Thursday, December 31, 2015

A FOLHINHA DE 2016 DE LEVA UM CASAQUINHO (NÃO PODE SER VENDIDA SEPARADAMENTE)









AH, O AMOR #17 (Especial de Reveillon #1 - por Luiz Antonio Cancello)



— O meu primo convidou a gente pra passar o Ano Novo na casa deles. 

— A que horas? 

— Uai, não falou nada. A hora de sempre. 

— Qual é a hora de sempre? 

— Às nove a gente vai pra casa deles. Qual é a sua dúvida? Já fomos lá outras vezes. 

— Eu preferia ir mais tarde. 

— Mas por quê? 

— O cachorrinho. É a primeira passagem de ano dele. 

— O que tem isso? 

— Os fogos. Ele vai ficar apavorado. Falamos nisso outro dia, mas você, pra variar, não prestou atenção. 

— É verdade, falamos, eu tinha esquecido. Mas os fogos são perto da meia-noite. 

— E eu queria voltar logo, pra dar um colo pra ele. 

— Então tá. A gente chega lá faltando cinco pra meia-noite e sai meia-noite e cinco. 

— Não me subestime, sei que não pode ser assim, mas também não sei o que fazer. 

— Então leva o raio do cachorro, cacete. 

— Um pouco de educação, por favor. Controle-se. Saiba que os bichinhos são muito melhores do que a gente. 

— Acho isso uma baboseira, eles não têm julgamento moral, como podem ser melhores ou piores? Julgamos a partir do nosso eixo antropocêntrico. Isso é ilegítimo. 

— Não vou discutir Filosofia. 

— Leva o bicho, então, e não se fala mais nisso. 

— Fico meio sem jeito. Seu primo não é muito chegado. Ele vem aqui e nem brinca com o cachorrinho. 

— Leva ele. Meu primo que se adapte. Ou deixa ele aqui e depois se vê, com certeza o bicho não vai morrer. Resolve de uma vez esse problema. 

— Tem outra possibilidade. Comprei na internet um protetor auricular pra cachorro. Não sei se chega a tempo. 

— Não tem um pra mim também? É cada coisa que eu tenho de ouvir! 

— A sua insensibilidade é impressionante. Se quiser filosofar, saiba que eles sentem o que a gente sente, mas não têm as ferramentas para racionalizar, como nós temos. 

— Isso é Psicologia, não é Filosofia. 

— Tanto faz. Eles não entendem que os fogos são inofensivos. 

— Eu também não entendo muita coisa. 

— Já percebi. 

— Pelo menos não confundo bicho com gente. 

— Mas se porta como um animal. 

— Isso é uma ofensa ou um elogio?





Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas, 
da lendária revista cultural ARTÉRIA, 
marco da Cultura Santista dos Anos 1980
Possuí vários livros publicados, alguns sobre Psicologia, outros de Ficção, que podem ser adquiridos na Realejo Livros (Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146), na Disqueria Santos (Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767) ou pelo website www.luizcancello.psc.com




AH, O AMOR #18 (Especial de Reveillon #2 - por Luiz Antonio Cancello)



— Onde as crianças vão passar a virada do ano? 

— Crianças de mais de 20 anos. Quase 30, aliás. 

— Ok. Onde os jovens adultos vão passar a virada do ano? Espero que ao menos apareçam por aqui.

— No ano passado já foi um custo convencer os dois a ficar conosco. Este ano acho que não vai dar.

— A sua filha disse alguma coisa? 

— A nossa filha, meu bem. É tão sua quanto minha. 

— Ela tá sempre inventando alguma coisa diferente. 

— E você sempre implicando com a menina. Sua preferência pelo filho macho é óbvia. 

— Besteira. Gosto igualmente dos dois. Queria eles aqui no Ano Novo. 

— E tem as famílias dos namorados, que devem ter o mesmo desejo que você. 

— Você não quer que eles passem conosco? 

— Lógico que eu quero. Mas me conformo com mais facilidade. É a vida. 

— Sinto saudades do tempo em que eles eram pequenos. 

— Ou saudades do poder que tinha sobre eles? 

— Que maldade! Você sempre me interpreta mal. 

— Não é maldade, é a real. Também sinto isso. Saudades de resolver tudo. 

— O NOSSO filho falou alguma coisa sobre o reveillon? 

— Esse menino tem a mania de falar as coisas na última hora, você conhece bem o jeito dele. Igualzinho ao seu. 

— Dispenso críticas. E se eles não vierem, o que nós vamos fazer? 

— Boa pergunta. 

— Já que você tem tanta certeza que eles não vêm, achei que já tinha pensado em alguma coisa. 

— Pensar, eu pensei. Mas não cheguei a nada. 

— Vamos comprar um ingresso para passar em algum clube ou restaurante? 

— É caro pra chuchu. 

— Isso não é problema, estamos bem de grana. O que há? 

— Morro de medo de me sentir só no meio daquela gente desconhecida. 

— Por que será que não temos amigos pra convidar? 

— Por que nos isolamos, nós e as crianças. Deu nisso. 

— E por causa do seu gênio. 

— Culpa minha, então? Por acaso você é fácil? 

— Agora não adianta discutir. A gente pode comer antes e dormir cedo. 

— É uma ideia. Mas se eu acordar com os fogos vou me sentir muito mal. 

— Pensei nisso. Comprei uns tampões de ouvido na farmácia. 

— Comprou pra mim também? 

— Comprei. 

— Oba! Deixa eu experimentar?





Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas, 
da lendária revista cultural ARTÉRIA, 
marco da Cultura Santista dos Anos 1980
Possuí vários livros publicados, alguns sobre Psicologia, outros de Ficção, que podem ser adquiridos na Realejo Livros (Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146), na Disqueria Santos (Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767) ou pelo website www.luizcancello.psc.com



DUAS OPINIÕES SOBRE 'OS 8 ODIADOS", A NOVA EXTRAVAGÂNCIA DE QUENTIN TARANTINO

'OS OITO ODIADOS": UMA AVENTURA CINEMATOGRÁFICA DE UM REALIZADOR NO TOPO DE SEUS PODERES
(por Roberto Bueno Mendes para Observatório de Cinema)

Quentin Tarantino, quando surgiu na indústria cinematográfica com CÃES DE ALUGUEL (1992), cujo roteiro e direção são dele, impactou esse indústria para sempre. A maneira como Quentin realiza seus filmes acabou influenciando diretores e roteiristas até hoje. Em cada um dos filmes seguintes, ele foi testando fazer um estilo de filme. No último, DJANGO LIVRE (2012), ele entrou no mundo dos westerns. E Quentin Tarantino retorna a este gênero com o seu mais recente longa, OS OITO ODIADOS.

A história de OS OITO ODIADOS se passa no estado do Wyoming, após a Guerra Civil americana. Uma diligência é obrigada a parar em um armazém de beira de estrada por causa de uma forte nevasca que a alcança. O veículo é conduzido por O.B Jackson (James Parks, de Django Livre).

O.B foi contratado para levar em sua diligência o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russel). John conduz, algemado a ele, a bandida Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para que seja enforcada. Antes de chegarem ao Armazém da Minnie, eles encontram na estrada o ex-major do exército dos Estados Unidos, Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e o renegado confederado, Chris Mannix (Walton Goggins) que se diz o novo xerife da cidade que é destino de John.

No Armazém da Minnie, os três passageiros da diligência encontram o mexicano Bob (Demian Bichir) que está cuidando do local na ausência de Minnie e seu marido, Sweet Dave; o carrasco inglês Oswaldo Mobray (Tim Roth); o vaqueiro Joe Cage (Michael Madsen) e o ex-general Sandy Smithers (Bruce Dern). Pronto, os oito odiados do título estão reunidos. Desconfianças, revelações, rixas, descobertas e heroísmo serão apresentados aos espectadores das mais diferentes formas a partir de então.

O roteiro de OS OITO ODIADOS é exatamente o oitavo de Quentin Tarantino em que ele também cuida da direção. A história contada desta vez tem menos violência e ação do que as dos filmes anteriores, como BASTARDOS INGLÓRIOS (2009) e DJANGO LIVRE. Isso não é ruim, porém poderá decepcionar ou frustrar alguns fãs ardorosos do diretor norte-americano. Neste roteiro, ele se baseou mais nos suspense e na surpresa para desenvolver a sua história.

Em entrevista coletiva, na qual o Observatório do Cinema participou, Quentin revelou que se baseou no filme de 1982, de John Carpenter, O ENIGMA DE OUTRO MUNDO. Apesar deste não ser um western e, sim, um horror de ficção científica, o clima entre os personagens deste filme foi uma das premissas utilizadas em OS OITO ODIADOS.

Na direção do longa, ele realizou um trabalho digno de nota ao fazer cenas memoráveis, como quando do encontro do major pelo caçador de recompensas e em uma das primeiras cenas de tiroteio no armazém. O trabalho dele com os atores também pode ser percebido pela “dança” deles no principal cenário no qual se torna o armazém. A movimentação – ou a falta de – é precisa, tanto para o que estão em quadro, quanto para os não estão. Desta forma se não estraga o que está sendo construído em cena e nada é revelado acidentalmente, sem que se queira. As atuações de todos os atores que aparecem também estão muito boas. Quando a escalação do elenco é bem realizada, como foi a de Victoria Thomas, não há atores ou atrizes que enfraqueçam o todo. Muito pelo contrário. Podemos destacar o trabalho maravilhoso de Kurt Russel. Kurt consegue estar perfeitamente em seu complexo personagem que é John Ruth. John pode ir da atenção à brutalidade em segundos. Também se deve falar da interpretação magnífica de Jennifer Jason Leigh. A atriz consegue transmitir os sentimentos da sua personagem de tal forma que em alguns momentos ela não precisaria nem de fala. Walton Goggins é outro ator que merece ser lembrado, porque interpreta o seu personagem de maneira perfeita, levando realmente o espectador a ver na tela um típico rapaz do velho oeste americano. As imagens do cinegrafista Robert Richardson, que já trabalhou com Quentin em DJANGO LIVRE, também deixam qualquer um tonto. O filme, diga-se, foi filmado em película de 70mm. No Brasil, infelizmente, não será projetado assim. Aqui, ele será exibido em formato digital IMAX. Robert, ao mostrar a nevasca e depois ao filmar praticamente em um único cenário, conseguiu deixar a tensão fluir pelas câmeras. Mesmo sem exagerar em close-ups, percebe-se perfeitamente o estado dos personagens. Quentin Tarantino conseguiu que um dos compositores mais clássicos de trilhas sonoras, o italiano Ennio Morricone, que fez temas para westerns spaghetti de Sergio Leone e para outros já clássicos filmes, como ERA UMA VEZ NA AMÉRICA (1984), compusesse para o Os 8 Odiados. Então, longo de inicio, uma música, que com certeza se tornará tão clássica quanto as já feitas por Ennio, começa e com certeza não será tão cedo esquecida. A edição do longa coube ao Fred Raskin. Outro velho conhecido do diretor, pois também foi o editor de DJANGO LIVRE e assistente de edição em KILL BILL. Fred, ao trabalhar com o material fornecido por Quentin e Robert, provavelmente, não teve problema algum para montá-lo. Não existem dificuldades de entendimento da história, confusões de imagens em relação ao que contado, mesmo com as constantes idas e vindas. Mesmo que a versão assistida ainda precisasse de mais pós-produção, o que foi mostrado já estava muito bem feita. O que é incrível. Isso demonstra que Quentin Tarantino sabe muito bem manejar todas as ferramentas disponíveis com as quais um criador poder realizar um filme. Porque se mesmo quando ainda não está finalizado, o longa já tem uma qualidade excepcional, o diretor sabe o quer e o que faz. 

 "OS OITO ODIADOS" E O PRAZER EM CONTAR HISTÓRIAS
(por Bruno Carmelo para AdoroCinema)

Um mexicano, um inglês, um xerife e um negro entram em um bar. Isto poderia ser o início de uma piada, mas é a premissa do oitavo filme de Quentin Tarantino, que enclausura oito tipos sociais muito precisos dentro de um pequeno armazém para assisti-los se digladiarem. O mecanismo perverso poderia soar artificial, mas funciona porque nenhum dos personagens possui mais voz do que o outro, e nenhum corresponde ao ideal do herói – como era o ex-escravo de DJANGO LIVRE. O espectador observa o ringue à distância, sem ter para quem torcer.

A introdução é longa, paciente, comprovando a paixão do diretor pela construção dos espaços e dos diálogos. Tarantino faz com que seus personagens apresentem uns aos outros para terceiros: “Nossa, esse é o xerife! Como assim, você não conhece o xerife? Deixa eu te contar quem ele é”, ou então “Esse é o carrasco, quando ele pega alguém, esta pessoa sempre morre enforcada”. Fala-se do passado dos protagonistas, de suas características, do seu temperamento. As imagens são compostas com precisão e os diálogos estão afiados como sempre, mas o fato é que os primeiros 80 minutos são arrastados, porque nenhuma ação se desenrola diante dos olhos do espectador: elas são contadas em voz indireta, cabendo ao público imaginá-las.

O filme sofre uma transformação brutal e excelente com a entrada do próprio Tarantino, que além de ser diretor e roteirista, também faz as vezes de narrador, comentando as numerosas reviravoltas. Ao longo de sua filmografia, o cineasta desenvolveu uma persona tão talentosa quanto histriônica, sempre a um passo de canibalizar as próprias histórias. Neste caso, ele se introduz na trama, faz citações às suas obras (partes do clímax constituem referências diretas a BASTARDOS INGLÓRIOS e CÃES DE ALUGUEL), utiliza seus atores-fetiche de modo a espelhar os papéis deles em filmes anteriores do autor. É inegável que Tarantino vem construindo um universo cinematográfico homogêneo e de alta qualidade, mas um tanto egocêntrico.

Depois que todos os protagonistas se fecham no Armazém da Minnie, a narrativa manifesta uma ousadia impressionante. Ao invés de seguir os moldes clássicos de DJANGO LIVRE, o diretor cria uma obra de forma voluntariamente plural, apostando nas reviravoltas, nos excessos, nos flashbacks, na montagem paralela e em diversos outros recursos. A divertida reunião dos odiados traz toda a cota de sangue que se espera do grupo e do diretor, com direito a comentários sociais afiados a respeito da posição social das mulheres, dos negros, dos imigrantes e de outras minorias.

Assim, OS OITO ODIADOS efetua um retrato da pluralidade social americana. A provocação a Abraham Lincoln (a carta escrita pelo presidente) constitui a cereja no bolo deste retrato da América selvagem entre quatro paredes. A filmagem em 70mm coroa a ironia criativa do projeto: Tarantino desejava ter a maior dimensão imagética possível para retratar um lugar pequeno, obtendo um efeito ao mesmo tempo íntimo e abrangente, minimalista e épico.

O desconforto provocado pelo choque entre a amplitude da imagem e o minimalismo da narrativa contribui a gerar o aspecto de terror, que talvez seja o gênero principal deste projeto. Rumo à conclusão, a obra abandona as ferramentas do faroeste para mexer com os nervos do espectador e manipular seus personagens de um modo que apenas o cinema de horror mais sanguinário costuma fazer. Neste aspecto, OS OITO ODIADOS estabelece um paralelo com outro projeto de exploitation do cineasta, o ótimo À PROVA DE MORTE. A trilha de Ennio Morricone, curiosamente criada antes de o compositor ver uma imagem sequer, reforça a aparência de terror, com o tema tenso, em cordas, se intensificando rumo ao clímax catártico.

No que diz respeito à estética, Tarantino continua mestre da diversidade de linguagens cinematográficas. É impressionante como ele consegue dominar as regras do cinema clássico – especialmente na primeira metade, com as cenas na nevasca –, subvertendo-as na metade final com os recursos mais anárquicos do cinema de gênero. O dinamismo dentro do armazém é impressionante, assim como o controle das atuações, todas homogêneas e eficazes. O cineasta sabe extrair o melhor de Samuel L. Jackson e Kurt Russell, além de pedir a Jennifer Jason Leigh e Tim Roth para fazerem tipos excessivos, algo que ambos executam com um prazer manifesto.

É uma pena que Bruce Dern e Michael Madsen sejam mal aproveitados pela história, e que algumas aparições inesperadas, na segunda parte, tenham uma importância narrativa menor do que o esperado. Percebe-se igualmente a dificuldade do cineasta em ocupar seus oito personagens simultaneamente: enquanto mostra dois ou três odiados de cada vez, imagina-se o que os outros estariam fazendo logo ao lado, presos naquele espaço. Tarantino sabe muito bem o que deseja mostrar, mas não possui o mesmo controle com o espaço sonoro e imagético hors-champ, fora do quadro. De fato, não é fácil controlar oito personalidades tão distintas, presentes ao mesmo tempo, no mesmo local, durante quase três horas. (Seria interessante imaginar o que um cineasta radicalmente diferente de Tarantino, como o mestre da crueldade e do hors-champ Michael Haneke, faria com esta mesma história).

Mas Tarantino permanece um exímio manipulador de sensações, entregando reviravoltas que não tinha prometido, frustrando aquelas que se esperava, voltando em questões que pareciam desimportantes, mentindo descaradamente para o espectador sobre alguns aspectos. OS OITO ODIADOS pode não ser o projeto mais coeso, nem o mais criativo do cineasta, mas revela um autor de 52 anos que filma com a jovialidade e irreverência de um adolescente, transparecendo um prazer imenso em brincar com o público, com a câmera, com os personagens. Enquanto demonstrar tamanha disposição para combinar e transformar gêneros, extrapolar regras e códigos de boas maneiras do cinema, seus filmes serão sempre muito prazerosos de assistir.

OS OITO ODIADOS
(The Hateful 8, 2015, 168 minutos)

Direção e Roteiro
QUENTIN TARANTINO

Fotografia
ROBERT RICHARDSON

Produção
RICHARD N GLADSTEIN
STACEY SHEER
BOB & HARVEY FEINSTEIN

Trilha Sonora
ENNIO MORRICONE

Elenco
SAMUEL L JACKSON
KURT RUSSELL
JENNIFER JASON LEIGH
WALTON GOGGINS
MICHAEL MADSEN
TIM ROTH
DEMIEN BICHIR
BRUCE DERN



em pré-estreia no Cinespaço Miramar Shopping




DUAS VISÕES SOBRE "MACBETH", A MAIS NOVA AVENTURA SHAKESPEARIANA NO CINEMA




JUSTIN KURZEL FAZ ADAPTAÇÃO CHEIA DE SOM E FÚRIA DA TRAGÉDIA DE SHAKESPEARE
(por Marcelo Hessel para OMELETE)

O eixo das montagens de William Shakespeare sempre está no texto, na força dos diálogos do dramaturgo, e é a partir dele que adaptações fazem variações na encenação, na ambientação, ou tomam liberdades com a trama. Mesmo filmes como o Romeu + Julieta de Baz Luhrmann, por desvairada que seja a releitura, fiam-se na palavra (no caso, cantada).

Já Macbeth, versão dirigida pelo australiano Justin Kurzel, parte de uma premissa tão corajosa quanto arriscada: inverter o eixo e colocar o visual em primeiro lugar. São as câmeras lentas, os filtros de cor e as intervenções digitais que dão o tom e o ritmo deste seu segundo longa-metragem, em que os diálogos mantidos no inglês arcaico de Shakespeare servem para amarrar situações pautadas pela estilização.

Na tragédia, Macbeth é um general do exército escocês que, influenciado pela profecia de três bruxas, pelo vislumbre do poder e pelos apelos de Lady Macbeth, decide assassinar o rei Duncan e tomar para si o reino da Escócia. Michael Fassbender faz um Macbeth com inegável presença de cena, nas batalhas e na corte, oferecendo o vigor físico necessário para viabilizar a releitura expressionista de Kurzel. Um pouco subaproveitada no papel, Marion Cotillard cria uma Lady Macbeth com as duas facetas indispensáveis à personagem: a sede sinistra por poder e, depois, a fragilidade da rainha.

O que Kurzel não parece entender, porém, é que essa sua inversão de eixo está fadada a implodir. Em Macbeth, Shakespeare trata do ridículo dos grandes planos, da pequenez do homem e seus esforços de grandiloquência - da vida que é como uma história "contada por um idiota cheia de som e fúria e que não significa nada". Essa fala, a mais famosa da peça, está no filme de Kurzel, mas o diretor contraria frontalmente a lição de Shakespeare ao encher sua adaptação de som e fúria, e ao tomá-los como uma certeza, como um norte.

Kurzel não desconfia dos artifícios, enfim, e se seu Macbeth parece terminar como um exercício de exibicionismo, essa impressão só é reforçada pelo texto original. Como a serpente, Shakespeare também pode ser traiçoeiro com os aventureiros.







"MACBETH" EXPLORA A FORÇA DAS PALAVRAS DE SHAKESPEARE
(por Ailton Monteiro para PIPOCA MODERNA)



As palavras têm muita força, ainda mais quando escritas por William Shakespeare. Palavras levaram Othelo à perdição e Hamlet à loucura, mas foi com Macbeth que manifestaram seu poder mais devastador. Ditas por bruxas, são levadas à sério por um nobre demasiadamente mundano, virando maldição ao alimentar o que há de pior na alma humana.


Ver uma nova adaptação de “Macbeth” – assim como, aliás, de qualquer obra popular – é basicamente buscar apreciar o que ela traz de novo, percebendo o quanto da fonte foi preservada e a estrutura escolhida para apresentá-la. Recentemente, até o cinema brasileiro se aventurou pela mesma tragédia shakespeareana, resultando em “A Floresta que se Move”, que nem é tão original quanto se imagina.

A opção do diretor australiano Justin Kurzel (“Snowtown”) em “Macbeth – Ambição e Guerra” foi por preservar as palavras de Shakespeare, mantendo os diálogos rebuscados da peça original, mas montando o proscênio em locações autênticas das Highlands escocesas. O contraste é conflitante como a diferença entre o cinema e o teatro, resultando num trabalho esteticamente belo, mas frio.

Na prática, até as cenas de viés épico, que remontam à direção de arte e figurino de “Coração Valente” (1995), com os escoceses pintados e vestidos para a guerra contra os ingleses, são relegadas a mero pano de fundo, servindo para inaugurar o primeiro ato e introduzir o encontro entre Macbeth (Michael Fassbender), um general do exército escocês, com as três bruxas que lhe contarão que ele será um rei.

Aproveitando a encenação ao ar livre, Kurzel explora a paisagem com uma fotografia que privilegia o vermelho em diferentes tonalidades – o próprio céu é lindamente vermelho. Sem, entretanto, atingir o extremo sangrento de Roman Polanski em seu “Macbeth” escarlate de 1971. A nova versão não é tão violenta, mas não é por falta de mortes.

Como se sabe, a profecia das bruxas vira a cabeça de Macbeth que, incentivado pela esposa, Lady Macbeth (Marion Cotillard), passa a acreditar em seu destino e a racionalizar um plano para assassinar o rei vigente, o bondoso Duncan, vivido por David Thewlis. A força das palavras o impulsiona para sua própria destruição.

O filme destaca muito bem essa marca da peça, retomando o tema na cena em que Lady Macbeth ora para as forças do mal dentro de uma igreja cristã, tão disposta que estava em atingir o seu objetivo. Perturbador e um dos melhores momentos do longa, o chamado através das palavras contribui para o terrível pecado, que depois perturbará o espírito daqueles que o cometeram.

Mas a filmagem também contempla silêncios, que servem como contraponto para as palavras fortes e poéticas do texto. Servem também para imprimir uma atmosfera de crescente tensão, acentuada pela trilha sonora de Jed Kurzel, irmão do diretor e guitarrista da banda The Mess Hall, que valoriza instrumentos de percussão nos momentos mais intensos e violentos. Uma pena que todo esse cuidado não resulte na catarse esperada.




MACBETH
(2015, 113 minutos)

Direção
Justin Kurzel

Roteiro
Jakob Koskoff
Michael Lesslie

Elenco
Michael Fassbender
Marilon Cotillard
David Thewlis
Frank Madigan
Jack Madigan



em cartaz nas Redes Roxy, Cinemark e Cinespaço

Sunday, December 20, 2015

O PAPAI NOEL MERGULHADOR DE SEUL E SEU BALLET DE SARDINHAS NA IMAGEM DA SEMANA




Com essa bela imagem
do fotógrafo Chung Sung-Jun,
publicada na capa
do The New York Times
de 12 de Dezembro de 2015,
LEVA UM CASAQUINHO
deseja a todos
Boas Festas
e um 2016
menos obscuro
e menos infame
do que foi 2015

LEVA UM CASAQUINHO
volta 18 de Janeiro de 2016


AH, O AMOR! #16 ESPECIAL DE NATAL (por Luiz Antonio Cancello)



— Onde vamos passar as Festas, neste ano? 

— Bem, o tradicional é o Natal na minha família e o Ano Novo na sua. 

— E se a gente fizer diferente, desta vez? 

— É difícil, não quero magoar ninguém. Eles já esperam desse jeito. 

— Mas a gente sempre fica meio de saco cheio daquelas mesmas coisas, mesmo papo, mesma comida. 

— Faz parte. Só uma vez no ano, não mata. 

— Podia dividir o Natal, janta dia 24 com seus pais e almoça com os meus no dia 25. Ao menos o final do ano eu queria passa com nossos amigos. 

— Já tentamos. Eles têm os mesmos problemas. Acabamos passando o Ano Novo na casa das famílias deles. 

 — Já dá pra variar um pouco. 

— Mas são as mesmas coisas, o mesmo papo também, mesma comida. Cada um quer comer numa hora, tem gente que é a fim de esperar a meia noite, outros não, tem os bêbados chatos, enfim, você sabe. 

— E se fôssemos nós dois pra um lugar tranquilo? 

— Que lugar? 

— A gente vê. O importante é decidir. Vamos fazer assim? 

— Ah, mas conforme o lugar. Não quero ir pra qualquer canto por aí, só pra dizer que fui. 

— Seguinte. A gente tá planejando ter filhos. Quando tiver criança na parada, não tem jeito, vai ter de ser com a família. É a nossa última chance. 

— Credo, última chance. Parece uma condenação. 

— De certo modo é, mas vamos pensar. Que tal ficar num lugar no interior, sossegado, sem ser obrigado a ver a queima de fogos, sem desejar Feliz Ano Novo pra quem a gente não gosta, essas chatices? 

— Você não gosta de estar com os outros? Eu gosto muito de conviver. Sou sociável e sempre achei que você também fosse. Que novidade é essa? 

— Eu gosto pacas de gente, meu bem. Estou propondo uma variação, uma coisa diferente. 

— Tá, só não vejo pra quê. 

— Não tem pra quê. Pra variar. Novas experiências. Uma lufada de ar fresco no nosso relacionamento. Simples. 

— A gente tá precisando dessa lufada? 

— Mesmo que não precise, é bom. Renova. 

— Vou pensar, mas acho meio arriscado. Seus pais ou os meus podem estranhar. 

— Eu não queria que você pensasse. Esperava uma resposta entusiasmada, alegre, gostosa. 

— Eu não sou assim. Você deve estar achando que eu sou outra pessoa. 

— Sempre se espera que o outro mude. Nem que seja um pouquinho. 

— É verdade. Mas é difícil. Aproveitando o assunto, que presente vamos dar pros meus pais? 

— Uma jaula. 

— Não tem graça nenhuma. E não seja ingrato. Eles fazem de tudo pela gente.





Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas, 
da lendária revista cultural ARTÉRIA, 
marco da Cultura Santista dos Anos 1980


Possuí vários livros publicados, alguns sobre Psicologia, outros de Ficção, que podem ser adquiridos na Realejo Livros (Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146), na Disqueria Santos (Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767) ou pelo website www.luizcancello.psc.com

POEMINHA DE DOMINGO QUASE NATAL (por Vinícius de Moraes)


POEMA DE NATAL
Vinicius de Moraes


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.





Marcus Vinicius de Moraes
(18/10/1913 - 09/07/1980),
poeta, jornalista, compositor,
músico e diplomata
na linha direta de Xangô,
dispensa apresentações.
No poema acima
ele reflete sobre aquele que,
para muitos, é um dia triste.


PETIÇÃO DE PRINCÍPIO É O BLOG AMIGO DA SEMANA



PETIÇÃO DE PRINCÍPIO é um blog recém-fundado
sobre crítica cultural, filosofia e outros assuntos.

Que reúne um filósofo (Francisco Razzo),
um historiador (William Bottazzini)
e dois romancistas
(Gustavo Nogy e Alexandre Soares Silva)
em torno de um projeto em comum,
que merece toda a sua atenção. 

Para acessar
PETIÇÃO DE PRINCÍPIO
clique aqui