COPA 2026: Despacito venceremos ou o anti-futebol moderno de Argentina e Espanha (por Marcelo da Silva Antunes)
As
semifinais da Copa foram recitais de duas escolas distintas, se por um lado a
imponente Espanha, com seu método ortodoxo de jogar futebol, quase uma obsessão
de seus jogadores em ter o balón, mesmo nas derrotas, e foram várias, muitas
eliminações, vexames e uma pecha mundial de time chato, tico-tico e posse de
bola que não ganha jogo. Eles têm um plano, uma metodologia, uma base
desenvolvida ao longo de muitos anos, ouso dizer que pós 2006, todo o futebol
da Espanha foi baseado nesse atual modelo. Com um grande destaque para o
campeonato do mundo de 2010, vencido por uma Espanha, estilo Barcelona sem o
Messi – olhem só as coincidências. O que falta no futebol da Espanha é uma
anarquia de um Messi.
Contra
a França, os espanhóis botaram os franceses – até aqui o melhor time da Copa –
pra correr, e não viram mesmo a cor da bola, nem a cor das chuteiras dos
jogadores adversários, o que o Cucurella jogou foi uma barbaridade, ele que tem
uma cara e um espírito de filme do Almodóvar. O meio de campo com Rodri, Fabian
e Olmo pareciam se multiplicar em campo e de passinho em passinho como
formiguninhas atômicas ficavam com a bola no pé como um amante em começo de
relação. Como um animal lambendo sua cria. Foi um amasso.
Já
na Argentina, sobra anarquia, também no despacito para fazer correr o balón, no
ritmo de seu maestro Messi. Escolhem o ritmo mais cadenciado, como um tango de
veteranos, só se arriscam o necessário e evitam correr à toa. E sua trajetória
foi toda acidentada, se suas livrarias e cinema são mágicos e exemplos a serem
seguidos, seu futebol não pode ser copiado, é único, caótico, por vezes parece
que não irá dar certo. Como em jogos como Cabo Verde, Egito e Suíça. E no fim
acaba dando certo. Não tem explicação, o caos é instaurado e a raça argentina
sobe e desce montanhas.
Contra
a Inglaterra, era mais do que um jogo, para os argentinos o maior rival, não
sei se pros ingleses, acho que aquele que apanha nunca esquece. Pelas Malvinas
e pelas invasões inglesas o jogo extrapolava a questão esportiva, e os
jogadores entraram nesse espírito. O time inglês comandado por um alemão estava
me surpreendendo por não demonstrar ainda na Copa seu comportamento
corriqueiro, uma coisa meio chá da tarde, caras entediadas e anfitriões
irritadiços, eles que se gabam de terem criado o jogo, são os donos da bola
mesmo, só participam para perder e perder, não parecem ter essa obsessão pelo
balón. Talvez estejam ainda em uma torre de Marfin contemplando um jogo que
eles juram que inventaram. Deu a lógica. De camisa azul, com ou sem a mão de
dios, Argentina vence os ingleses e Las Malvinas son Argentinas é exibido no
gramado no pós-jogo.
O
jogo da finalíssima promete ser esse confronto entre a organização e o caos,
antagonistas que antes formaram o que foi o melhor futebol dos últimos anos,
talvez do século XXI, o Barcelona (2008-2012) era a ordenação com cadência e
posse de bola e a anarquia de seu camisa 10, Messi, comandado por Pep
Guardiola.
O
jogo já é uma vitória do despacito, o anti-futebol moderno, o futebol força dos
ingleses da Premier League. Nos faz perceber o crime cometido nas categorias de
base mundo afora, de escolher jogadores por seu tamanho ou força. Essa final
será a maior vitória do futebol técnico, seja ele ordenado ou caótico, sem a
bola no pé, mesmo que em pés pequeninos, não se ganha na força, dessa vez não
ganharam.
Marcelo da Silva Antunes nasceu em São Paulo. É editor do selo literário Borboleta Azul e da Revista Agagê80 (Brasil/Portugal) agitador cultural e orientador de escrita criativa. Tem textos publicados em diversas revistas no Brasil e no Peru (Universidade Nacional Maior de São Marcos). Publicou diversos livros entre eles, VIVAVACA -2017, SP: Sem Patuá (editora Patuá) - 2018, Outros Cortes (Selo Borboleta Azul) -2019, Manifesto da hora que o couro come (Selo Borboleta Azul) -2020 e Tragédias (Selo Borboleta Azul) – 2022.



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