serviço ativo especialmente depois de pedir transferência de uma base no Texas para o Alabama, onde se dedicou a uma campanha política. Os documentos, fornecidos por um coronel aposentado, Bill Buckett (Stacey Keach), são fotocópias, pois os originais aparentemente foram destruídos. Mas o conteúdo é bombástico, especialmente no meio de uma campanha à reeleição em que o candidato democrata, John Kerry, está sendo massacrado naquele momento exatamente por acusações de ter mentido sobre seu heroísmo no Vietnã. Produção de Robert Redford que mostra mais uma vez seu ativismo político e suas boas intenções como realizador. Confira, caso o tema lhe interesse.



 

DE SAMPA AO CAIS (por Flávio Viegas Amoreira)



Já lá se vão 40 anos que vivo duas atmosferas apaixonantes: o planeta Sampa e a terra onde nasci, o mítico porto de Santos. Me sinto um Levi-Strauss percorrendo essa estrada semanalmente nos "Tristes Trópicos", afinal o maior antropólogo do século XX era fissurado nesse trecho da costa e pela Paulicéia. No seu clássico dedica um capítulo inteiro a chegada a Santos e a subida da Serra do Mar entrando por Piratininga. A estação Jabaquara e a Praça dos Andradas de Santos são dois terminais dum mesmo entroncamento para o mundo onde me desdobro epidérmica e poeticamente indo e vindo ....Sampa é de certa forma extensão desse litoral histórico assim como a retroalimentação com a megalópole faz da chamada Baixada espécie de continuidade marítima de Sampa: Malibu, Brighton ou qualquer litoral que desce por uma metrópole. Plínio Marcos fazia essa mesma viagem temporal e geográfica: era um cidadão tanto do Macuco quanto do Copan. Oitenta quilômetros nos separam e quanta enriquecedora mutação entre o Anhangabaú e os contornos de Urubuqueçaba. Bebericar na Augusta e esticar uma cerveja no Gonzaga: que universos lindamente díspares e complementares! Por Santos passaram Hans Staden, o cônsul britânico Richard Burton , num mesmo dia passaram pela barra o bailarino Niijinsky e o escritor maior Borges, para Santos o poeta Neruda dedicou dois lindos poemas..... da mesma forma para Santos escreveram lindos versos Elizabeth Bishop maios poeta norte-americana e nossos bardos Mario de Andrade e Bandeira....Santos tantos! Posso escrever imenso memorialismo só sobre essa travessia, esse rumo, mutação anfíbia de escritor da Praça Benedicto Calixto e Santa Cecília ao poeta noturno embalado em maresia. Subo a muralha com "Paulista" de Eduardo Gudin cantado por Leila Pinheiro, desço ouvindo "Midnight Cowboy" e sigo ao mar do Boqueirão entoando "Wave": que trilha!




Poeta, contista e crítico literário,
Flávio Viegas Amoreira é das mais inventivas
vozes da Nova Literatura Brasileira
surgidas na virada do século: a ‘’Geração 00’’.
Utiliza forte experimentação formal
e inovação de conteúdos, alternando
gêneros diversos em sintaxe fragmentada.
Vem sendo estudado como uma das vozes
da pós-modernidade literária brasileira
em universidades americanas e européias.
Participante de movimentos culturais
e de fomento à leitura, é autor de livros como
Maralto (2002), A Biblioteca Submergida (2003),
Contogramas (2004) e Escorbuto, Cantos da Costa (2005).

QUEM É VOCÊ NA FILA DO PÃO? (por Marcelo Rayel Correggiari)




A descrença desse faminto merceeiro em relação aos rumos da humanidade costuma ter lá seu fundamento...
... uma coisa do tipo: “... veja essa foto!”.
Não que “... uma imagem vale mais do que mil palavras...”. Cascata! Mil palavras, a 3.000 Hertz de frequência vibracional energética, podem movimentar o universo bem mais do que uma simples foto. Entretanto, a iconografia que ilustra a “Mercearia...” dessa semana é real, tem ‘pedigree’, é verossímil e “... dou fé”.
Panificadora Vila Belmiro, na esquina das ruas Guararapes com D. Pedro I. Afixada pelo interior da vitrine dos pães doces, a mensagem ilustrativa dessa semana. Ora, ora, ora... é de se imaginar o ‘bas fond’ que ocasionou a emissão de tal comunicado.
Há exato um ano, descobri, após 46 anos de vida, uma predileção local, santista e, para variar, bem rasteira, por um tal de “... cará-do-meio...”. Hmm... Certo. “Cará-do-meio?!”. “Sabia, não!”. “Cará-do-meio?! ‘Tá’...”.
Graças ao meu querido amigo dos tempos de escola, do Barão do Rio Branco, o André Ruas, soube dessa trincheira ferrenha que o(a) santista cava cidade afora em torno do bendito ‘cará-do-meio’. Mas não é só a escavação do recurso bélico, não, querido(a) freguês(a): bem mais do que isso, é uma disposição de se pegar ‘em armas’, lutar com ‘unhas-e-dentes’ se for o caso!
Yuval Noah Harari, no seu advertido “Sapiens - ...”, solta uma afirmação meio ‘bombástica’ de que a ruína do ‘homo-sapiens’ começou com a revolução agrícola e o abandono da caça-coleta. Vende-se uma ideia bem ficcional de que o homem evoluiu ao dominar os grãos, em especial, os de trigo. “Na-na-ni-na-nina...!”, diz Harari. “Não foi o Homem que ‘escravizou’ os grãos de trigo... pelo contrário! Foram os grãos de trigo que ‘escravizaram’ o Homem”.
Isso porque ele ainda não esteve em Santos, mais precisamente na Panificadora Vila Belmiro.
Uma colega em comum, minha e do André, também “da época do Barão...”, a terapeuta holística Cláudia Blanco, nessa mesma padaria, quase perdeu as estribeiras com uma fila ‘cachorra’ que não andava nem por decreto, tudo por conta de uma inclinação da freguesia bairrista pelos pães franceses (conhecidos em Santos como “média”) mais ‘branquinhos’ em detrimento dos mais ‘escurinhos’.
A Claudinha, uma das sinapses mais rápidas do velho oeste, quando chegou a vez dela, não desperdiçou: “... me vê cinco, por favor... sem preconceito!”, no que foi aplaudida de pé e ruidosamente ovacionada pelas balconistas do referido estabelecimento panificador.
Pois, vejam, meus anjos: depois de um ano, repetindo tema. Falta de criatividade do merceeiro ou como o(a) santista, orgulhoso do chão onde nasceu, apequena a alma e o espírito a passos largos, atendo-se a tudo o que é tópico numa exogenia de causar os mais aterrorizantes calafrios?
“Caridade” e “Liberdade”, pelo jeitão da coisa, ficou no brasão do município. No mais, ...
Povo que não segue de modo algum as súplicas do poeta: “Tudo vale a pena/Quando a alma não é pequena”.
Bom, vamos pôr ordem nessa cizânia: na Panificadora Vila Belmiro, levou dois ‘carás-do-meio’, tem de levar um da ponta... e em múltiplos de três!!!
É... Harari está certo quanto aos grãos de trigo: o Homem é seu escravo. Só não precisaria descer a essas esferas de escrotidão.
É bem cansativo: reflexo de um lugar que te mede de cima a baixo em busca de sinais de uma opulência que costuma vir acompanhada de um vazio que põe tudo a perder.
Vão embora as amizades verdadeiras e construtivas, as paixões de entrar para a história, o amor verdadeiro, de carinho, afeto, cuidado, real e consistente, constante. Valores do ‘ter’ e não do ‘ser’. A materialização do materialismo, do utilitarismo, e sequer os sentimentos são lançados ao mar. Um lugar onde não se chora mais ‘por Amor’, que não se deixa mais inundar por uma Black Science Orchestra e sua “Sunshine” de fazer o coração querer amar, desesperado por barbas-de-lenhador ou “desfilando felicidade” em lugares com frequência vibracional em torno de 350 Hertz sob o testemunho fotográfico de rede social.
Nessa toada, o ‘trem’ escapa da pior forma: beligerância ‘da pesada’ se os carás disponíveis para a venda forem os ‘da ponta’.
A que ponto chegamos! Ou a que ponto se chega quando o prazer de ‘se estar’ com alguém realmente especial, ou ‘ser’ único(a), tem de entrar na fôrma do ‘ter’.
Briga-se muito pelo ‘cará-do-meio’ quando nem mais do famoso tubérculo a porra do pão é feito!
Ou como diz a canção: “(...) Assim caminha a humanidade/A passos de formiga e sem vontade (...)”.
Acho Harari petulante, sem contar muito científico e, logo, bem desumano, às vezes. Mas que o ‘bicho-homem’ é escravo do trigo, assim como de tantas outras coisas, ah... não tem muito o que dizer sobre isso. A esperança desse merceeiro, assim como dessa Mercearia, é quando as pessoas finalmente, como se diz em Belo Horizonte, alcançarão “a prateleira de cima”.
 

Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 48 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É avesso a hermetismos
e herméticos em geral,
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO



OS PRIMÓRDIOS DA TV PELO OLHAR DE PAGU (uma crônica de Ademir Demarchi)



Patrícia Galvão, a Pagu, “Musa-mártir antropófaga” do modernismo, como a definiu transformando em clichê Décio Pignatari, foi escritora de múltiplos interesses. Romancista, poeta, crítica de teatro, de literatura, jornalista e militante comunista, teve o registro desse seu variado interesse registrado no estudo Pagu Vida-Obra, pelo poeta Augusto de Campos. Boa parte da sua atividade de escritora foi estampada em A Tribuna, de Santos-SP, jornal onde trabalhou até o fim de sua vida, em 12/12/62, ao lado do companheiro e também escritor Geraldo Ferraz.

Além dos textos dedicados ao teatro, Pagu publicou no jornal uma coluna dedicada à então nascente televisão brasileira. Iniciada a partir de 2/6/56 e intitulada sugestivamente de Viu?Viu?Viu?, essa coluna saía diariamente assinada com o pseudônimo Gim. Ela a começou seis anos após a inauguração da primeira emissora de TV na América do Sul, a PRF-3, TV Tupi-Difusora, Canal 3, em São Paulo, que foi o mais ambicioso empreendimento do grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Um ano após a inauguração da emissora estima-se que existiam sete mil aparelhos receptores entre Rio e São Paulo. Esse número se multiplicou rapidamente e, cinco anos após, época em que Pagu iniciou a publicação de sua coluna sobre tevê, estima-se que existiam 200 mil aparelhos receptores em todo o país.

Gim se transparecia masculino, muito embora em uma ou outra edição o personagem se traísse pelos pronomes numa autoria efeminada. A ambiguidade encontra eco na própria linguagem criada por Pagu, que procurou dirigir-se ao leitor num tom de intimidade − já presente desde o título Viu?Viu?Viu? − próprio dos mexericos, transmitindo uma familiaridade com a televisão e seus bastidores, ao mesmo tempo em que comentava aspectos de algum programa por seu caráter cultural.

Esse tom de intimidade ilustra o comportamento típico à época com relação à tevê, que estimulava a reunião de pessoas para assistir programas de forma comunitária e até mesmo motivava as pessoas a procurar aproximação com os atores, telefonando-lhes, na sede da tevê, de onde se transmitia o espetáculo, para parabenizá-los...


Embora muitas vezes tenha-se retido em banalidades como a intimidade do casal Lolita/Airton Rodrigues e seu programa Almoço com as estrelas, pela novidade que teria o telespectador ao poder “almoçar” em companhia de personalidades do mundo artístico ou em evidência, o olhar de Gim tinha interesse insistente em programas de aspecto erudito como a transmissão de espetáculos direto dos teatros onde se passavam.

Gim comentava da execução de sinfonias de Mendelsson acompanhadas de corpo de balé até a Ópera de Pequim que visitava o país, direto do Teatro Municipal de São Paulo. Por essa mesma ótica um dos programas prediletos, comentado semanalmente, era “O céu é o limite”, onde um candidato se submetia a um teste intensivo de conhecimentos sobre assuntos como a história da Grécia, por exemplo, travando luta renhida de pergunta/resposta com a direção do programa a ponto de seduzir os “tele-ouvintes”.

Numa das colunas, em 1956, Pagu prenunciava: “Embora as cadeias globais sejam ainda um sonho do futuro, o filme televisionado auxilia a transformar os nossos lares em observatórios mundiais. De nosso acolhedor divan da sala, ou da cadeirinha colocada nas noites frias perto do aquecedor ou do fogo, poderemos observar uma expedição na Antártida ou assistir a um novo casamento sensacional de novos príncipes, um episódio de guerra de verdade com toda a segurança ou um autêntico quebra-quebra”.

(publicado originalmente no
Diário do Norte do Paraná
em 7/07/2011)
Ademir Demarchi é santista de Maringá, no Paraná,
onde nasceu em 7 de Abril de 1960.
Além de poeta, cronista e tradutor,
é editor da prestigiada revista BABEL.
Possui diversos livros publicados.
Seus poemas estão reunidos em "Pirão de Sereia"
e suas crônicas em "Siri Na Lata",
ambos publicados pela Realejo Edições.
Suas crônicas, que saem semanalmente
no Diário do Norte do Paraná, de Maringá,
passam a ser publicadas todas as quintas
aqui em Leva Um Casaquinho

Monday, January 22, 2018

AS BOAZUDAS DOS ANOS DE OURO DO CINEMA BRASILEIRO:#47: TAMARA TAXMAN

por Chico Marques

Tamara Braga Taxman nasceu em 24 de fevereiro de 1947, na cidade de Woodstock, Illinois, filha de um americano com uma mineira de Varginha, mas veio para o Brasil com apenas três meses de idade. Estudou no Rio de Janeiro, trabalhou como modelo e como cantora, mas decidiu que queria mesmo é ser atriz, e estreou no teatro na peça musical “Alice no País Divino Maravilhoso” (1970). Estreou na TV na primeira versão de “Selva de Pedra”, como a empregada de Simone (Regina Duarte) que morre em um acidente de carro, e depois disso ganhou vários pequenos papeis em produções da emissora, até vingar como a falsa Selma em “Água Viva”, a solidária Gisa em “Sétimo Sentido” e a gringa Dorothy de “Um Sonho a Mais”. Mas brilhou mesmo pra valer quando mudou de mala e cuia para a TV Manchete no final dos Anos 80, ganhando papeis de muito destaque nas novelas “Kananga do Japão” e “Ana Raio e Zé Trovão” – que acabou gerando um convite inusitado para virar apresentadora de um programa sertanejo chamado “Ser... Tão Brasileiro”. Depois disso, pulou de emissora em emissora em busca de papeis que a mantivessem em voga, e em 2012 acertou na mosca ao topar viver a Feiticeira Leocárdia, protagonista da série infanto-juvenil “Detetives do Prédio Azul”.












Em janeiro de 2016, Tamara Taxman estava com um problema meio complicado para administrar.

Houve um atraso na confirmação de uma nova temporada de “Detetives do Prédio Azul”, para a qual estava escalada, e precisava trabalhar. Daí, ela saiu pedindo emprego pelo seu perfil no Facebook, e acabou convidada para fazer uma participação especial na novela das sete da TV Globo “Rock Story”, onde viveu uma cabelereira vítima de um esquema de tráfico internacional. Desnecessário dizer que Tamara mostrou todo o seu talento nesse papel, e dificilmente será esquecida nas próximas escalações de elenco das novelas da emissora.

Tamara Taxman tem um filho, Henrique Taxman, e duas netas, Liz e Noa, que a inspiraram a virar escritora de livros infantis, como “A Cobra de Duas Cabeças” e “A História da Coruja Cor”

Posou nua para a revista PLAYBOY em duas ocasiões: em 1975 (para as lentes de Luis Trípoli) e em 1982 (para JR Duran)













Ano
Título
1972

1974

1976

1977

1978
1980

1982

1985


1989

1990

1992
Ser...Tão Brasileiro
1994
1995
1996
1997
1998
2000
2002
2004
2006

2008
2010

2011
2013

2015
Santo Forte
2016
2012-presente


Ano
Título
1977
Ladrões de Cinema[1]
1978
1980
1982
Aventuras de um Paraíba [1]
Os campeões [1]
1983
Um Sedutor Fora de Série [1]
1985
1987
1998
Discretion Assured [1]
2014
2015
Maresia[45]
2017



ENCERRAMOS NOSSA HOMENAGEM
A TAMARA TAXMAN RESGATANDO
3 FILMES DELA QUE ENCONTRAMOS
DANDO SOPA NO YOUTUBE.

VAMOS A ELES