O EDIFÍCIO "A NOITE" (por Ruy Eduardo Debs Franco, me. Arquiteto e Urbanista)
Erguido
entre 1927 e 1929 na então capital federal, o Edifício Joseph Gire, consagrado
popularmente como Edifício A Noite em razão do jornal homônimo que ali se
instalou, representa um dos marcos mais emblemáticos da modernização
arquitetônica e urbana do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. O
projeto vencedor surgiu de um concurso organizado pelo jornal “A Noite” que
reuniu importantes escritórios nacionais da época, sendo escolhida a proposta
sóbria e monumental do arquiteto francês Joseph Gire (*) e do carioca Elisiário
Antonio da Cunha Bahiana, executada pela construtora Gusmão, Dourado &
Baldassini, cujo cálculo estrutural coube ao engenheiro Emílio Henrique
Baumgart, posteriormente também responsável pelo estudo estrutural do Palácio
Capanema.
Durante
muito tempo, porém, embora presente em várias referências a respeito, parte da
historiografia relegou a segundo plano a participação decisiva do
engenheiro-arquiteto Elisiário Bahiana, cuja atuação ao lado do arquiteto
francês Joseph Gire revelou-se fundamental não apenas nesse projeto, mas em
diversos outros trabalhos realizados entre 1927 e 1930, período em que ambos
mantiveram uma sociedade profissional de fato, ainda que informal.
Com seus
imponentes 22 andares e mais de 100 metros de altura, o edifício tornou-se o
primeiro arranha-céu de fato do Rio de Janeiro e um dos pioneiros no uso
sistemático do concreto armado em grandes estruturas no Brasil. Sua construção
provocou espanto, admiração e acirrados debates públicos sobre os limites da
verticalização urbana, tema então absolutamente novo no país. O empreendimento
nasceu da iniciativa do jornalista e engenheiro Geraldo Rocha, diretor do
jornal A Noite, que pretendia criar uma sede moderna e grandiosa para o
periódico. Para viabilizar financeiramente a obra, recorreu a empréstimos
externos, operação que acabaria levando o grupo ao endividamento e,
posteriormente, à transferência do edifício e do jornal para o empresário
norte-americano Percival Farquhar, figura central na história do capital
estrangeiro e da infraestrutura brasileira no início do século XX.
O local
escolhido para a construção não poderia ser mais simbólico. Situado na Praça
Mauá, diante do porto carioca, o edifício ergueu-se sobre uma área
profundamente vinculada à própria formação histórica do Rio de Janeiro. Antes
conhecida como Prainha, a região foi, desde o período colonial, importante zona
de circulação de mercadorias, trabalhadores portuários, embarcações, trapiches
e armazéns, além de espaço diretamente associado ao comércio escravista, no
antigo Mercado do Valongo e posteriormente ao Cais da Imperatriz. Ao longo do
século XIX, sucessivos aterros, reformas portuárias e a expansão do comércio
cafeeiro transformaram radicalmente essa paisagem.
As grandes
reformas urbanas promovidas durante os governos de Rodrigues Alves e do
prefeito Pereira Passos, no célebre processo conhecido como bota-abaixo,
consolidaram a região portuária como vitrine da modernidade republicana. A
abertura da então Avenida Central (atual Avenida Rio Branco), a remodelação da
Praça Mauá, a modernização do porto e a demolição de centenas de cortiços
integravam um projeto político que buscava apresentar o Rio de Janeiro como uma
metrópole cosmopolita, alinhada às grandes capitais europeias.
Foi
justamente nesse cenário que o Edifício “A Noite” passou a simbolizar uma nova
era. Inaugurado em 7 de setembro de 1929, rapidamente tornou-se referência
visual para passageiros que chegavam ao Brasil pelos transatlânticos,
disputando com o Edifício Martinelli, em São Paulo, o título de “O prédio mais
alto da América do Sul.”
Nas décadas
seguintes, o edifício consolidou sua importância cultural. A partir de 1936
passou a abrigar a lendária Rádio Nacional, principal emissora brasileira
durante a chamada era de ouro do rádio, recebendo artistas como Francisco
Alves, Orlando Silva e Sílvio Caldas. No térreo funcionava o célebre Bar
Flórida, ponto de encontro da boemia carioca e de marinheiros que circulavam
pelo porto. Durante o Estado Novo, o imóvel foi incorporado ao patrimônio da
União como parte da liquidação das obrigações financeiras de Farquhar com o
governo federal, passando posteriormente a sediar órgãos públicos, entre eles o
INPI — Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
Mais do que
uma obra de engenharia, o Edifício “A Noite” materializa um momento decisivo da
história brasileira: a passagem do país agrário para a consolidação de uma
economia urbana, industrial e financeiramente integrada ao capital
internacional. Se no século XIX Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de
Mauá, simbolizou o início desse ideário modernizador, no começo do século XX
Percival Farquhar expandiu essa lógica em escala continental. O Edifício “A
Noite” tornou-se a expressão física dessa transformação: um monumento onde
técnica, capital, comunicação e verticalização urbana se fundiram para anunciar
a chegada definitiva da modernidade brasileira, que buscava neutralizar, a
ainda presente, chaga da escravidão.
Quase um
século depois, o antigo arranha-céu continua ocupando lugar central no
imaginário carioca. Tombado pelo IPHAN em 2013 e recentemente adquirido pela
Prefeitura do Rio de Janeiro, o edifício permanece não apenas como testemunho
de uma época, mas como símbolo permanente da ambição de construir um Brasil
moderno, cosmopolita e conectado ao mundo.
(*) Em 1922
o arquiteto Joseph Gire, notabilizou-se pelo projeto do Copacabana Palace
Hotel.
Esse texto
é uma separata do livro “Elisiário Bahiana – Arquitetura, Ensino e Memória”
título provisório, de autoria de Gino Caldatto Barbosa e Ruy Eduardo Debs
Franco.


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