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UM POEMINHA SAFO DE RODRIGO SAVAZONI

 


FOGUEIRAS NA ESTRADA

 

>> letra para um parceiro

 

Eu era um menino alegre e distraído,

que brincava todo dia no terreno baldio

Aos sete, construí meu clube secreto,

Na placa: forasteiros não são bem-vindos.

 

Minha mãe era um sol no centro da casa,

sabia o nome de todos os meus anjos,

meu pai era o chão debaixo dos meus pés,

mas eu só queria um abraço e um beijo.

 

Naquele espelho do fim do corredor

me olhava sem saber se gostava de mim.

Aos dez anos, já pensava e sentia,

sabia que a vida é curta e acaba.

 

Sempre gostei das meninas bonitas,

do olhar, do jeito, de um ombro despido,

inventava amores antes dos amores,

fantasiava com pecados sem saber pecar.

 

Eu e elas na sala de fantasia.

Não pode, menino. É proibido!

 

Quem foi que escreveu

as regras deste lugar?

 

Então vieram os quinze anos,

e eu parti sem sair de casa.

Anarquia, anticlericalismo,

um cabelo comprido, uma guitarra.

 

Depois os livros, depois as drogas,

depois a fome incandescente,

a camisa preta, o amplificador,

essa predileção por não me enquadrar.

 

Experimentar, experimentar, experimentar,

experimentar, experimentar, experimentar

experimentar, experimentar, experimentar,

experimentar...

 

Subi no barco, a família à margem,

me fui em busca de um outro país,

uma periferia onde eu coubesse,

alguma fronteira, alguma canção.

 

Joguei ioiô na beira do abismo,

mergulhei no mar sem saber nadar.

Você não vai ver nenhuma foto minha,

porque eu estava fora da cena, a vagar.

 

Tornei-me o forasteiro que repelia.

Juntei gente, abri caminhos,

fiz fogueiras no meio da rua

jamais aceitei que estava sozinho.

 

E agora?

 

Agora a viagem é outra. Ou não?

 

Não tenho mais meus quinze anos,

não me tornei nenhum poeta romântico

A cabana do clube baldio segue por lá,

mas nenhuma manhã é tão simples.

 

Cicatrizes na pele de quem foi soterrado

Rugas, pálpebra caída, barba branca,

um coração que absorve a luz de meio-dia

e uma guitarra que harmoniza com o grito.

 

Talvez nunca tenha existido

essa avenida que eu via de longe.

Talvez meu caminho fosse este mesmo:

cheio de desvios e amores sequenciais.

 

Ainda ando pela margem,

Ainda não sei aonde isso vai dar,

Mas não vou mais desviar de rota:

Não quero mais partir, quero ficar.


Jornalista. Escritor. Gestor público e de organizações do terceiro setor. Empreendedor social. Realizador multimídia. Mentor de laboratórios de inovação. Professor. Palestrante. Estudante. Pesquisador. Estrategista. Letrista. Guitarrista amador. Arteiro. Ativista. Comuneiro. Poeta.





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