Você já se perguntou por que escuta a música
que escuta? Ou por que acredita no que acredita? Neste artigo, não vamos
discutir gosto musical, religião ou estilo de vida, mas consciência de classe e
dignidade para todos, o fulcro da mensagem do hardcore.
Ao refletir sobre a evolução e o papel da música popular [1]
hoje, quando a polarização das opiniões e o poder dos tecnocratas na aniquilação
do pensamento crítico é tão evidente quanto indesejável a quem preza a
capacidade cognitiva humana e a justiça social, me perguntei por que a clara e
objetiva mensagem política do hardcore tem um alcance limitado aos fãs do
gênero, sem chegar à maioria dos oprimidos que, conhecendo-a, poderiam compreender
melhor sua condição de existência, aprender a reivindicar seus direitos
constitucionais e votar em candidatos com competência e planejamento para
garanti-los; também me perguntei como a potência de manifesto antissistema do
hardcore pode ser subjugada por gêneros que comunicam quase que somente platitudes,
submissão ou lascívia, gêneros a que, independente de gosto ou escolha, em uma espécie
de tirania sonora, estamos expostos em salas de espera, supermercados, bares,
transportes, passeios etc. ou dentro de casa, a depender dos vizinhos [2].
O que está por trás do alcance de massa e aceitação de gêneros musicais como o
sertanejo universitário, o gospel neopentecostal e o funk proibidão, por
exemplo, em detrimento do hardcore? Ou da música clássica, que se aprofunda nas
emoções e, portanto, seria um meio para a autopercepção? Ou mesmo do glorioso samba, esse gênero que contém
a alma brasileira?
Quem já pensou a respeito do assunto poderia concluir que a resposta está na própria pergunta: o princípio do pão e circo para controle da população, que destitui a complexidade humana com a premissa de que basta não passar fome e estar se divertindo para aceitar e/ou defender a autoridade que governa sua vida, não importando a qualidade desse poder. Ou seja, o que está por trás do produto massificado é o que interessa a quem domina a indústria cultural, os meios de comunicação, hoje majoritariamente tecnológica, e os meios de produção para conservar e aumentar seu lucro e seu poder. E, para tanto, é necessário manter a população acrítica, anestesiada, desmobilizada, individualizada, obediente a estímulos controladores e ignorante de sua força como maioria, por exemplo, quando não existe negociação ou o diálogo falha, na organização de um boicote a um serviço, um produto ou um governo. Sobre esse poder, Patti Smith canta, desde 1988, People have the power to redeem the work of fools (O povo tem o poder para se redimir da ação dos idiotas [3]).
Para
responder às perguntas aqui colocadas, é possível argumentar que o hardcore,
com sua bateria em bombardeio, as guitarras rasgadas e os vocais gritados ou
guturais, afastaria quem busca paz de espírito. Este, porém, é o ponto nevrálgico
da música hardcore: se nem os monges do Tibet conseguem ficar zen diante do
poder que esmaga sua cultura [4],
como você vai encontrar paz em meio ao
abuso e à injustiça de um sistema que promove manobras para favorecer uma elite
econômica que, por sua vez, apoia esse sistema desde que o Brasil é um país? Para
ilustrar a impossibilidade de se alcançar essa paz, segue um trecho do poema em
prosa de Marcelino Freire, cuja apresentação por uma Naruna Costa [i][5]
revoltada é consoante com a voz do hardcore:
“A
paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente.
Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem
cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Taí uma coisa que
eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora que nunca
olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito
branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue.”
A
paz referida no poema é a paz de cemitério, a paz que persegue, pune e mata
quem não se adequa ao sistema instalado. Já a paz da justiça se faz com
enfrentamento embasado, com reflexão crítica, com estudo e preparo, onde a
palavra é uma arma potente de destruição do sistema opressor, portanto, a
música que se propõe a acompanhá-la deve ser um arsenal – sem espaço para suavidade,
a não ser por ironia ou sarcasmo. O hardcore é sinônimo de protesto, denuncia
os esquemas, conclama à revolta e à reflexão, escancara todo tipo de
manipulação. Não existe eufemismo no hardcore, ele é brutalmente sincero ao expor
os abusos e apresentar as soluções para que cessem: uma atitude ética firme e
consistente.
Em Mídia,
música de abertura do álbum 400% (1995), a banda Sociedade Armada avisa:
A
mídia é o veículo de divulgação de regras que a sociedade te obriga a seguir. Se
você quer ser famoso, estrelinha do sistema, terá que se vender se quiser subir.
Por isso nós gritamos: cuidado com a mídia, por isso somos livres, no agir e no
pensar. Por isso nós gritamos: cuidado com a mídia. Tocar é nossa forma de
protestar. Cuidado com a mídia, não se deixe influenciar. Cuidado com a mídia, eles
querem te enganar.
Enquanto
Dead Fish dá o recado sobre A Inevitável Mudança [6]:
A
narrativa vinda do colonizador tingiu de branco nossa história e sem escrúpulo
omitiu e apagou o outro lado da moeda, mas cada dia mais janelas vão se abrir e
a diversidade vai brilhar ao Sol (...) Do ponto cego da história brotam vozes
de resistência e de luta . Quando o oprimido finalmente se expressa o resto, [a
gente] cala e escuta, tirando aqueles que nunca querem ouvir, fecham os olhos e
sonham com aquilo que nunca mais será.
Do
mesmo modo, no Riot Grrrl, movimento dos anos 1990, a raiva, esse sentimento
genuíno de alerta quando nossos limites são desrespeitados, na voz de Kathleen
Hanna do Bikini Kill ou Corin Tucker do Heavens to Betsy, também traduz a
revolta das mulheres que denunciam e não aceitam padrões comportamentais e
estéticos do patriarcado. Leslie Gore mostrou sua assertividade com You
don’t own me na TV (1964), abrindo caminho para a expressão da raiva contra
a violência e os controles que o patriarcado insiste em despejar sobre as
mulheres. Embora leis de proteção e cotas venham sendo criadas, a violência
persiste e se reinventa, dos deepfakes à sofisticação de estratégias para
o tráfico humano, e jovens como Sofia Isella, Die Spitz, The Mönic, Wet Leg,
Amyl and the Snifers, entre outras, seguem cantando com a raiva e a
assertividade necessárias à sobrevivência e à plenitude do feminino, denunciado
objetificação, controle ou reivindicando espaço. A seguir, um trecho de
Lobotomia, de The Mönic:
Vão te medicar dentro da caixa. Como vai pensar com lobotomia? É distopia e você de gola rolê. Não dá mais. Lá vem (não dá mais) você (pra domesticar) cobrando por um mundo justo (pra domesticar) desde que não seja aos seus custos. Dói demais perceber, não ter paz, entender dói demais, não ter, já nascemos pra perder.
Dos
primórdios da música, surge uma reflexão atual
A
música é uma prática humana primeva de coletividade, não necessariamente
ritualística, supõe-se que tenha começado como uma manifestação pelo prazer de mover
o corpo coletivamente em um só ritmo, um só pulso, o prazer de ser parte de um conjunto
– o prazer de pertencer entre iguais. Embora a flauta de ossos seja o mais
antigo instrumento musical rastreável paleontologicamente, os instrumentos de percussão
são anteriores, não precisavam ser talhados – eram qualquer coisa que pudesse
marcar uma cadência: pedras, troncos ocos, o próprio corpo. Embora a evolução
de ambas seja paralela e interdependente, a expressão musical é anterior à
linguagem verbal, era somente ritmo, uma cadência monótona, previsível e, como
o coração que escutamos desde o ventre materno, indicadora de que estamos
conectados a e somos afetados por um corpo, um sistema, ou uma força exterior,
maior e mais potente que o indivíduo isolado; a prática de uma atividade coletiva
e simultânea reúne os corpos em um conjunto, gerando conforto. Somos permeáveis
ao som e a partir dele nosso corpo produz respostas imediatas[7].
Esse primórdio essencialmente mundano da música e da dança, com a evolução do
pensamento humano junto ao avanço da linguagem verbal, foi ampliado em complexidade,
sofisticação e variedade a ponto de hoje poder conferir um perfil de crença, personalidade
e estilo de vida de um indivíduo a partir de suas preferências musicais.
A
segmentação em grupos conforme gêneros de música se origina com a estratificação
da sociedade, quando o acesso à música, que acompanhava a evolução social, se
tornou quase que exclusivo às cortes, aos exércitos e às igrejas, elitizando-a,
tornando-a um instrumento de poder e status social, e a capacidade de compor ou
tocá-la um negócio. Nesse sentido, o papel dos artistas de rua, sem vínculo com
os poderes, artistas independentes que se apresentavam fora dos espaços
controlados, vai além do entretenimento e da ostentação de poder, são eles que,
como a religião, o exército e o governo, mantém o tecido social entre as
classes minimante coeso, mas, diferente deles, que o exercem pela força do
dogma, ordem ou lei, a conexão se estabelece pelo prazer ancestral coletivo entre
os iguais. Há de um lado o ímpeto do artista em se realizar, sem amarras, sem
censura; do outro a carência de voz participativa do povo que o assiste, muitas
vezes incauto da própria necessidade. Essa combinação de elementos torna a
realização artística independente provocadora, incômoda e essencial ao
questionamento da realidade.
Por isso você deve saber por que e como a música que você escuta chegou aos seus ouvidos, o que ela quer que você acredite, como ela espera que você se vista, dance ou se comporte. Por fim, pergunte-se quem se beneficia direta, objetiva e materialmente com a música que você consome e o modo de vida a ela atrelado. Você deseja conceder-lhes esse privilégio?
Playlist
das músicas e bandas citadas:
https://open.spotify.com/playlist/5bWKk5r53JFLdOMInmD2Bq?si=71d7a7f2d9154e7a
You don’t own me – Lesley Gore (1964)
People have the power – Patti Smith (1988)
Rebel girl – Bikini Kill (1992)
Stay Away – Heavens to Betsy (1994)
Mídia
– Sociedade Armada (1995)
Inevitável
Mudança – Dead Fish (2019)
Guided by Angels – Amyl and the Snifers (2021)
Above the neck – Sofia Isella (2024)
Lobotomia – The Mönic (2025)
Hair of Dog – Die Spitz (2025)
Catch these fists – Wet Leg (2025)
Referências
Ódio
à música, Pascal Quignard, editora Rocco, 1999
Dialética
do esclarecimento, Teo Adorno e Max Horkheimer, 1947 ADORNO,
Theodor Dialética Do Esclarecimento (livro) : Samara Minsk : Free Download,
Borrow, and Streaming : Internet Archive
The Devastating Downfall of Riot Grrrl was
Tragic
[1] O
termo “popular” está aqui empregado no sentido amplo da música ocidental
contemporânea, para diferenciar também do sentido amplo da música erudita
“clássica”.
[2]
Essa percepção ocorre em Santos-SP, uma cidade turística de médio porte, que
recebe turistas principalmente do interior do estado.
[3] Trad.
da autora. Pode se argumentar que se os idiotas estão no poder eles não seriam
idiotas, contudo, o ponto de Patti Smith é a favor de uma sociedade igualitária,
na qual o desejo de explorar o outro para benefício próprio é considerado uma
estupidez, porque a cooperação gera resultados melhores na solução de problemas.
(PDF)
Cooperative Versus Competitive Efforts and Problem Solving
[5]
Poeta: Naruna – Slam
Manos e Minas (2018) DA
PAZ de Marcelino Freire por Naruna Costa – texto completo; Da paz, poema de
Marcelino Freire por Naruna Costa.
[6] Ponto
Cego, o oitavo álbum de estúdio da banda, faz um recorte da situação política,
econômica e social do Brasil (...) numa janela temporal do impeachment de Dilma
Rousseff à eleição de Jair Bolsonaro. Deckdisc | Dead
Fish – Ponto Cego
[7] Os
deficientes auditivos respondem à vibração sonora
HFMedeiros.pdf








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