COPA 2026: COMPLEXO DE VIRA-LATAS (uma crônica absolutamente clássica de Nelson Rodrigues)
Hoje
vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já
partiram [era a última crônica antes da estréia da seleção na Copa de 1958] e o
Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas
esquinas, nos botecos, por toda parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai
nem se classificar!”. E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o
disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?
Eis
a verdade, amigos: — desde 50 que o nosso futebol tem pudor de acreditar em si
mesmo. A derrota frente aos uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na
cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada,
absolutamente nada, pode curar. Dizem que tudo passa, mas eu vos digo: menos a
dor-de-cotovelo que nos ficou dos 2 x 1. E custa crer que um escore tão pequeno
possa causar uma dor tão grande. O tempo passou em vão sobre a derrota.
Dir-se-ia que foi ontem, e não há oito anos, que, aos berros, Obdulio arrancou,
de nós, o título. Eu disse “arrancou” como poderia dizer: — “extraiu” de nós o
título como se fosse um dente.
E,
hoje, se negamos o escrete de 58, não tenhamos dúvida: — é ainda a frustração
de 50 que funciona. Gostaríamos talvez de acreditar na seleção. Mas o que nos
trava é o seguinte: — o pânico de uma nova e irremediável desilusão. E
guardamos, para nós mesmos, qualquer esperança. Só imagino uma coisa: — se o
Brasil vence na Suécia, se volta campeão do mundo! Ah, a fé que escondemos, a
fé que negamos, rebentaria todas as comportas e 60 milhões de brasileiros iam
acabar no hospício.
Mas
vejamos: — o escrete brasileiro tem, realmente, possibilidades concretas? Eu
poderia responder, simplesmente, “não”. Mas eis a verdade: — eu acredito no
brasileiro, e pior do que isso: — sou de um patriotismo inatual e agressivo,
digno de um granadeiro bigodudo. Tenho visto jogadores de outros países,
inclusive os ex-fabulosos húngaros, que apanharam, aqui, do aspirante-enxertado
do Flamengo. Pois bem: — não vi ninguém que se comparasse aos nossos. Fala-se
num Puskas. Eu contra-argumento com um Ademir, um Didi, um Leônidas, um Jair,
um Zizinho.
A
pura, a santa verdade é a seguinte: — qualquer jogador brasileiro, quando se
desamarra de suas inibições e se põe em estado de graça, é algo de único em
matéria de fantasia, de improvisação, de invenção. Em suma: — temos dons em
excesso. E só uma coisa nos atrapalha e, por vezes, invalida as nossas
qualidades. Quero aludir ao que eu poderia chamar de “complexo de vira-latas”.
Estou a imaginar o espanto do leitor: — “O que vem a ser isso?”. Eu explico.
Por
“complexo de vira-latas” entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se
coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Isto em todos os setores e,
sobretudo, no futebol. Dizer que nós nos julgamos “os maiores” é uma cínica
inverdade. Em Wembley, por que perdemos? Porque, diante do quadro inglês, louro
e sardento, a equipe brasileira ganiu de humildade. Jamais foi tão evidente e,
eu diria mesmo, espetacular o nosso vira-latismo. Na já citada vergonha de 50,
éramos superiores aos adversários. Além disso, levávamos a vantagem do empate.
Pois bem: — e perdemos da maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: —
porque Obdulio nos tratou a pontapés, como se vira-latas fôssemos.
Eu
vos digo: — o problema do escrete não é mais de futebol, nem de técnica, nem de
tática. Absolutamente. É um problema de fé em si mesmo. O brasileiro precisa se
convencer de que não é um vira-latas e que tem futebol para dar e vender, lá na
Suécia. Uma vez que ele se convença disso, ponham-no para correr em campo e ele
precisará de dez para segurar, como o chinês da anedota. Insisto: — para o
escrete, ser ou não ser vira-latas, eis a questão.
"Nelson Rodrigues é o maior de todos os dramaturgos brasileiros -- incluindo os inéditos" (Aguinaldo Silva)


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