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SOMOS TODOS ESTRANGEIROS (por Ivan Lessa)

Estrangeiro é o bairro em que moramos, estrangeira é a mulher que encoxamos no elevador, estrangeiros são nossos pais, nossos filhos. Nunca me senti em casa no Brasil, ninguém está em casa no Brasil: todo mundo foi até a esquina, todo mundo foi tomar um cafezinho. Achava que, de uma maneira ou de outra, eu estava embromando ou sendo embromado por alguém. Que viver não era nada daquilo, que eu não tinha nada com o peixe, que os verdadeiros brasileiros estavam misteriosamente ocupados com seus sofrimentos, ou então atarefados criando um Brasil melhor: gente andando rapidamente nas ruas da cidade, ou cavando uma terra dura e ingrata. Os brasileiros eram abstratos, distantes, mais calados do que comumente se supõe. Conheço algumas vozes brasileiras: gostaria de saber escrever na tonalidade do Jorge Veiga, ou do Moreira da Silva, misturada a uma retórica aborrecida e às avessas semelhante à de Ruy Barbosa — como o Hino à Bandeira acompanhado de caixinha de fósforos. Os sambinhas, claro, era...

JE SUIS O TOURO (uma Bofetada do Passado de Ivan Lessa - Jornal da Tarde, 28-09-1986)

Diante de óbvia e arrogante excelência, sempre tive um único impulso natural: pegar distância, mirar, desembestar em direção da bruta e tacar-lhe uma cabeçada firme. Esta minha propensão tornou difícil, e traumatizante para os mais próximos, uma idazinha ao Louvre, Prado ou Vaticano. Mais terceiros-mundano que mundista, simpatizo com o boliviano de canivete na  Mona Lisa , o paraguaio tocando bala na  Pietá . A qualidade superior não me impressiona: irrita. Com a espalhafatosa chegada do Outono a Londres (3 e 20 da manhã; 20 de Setembro. Wham. Que foi? Mais uma explosão lá em Paris? Não. Todas as folhas da cidade caindo ao mesmo tempo), 0lho em torno e começo a pegar distância. Outro touro me pressente e escavaaca com suas patas as famosas areias ensanguentadas de Piccadilly. Manie de Picasso com touro. Touro, mulher e pouca vergonha. Tá lá o corpo estendido no chão. Exposição de seus cadernos na  Real Academia . Picasso meio São Paulo: não pára nunca. Nem a...

EL MAYOR CARNAVAL DEL MUNDO (uma bofetada do passado de Ivan Lessa)

publicado originalmente pela BBC-Brasil em 6 de Fevereiro de 2009 É o que estão espalhando. Em língua de "castiano", conforme o vulgo chama pejorativamente o idioma de Jorge Luís Borges. Sambódromo, sambas-enredos, escolas, baterias, pastoras, cuidai-vos! Corremos, ou vocês correm, o risco de perder o título - logo para quem - os argentinos. Sim, senhor. Os argentinos. Que, dizem lendas urbanas, suburbanas e a vox populi, nós odiamos. Mas odiamos com fervor desenfreado. Dizem, repito e insisto. Eu, de minha parte, a única que tenho, sempre gostei deles. Do tango, do futebol (de Di Stefano a Maradona), do palavrão com boca cheia que de uns tempos para cá começaram a surgir em bons filmes do país vizinho. Agora, ousados, ou abusados, ameaçam nosso carnaval. Eu vou logo de título de chanchada ou marchinha antiga: devagar com a louça. Já vi em mais de um jornal britânico. Artigos e anúncios de agências de viagens. Traduzo resumindo de bate-pronto à melhor m...

MEMÓRIAS DA REVISTA SENHOR (uma Bofetada do Passado de Ivan Lessa)

publicado originalmente no Caderno  Fim de Semana (Gazeta Mercantil 1999) De vez em quando, um sujeito formado em jornalismo aparece e vira para mim e diz: "Eu me lembro daquele artigo que você escreveu sobre o Spinoza na revista Senhor." Faço um sorriso modesto, encaro as sandálias dele, penso que mundo estranho este em que as pessoas se formam em jornalismo. O sujeito prossegue: "Que revista hem!" Eu vou mais longe: "Ainda vou processar a Chauí por uso indevido". Na verdade nunca escrevi uma única linha sobre Spinoza. Na verdade, tenho a maior dificuldade de me lembrar da revista Senhor. Não guardei nenhuma. Lembro pouquíssimo dela. O que eu me lembro mesmo é que foi meio frustrante e gostoso. Mas isso, como tudo mais, é opinião pessoal. Eu me lembro é do pessoal. Da redação. Restaurantes. A revista Senhor foi assim: Em janeiro de 1959 eu tinha 23 para 24 anos, era chefe de redação da Norton Publicidade, ganhava 30 contos por mês. Fui ch...

JE SUIS O TOURO (uma Bofetada do Passado de Ivan Lessa - Jornal da Tarde, 28-09-1986)

Diante de óbvia e arrogante excelência, sempre tive um único impulso natural: pegar distância, mirar, desembestar em direção da bruta e tacar-lhe uma cabeçada firme. Esta minha propensão tornou difícil, e traumatizante para os mais próximos, uma idazinha ao Louvre, Prado ou Vaticano. Mais terceiros-mundano que mundista, simpatizo com o boliviano de canivete na  Mona Lisa , o paraguaio tocando bala na  Pietá . A qualidade superior não me impressiona: irrita. Com a espalhafatosa chegada do Outono a Londres (3 e 20 da manhã; 20 de Setembro. Wham. Que foi? Mais uma explosão lá em Paris? Não. Todas as folhas da cidade caindo ao mesmo tempo), 0lho em torno e começo a pegar distância. Outro touro me pressente e escavaaca com suas patas as famosas areias ensanguentadas de Piccadilly. Manie de Picasso com touro. Touro, mulher e pouca vergonha. Tá lá o corpo estendido no chão. Exposição de seus cadernos na  Real Academia . Picasso meio São Paulo: não pára nunca. Nem a...

MEMÓRIAS DA REVISTA SENHOR (uma Bofetada do Passado de Ivan Lessa)

publicado originalmente no Caderno  Fim de Semana (Gazeta Mercantil 1999) De vez em quando, um sujeito formado em jornalismo aparece e vira para mim e diz: "Eu me lembro daquele artigo que você escreveu sobre o Spinoza na revista Senhor." Faço um sorriso modesto, encaro as sandálias dele, penso que mundo estranho este em que as pessoas se formam em jornalismo. O sujeito prossegue: "Que revista hem!" Eu vou mais longe: "Ainda vou processar a Chauí por uso indevido". Na verdade nunca escrevi uma única linha sobre Spinoza. Na verdade, tenho a maior dificuldade de me lembrar da revista Senhor. Não guardei nenhuma. Lembro pouquíssimo dela. O que eu me lembro mesmo é que foi meio frustrante e gostoso. Mas isso, como tudo mais, é opinião pessoal. Eu me lembro é do pessoal. Da redação. Restaurantes. A revista Senhor foi assim: Em janeiro de 1959 eu tinha 23 para 24 anos, era chefe de redação da Norton Publicidade, ganhava 30 contos por mês. Fui ch...