A CURA PELO ORGASMO (por Reinaldo Moraes)
–
Papai, o médico que faz a mamãe gemer chegou! – anuncia o garoto sardento.
O
dr. Swift pendura chapéu, o pesado sobretudo e o paletó no cabide e, depois de
comentar com o dono da casa sobre o frio excepcional que está fazendo para um
fim de setembro na Califórnia, ouve dele as novidades sobre o estado de saúde
da esposa enferma.
– A
melancolia parece que arrefeceu um pouco – relata o marido. – Mas os fogachos,
as palpitações e a ansiedade voltaram com tudo. Ah… e…
O
marido vai dizer algo, mas a presença do filho o coibe. Ele ordena:
– Já
pro seu quarto! Vá fazer sua lição.
O
garoto obedece com enorme relutância, roído de curiosidade. Quando ele sai, o
marido comunica ao médico num tom baixo de voz:
–
Ela reclama demais da sensação de pesadez lá embaixo…
– No
púbis, o senhor quer dizer? – indaga o dr. Swift, apontando para o cavalo da
própria calça.
–
Sim, sim, ali mesmo. E não só isso. As inundações lá por baixo têm sido
constantes. A pobrezinha tem que trocar de ceroulas várias vezes ao dia por
causa da umidade excessiva.
O
dr. Swift aperta os lábios, engruvinha o queixo e balança a cabeça, num gesto
de compreensão da gravidade do quadro. Diz:
–
Veja, meu amigo, é como já lhe disse. Os sintomas podem ser aliviados
episodicamente com as massagens. Mas a medicina ainda não conhece a cura
definitiva para a histeria. Nosso melhor recurso ainda é induzir a paciente ao
paroxismo histérico. Só esse procedimento é capaz de lhe trazer alívio.
–
Até a próxima semana, quando tudo recomeça… – suspira o marido, entre o
desencanto e o conformismo.
– É verdade. O tratamento é apenas paliativo. E tem que ser repetido quantas vezes necessário.
Enquanto
o marido calcula no puro instinto o quanto esse alívio vai lhe custar pela vida
da mulher afora, o dr. Swift apanha sua maleta-valise preta de médico e sobe as
escadas que levam ao andar dos quartos. Ele já conhece o caminho na casa desse
funcionário burocrático de uma das companhias mineradoras de Cerro Gordo,
cidade de montanha na Califórnia com alguns milhares de habitantes e uma
porcentagem reduzida de mulheres, como não era raro acontecer no oeste
americano em meados do século 19, quando se passa esta história.
Esse
dr.Swift, aliás, parece ter existido, e a cena que eu descrevo tem altíssima
probabilidade de ser verídica, ao menos em seus aspectos mais genéricos. Dizem
os relatos mais confiáveis que o médico apareceu um belo dia em Cerro Gordo e
se instalou no American Hotel, fazendo espalhar sua fama de especialista em
histeria, uma condição psicossomática que afligia parte considerável da
população feminina no mundo todo. Para o conforto de suas pacientes, o dr.
Swift atendia a domicílio, já que não tinha ainda um consultório estabelecido
na cidade.
No
quarto, lá está a histérica de camisolão, deitada de costas na cama, com o
dr.Swift sentado numa cadeira ao lado, arregaçando a manga direita da camisa.
–
Dobre as duas pernas, joelhos para cima, por favor – ele comanda. – E pode
abri-las também. Isso mesmo.
Daí,
exercitando os dedos da mão direita como um pianista antes do concerto, o
circunspecto esculápio tira da maleta uma latinha de vaselina perfumada, que
ele abre para untar os dedos.
Em
seguida, introduz a mão vaselinada por debaixo do camisolão da senhora, até
alcançar o piloso e refolhudo entremeio das interbreubas, que passa a massagear
com toda a sorte de giros, volteios, roçadinhas, esfregões e bilubilus
possíveis, além de uma futucadas com o dedo médio pela vagina adentro. Claro
que o experiente dr. Swift dedica especial atenção ao enigmático carocinho
erétil conhecido como clitóris, que, bem dedilhado, provoca os gemidos a que o
filho da paciente aludia quando viu o médico chegar em casa.
Eis
que gemidos, respiração, batimentos cardíacos, temperatura corporal, contrações
musculares, umidade genital, tudo chega ao limite máximo conhecido como
“paroxismo histérico,” que normalmente não dura mais que dois ou três minutos.
Logo todos os parâmetros físicos vão retornando à normalidade. A paciente verte
lágrimas de alívio e felicidade, chegando a desfalecer por alguns segundos. Ela
está livre dos sintomas histéricos até a próxima crise, quando o dr. Swift será
novamente chamado a pôr literalmente a mão na massa.
Ninguém,
naquela época, ousaria chamar o tal paroxismo histérico de orgasmo, e muito
menos atribuiria às manobras terapêuticas do dr.Swift e seus colegas qualquer
conotação sexual. De fato, para os médicos, todo o procedimento implicava
grande dispêndio de energia física, além de lhes provocar câimbras nos músculos
da mão e do braço, e uma inflamação crônica nos respectivos tendões que bem
mereceria o nome de tendinite siriricóide, tantas eram as mulheres de todas as
idades que os médicos eram convocados a massagear a domicílio ou no
consultório.
E os maridos pagavam sem chiar por essa terapia masturbatória que lhes deixava as mulheres mansinhas por algum tempo, livres dos sintomas clássicos da histeria (de hysteron, útero em grego antigo): ansiedade, insônia, irritabilidade, instabilidade emocional com acessos alternados de choro e de ira, depressão (chamada de melancolia), fogachos, dor de cabeça, sensação de sufocamento, fantasias eróticas assombrosas, uma sensação de peso no baixo ventre e surtos de umidade entre as pernas.
Hoje,
qualquer feminista pós-freudiana mataria no ato a verdadeira causa da histeria,
bem como o mistério do desaparecimento dessa “doença” a partir dos anos 1950,
quando deixa de ser descrita nos manuais de medicina. Trata-se do milenar
domínio do homem sobre a mulher, condenada, num contexto social moralista,
religioso e repressivo, a negar sua própria sexualidade. Na trepada, quem
gozava era o marido. A mulher apenas acolhia o sêmem do homem para fazer
filhos. A essa desigualdade instituída entre os sexos, se somava um
generalizado desconhecimento da fisiologia feminina. E dá-lhe sessões de
siririca clínica pra amansar tanto furor uterino descontrolado.
A
prática era tão corriqueira que, quando o médico britânico Joseph Granville
inventou o vibrador mecânico, em 1883, em plena era vitoriana, quem mais saudou
a novidade não foram as pacientes, e sim os doutores, que as faziam atingir o
“paroxismo histérico” com muito mais rapidez, facilidade e conforto. Sem contar
que podiam atender mais mulheres histéricas e ganhar mais dinheiro.
Hoje
em dia, se o maridão não a satisfaz, a própria mulher se encarrega de resolver
suas ânsias sexuais recorrendo não mais ao dr. Swift, e sim ao velho e bom dr.
Ricardão, de preferência sem o conhecimento do marido, que, ao menos, não tem
mais que pagar pelas atenções que o outro cara dispensa à genitália da sua
senhôra. A alternativa, sempre à mão, é entrar no sex-shop mais próximo, de
onde ela sairá com um eficiente dildo vibratório-rotatório capaz de aliviar com
grande eficiência e higiene o tesão latente. E que o dr. Swift e sua
industriosa mão direita descansem em paz lá no Hotel Americano, em Cerro Gordo.
(publicado originalmente na Revista STATUS, edição de Julho de 2015)
Reinaldo
Moraes (São Paulo, 18 de Janeiro de 1950) é um escritor, roteirista, cronista e
tradutor brasileiro. Estreou na literatura em 1981 com o romance Tanto Faz,
livro que se tornaria cultuado por diversas gerações de leitores. Em 1985
lançou Abacaxi, continuação de seu livro de estreia. Depois dos primeiros
romances, fez uma pausa na literatura e ficou quase duas décadas sem publicar
ficção. Voltou às prateleiras com a narrativa infanto-juvenil A Órbita dos
Caracóis (2003), seguido pelo volume de contos Umidade (2005). Em 2009, lançou
Pornopopéia, considerado pela crítica seu melhor livro. O romance de quase
quinhentas páginas é uma viagem alucinada pelo underground paulistano,
protagonizado por um cineasta fracassado que faz vídeos institucionais para
sobreviver. Em 2018, retornou com Maior Que O Mundo, tão ambicioso e tão bem
sucedido em termos literários quanto Pornopopéia. Seu novo romance, Noitada, é desde já um dos grandes acontecimentos literários de 2026.





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