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O PRIMEIRO VIADUTO DO CHÁ: A OBRA QUE TRANSFORMOU SÃO PAULO (por Ruy Debs Franco e Gino Caldatto Barbosa)


Muito antes de se tornar a metrópole que conhecemos, São Paulo era uma cidade marcada por vales, córregos e ladeiras que dificultavam a circulação entre o núcleo histórico e a chamada Cidade Nova. O maior desses obstáculos era o Vale do Anhangabaú, cujo terreno alagadiço tornava a travessia difícil, especialmente durante o período das chuvas. Foi nesse cenário que surgiu uma das obras mais emblemáticas da história paulistana: o primeiro Viaduto do Chá.


A ideia nasceu em 1879 pelas mãos do francês Jules Victor André Martin, comerciante, litógrafo, professor de desenho e grande entusiasta do progresso urbano. Visionário, Jules Martin, como era conhecido, levava também o apelido de “o francês amigo da cidade”, propôs uma ligação permanente entre a Rua Direita e a então Rua do Chá (atual Barão de Itapetininga), aproximando duas partes da cidade que permaneciam praticamente isoladas. Seu projeto inicial previa um grande aterro ocupado por edifícios comerciais, inspirado na célebre Ponte Vecchio, em Florença.




A proposta encontrou forte resistência política e técnica. Após diversas revisões, o projeto evoluiu para um viaduto metálico, concebido com a colaboração do engenheiro francês Eusébio Stevaux. Em 1885 foi criada a Companhia Paulista do Viaduto do Chá, responsável pela execução da obra, que teve que enfrentar longos processos de desapropriação, disputas judiciais e dificuldades financeiras antes de sair do papel.


A estrutura metálica foi fabricada na Alemanha pela empresa Harkort, especializada em pontes ferroviárias. As peças chegaram desmontadas ao Porto de Santos, seguiram pela São Paulo Railway até a Estação da Luz e, dali, foram transportadas em carroças até o local da montagem.


Finalmente, em 6 de novembro de 1892, o Viaduto do Chá foi inaugurado, tornando-se o primeiro grande viaduto da cidade. A obra simbolizou a entrada de São Paulo na modernidade e consolidou a ligação entre o centro histórico e a região que passaria a concentrar importantes equipamentos urbanos, como a Escola Normal, (trata-se do antigo colégio Caetano de Campos na Pça. da República) os teatros e, posteriormente, o Teatro Municipal.


Durante seus primeiros anos de funcionamento, a travessia era pedagiada. Pedestres, veículos e bondes pagavam uma taxa para utilizar o viaduto, cobrança que somente foi extinta quando a Prefeitura incorporou a obra ao patrimônio municipal, em 1897.


Ao longo das décadas seguintes, o crescimento acelerado da cidade tornou o viaduto insuficiente para o intenso fluxo de veículos e pedestres. Reformado em 1902 para receber os bondes elétricos, acabou sendo substituído em 1938 por uma estrutura maior, projetada pelo arquiteto Elisiário Bahiana, acompanhando a remodelação do Vale do Anhangabaú proposta no Plano de Avenidas, da dupla de engenheiros da Prefeitura de São Paulo; Ulhôa Cintra e Prestes Maia.


Mais do que uma simples obra de engenharia, o primeiro Viaduto do Chá representou uma mudança na forma de pensar São Paulo. Sua construção marcou a passagem de uma cidade ainda provinciana para uma capital que começava a assumir o papel de grande centro econômico e urbano do país. O legado de Jules Martin permanece vivo como símbolo do espírito inovador que ajudou a moldar a paisagem paulistana, cujo nome da a uma modesta rua no Alto da Mooca, o que parece bem pouco para quem fez muito pela cidade.  




Ruy Debs Franco e Gino Caldatto Barbosa são arquitetos e professores. Não sei qual é o prato favorito de Ruy, mas Gino adora o polvo servido no Restaurante São Paulo (Rua Carlos Afonseca 4, Gonzaga, Santos SP tel: (13) 3284-4959).



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