PERGUNTA
- A segunda parte da "Antologia" cobre os anos de 72 e 73. Segundo a
edição, essa teria sido a fase mais interessante do "Pasquim". E
também a sua. Como andava seu ânimo profissional? E político?
IVAN
LESSA - Sim, minha participação foi mesmo mais ativa. Mas a explicação é
simples. Morava em Londres até 72, quando voltei para o Brasil e passei a
trabalhar diariamente no "Pasquim". Meu ânimo profissional ia bem,
obrigado. Tive outras ofertas mais tentadoras em termos de salário. Mas, no
"Pasquim", na época vendendo pouco e em crise, eu estava entre velhos
amigos. Ânimo político? Nunca tive, não tenho.
PERGUNTA
- Como você selecionava as cartas a serem respondidas? Quantas você inventava?
Depois que os leitores entraram no espírito da seção, ficou mais difícil?
LESSA
- Eu pedia para a dona Nelma [secretária do jornal] a vasta pasta com as
cartas. Tirava um punhado. Selecionava as que pareciam mais interessantes. Ou
mais idiotas, se você preferir. E inventava apenas as obviamente inventadas. E
a proporção é bem menor do que pensam. Ou dizem. Depois de um certo tempo, os
leitores mais vivos entraram no espírito da coisa. Aí, é claro, ficou mais
difícil. Dependia muito também de como andava minha paisagem interior. Sim, eu
tenho uma paisagem interior, que anda, marcha, pula, isso tudo.
PERGUNTA
- Entre os gêneros que você criou no jornal, as cartas inventadas, as falsas
notícias comentadas e o horóscopo, de quais gostava mais?
LESSA
- O que eu mais gostava de fazer mesmo era o "Pasquim Novela". O
resto do que você menciona era ou muito triste ou muito chato. Não me lembro de
falsas notícias. Toda notícia é, por definição, falsa. Ou farsa. Por aí.
PERGUNTA
- E as que tinham subtexto contra a ditadura (sobre Papa Doc, a Inquisição ou
Perón)?
LESSA
- Era para poder falar de nós falando dos outros. É a única vantagem da
censura: obrigar o cidadão a exercer as disciplinas das entrelinhas, das
alegorias, das insinuações.
PERGUNTA
- Como funcionava a relação com os chargistas na seção "Gip, Gip, Nheco,
Nheco"?
LESSA
- Eu escrevia os "gips" e eles "nhecavam". Em muitos eu
tinha uma idéia ou sugestão para a ilustração. Mas muitas das frases davam para
se agüentar em seus próprios pés. Acho.
PERGUNTA
- Acredita que as pessoas vejam o "Pasquim" hoje com demasiada
nostalgia?
LESSA
- O "Pasquim" acabou. Para o bem ou para o mal.
PERGUNTA
- Em entrevista à Folha, Jaguar disse que o jornal viveu mais do que deveria.
Você concorda?
LESSA
- Concordo. O "Pasquim" deveria ter acabado logo depois que começaram
a botar azeitonas adoidadas em empadas alopradas.
PERGUNTA
- Você acha que o "Pasquim" de fato revolucionou o jornalismo
brasileiro?
LESSA
- É, o jornaleco tirou as aspas da língua brasileira. Na medida do possível. Os
outros méritos estão com todos os que escreveram ou desenharam ou tentaram uma
contabilidade honesta com a publicação -chato ficar repetindo
"Pasquim" ou "jornaleco", passemos então para os chavões.
PERGUNTA
- Você lê jornais brasileiros? Acha que estão melhores ou piores do que na
época da ditadura?
LESSA
- Passo os olhos eletrônicos neles. Continuam ruins como sempre. Loas para tudo
que contribua para desencorajar um brasileiro, ou brasileira, a praticar o
(risos) jornalismo.
PERGUNTA
- As pessoas ficam intrigadas com o fato de você ter partido para Londres e
praticamente nunca mais ter voltado. Você sentiu necessidade de romper com o
Brasil?
LESSA
- Não senti necessidade. Apenas uma baita de uma vontade de me mandar e só
voltar em caso de muita, mas muita emergência mesmo.
PERGUNTA
- Você se diverte com os jornais sensacionalistas?
LESSA
- Acompanhar os tablóides chega a ser engraçado. Mas há muita coisa para ler,
para ver na TV, muito pato para se alimentar no laguinho dos parques. Eu
confesso que só vejo a primeira página nas bancas, que é o quanto basta.
Ninguém os leva a sério. Principalmente os que fazem os tablóides. Aí até que
dá para fazer uma ponte com o "Pasquim".
PERGUNTA
- Num dos artigos você diz que o mundo se divide entre as pessoas que dizem
"ôba" e as que dizem "êpa". Onde você se enquadra nessa
classificação. LESSA - Êpa! O passar dos anos, a passagem dos ôbas...
LESSA
- Sei que não teve uma pergunta treze. Mas sou supersticioso e aqui está a
prova.



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