O DISCO DE CABECEIRA DE GUILHERME SIMÕES: "SABBATH BLOODY SABBATH" DO BLACK SABBATH

 


O DIA EM QUE AS LENTES MUDARAM – UMA MEMÓRIA DE 1974

 

O início de 1974 trazia uma eletricidade diferente no ar. Tinha 13 anos, mal iniciavam as aulas e já existia uma busca insana por novas músicas, bandas e cantores que surgiam. Para nós, daquela geração, tudo era rigorosamente novo, uma faísca atrás da outra. Queríamos ser os descobridores de novos mares. Eu vivia uma rotina de caçador de sons no rádio, com o ouvido colado no alto-falante pra tentar pescar alguma melodia perdida no meio do chiado. Cada acorde inédito que cruzava as ondas do AM parecia um passaporte para o futuro.

 

Sem saber, eu já estava moldando o meu próprio estilo, estava esculpindo um perfil musical.

 

Desde pequeno eu orbitava a vitrola da minha mãe, revirando os seus discos. Para alguns deles, eu dava uma atenção mais especial a ponto de desligar o autorama no meio de uma corrida apenas para ouvir mais de perto o que ela havia colocado pra tocar: Glenn Miller, Frank Sinatra, Nat King Cole, Bill Halley, Elvis Presley... eu gostava de verdade daquilo. Com meus primos, mais velhos, o lance era passar as tardes ouvindo Beatles e Jovem Guarda. Mas o mosaico das minhas influências ainda estava por ganhar a sua peça definitiva.

 

Voltando à ’74, embalado pelo clima de novidades da escola, pedi emprestado a um amigo um disco que todos comentavam, mas que eu ainda não conhecia: Brain Salad Surgery, do Emerson, Lake & Palmer. No dia seguinte, ele me trouxe o álbum encomendado, mas acompanhado de um segundo disco que eu não havia pedido. E ainda tinha uma capa muito estranha.

 

Nos dias seguintes, gastei o vinil do EL&P. O virtuosismo do trio preenchia o quarto, enquanto o outro disco, o esquisito, permanecia intocado, deixado de lado no canto da estante. Até que o dono me cobrou a devolução. Olhando na minha cara, ele perguntou expressamente se eu tinha ouvido os dois e se tinha gostado. Apelei para a diplomacia da adolescência. Menti. Disse que tinha ouvido ambos e que tinha adorado.


Naquela mesma tarde, recolhi os discos para preparar a devolução, mas a culpa me cutucou. Eu precisava ter argumentos reais para conversar com a moçada na escola no dia seguinte; não dava para sustentar o blefe de mãos vazias. Tratei de pegar o "esquisito" e colocá-lo no prato da vitrola.


Foi aí que a magia aconteceu... E tudo mudou.


Quando a agulha começou a correr o vinil e os primeiros sons saíram dos alto-falantes, senti um impacto físico. Alguém, de alguma forma, tinha acabado de trocar as lentes da minha vida. O ângulo, as perspectivas e a minha cabeça mudaram em uma fração de segundo. Aquele peso absurdo e a densidade sombria me soterraram. Glenn Miller ficou no passado, Sinatra evaporou, “Sorry Elvis”, e o rock que eu conhecia até ali de repente parecia ingênuo. A capa bizarra — com seu pesadelo dourado e figuras demoníacas — agora fazia sentido absoluto. Era o que faltava, a tradução visual exata daquela capa dava sentido a um monte de perguntas que eu mal havia formulado, massa sonora avassaladora: eu estava ouvindo Sabbath Bloody Sabbath, do Black Sabbath.




A devolução, contudo, guardava a sua dose de drama. O vinil tinha um arranhão profundo (pre existente), um detalhe determinante que fazia a agulha enroscar e pular. Para mim, aquilo importava zero; eu já estava fisgado. Colocava a agulha manualmente o mais próximo possível do risco para que ela seguisse o seu curso e eu pudesse ouvir o máximo de música que o sulco permitia.


Ao devolver o disco alertei meu amigo sobre o estrago e, evidenciando a premeditação do crime, ele cresceu para cima de mim, cobrando um disco novo como se a culpa fosse minha.


Estranhamente, e contrariando a minha personalidade um tanto hostil da época, eu aceitei a bronca sem dar um único pio. Comprei o disco novo e entreguei na mão dele. Eu sabia que estava pagando o pedágio mais barato da história por uma revolução na minha alma. Enquanto ele guardava a cópia impecável na estante — que provavelmente terminaria esquecida ou muito pouco ouvida —, eu voltava para casa com o verdadeiro tesouro: o vinil riscado, renegado, que agora pertencia a mim por direito de comunhão. Cada salto da agulha em cima daquele arranhão era o preço que eu pagava, de bom grado, para ser transportado para outra dimensão.



Aquele susto estético me jogou de cabeça em uma busca frenética por lojas de discos e bancas de jornal. Corri atrás de publicações, passei a devorar críticas, ouvir os amigos (obrigado meu irmão Chico) e caçar novas bandas. Foi seguindo o rastro daquela distorção pesada que descobri a estrada para o inferno e comecei a subir a escada para o céu, visitei o lado escuro da lua e urinei num monolito. E, ao cavar ainda mais fundo para entender de onde vinha tanto lamento e eletricidade, bati direto nas raízes do Blues.


Hoje, mais de cinquenta anos depois, olho para aquela mesma capa estranha guardada na minha prateleira. O arranhão continua lá, exatamente no mesmo lugar. Sei que, se eu colocar a agulha para correr por aqueles sulcos agora, o que vai ecoar não é apenas a voz do Ozzy Osbourne. São os passos e os batimentos cardíacos daquele garoto de 1974 que, por causa de uma mentira inocente, aprendeu a ouvir o mundo de um jeito totalmente novo. Dentro daquela capa, afinal, tem um vinil. E boa parte de quem eu sou.




Guilherme Simões é guitarrista, nasceu em Santos SP e hoje vive no Rio Grande do Sul. Também atende pelo nome Willie McCabe. Sorte de quem o tem como grande amigo.





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