COPA 2026: DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA CONTRA OS DOZE PARES DE FRANÇA (por Caio Junqueira Maciel)

 


O cenário é surreal: em vez de estarem nas pradarias da Mancha, Dom Quixote e Sancho Pança se acham nos Estados Unidos, mais exatamente no Texas, em Dallas. Não vão lutar com Jesse James ou os irmãos Dalton, nem com Billy Kidd, mas enfrentarão os doze pares de França.

 

Quixote examina os adversários e exclama:

 

Ora, Sancho, não vejo os cavaleiros tradicionais: Roland; Oliver; Ogier, o Dinamarquês; Ganelon; Huon de Bordeaux; Gerard de Roussillon; Samson d’Abbeville; Amaury de Montfort; Bernard de Naisil; Hernaut de Beaulande; Girart de Roussillon; Guy de Bourgogne. E eles não estão de armadura, mas de camisas azuis, e têm nomes esquisitos como Tchouaméni, Mbappé, Dembelê, Osile, Rabiot, tem até um Barcola, Virgem Mãe!..

 

Sancho examina o esquadrão gaulês e exclama: Meu amo, isso é complicado, vai ser difícil, senão impossível!

 

O esguio fidalgo da triste figura rebate: Olha, Sancho, por você não ter experiência das coisas do mundo, tudo que lhe parece difícil de compreender lhe parece impossível. Mas eu digo: Sonhar o sonho impossível, sofrer a angústia implacável, pisar onde os bravos não ousam, reparar o mal irreparável, enfrentar o inimigo invencível, tentar quando as forças se esvaem: essa é a minha busca.

 

Tremendo de medo, o escudeiro retruca: Mire bem, vossa mercê, senhor Dom Quixote, que aquilo que ali se vê são gigantes gauleses como Asterix e Obelix, têm a poção mágica do Druída Panoramix, antes fossem moinhos de vento, mas no lugar de pás movidas pelo vento, têm pés de vento, e conduzem a bola com muita precisão…

 

Dom Quixote não quer mais ouvir Sancho e aperta a cilha do cavalo Rocinante, bradando: Vou enfrentar novo inimigo, que não sei se é forte ou numeroso. Lá vou eu. Veja que há um arbusto chamado Cucurella que tem poderes mágicos e me ajuda no combate, além da afiada lâmina de Yamal, da agilidade do cavaleiro Rodri e demais guerreiros, como Pedri, Olmo e Oyazarbal. E conto com as defesas de Unai Simón, que tanto une o nosso time espanhol.

 

Sancho Pança, estupefato, vê Quixote liderando a vitória contra os franceses. E diz: Meu amo, será que nosso criador Cervantes inspirou também o técnico Luiz de La Fuente, e fez com que a Espanha jogasse com ampla liberdade?

 

Quixote refreia Rocinante, e solta sua célebre frase:

 

“A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus; com ela não se podem igualar os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida.”

 

 Tanto nos campos de guerra quanto nos gramados da Copa do Mundo…


(publicado originalmente em CRÔNICAS DA COPA)

Caio Junqueira Maciel nasceu em Cruzília, MG. É mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Autor de vários livros de poemas, entre eles, Pele de Jabuticaba, Os sete sábios da Grécia & outros poemas safados e Igrejinha do Rosário (Urutau & Hecatombe). Contista de Cartões de crédito para gastar no inferno (Urutau Hecatombe), Micros-Beagá (Pangeia). Romancista de Um estranho no Minho (editora Viseu). Ensaísta de A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota (Appris), O sangue que rejuvenesce o conde Drácula (Caravana). Participou de várias antologias de poemas e contos, entre as quais Jovens contos eróticos (editora brasiliense); Entrelinhas, Entremontes: versos contemporâneos mineiros (Editora Quixote)Todos os Saramagos (Páginas editora) Letrista musical, tem parceria com Zebeto Corrêa nos CDs Trilhas da Literatura Brasileira, Recados de Minas e Era uma voz: sonetos só pra netos. Em 2022 publicou o livro de crônicas Dia das mãos (editora Urutau) e lançará brevemente, para a coleção BH: a cidade de cada um, o livro Floresta (ed. Conceito).


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