Status
– Por que esse longo exílio nos EUA?
Paulo
– Eu não sou um exilado. Recebi até uma proposta de um exilado brasileiro, um
autêntico exilado, de colaborar numa coletânea de memórias de exilados, mas o
fato é que sou um expatriado, alguém que escolhe viver num país estrangeiro,
mantendo, porém, a identidade nacional própria, enquanto que o exilado é
forçado a morar fora, ou, num segundo sentido, é uma pessoa que se integra numa
nação e cultura diferentes. Nenhuma das duas definições se aplica a mim.(…) Vou
ao Brasil frequentemente (…) Vivo nos EUA porque nada tenho de melhor para
fazer no Brasil. (…) No estrangeiro, apesar de escrever sobre temas, digamos,
internacionais nunca escrevi tanto sobre o Brasil, nunca pensei tanto no
Brasil, nunca procurei tanto entender o Brasil.(…) Eu acho mais fácil entender
o Brasil dos EUA do que no Brasil.
Status
– Há um boato que você subempreita, porque escreve em tantas publicações.
Paulo
– Há outro melhor, aqui, que, se colocando um níquel de 25 cents na minha boca,
sai um artigo. Mas, lembre-se, eu não sou um repórter, sou um comentarista. Em
suma, o que escrevo, embora envolva o contato com pessoas, entrevistas, etc.,
é, em geral, minha opinião sobre acontecimentos. E tenho muitas opiniões sobre
todos os assuntos. Como não acredito em rigorosamente nada, me interesso por
tudo.(…)
Status
- E o jornalismo, você acha uma arma?
Paulo
- Depende de quem faça jornalismo. Em geral, jornalismo é um produto de
consumo. Eu próprio produzo bastante para puro consumo, se bem que desafio quem
não encontre em qualquer trabalho meu, por mais banal o tema, uma crítica
política e ética. (…) Quando fui crítico de teatro, meu início, o que eu queria
era mudar o teatro brasileiro, e não emitir boletins de consumo para eventuais
fregueses-espectadores. Na revista Senhor, a original, de que fui um dos
editores-fundadores, meu negócio era criar uma revista de cultura viva, no
Brasil, de contracultura, quer dizer, contra a cultura oficial, acadêmica,
autocongratulatória. E na Última Hora, com Samuel Wainer, até 1964, eu queria
mudar o Brasil. Não é que eu não aprecie os prazeres da vida (…)ou seja, “prestígio,
poder e dinheiro”. Aprecio e muito. Sou um elitista cultural. Gosto de autores
difícies, de literatura a música, das melhores roupas, dos melhores quadros, do
melhor uísque, do melhor vinho, etc., e que maítres me reconheçam na porta dos
restaurantes, me arranjando mesa na hora em que eu entrar.(…)
Status
– Mas nos EUA você é desconhecido?
Paulo
– Exatamente. É um dos preços que pago para completar minha educação, a perda
de status. Aqui, sou apenas mais um jornalista estrangeiro, com acesso reduzido
à imprensa americana (publiquei alguns artigos), e isso já me deprimiu
bastante, principalmente nos primeiros anos. Perda de status dói paca, para
usar uma expressão pasquiniana. Em compensação, como sugeri, hoje tenho uma
visão de mundo completa, quer dizer, que eu considero completa e que duvido
(não é impossível) que se altere nos essenciais. (…) Eu tive muita sorte como
jornalista, como já disse. Quem me deu minha primeira chance foi o Hélio
Fernandes, na falecida Revista da Semana, que ele dirigiu um tempo. Daí fui
para o Diário Carioca. Foi um jornal tecnicamente revolucionário, que terminou
com o lero-lero das reportagens intermináveis, em que o repórter era a estrela,
e não o assunto. Na Senhor, que foi criação de editores da Delta, Simão e
Sérgio Waissman, e que teve como diretor Nahum Sirotsky, pude fazer o que eu
mais queria: publicar ficção moderna, artigos sobre serviços que não fossem
meros “reclames”, como se dizia antigamente, introduzir uma certa franqueza
sexual, polêmicas sobre os mais variados assuntos. Senhor criou o clima que
permite que hoje a nossa Status exista. Foi um fracasso comercial na época, mas
criou uma imagem, uma idéia, um exemplo. Parece brincadeira lembrar que Clarice
Lispector, antes de Senhor, era conhecida apenas por uma coterie de
intelectuais, ou que Guimarães Rosa encontrou lá o único veículo semipermanente
para a ficção dele, que todo mundo celebra, como a de Clarice. Depois Última
Hora. Não há dono de jornal mais injustiçado neste país nosso que Samuel
Wainer. Ele criou o primeiro jornal popular no Brasil. Nunca o perdoaram.
Jornal popular no Brasil, antes e depois de Samuel Wainer, é jornal de crime.
Participei ainda de outra revolução, a de O Pasquim. É um assunto chato de
discutir em público, porque sou acionista do jornal, um jornal que só tem
vedetes, perto das quais Elizabeth Taylor é a própria modéstia e abstenção, mas
O Pasquim foi criado pelo Jaguar, aliado ao entusiasmo e capacidade promocional
do Tarso de Castro. Nessa frase, para vosso governo, já criei vários inimigos,
ou reforcei alguns, quero, porém, ser franco e dizer o que penso, sem desmerecer
a colaboração de nenhum dos outros gênios pasquinianos, presentes, passados e
futuros. O Pasquim foi uma grande revolução de linguagem, continuou a obra do
Diário Carioca. Pela primeira vez, um jornal inteiro escrito de maneira
coloquial, usando a linguagem riquíssima que nosso povo cria e que é ignorada
pelos acadêmicos e pela maioria da imprensa. (…)
Status
– Você nunca teve decepções?
Paulo
– Duas horríveis. A primeira foi a revista do Diner's que editei durante um
ano, quando os donos desistiram de continuá-la (era oferecida gratuitamente aos
portadores de cartão Diner´s, como promoção), que tentei fazer um misto de
Pasquim e Senhor, dentro dos modestos recursos disponíveis. E Visão. A figura
de Said Farah. Aí está um homem politicamente liberal, economicamente
conservador, uma excelente figura humana, ele e a mulher dele, Raymundinha, que
animava igualmente a revista. Essa é a minha maior dor-de-cotovelo. Em Visão se
criava a primeira revista liberal no Brasil, uma revista dirigida à elite
econômica do país, favorecendo o ponto de vista dominante, em economia, dessa
elite, porém propondo uma reforma política liberal e, em economia, mantendo o
mesmo liberalismo, isto é, dando opiniões contrárias às oficiais. Farah teve
problemas econômicos e vendeu a revista a um outro grupo, cujo approach é
diferente. Foi o fim de um grande experimento, inédito, em essência, até hoje
na imprensa. Conservador no Brasil é, em geral, um reacionário. O
conservadorismo liberal de The Economist é que Farah estava criando. Foi-se.
Status
- Mas se no início você fez tanto nome como crítico de teatro, por que largou?
Paulo
– Talvez eu ainda volte. Já recebi uma boa proposta. Não, o negócio não é bem
esse. Eu tinha voltado dos EUA, depois de dois anos lá, ou melhor, aqui, e
cheio de idéias sobre o teatro, que eu queria dirigir e até representar. Achei
o teatro brasileiro uma joça. Dois amigos meus, o dramaturgo Francisco Pereira
da Silva e o, hoje, diretor de teatro na Bahia, João Augusto, eram críticos, o
primeiro do Diário Carioca, João da Tribuna da Imprensa. Uma noite na Gôndola,
depois da estréia de um abominável Volpone, pelo Teatro Brasileiro de Comédia,
estávamos os três lá, ponto de gente de teatro, quando começaram a chegar os
atores da peça. Foram cumprimentados afavelmente pelo Chico Pereira e João. Eu
perguntei a eles: mas vocês não detestaram o espetáculo? Eles responderam que
sim, mas que, no Brasil, não valia a pena abrir polêmica (palavras proféticas,
digo eu, em 1975). Fiquei furioso e insisti (para que baixassem a ripa no
espetáculo. Eles me fizeram uma proposta: que eu me tornasse crítico de teatro e
desse o exemplo, que eles seguiriam. Dias depois, fui procurar o Hélio
Fernandes, na Revista da Semana, a quem eu conhecia ligeiramente, via o Millôr
Fernandes. Me apresentei, disse que não tinha experiência, o Hélio me cortou
rápido e me perguntou se eu queria realmente fazer uma seção de teatro pras
cabeceiras. Respondi que sim e fechamos. O Hélio tinha transformado a Manchete
de fracasso em sucesso e, agora, queria fazer o mesmo pela Revista da Semana.
Talvez até conseguisse, se não tivesse meses depois pedido demissão. Só que a
Revista da Semana não tinha recursos. Ou melhor, dispunha de um recurso
poderoso: a inteligência, a audácia e a energia do Hélio. Falam que escrevo
demais. O Hélio escrevia praticamente a Revista da Semana inteira, fora uma ou
outra seção, usando vários pseudônimos. Bem, comecei a baixar o sarrafo em tudo
o que achava ruim, e o Chico Pereira e João Augusto seguiram na mesma batida.
Falando nisso, na época, eu levava uma semana compondo um artigo. Só quando
passei a crítico diário do Diário Carioca e, por uns meses, crítico de cinema
do Jornal do Brasil é que adquiri a experiência e confiança. Só se aprende a
escrever escrevendo diariamente. Não há outra fórmula. Fizemos, voltando ao
teatro, uma ligeira revolução de gosto. É verdade que foi uma coincidência de
vontade individual e de uma era. Queiram ou não, o governo Juscelino Kubitschek
foi um dos períodos mais agradáveis da história brasileira, não só pelas
liberdades públicas, indispensáveis, claro, mas, pelo otimismo, pelo fomentar
de esperanças do presidente, que nos contagiou a todos, ao menos, a meus amigos
profissionais. Tínhamos a impressão de que tudo era possível no Brasil daquela
época. Hoje me acho ingênuo ao imaginar que, fazendo crítica de teatro a sério,
fosse mudar séculos de atraso cultural e econômico, mas sem esse tipo de
expectativa louca nenhum país ganha identidade e se encontra. Esse espírito
empreendedor continuou até 1964 e chegou mesmo ao paroxismo, se já tingido de
desespero, no “intervalo” de 1964 a 1968. Pense só no Cinema Novo, no Teatro
Oficina, no Teatro de Arena, no Chico Buarque, foi uma pequena renascença
nacionalista. Uma estréia de teatro de Dias Gomes, Guarnieri, Vianinha, Millôr,
ou qualquer dos nossos autores sérios, era um acontecimento cultural, a que
comparecia gente de toda espécie, de intelectuais a políticos, à grã-finagem.
Status
- Mas não era esnobismo tentar impor critérios europeus e americanos a artes
brasileiras?
Paulo
– (…) A influência estrangeira na minha família era muito forte, logo eu não me
dava conta de Brasil, no sentido em que entendo hoje a palavra. E, na minha
infância, nos anos 40, começou a enxurrada cultural americana sobre nós,
principalmente em cinema e música. Perdemos contato com a Europa Ocidental,
durante a guerra. Viamos o mundo pelo prisma de Hollywood, dos Sinatras e Bing
Crosbys. Tudo isso, que inclui prazeres por certo, resultou da minha parte numa
alienação quase que absoluta. Problemas sociais e políticos simplesmente não me
passavam pela cabeça. Meu primeiro gosto de Brasil foi quando viajei, como
ator, com o Teatro do Estudante, de Paschoal Carlos Magno, pelo Norte e
Nordeste. Lembro que fiquei estarrecido ao ver aquelas fileiras de gente
morrendo de fome, em Fortaleza, Ceará, durante uma seca. Essas coisas
inexistiam em Botafogo, Copacabana, Ipanema e Leblon, que era por onde eu
andava. Como crítico de teatro, comecei exigindo que todo mundo virasse Old Vic
de Londres, com um Shakespeare à altura, e terminei um escandaloso
propagandista do autor nacional, do diretor nacional, da temática nacional,
acima de tudo. É uma lição que muita gente precisa reaprender no Brasil de hoje
e, no caso da juventude, aprender.
Status
– E como você concilia isso com a vida em Nova York?
Paulo
- Nova York é uma síntese política e cultural do mundo moderno. Tem Terceiro
Mundo nas favelas de negros e portoriquenhos, a alta cultura das sinfonias e
das grandes editoras, um sistema de comunicações incomparável da CBS-TV ao New
York Times, a riqueza absurda de Wall Street, os sofrimentos que levam a
sentimentos fascistóides de uma classe média amedrontada, uma confusão étnica,
única no mundo, uma sujeira, uma violência, uma grandeza, uma civilização,
incomparáveis. Na posição de observador a que fiquei restringido, é o melhor
ponto possível. E tenho grandes afinidades com a cultura americana. Todo dia
abençôo Thomas Jefferson por ter redigido a Primeira Emenda da Constituição dos
EUA que proibe taxativamente o Congresso de fazer leis que atentem contra a
liberdade de expressão. É possível imaginar um outro país que, em guerra
sangrenta no Vietnã, tivesse pelo menos 1/3 da população violentamente contra e
milhões de pessoas nas ruas protestando? (…)
Status
– Assuntos pessoais.
Paulo
– Sou um homem bem casado, um tranquilo habitante, que passa a maior parte do
tempo escrevendo. Isso me cansa mas me agrada. Sou profundamente deprimido, a
doença do século, sei, mas nem por isso deixa de ser chato. Se não escrevendo,
em suma, produzindo, só me sinto à vontade no mundo, temporariamente, sob o
efeito de espíritos, como diziam antigamente. Sofro de accidie, para usar a
palavra bacana, um senso inerradicável de solidão, futilidade e desespero. A
culpa não é de ninguém, pelo contrário nem sei como retribuir o amor dos
poucos, porém certos, que gostam de mim. O problema é meu. Eu tenho um hábito,
talvez produto do orgulho típico dos deprimidos, de que experimento, em
microcosmo, o espírito da época. Nisso, não há como negar, estou atualizadíssimo.
As violências e crueldades da nossa era não têm paralelo histórico e nunca,
talvez, tenha existido tão pouca esperança, ou saida sequer, intelectualmente
aceitável para os céticos. E, se sou alguma coisa, sou um cético.
Status
– Mas você gosta do seu trabalho?
Paulo
– Eu gostaria de escrever um artigo por mês para Status, que não fosse
entrevista, porque ando um tanto cheio de celebridades, e uns dois artigos por
semana, um num jornal do Rio e outro, em São Paulo, e, claro, ganhar 1 milhão
de dólares ao mês. Já que isso não é muito viável num futuro próximo, vou
levando. Sempre que escrevo, dou tudo que tenho. Nunca escrevi uma linha mal
cuidada na minha vida, de que eu tivesse consciência. E respeito todo trabalho
profissional bem feito, não importa o tema. Jornalismo, claro, como tudo, exige
o máximo de liberdade. Sem esta, a vida nunca será plena para ninguém,
opressores ou oprimidos. Nem por isso confunda minha depressão, que é
espiritual, com desânimo. O negócio é tentar sempre. Eu gostaria de fazer um
bom jornal, editá-lo, digo, usando a brevidade do Wall Street Journal, a
técnica de editar do Sunday Times e o espírito do Le Monde, como modelos para
ponto de partida. (…)



Comments
Post a Comment