Sunday, July 31, 2016

O GRANDE ANIVERSARIANTE DESTA SEGUNDA-FEIRA É O GUITAR HERO JERRY GARCIA

ASSISTA LOGO ABAIXO
UMA PERFORMANCE SENSACIONAL
DA JERRY GARCIA BAND
NO CAPITOL THEATER
EM PASSAIC, NEW JERSEY, 1980

POEMINHA DE SEGUNDA - ESTOU JAZZ (de Quívia Bispo)



Estou
Jazz
Bossa
Prosa

Estou
Vinho
Ninho
Verso

Estou
Calma
Alma
Clara


Quívia Bispo nunca publicou um livro sequer.
Seus poemas são muito populares
e estão espalhados pela web.
Talvez ela seja advogada.
Talvez viva em Porto Velho, Rondônia.
Talvez ela não exista realmente,
seja apenas um pseudônimo,
e essa foto acima não seja dela.
Vai saber...
Tudo sobre Quívia Bispo é incerto.
E ela parece se divertir bastante com isso.


AH, O AMOR #36 (por Luiz Antonio Cancello)



— Oi!

— Oi, que surpresa!

— Quis ligar pra ouvir sua voz.

— Que gostoso!

— Tudo bem?

— Tudo bem. Tô aqui trabalhando.

— O que tem pra me contar?

— Nada de mais. Tudo certo.

— Ah. Só liguei mesmo pra te ouvir um pouco.

— Muito gostoso.

— Tá tudo certo mesmo?

— Tudo, por que?

— Gozado. Achei sua voz um pouco fria.

— Não, meu bem. Tá tudo ok.

— Talvez seja impressão minha.

— É impressão.

— Acho que estou te atrapalhando.

— Não, até que dar uma pausa é bom.

— Muito trabalho?

— Pra caramba.

— Sua voz continua meio assim, distante.

— Meu bem, eu estava lendo um documento no computador, tive de mudar o registro.

— Sei. O pensamento está noutro lugar.

— Agora estou conversando com você. É legal dar esse tempo, sério mesmo.

— Sua cabeça está dividida. Eu sinto daqui.

— Deixa disso. Tá tudo bem? Tá em casa?

— Estou de folga, hoje. Você deve pensar que estou vadiando.

— Só estou querendo saber como você está. Aproveita sua folga e faz uma coisa bacana.

— Estou fazendo.

— Meu amor, o chefe está olhando torto pra mim.

— Tá querendo desligar, eu sei. Você ainda me ama?

— Não fica assim, eu te amo de verdade. Mas não posso ficar horas no telefone em horário de expediente.

— Horas? Eu só quero um minutinho da sua atenção.

— Sério, preciso trabalhar.

— Fica mais dois minutos comigo, pra eu sentir que sou mais importante que o seu chefe.
— Deixa disso. Vou desligar. Agora é sério.

— Não vai bater o telefone na minha cara. Vou ficar mal.

— Não quero fazer isso, mas preciso. Meu Deus, como você tem a capacidade de complicar tudo!

— Puxa, agora a sua voz voltou ao normal. Que bom!

— É por causa da raiva, não tá vendo? Você deve ter um prazer mórbido em me ver assim. Tá contente?

— Depois a gente conversa sobre isso. Vou desligar. Beijo.

— Como é que é?!

— Adoro ouvir a sua voz, mas não quero te prejudicar.

— Não acredito...

— Tchau, amor. Fica bem.


Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com



A BICICLETA (um conto nada mínimo de Márcio Calafiori)




Em Rio Grande, nas imediações da rua onde morávamos, eram poucos os guris que tinham bicicleta, e mais raros ainda os que se dispunham a emprestá-la. Assim, meu irmão e eu decidimos juntar dinheiro pra comprar uma.

Economizar a grana do cinema era pouco. A nossa casa tinha um grande quintal com abacateiros, araçás, bananeiras, caquizeiros, figueiras, limoeiros, pitangueiras e até uma parreira seca e um galinheiro desativado. Em vez do jardineiro capinar e limpar o terreno, comecei a me ocupar desses serviços e meu pai me pagava. Três vezes por semana, eu também engraxava os coturnos e polia a fivela dourada do cinto do seu fardamento. Meu pai me gratificava por isso também.

Íamos à loja com frequência verificar se a nossa bicicleta ainda estava lá. O vendedor puxava conversa:

“Tão conseguindo juntar?”

“Sim, mas será que demora?”

“Seria mais fácil se o pai de vocês comprasse a bicicleta e depois vocês pagassem pra ele.”

“O meu pai diz que não tem dinheiro.”

“E o avô?”

“A minha mãe não deixa a gente pedir nada pra ele.”

“Então paciência, a bicicleta não vai fugir.”

“E se alguém comprar antes?”

“Temos outras.”

Num sábado de manhã, a caminho do terreno baldio onde costumávamos jogar bola, encontramos uma macumba no cruzamento das ruas Benjamin Constant e Barão de Cotegipe. Apreensivos, fomos examiná-la de perto. Jamais tínhamos visto tantas moedas num trabalho. Com um pedaço de pau, Ricardo tentou puxá-las, mas logo desistiu. Segundo Carlinhos, mesmo que não se usasse diretamente a mão a macumba faria efeito. Aquela era uma oportunidade e tanto para que eu conseguisse aumentar as economias.

“Vou pegar as moedas”, anunciei.

“Não faz isso! A tua mão vai ficar torta!”

“Se afastem”, eu disse.

De uma só vez, agarrei um punhado de moedas, guardei-as no bolso e em seguida mostrei a mão:

“Tão vendo? Ela tá do mesmo jeito.”

“O feitiço demora um pouco pra funcionar, mas com certeza a tua mão direita vai amanhecer torta”, Carlinhos avisou.

“Vou contar pra mamãe que você pegou moedas da macumba”, disse meu irmão.

“Se contar eu vou te encher de porrada.”

À noite, debaixo das cobertas, senti a mão direita repuxar. Uma força invisível queria virá-la ao contrário. Se eu acordasse o meu irmão pra pedir ajuda ele ficaria assustado. Sentei-me na beira da cama e fiquei segurando a mão, firme, tentando impedir que ficasse torta. Oh, Deus, não quero ficar aleijado, não mereço isso. No escuro do quarto, eu relutava e sofria. Tomei uma decisão. Logo de manhã eu iria devolver as moedas, iria colocá-las de volta na tampa do bueiro. Rezei e pedi com força:

“Senhor Deus, por favor, não permita que a minha mão fique defeituosa. Sei que sou um infame, mas prometo que nunca mais vou mexer numa macumba. Tô sinceramente arrependido.”

Roguei tanto que acabei dormindo.

Ao acordar, lembrei imediatamente da mão. Levantei o braço e olhei-a. Era a minha mão de sempre, igualzinha. Eu podia movimentá-la e fazer o que quisesse com ela. “Obrigado, Senhor, muito obrigado!”. Mais tarde, ao depositar as moedas na tampa do bueiro, tive um lampejo: O dinheiro fácil não remete ao êxtase da recompensa trazida pelo esforço. De onde tirei essa filosofia barata? Não sei.

Guardávamos a grana numa caixa pequena de papelão. Ao limpar o guarda-roupa, mamãe viu a caixinha e ficou espantada com que o havíamos conseguido juntar. Meio divertida, disse:

“De fato, esse montinho tá crescendo, tá tomando vulto. A questão é que vocês não têm o mínimo senso de valor. Uma bicicleta é caríssima, custa os olhos da cara.”

“Mas a gente já viu o preço na loja.”

“Sabe quando vocês vão conseguir comprar uma?”

“Quando, mamãe?”

“Bem, não importa. Continuem tentando.”

O mais surpreendente no esforço de economizar foi deixarmos de ir ao cinema aos sábados, domingos e feriados. Nesse período, várias foram as sessões que atraíram um grande público ao Cine Glória. Morávamos bem em frente ao cinema. Era duro espiar da sacada e ver a fila das matinês de domingo dobrando a esquina. No entanto, tínhamos um objetivo. O montinho de notas crescia. Foi então que dei a ideia que foi prontamente aceita pelo meu irmão:

“Vamos gastar só um pouco?”

Poucos dias depois, falimos.

“Ué, desistiram da bicicleta?”, mamãe perguntou.

“É que demora muito até conseguir comprar uma.”

“E o que vocês fizeram com aquela dinheirama toda?”

“Gastamos.”

Ela achou graça:

“Vocês esmoreceram fácil. Mas como diz o ditado, mais vale um gosto que um desgosto.”

Logo no início de dezembro, papai resolveu antecipar a ida para a Praia do Cassino para as férias de verão. Além do soldado Dias, só nós estávamos ocupando a Colônia de Férias do 7º Grupo de Artilharia de Costa Motorizada. O local era equipado com quartos de madeira, banheiros coletivos, bar, áreas de lazer e dois refeitórios, o dos oficiais e o dos subtenentes e sargentos. As outras famílias só chegariam depois do Natal.

A praia propriamente dita ficava a meio quilômetro do alojamento. Uma praia imensa, considerada a maior do mundo, com duzentos e cinquenta e quatro quilômetros de extensão até o município de Chuí, que faz divisa com a cidade de Chuy, no Uruguai. Brincávamos desencavando caramujos, conchas e mariscos — aqueles mariscos brancos que ficam enterrados e só são descobertos porque deixam um furinho na areia. Ao fundo, o mar escuro, revolto, repleto de bancos de areia traiçoeiros. Tentávamos nos aproximar dos cavalos que ficavam soltos e que podiam ser alugados. Os animais se afastavam, desconfiados. Os pescadores puxavam as redes. Corríamos para ajudá-los.

No Cassino, o vento constante e forte possibilita a formação de dunas. Percorríamos a praia na direção dos Moles da Barra a fim de encontrá-las. Vimos uma que parecia um edifício de doze andares. Amarela, magnífica, brilhava ao sol. Meu irmão ficou receoso, mas eu o obriguei a subir a montanha de areia comigo. Até chegar ao topo era exaustivo. As pernas afundavam. Era preciso usar as mãos também. Eu olhava pra trás e via o mar cada vez mais longe. Que vista. Em vez de admirar a paisagem, meu irmão atirou um punhado de areia em mim. Esfreguei os olhos. Ah, é? Joguei-o com tanta força lá de cima que ele desceu rolando a montanha amarela e bateu forte com o rosto na areia escura que se prolongava além da duna. O impacto deslocou o seu maxilar.

Os olhos azuis de meu irmão tremiam. Com a boca fora do lugar, ele não conseguia articular direito a fala.

“Calma, calma”, eu disse.

Sem saber o que fazer, movido apenas pelo instinto, dei-lhe um tapa na cara e o maxilar dele voltou para o lugar. Que milagre.

“Agora a tua boca endireitou. Para de chorar.”

“Endireitou mesmo?”

“Pode confiar em mim. Mas não vai contar pra mamãe.”

“Não quero mais brincar nas dunas”, ele disse ainda chorando.

“Se a mamãe desconfiar de alguma coisa, inventa que caiu jogando bola. Se tu contar, nunca mais te salvo.”

Sem amigos, a nossa distração acabou se concentrando no soldado Dias. Ele acordava cedo e logo arrumava uma das mesas do refeitório dos subtenentes e sargentos para o café da manhã — café preto, leite, pão, manteiga e mel. Depois, enquanto mamãe ia fazer o almoço, o acompanhávamos. Destacado para cuidar do alojamento de férias, ele se ocupava de uma série de serviços: nivelava a grama das áreas de recreação e do campo de futebol, ajustava as redes de vôlei, consertava vazamentos nos banheiros, fazia reformas pequenas nos quartos, limpava as caixas d’água.

Insistíamos para que jogasse bola conosco.

“Agora tô trabalhando. Não tão vendo?”

“Então podemos te ajudar?”

“Vão procurar o que fazer bem longe de mim.”

Ele dormia no quarto destinado aos soldados. Não entrávamos ali. Mamãe vivia nos recomendando isso. Outra das advertências dela era para que só andássemos com crianças da nossa idade. Nem sempre, como agora, isso era possível. Sem dizer que às vezes era chato brincar com o meu irmão. Ele não conseguia escalar um muro, não sabia nadar direito e era lerdo pra correr se eu o convidasse pra disputar uma corrida.

Uma manhã, depois do café, o soldado foi ao quarto buscar umas coisas. Fomos atrás. A porta ficou entreaberta. Espiei. Em êxtase, imediatamente chamei o meu irmão:

“Olha, olha aqui! Uma bicicleta!”

“Não mexe nela, cai fora”, disse o soldado.

“Essa bicicleta é tua?”

“Não, é do vizinho.”

“Do vizinho?”

“Claro que é minha. De quem seria?”

“Empresta pra nós?”

“Não.”

“Mas a gente devolve.”

“Não tão vendo que ela tá quebrada?”

Era uma bicicleta grande, com bagageiro. A corrente estava solta, os pneus, murchos, os raios da roda da frente, tortos, o freio de mão, gasto, e a pintura, enferrujando.

“Por que tu não mandas arrumar?”

“Ah, é? E quem vai pagar a oficina?”

“Tu não tens dinheiro?”

“Essa é boa.”

“E se o meu pai mandar arrumar, tu emprestas?”

A fisionomia do meu pai era severa. Isso afastava a intimidade. Sempre que nos chamava para tratar de alguma coisa, ele ia direto ao assunto ou então elaborava um raciocínio que me deixava mudo, sem argumentos. Por isso, não pedíamos nada diretamente a ele. Negociávamos tudo com mamãe. Embora vivesse nos botando de castigo, o espírito dela era brincalhão. Por exemplo, bastava insistir e ela logo se punha a interpretar com graça a velha história de que tanto gostávamos:

“Quando eu era pequenina e morava em São Lourenço do Sul, uma linda cidade, eu tinha um cachorrinho. Que gracinha. Sabem qual era o nome dele?”

“Não. Qual era o nome dele?”

“Eu nunca falei pra vocês?”

“Não.”

“Têm certeza?”

“Nunca falou, nunca mesmo.”

“Ah, que falha, que memória a minha. O nome dele era Cuca. Nós éramos muito amigos. Ele vivia me seguindo. Aonde eu ia, o CU caía; aonde eu ia, o CU caía.”

“Conta de novo, conta de novo.”

“Outro dia.”

Mamãe disse que era quase certo que papai não iria concordar que andássemos na bicicleta do soldado. Por quê? Por quê? “Em primeiro lugar, o que é dos outros não se deve ter. Outra, vocês desistiram fácil de conquistar o que seria seu por direito, torraram as economias. Agora, aguentem as consequências. Por fim, a bicicleta do soldado é velha, talvez não tenha conserto.”

“Mas tem conserto sim.”

“Mas ela é grande demais.”

“Mas eu consigo andar nela.”

“Mas o teu irmão não consegue.”

“Mas vou levar ele no bagageiro.”

“Mas não quero vocês soltos por aí, podem se acidentar.”

“Mas a gente só vai andar por aqui.”

Os sentimentos são misteriosos. Prova disso é que contrariando as expectativas papai concordou em ir falar com o soldado. Fez isso no fim da tarde, logo que chegou do quartel, que ficava em Rio Grande. A bicicleta voltou da oficina tinindo, parecia nova. Antes de entregá-la a nós, o soldado pedalou um bocado pelas proximidades, como se quisesse retardar ao máximo o momento de transferir a posse. “Muito cuidado com ela”, disse finalmente. Podíamos ficar com a bicicleta a manhã inteira. Mesmo baixando o banco, eu só conseguia pedalar com a ponta dos dedos. Isso era cansativo, pois enrijecia a batata das pernas. Mas logo achei um modo de pedalar em pé. Ao me sentir seguro, gritei para o meu irmão pular no bagageiro com a bicicleta em movimento. O medroso ficou em dúvida, mas fez o que eu disse. Quando ele aterrissou, me desequilibrei e a bicicleta tombou de lado, em cima de nós. Num instante, o soldado desceu da torre da caixa d´água. O seu rosto ruivo e sardento estava tenso, vermelho:

“Ela acabou de sair da oficina. Só quero saber quantos dias vai durar inteira.”

Ergueu a bicicleta e levou-a para a área dos quartos da frente, onde havia um desnível entre o piso externo de madeira e a grama. Encostou-a ali e fez com que eu subisse. Acomodado no selim, mantive o pé esquerdo apoiado no piso e o direito no pedal, pronto para tomar impulso a qualquer momento. Dias pegou o meu irmão no colo e o instalou no bagageiro: “Agora eu vou empurrar. Quando eu disser já, começa a pedalar firme, que nem homem.” Quase caí, mas em seguida fiquei em pé e adquiri ritmo, primeiro seguindo em linha reta e depois fazendo curvas abertas. Logo eu estava apto, nem sentia mais o peso do meu irmão. Chamei mamãe, que nos assistiu da janela do refeitório. Lá pelas tantas, o soldado desceu de novo da torre da caixa d´água:

“Agora vão jogar bola. Tá na hora da bicicleta descansar um pouco.”

A princípio, ao liberá-la, ele recomendava apenas cuidado. Depois, passou a implicar com insignificâncias, a se queixar. Era o freio de mão que se desgastava ou o pneu traseiro mais murcho que o dianteiro. A corrente um pouco suja de areia ou o selim querendo rasgar. O detalhe é que nunca devolvíamos a bicicleta sem que ele a inspecionasse antes. Portanto, havia algo de suspeito nessas queixas, o que me deixava intranquilo, em desvantagem moral. Era a minha palavra contra a dele. Só que a palavra de uma criança jamais valeria mais que a de um adulto, não naquele tempo.

Era monótono não poder sair dos limites do alojamento com a bicicleta. Mamãe resistiu o quanto pôde aos nossos apelos, mas afinal concordou. No entanto, o soldado Dias foi contra. Segundo ele, o movimento de carros no Cassino já começara a ficar intenso, principalmente com a chegada dos argentinos: “É um perigo andar por aí, algum argentino bêbado pode passar em cima da bicicleta.” Mamãe estava um pouco mais aliviada dos afazeres domésticos, mas mesmo assim não parava. Fazia o almoço, lavava e passava, limpava o banheiro e o quarto onde estávamos hospedados. Ao voltar do supermercado, ela nos viu brincando no gramado e estranhou:

“Ué, desistiram de sair?”

“O soldado não deixa a gente levar a bicicleta.”

“Mas vocês não disseram que eu deixei?”

“Mas ele não deixa. Só se for pra andar aqui dentro.”

“Avisa o soldado que eu quero falar com ele.”

Ele estava lixando uma porta num dos quartos destinados aos oficiais.

“A minha mãe quer falar contigo.”

“Tô ocupado. Depois eu vou.”

“Ela quer falar... agora.”

“Que porra.”

Mamãe no refeitório, arrumando as compras.

“Pois não, senhora.”

“Vão pra lá. Quero conversar com o soldado.”

No Cassino, a efervescência se concentrava ao longo da alameda pela qual eu pedalava agora, carregando o meu irmão no bagageiro. Naquela extensão havia casas de veraneio e também o comércio, que ficava mais próximo da praia. De estilo colonial, todo branco, o histórico Hotel Cassino dava mais charme à alameda. Até 1946, quando o jogo foi proibido em todo o território nacional, o carteado, os dados e a roleta atraíam ao hotel apostadores atilados. Foi em razão do prestígio da jogatina que a praiana Vila Siqueira, que pertencia à cidade de Rio Grande, assumiu de vez a fama e oficialmente passou a se chamar Cassino.

Além dos domínios da alameda, avançamos com a bicicleta pelas ruas de terra batida e cascalho. As residências de veraneio ainda estavam fechadas, esplendidamente solitárias. Eram casas sem muros, cercadas de bambus, eucaliptos, oliveiras e pinheiros que se agitavam num farfalhar seco e tranquilo. Todas elas possuíam torneiras de jardim com água fresca à vontade. No contorno de quase verão, havia flores e plantas e o aroma de mel se espalhava. Às vezes, avistávamos pedreiros consertando coisas ou gente sozinha tomando chimarrão. Próximo à praia, as casas eram de madeira. Era difícil pedalar nesse trecho. A areia era fofa e tomada de vegetação. Descemos da bicicleta. Havia mais carros na praia indo em direção ao Chuí do que na avenida.

Retornarmos quase na hora do almoço. O soldado não fez nenhum comentário ao receber a bicicleta de volta. Nem mesmo a examinou, como sempre fazia. No dia seguinte, quando fomos pegá-la, ele avisou que iria usá-la. Fiquei indignado, um sentimento que veio com força. Argumentei que na parte da manhã a bicicleta era nossa. “Claro, vocês podem ficar com a bicicleta nesse horário. Desde que eu não precise dela”, o soldado respondeu, já trancando o quarto. Eu não estava preparado para o impacto daquele golpe. Fiquei em dúvida. Tentei recordar de alguma situação em que tivera que debater com o meu pai por algo que eu queria muito. Nessas ocasiões, eu percebia que tudo era uma questão de argumento. Em dado momento, o debate atingia um grau de complexidade que me confundia e me deixava mudo. O tipo de coisa humilhante, pois eu não conseguia dizer mais nada, embora no meu íntimo a convicção estivesse lá. A lição suprema é que eu decorava as palavras e os códigos do meu pai e depois utilizava aquilo a meu favor. O poder de convencimento era sempre oportuno, sem dúvida. Entretanto, o soldado Dias não me deu a chance de discutir, de tentar convencê-lo. Estava claro que ele escamoteara o acordo. Mas o que fora combinado de fato? Na incerteza, eu arrisquei e disse:

“Então à tarde a gente vem pegar a bicicleta.”

“À tarde? Essa condição não está no acordo.”

Fomos nos queixar à minha mãe. Ela se manteve na defensiva. Disse que se o soldado tinha que usar a bicicleta, nada podia ser feito a respeito. Ele estava ali a serviço do exército. Precisávamos entender isso. Ele não era nosso empregado. Era um soldado apenas, munido de obrigações:

“Quem sabe ele precisa da bicicleta pra ir comprar material pra consertar alguma coisa? Afinal, daqui a pouco as outras famílias vão chegar e tudo aqui precisa estar em ordem. Aliás, depois do Natal, vocês vão ter bastante companhia pra brincar e até mesmo vão esquecer essa bicicleta. Agora, vão pra praia brincar nas dunas.”

“Eu não quero mais brincar nas dunas”, disse o meu irmão.

“Ele tem medo”, emendei rápido.

“É porque eu machuquei o rosto.”

“O teu rosto está lindo como sempre”, mamãe disse.

“Mas uma vez eu caí e a minha boca ficou torta.”

“Mas a tua boca tá direitinha”, ela respondeu.

Os grandes olhos azuis do meu irmão brilharam felizes. Acho que ele precisava ouvir isso com o carinho contido na voz de mamãe. Sem dar chance para que o falastrão aprofundasse aquela história, insisti. O meu raciocínio foi simples e funcional, quem sabe certeiro: Como o soldado fazia quando a bicicleta estava encostada no quarto? Ele não fazia as coisas a pé? Claro, mamãe concordou. Contra-ataquei: E então? Pois bem, ela disse, as coisas existem porque são úteis. Se ponha no lugar do soldado: se tu fosses o dono da bicicleta não iria usá-la?

“Mas não é isso, a senhora não entendeu.”

“O que eu não entendi?”

“É como se o soldado não tivesse a bicicleta.”

“Mas ele tem, ora.”

“Mas ele não tinha.”

Agora, quando a minha mãe pedia pra ele ir ao supermercado, o soldado ia de bicicleta. Quando o vendedor de churros instalou o trailer nas proximidades da avenida, uma distância bem curta, mesmo assim ele fazia questão de ir com a bicicleta. Pressionados, retomamos a rotina de permanecer nos arredores. Pedalávamos uma meia hora e logo vinha o soldado: “Tô precisando da bicicleta.” O meu irmão não tinha temperamento para assimilar isso e logo se distraía com outra coisa. Porém, eu percebia convicto: O que estava em jogo era a injustiça. Eu chegava a ficar com pena de mim mesmo. Mamãe insistia: “Esqueçam a bicicleta, vão brincar na praia, viemos mais cedo para o Cassino a fim de aproveitarmos mais as férias.”

Até que num fim de tarde, ao chegar do quartel, papai nos convocou:

“Não andem mais na bicicleta do soldado.”

“Por quê?”

“Para evitarmos confusão.”

“Isso não é certo. Ele é soldado. O senhor é primeiro-sargento.”

“Não se trata de hierarquia.”

“Mas não é justo.”

“É uma ordem.”

“O senhor pagou o conserto da bicicleta, fez um bem.”

“Fizemos algo bom, sim, mas visando em primeiro lugar que fosse bom para nós. Há um mérito duvidoso nisso. Fiquem longe da bicicleta. Estão dispensados. E especialmente tu: não te ponhas qual um corcel fogoso.”

A praia perdeu a graça. Mamãe encomendou mariscos, mas agora eu os desencavava dos furinhos que eles deixavam na areia sem o suspense que havia antes, quando eu me punha a testar até aonde o bicho podia ir se enterrando, enquanto eu o perseguia com a pá do balde de plástico. Será que ficarmos sem a bicicleta foi uma espécie de vingança dos mariscos? Ah, é? Meu irmão vinha atrás com o balde e eu penetrava os furos deixados na areia com redobrada maldade. Em toda a Praia do Cassino não sobraria nenhum marisco vivo, não mesmo. Enchemos o balde e retornamos para a colônia de férias. De repente, vi o soldado vindo na direção contrária, montado na bicicleta.

“Lá vem o filho da puta.”

Ele passou por nós.

“Olá, guris!”

“Soldado Dias, olha, pegamos todos os mariscos que existiam na praia”, gritou o meu irmão.

Na manhã seguinte, enquanto o soldado consertava a cerca de madeira na entrada do alojamento, tive uma ideia. O único problema seria manter o meu irmão de boca fechada. Convidei-o para fazermos um buraco:

“Um buraco?”

“É, depois te explico. Vai lá e traz o balde e a pá. Enquanto isso, vou cortar bambu e pegar uns sacos de supermercado.”

Mamãe estava pendurando roupa no varal:

“Tão indo pra praia?”

“Não, vamos brincar de buraco.”

“De buraco?”

“É, a gente quer encontrar água. Será que precisa cavar muito?”

“Cuidado com essas brincadeiras. Toma conta do teu irmão.”

Fizemos um buraco mais ou menos do tamanho de uma roda de bicicleta. Não era tão fundo, pois naquele terreno não precisava cavar muito para que a água começasse a brotar. Com uma faca serrilhada de cozinha, cortei o bambu no formato de varetas; uma a uma fui entrelaçando as varetas na boca do buraco, de modo que formassem uma grade; abri e estiquei bem os três sacos de papel; coloquei-os em cima da grade formada pelas varetas; fixei as bordas dos sacos com areia úmida; e depois, como se peneirasse farinha, disfarcei o chão de papel com areia. Essa etapa exigiu controle absoluto, pois o peso da areia poderia fazer com que as varetas cedessem. Colhi um punhado da vegetação ao redor e espalhei-a com cuidado em cima da superfície falsa. Por fim, espalhamos a areia retirada do buraco. Olhando de longe, o chão parecia de verdade.

“O que vai acontecer agora?”, meu irmão quis saber.

“Presta atenção, isso é uma armadilha.”

“Uma armadilha?”

“Quando o soldado passar por aqui pra ir à praia, a roda da frente da bicicleta vai afundar de repente e ele vai cair feio, vai quebrar o pescoço. Ele merece isso, pois cometeu uma grande injustiça. Tu não preferias estar andando de bicicleta? Pode ter certeza de que chegou a hora daquele safado.”

Sempre que o soldado pegava a bicicleta e se dirigia para os fundos do alojamento, descaradamente o meu irmão ficava me fazendo sinais. Eu dizia: “Fica quieto, ele vai desconfiar.”

Mas se havia um cara de sorte na Praia do Cassino, esse cara era o soldado. A armadilha desapareceu sob o efeito das chuvas que desabaram antes do Natal.

Uma das trombas d´água alagou completamente a rua de terra para a qual a colônia de férias dava frente. O córrego que vinha da mata em direção ao mar transbordou. Naquele trecho, a pequena ponte adaptada de madeira saiu da posição original e ficou um pouco submersa. De repente, com a água já mais baixa, uma parte da rua ficou tomada de sapos. De tão impressionante que era, chamamos mamãe para que ela visse aquele espetáculo: “Meu Deus, isso me dá até arrepios. Não quero vocês mexendo nesses bichos nojentos.” Logo que ela sumiu de vista, começamos a guerra dos sapos. Meu irmão era meio desajeitado, mas tenho que reconhecer que tinha boa pontaria. Ele me acertou um monte de sapos e eu, com a mira péssima, errava os que atirava nele. Os bichos vinham com força e explodiam em mim ou bem próximo, na cerca de madeira. Ah, é? Guerra é guerra. Consegui agarrar o meu irmão, joguei-o no chão e agora, bem de perto, a minha mira funcionou. Acertei-lhe um sapo bem na testa. Mas ele se recompôs, se muniu de mais sapos e saiu disparando, a mira quase sempre certeira. Trégua, trégua! Era uma moça que queria atravessar a ponte. O córrego e aquele trecho da rua estavam com a água nivelada. Ela perguntou:

“Guris, vocês sabem qual é a direção certa em que está a ponte?”

“A ponte foi arrastada, mas tá bem ali, é só ir reto. Ela afundou um pouco, mas dá pra atravessar.”

O senso de direção da moça não funcionou. Em vez de atingir a ponte, ela entrou direto no córrego e foi afundando, afundando. Ficou com a água na altura do pescoço, mas seguiu em frente e saiu do outro lado, pisando firme, sem olhar pra trás. Nunca vi nada tão engraçado, nem nos filmes do Jerry Lewis. A barriga doía de tanto que rimos.

Mal estávamos nos recuperando da cena da moça quando avistamos o soldado Dias. Ele vinha da alameda montado na bicicleta. Próximo ao córrego, ele gritou:

“Onde tá a ponte?”.

“A ponte foi pra lá”, o meu irmão apontou.

Mas eu tomei rápido à frente e comecei a gritar e a fazer sinais ostensivos:

“Não, não, a ponte tá aqui, bem aqui. Aqui!”

O soldado se posicionou na direção em que apontei e avançou. Aquilo foi tão surpreendente, que ele ainda tentou pedalar, talvez imaginando que a qualquer momento a ponte fosse se materializar. Por um breve instante tive a impressão de que ele estava sentado confortavelmente sobre a água, esperando que alguém lhe levasse o jornal. Mas logo o soldado ficou de pé, com a água batendo no peito, e içou a bicicleta, jogando-a com raiva na parte seca do chão. No bolso da camisa, o maço de cigarro, encharcado.

Ao passar por mim, todo molhado e sujo, ele disse:

“Tu me pagas. Pode esperar, guri.”

Depois do Natal, a colônia de férias do 7º GACosM ficou cheia de crianças da nossa idade. Mamãe tinha razão: esquecemos completamente a bicicleta. Meu irmão e eu nos aliamos a um guri um pouco mais velho. Ele era genial, pois sabia construir e improvisar coisas. Quando falei da armadilha que fiz, ele me deu uma aula: “Em vez de saco de papel, tu devias ter usado saco plástico. O efeito da cilada seria o mesmo, com a diferença de que o plástico é mais resistente. Só precisaria prender melhor as bordas, pois o plástico pesa mais. Se bem que dependendo da intensidade da chuva não ia adiantar nada. A armadilha iria se dissolver do mesmo jeito.”

Outros soldados se juntaram ao soldado Dias para cuidar da manutenção da colônia de férias. Uma tarde estávamos por perto, enquanto eles conversavam:

“Dias, tivestes muito trabalho aqui?”

“Não, foi tranquilo. De guris só havia os filhos do primeiro-sargento. São esses dois aí. O de olhos azuis, o menor, é camarada, muito fácil de agradar. Já o mais velho, o maior, não é confiável. É daqueles que dá o tapa e esconde a mão.”

“Quem não presta é tu, soldado ordinário”, eu disse com rancor.

Ao redor, acharam muita graça da minha veemência, e tudo ficou por isso mesmo.



Márcio Calafiori é jornalista. 
Nasceu em 1957 e se formou 
pela Facos em 1986. 
Exerceu quase todos os cargos 
em redações de jornais em Santos, 
Santo André, Campinas e São Paulo. 
Foi redator, repórter, revisor, editor, 
secretário de redação, 
chefe de reportagem e ombudsman. 
Aposentou-se em 2012 
como professor da Unisanta, 
depois de 29 anos 
de dedicação exclusiva 
ao Jornalismo Impresso.
Colabora regularmente com
LEVA UM CASAQUINHO.


AH, O AMOR #36 (por Luiz Antonio Cancello)



— Oi!

— Oi, que surpresa!

— Quis ligar pra ouvir sua voz.

— Que gostoso!

— Tudo bem?

— Tudo bem. Tô aqui trabalhando.

— O que tem pra me contar?

— Nada de mais. Tudo certo.

— Ah. Só liguei mesmo pra te ouvir um pouco.

— Muito gostoso.

— Tá tudo certo mesmo?

— Tudo, por que?

— Gozado. Achei sua voz um pouco fria.

— Não, meu bem. Tá tudo ok.

— Talvez seja impressão minha.

— É impressão.

— Acho que estou te atrapalhando.

— Não, até que dar uma pausa é bom.

— Muito trabalho?

— Pra caramba.

— Sua voz continua meio assim, distante.

— Meu bem, eu estava lendo um documento no computador, tive de mudar o registro.

— Sei. O pensamento está noutro lugar.

— Agora estou conversando com você. É legal dar esse tempo, sério mesmo.

— Sua cabeça está dividida. Eu sinto daqui.

— Deixa disso. Tá tudo bem? Tá em casa?

— Estou de folga, hoje. Você deve pensar que estou vadiando.

— Só estou querendo saber como você está. Aproveita sua folga e faz uma coisa bacana.

— Estou fazendo.

— Meu amor, o chefe está olhando torto pra mim.

— Tá querendo desligar, eu sei. Você ainda me ama?

— Não fica assim, eu te amo de verdade. Mas não posso ficar horas no telefone em horário de expediente.

— Horas? Eu só quero um minutinho da sua atenção.

— Sério, preciso trabalhar.

— Fica mais dois minutos comigo, pra eu sentir que sou mais importante que o seu chefe.
— Deixa disso. Vou desligar. Agora é sério.

— Não vai bater o telefone na minha cara. Vou ficar mal.

— Não quero fazer isso, mas preciso. Meu Deus, como você tem a capacidade de complicar tudo!

— Puxa, agora a sua voz voltou ao normal. Que bom!

— É por causa da raiva, não tá vendo? Você deve ter um prazer mórbido em me ver assim. Tá contente?

— Depois a gente conversa sobre isso. Vou desligar. Beijo.

— Como é que é?!

— Adoro ouvir a sua voz, mas não quero te prejudicar.

— Não acredito...

— Tchau, amor. Fica bem.


Luiz Antonio Guimarães Cancello
é Escritor, Psicólogo e Professor de Psicologia.
Foi editor, ao lado do poeta Jair Freitas,
da lendária revista cultural ARTÉRIA,
marco da Cultura Santista dos Anos 1980.
Possuí vários livros publicados,
alguns sobre Psicologia,
outros de Ficção,
que podem ser adquiridos
na Realejo Livros
(Marechal Deodoro, 2 , Tel: 13 3284-9146)
na Disqueria Santos
(Conselheiro Nébias, 850, Tel: 13 3232-4767)
ou pelo website
www.luizcancello.psc.com