O DISCO DE CABECEIRA DE BENEDITO MORAES NETO



Início dos Anos 70. Eu morava em Ribeirão Preto e gostava bastante de música nacional -- Jovem Guarda, Populares, etc. Mas era pouco. Eu queria mais. Então, conheci Johnny Rivers,  Creedence Clearwater Revival e outros artistas e bandas. Gostar de rock era quase um problema naquela época. Não havia shows. Os discos lançados por aqui eram poucos, e demoravam às vezes um ano para aparecerem nas lojas daqui. Isso quando apareciam.

 

Um dia, andando pela cidade olhando vitrines de cinema, um filme me chamou atenção. Era “Woodstock”, que estava prestes a estrear na cidade. Aquilo me enlouqueceu, pois as fotos eram tão bonitas, e aquele poster tão impactante... Eu tinha um amigo que trabalhava na projeção dos filmes, mas ele disse que eu, infelizmente, não poderia entrar no cinema, pois o filme era impróprio para menores de 18 anos. Daí, o jeito era ficar namorando aquele poster e aquelas fotos maravilhosas sempre que passava em frente ao cinema.

Nessas circuladas pela cidade, eu parava em várias bancas de jornais. Numa delas, eu vi um poster de um cara negro e outro de uma branquinha. Então, vim a saber que erm Janis Joplin e Jimi Hendrix. Havia um título nos dois posters: “Os Mártires do Rock”. Eu não entendi coisa alguma, mas fiquei naquela minha ignorância e ingenuidade de interiorano, fascinado por aqueles dois só pelas fotos que vi.

 

Então, conheci uma escola de inglês em Ribeirão Preto, e eles tinham discos na sua biblioteca. Descobri que virando membro da biblioteca eu poderia levar discos emprestados para casa. Para mim, foi uma revelação. Eu tinha 14 anos. E então conheci “Kosmic Blues” da Janis Joplin, mergulhei de cabeça naquele disco sensacional com as performances de Jimi Hendrix e Otis Redding no Festival Monterey Pop, e também conheci discos do Jefferson Airplane, do Hot Tuna, do Grateful Dead, e de vários artistas de blues. Meu primo era meu companheiro nas audições.

 

Acredito que tenha sido nessa época que comecei a desenvolver uma devoção muito intensa por Jimi Hendrix. Comecei a colecionar seus discos. Quanto mais ouvia suas gravações, mais ficava fascinado por seu virtuosismo na guitarra, por sua voz, por seus pensamentos, e quanto mais eu me envolvia com aquilo, mais eu queria me envolver. Era a minha dose diária de energético. Jimi significou (e significa) muito pra mim.


 Queria conhecer “Electric Ladyland”. Cheguei a escrever para o Ezequiel Neves, que na época comentava discos para o Jornal da Tarde, para ver se ele topava me vender o disco dele. Ele respondeu que não vendia de jeito nenhum, pois aquele disco do Hendrix era seu disco de cabeceira. Realmente, é extremamente bonito. Não sosseguei enquanto não tive “Electric Ladyland” em minha coleção.

Mas, estranhamente, não é meu disco favorito dele. Meu favorito é “War Heroes”, um disco póstumo, com gravações esparsas feitas no final dos Anos 60 no Electric Lady Studios em Nova York, onde Jimi praticamente morava. Ele traz “Midnight”, meu tema favorito dele. Um arraso. Me arrepia até hoje. Sua música é tão impactante que, de certa forma, o mantém vivo até hoje. E deve continuar assim por mais uns bons anos.


Benedito Moraes Neto é apaixonado por discos de vinil desde os 12 anos. Colecionador e acumulador desse material (adora as capas às vezes mais do que da música em si), participa de Feiras de Vinil pelo Interior do Estado, com o nome de *Dito Discos* (inspirado por um cliente que o chamava de Dito dos Discos). Nasceu em Santos, mora em Aparecida, mas sempre que pode volta para rever os pais e as praias daqui. Teve aulas de piano dos 7 aos 11 anos de idade. De lá para cá, não tocou mais, só ouve música.






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