Friday, October 26, 2018

PEGA FOGO, O CABARÉ (por Marcelo Rayel Correggiari)



Olhem o perigo das coisas!
A 48 horas de um pleito presidencial que anda valendo discurso de ódio e gente se estapeando (literalmente!) nas ruas (na melhor das hipóteses), nosso querido editor desse nobilíssimo Leva um Casaquinho fez a convocatória para o retorno às atividades costumeiras.
Brincadeiras (dessa perdida Mercearia) à parte, justamente num período em que, no caso de palavras tanto bem quanto mal usadas, todas as situações de litígio andam sendo resolvidas ‘no tapa’ (literalmente!).
Já sabem: domingo, agora, à noite, o Cabaré começa a pegar fogo, sem hora para acabar.

A estupidez nos últimos pleitos anda fazendo saudade diante da ignomínia estarrecedora comportamental nacional da disputa eleitoral desse ano.
É de cair o queixo!
É de absurdar como é que chegamos nesse ponto.
É de estarrecer como a população brasileira coloca, no segundo turno presidencial, tanto de um lado quanto de outro, o que há de mais espúrio em termos de populismo extremista.
É de estarrecer como pode o eleitorado brasileiro, independente de medos e fraquíssimas indignações, colocar em escolha numa ‘segunda rodada’ o que havia de pior em termos de opções.
E olha que havia opções em harmonia com o cunho político-ideológico de sua preferência.
Desde o início da “Nova República” (1985), ou da ‘redemocratização’ (falácia que recebeu tal nome em que pese a base material do golpe de 1964 estar  t-o-d-i-n-h-a  aí, inclusive com certa fauna pertencente a tal período... ninguém largou o osso!), nunca uma eleição apresentou opções bem mais saudáveis comparadas a pleitos anteriores.
E o eleitorado brasileiro colocou, no segundo turno, justamente o que havia de pior.
Ora, dai-nos paciência! Era a coisa mais dócil de se escolher: se você era conservador, o Meirelles; no caso de ser liberal, o Amoêdo; se você fosse mais à esquerda, o Ciro.
Dos três, somente Ciro teve algum sucesso (12% do eleitorado). O resto virou ‘traço’ na contagem final dos votos. E escolheram justamente o populismo extremista como “... opção para o futuro da nação!”.
Uma cegueira monumental! O povo provou que não conhece patavinas de ‘cunhos político-ideológicos’. Nada! Nada, nada!!! Sequer procuraram saber qual a origem clássica do conservadorismo, do liberalismo e/ou ‘da esquerda’.
Foi a análise mais rasa que poderia ser produzida. Resultado diferente: esqueçam! É isso que está aí para o próximo domingo. Um troço de doer.
Num país sem boa intelectualidade, que estragou o cérebro e o fígado ‘entra em campo’, não há outra saída que não seja ver o Cabaré em polvorosa! Uma espécie de ‘zona no puteiro’, sem hora para acabar.
Lamentável! Em especial com o resultado dos extremistas continuarem sua prática de intimidação, falácias e populismo que não fazem nada além do que ‘irmão matar irmão’ sem a menor cerimônia se estão em casa ou no meio da rua.

Alguns diriam: “Ah... mas desde que o mundo é mundo, sempre teve extremismo num monte de coisas!”.
OK! Até concordo. No século V a.c., fazia todo o sentido do mundo as pessoas se engalfinharem em vias públicas, leitos carroçáveis e o escambau. Até poderia se entender questões de litígio serem resolvidas no fio da espada.
Mas no século XXI?!? Por má utilização do cérebro?!? Aí, é dose para elefante!
Voltamos a repetir, querido(a) freguês(a): havia opções para conservadores, liberais e ‘de esquerda’ muuuuuuuiiito melhores do que essa pantomima macabra extremista de domingo.

Então, vamos lá, pléiade de cérebros privilegiados: vocês realmente acham que votando nesse, ou naquele, partidos políticos como MDB, PT, PPS PDT, PTB, PSDB, PUC, PLOC e a PQP vão realmente “ser varridos do mapa para sempre”?!?
Vocês realmente acreditam que do jeito que o trem rachou (e não tem conserto!) vocês “varrerão” esquerda e/ou direita “do mapa”?!? Olá! Qual o conceito de vida democrática que habita vossos córtex frontal e insular, por tudo quanto é mais sagrado?!?
É o maior descolamento da realidade na casa dos cem milhões que já existiu na face da Terra. Se bobear, supera os EUA. Alucinação pura!
Então, vamos lá, caríssimos(as): alguém aqui consegue explicar como é que TODO PAÍS QUE ANUNCIOU AUTOSSUFICIÊNCIA EM PETRÓLEO CAIU EM DESGRAÇA?  T-O-D-O-S!!! Ou ficou à mercê de regimes totalitários sanguinários que não respeitam nem um pouquinho o tal “Estado Democrático de Direito”?!?
Em nome de quê, mesmo?!
Tradição?! Bons costumes?! Medo da ‘esquerda’?! Fé?! Corrupção?! Vida pública saudável?! Luta de classes?! Bom mocismo?! Propriedade?! Resgate das instituições?! Instituições?!
‘Hã’?! Mas em qual planeta vocês moram?!
Curiosíssimo! Mas não aguentam um diagnóstico de câncer no pâncreas ou ELA e saem com esse tipo de argumentação?! Dá para elaborar um pouquinho mais?! Vai ser isso?!

Tentando pensar como um “eleitor de centro” (espécie da fauna que é a maioria pelas bandas de cá), não restou nada que, desde 7 de outubro, não seja sentar no meio-fio e cair em prantos. O eleitor nacional teve a manha de “renovar a política” saindo da famíla ‘coroné’ para cair na família ‘buscapé’.
É de estarrecer o talento brasileiro de “... só mudar as moscas”.
Vai ser isso?!
É de estarrecer o “fôlego dissertativo” presente nessas jaboticabinhas “100% made in Brazil” da estatura: “... sou conservador(a) nos ‘costumes’, mas liberal na economia”.
Ora.. dá licença!
É o mesmo que, torcedor fervoroso do Peixe, abrir uma exceção para torcer para o adversário toda vez que for contra o Santos.
Não, filhão! Não, filhona! Isso não existe! Se você é conservador(a) nos ‘costumes’, vai ser conservador(a)’ também na economia! Se você é liberal nos ‘costumes’, vai ser liberal igualmente na economia! Não tem como você ser conservador(a) na economia e liberal nos ‘costumes’. Isso é hímen em lupanar! A probabilidade é bem próxima de zero.
Como pôde o eleitor brasileiro colocar o país em rota-de-colisão, agora, no domingo, com esse tipo de argumentação!
Não, filhão! Não, filhona! Se você é conservador(a) nos ‘costumes’ e liberal na economia, você não é nem uma coisa, nem outra. Não sabe o que é conservadorismo, muito menos liberalidade. Ou podemos concluir que, na economia, não existe economia planificada, nem conservadora: só existe economia liberal, o que empurra os costumes se tornarem profundamente liberais. É óleo na água: não dá mistura homogênea.
Tentando intuir como um “eleitor de centro”, o que passa na cabeça do eleitorado brasileiro em enfiar goela abaixo o que há de pior em termos de populismo extremista no próximo domingo quando tínhamos opções, a saber, conservadora (Meirelles), liberal (Amoêdo) e ‘de esquerda’ (ou centro-esquerda)(Ciro)?!?
Apesar de “... longe do ideal”, tínhamos boas opções de candidaturas que possuíam UM PROJETO DE ESTADO, coisa que esse país anda precisando “... ‘pra’ ontem!”. Podia ser somente um esboço, mas havia. E isso foi jogado na lata-do-lixo por qual motivo, mesmo?! V-i-n-g-a-n-c-i-n-h-a   h-e-p-á-t-i-c-a?! “Ai...! ‘Tô’ com raivinha! Eles são muito safados... roubam muito!”.
É assim que se quer produzir um PROJETO DE ESTADO?! Com esse pensamento e arregimentação completamente baseados no ódio, como se um pleito fizesse desaparecer todas as pessoas que vocês não gostam e/ou desafetos?!

Nem é preciso dizer que isso é meio passo para a hipocrisia.
Uma das vantagens desse pleito é que finalmente o brasileiro tirou a máscara: é um povo que se faz de ‘Zé Carioca’ (o personagem da Disney), o “boa-praça”, o “alegre e feliz”, “amigo de todo mundo”, o “tolerante”... enfim, a maior farsa dos últimos 200 anos no hemisfério sul.
Não é à toa que nossa vizinhança sulamericana nunca nos leva a sério. Não tem como...
Finalmente o(a) brasileiro(a) será, a partir da próxima segunda-feira, o que sempre foi: um povo que saiu do armário e será ‘frontal’. Convenhamos: essa coisa de brasileiro ‘lateral’ era a maior farsa nacional produzida em nosso sagrado território.
Deve haver alguma vantagem em ser ‘frontal’: ‘lateral’ é que não dava para ser mais. Pensem nas vantagens: é menos carne no ‘churras’, só o peito do Peru na ceia de Natal, sem essa de “amigos para siempre” numa van para o litoral a fim de curtir o reveillon, pulando aquelas paupérrimas sete ondas na esperança de um ‘futuro melhor e brilhante’.
Sim! Não haverá mais a ‘família completa’ nas festas de fim-de-ano (exceto se o nível insidioso de intimidação conseguiu mantê-la unida, sinal franco de que a liberdade de escolha e pensamento é o que menos vale ‘intramuros’). Agora será “tudo por binóculos”. Quer ter novidades sobre aquele familiar que você tanto gostava, ou aquele amigo “de direita” ou “de esquerda”, procurem no ‘Livro de Róstos’ para saber das últimas (no caso, obviamente, de vocês não saírem bloqueando cão-e-gato).
A polarização não é sobre ‘estilos-de-vida’ ou posições diante dos fatos: o racha veio para ficar, produzido por argumentações com a profundidade de um pires.

E, para finalizar, o que absurda (mais ainda!) é como o eleitor brasileiro consegue, na Era de Aquário, preservar o que há de pior no Sebastianismo.
É quase como um Alcácer-Quibir aéreo, intangível, que paira sobre nossas cabeças mesmo que não queiramos.
O próprio eleito nacional que faz ‘o servicinho’. Percebem?!
Repete 1989 em 2018, ou algo semelhante, numa bazófia astronômica de “... pôr fim à sujeita e promover a renovação...”.
É exatamente com esses nomes que conhecemos bem essa merda.
Um ‘viva’ & ‘salve’ para a intelectualidade brasileira, ruim de ‘trabái’ até não poder mais, distante da população & ‘dis costa’ para a galera, incapaz de promover algum debate que prestasse e caindo na famigerada cilada do ‘eles, lá’ & ‘nós, aqui’.
É espantoso como chegamos no sectarismo, mas talvez pouco surpreendente se considerarmos a máxima de que nossos compatriotas “... acham que sabem...”.
Tem certeza?!
Pelo ‘jeitão’ da coisa, com essas opções de domingo (quando tínhamos opções!), ninguém realmente sabe de patavinas...

Mas isso, de repente, meio que já era de se esperar: massas populacionais descoladas da realidade e agindo hepaticamente nada mais mostram do que descrédito & desespero diante do engano de uma “propaganda democrática” em que a democracia faltou à aula.
O que poderia ser resumida numa frase...
... dois pontos:
“O que a ditadura militar não conseguiu destruir em 21 anos, a democracia tratou de fazer o resto do trabalho nos 33 anos seguintes”.

Nós, dessa destituída Mercearia, avisamos: nem o conservadorismo, nem o liberalismo e nem ‘a esquerda’ conseguem entender e desarmar um elemento constitutivo do tal chamado capitalismo moderno, a saber, a pauperização.
Bom entretenimento a todos no próximo domingo! Aproveitem o Cabaré em chamas! O Cabaré da Ilusão. Reiteramos que nós, dessa modesta Mercearia, não retornaremos a esse tema tão cedo, ainda por cima com o tipo de reação violenta que as pessoas andam tendo por conta do que se fala ou escreve tanto aqui quanto em qualquer lugar.
Num lugar incapaz de entender com clareza o que se ouve ou se lê, e ainda reage com violência principalmente quando não consegue compreender algo (uma crise cognitiva monumental!), nada mais resta do a manutenção do silêncio a fim de se salvar o próprio couro.
Semana que vem, voltamos à programação normal. E continuaremos na nossa misteriosa missão de ir além da ‘cortina-de-fumaça’ onde todo mundo se entretém em destilar ódio.
Porque ‘os gigantes’ são bem maiores.

Marcelo Rayel Correggiari
nasceu em Santos há 47 anos
e vive na mítica Vila Belmiro.
Formado em Letras,
leciona Inglês para sobreviver,
mas vive mesmo é de escrever e traduzir.
É autor de Areias Lunares
(à venda na Disqueria,
Av. Conselheiro Nébias
quase esquina com o Oceano Atlântico)
e escreve semanalmente em
LEVA UM CASAQUINHO





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