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O ÚLTIMO POEMA (por JR Fidalgo)

  Vou precisar de uma lápide relativamente grande, já que, segundo meus cálculos, meu epitáfio vai ser relativamente grande.   Epitáfios de uma, duas ou três frases quase nada dizem sobre quem era e o que fazia aquele monte de ossos e carne enquanto estava em cima – e não debaixo da terra, misturando-se a ela num longo processo de apodrecimento e transmutação – cósmica?   Claro, se você for cremado, a coisa acontece de outro jeito. No fim dá no mesmo.   Além disso, por minhas previsões, estou quase certo de que serei enterrado – e não incinerado, o que seria até um espetáculo interessante: o monte de carne e ossos se transformando, primeiro, numa fogueira, depois em fumaça e cinzas, que alguém vai guardar em vasos de formatos estranhos ou jogar ao vento de algum lugar, alguns às vezes também muito estranhos.   Mas essa parte final, quando você vai à cremação de alguém, não deixam você assistir.   Acontece escondido, depois que o caixão s...

MERDA... SÓ MERDA... (por JR Fidalgo)

  Ele tropeçou várias vezes antes de conseguir subir no pequeno palco improvisado e, enfim, segurar o microfone, que alguém próximo pacientemente tentava lhe entregar há algum tempo. Ficou alguns instantes mudo, olhando fixamente a plateia. Então começou:   “Merda, só merda. Então não adianta essa história de que as respostas estão aqui dentro. Tentei, parei, fiquei em silêncio, senti o coração bater, etc., etc., etc., mas só achei merda. Merda, merda e mais merda.   “Tudo bem, talvez até exista alguma coisa interessante escondida em algum lugar, mas deve estar soterrada debaixo das toneladas de merda que eu engoli durante toda a vida – ou que alguém me enfiou goela abaixo, não importa. A questão é que aqui só tem merda. Portanto, essa busca da qual vivem falando vai dar em nada, isto é, no meu caso, vai dar em merda.   “Nem a comida que ingeri, há pouco, no jantar, escapa ao ciclo. No momento ela está sendo processada pelo meu estômago e meus intestinos ...

DIÁLOGOS DE PLANTÃO (por JR Fidalgo)

  – E agora?   – E agora o quê?   – O que você vai fazer?   – Por que a gente tem sempre que fazer alguma coisa?   – Por que é a ordem natural das coisas. Acaba uma coisa, começa outra.   – Se é assim, a gente não precisa fazer nada, já qua as coisas simplesmente começam assim que as outras coisas acabam.   – Não enrola. Você sabe do que eu estou falando.   – Não, não sei do que você está falando e gostaria que você me deixasse em paz, aqui no meu canto. Eu não preciso fazer porra nenhma pra continuar existindo. Basta continuar respirando, é o suficiente. Será que você é tão idiota que não percebe isso?   – Você vai acabar se intoxicando, tendo uma overdose.   – De quê?   – De tanto ar entrando pelo seu nariz.   – Não seja estúpido.     – Tudo bem, então diz aí!   – Diz aí o que, porra?   – O que você vai fazer agora?   – Nada, absolutament...

JOHNNY LIMPO 100 DIAS (um prólogo ou epílogo de JR Fidalgo)

Johnny limpo 300 dias”. Estava lá, escrito em letras grandes, com spray preto, no portão ao lado do velho boteco.   Era irônico Johnny, fosse ele quem fosse, ter escolhido aquele portão, ao lado daquele boteco, para proclamar ao mundo que estava limpo há 300 dias.   Aliás, era irônico, antes de mais nada, ver uma inscrição daquela naquele bairro, onde estar limpo não combinava bem com a paisagem. Se houvesse alguma dúvida a respeito, bastaria perguntar para aqueles três caras sentados na mureta do canal.   Aliás, mais interessante mesmo seria perguntar aos três caras se eles conheciam o tal Johnny e o que eles achavam do fato de ele estar limpo há 300 dias.   Mas é claro que ele não perguntou nada aos três sujeitos, visivelmente chapados, muito provavelmente pelo consumo recente das pedras que costumavam rolar por aquelas esquinas e que, com toda a certeza, também não criavam limo.   Ele passou pelos três fantasmas sentados na mureta do canal...

ONDE ANDARÁ ANA MARLOW? (um conto de JR Fidalgo)

  Estava lá, pichado na parede do velho armazém de café abandonado: “Eu te amo, Ana Marlow”. Quem seria Ana Marlow, e quem estaria apaixonado por ela? Será que Ana Marlow ainda estava viva? E quem pichou aquela frase na parede do armazém abandonado, ainda estaria vivo? Ou será que Ana Marlow era apenas uma musa imaginária de algum vagabundo louco que vivia por aquelas ruas? Impossível saber quem era Ana Marlow ou mesmo se ela existia. No entanto, era um nome bonito. “Ana Marlow, a rainha do gueto!” Ele pensava essas bobagens quando resolveu fazer uma coisa que não fazia há muitos anos: sentar numa praça. E aquela era a principal praça da área central da cidade. Como era hora do almoço, havia bastante gente circulando pela praça, a maioria, com certeza, pessoas que trabalhavam por ali. Então ele começou a refletir sobre a função das praças nas cidades. Concluiu que as praças eram lugares onde a gente sentava para não fazer absolutamente nada, ou apenas para ver as pessoas passarem, ...

A PORRA TODA DE UMA VEZ (por JR Fidalgo)

A PORRA TODA DE UMA VEZ! Então você achava que ia resolver a porra toda de uma vez? É claro que achava. Caso contrário não estaria tentando isso há tanto tempo. E é claro também que o fato de nunca ter conseguido devia ter feito você desistir. Mas não, você continuava a achar que ia resolver a porra toda de uma vez. Embora, ao mesmo tempo, sempre tivesse dúvidas a respeito. Mas algo estranho te impelia a continuar. Resolver a porra toda de uma vez não era bem um objetivo. Era mais uma alucinação recorrente. Um fantasma que sempre aparecia na frente do carro. E você desligava os faróis. E ele sumia. E você ligava os faróis. E ele continuava lá, sorrindo, pedindo carona. E é claro, você dava. Só não sabia por que. Afinal, você estava indo em outra direção. E agora o fantasma te pedia para virar à esquerda, depois à direita, novamente à esquerda… Enfim, você agora estava de novo perdido, dando carona prum fantasma que você quase tinha atropelado. L...

O ÚLTIMO POEMA (por José Roberto Fidalgo)

Vou precisar de uma lápide relativamente grande, já que, segundo meus cálculos, meu epitáfio vai ser relativamente grande. Epitáfios de uma, duas ou três frases quase nada dizem sobre quem era e o que fazia aquele monte de ossos e carne enquanto estava em cima – e não debaixo da terra, misturando-se a ela num longo processo de apodrecimento e transmutação – cósmica? Claro, se você for cremado, a coisa acontece de outro jeito. No fim dá no mesmo. Além disso, por minhas previsões, estou quase certo de que serei enterrado – e não incinerado, o que seria até um espetáculo interessante: o monte de carne e ossos se transformando, primeiro, numa fogueira, depois em fumaça e cinzas, que alguém vai guardar em vasos de formatos estranhos ou jogar ao vento de algum lugar, alguns às vezes também muito estranhos. Mas essa parte final, quando você vai à cremação de alguém, não deixam você assistir. Acontece escondido, depois que o caixão some dos olhos da gente. Estávamos, contu...