ALFREDO MONTE E O GATO PRETO (por Germano Quaresma)
Diz-se que os gatos se nutrem de
energia negativa. Esta manhã, no funeral do meu amigo, incomodado com um culto
improvisado por membros da IURD antes de se fechar o esquife (meu amigo devia
estar odiando) saí com minha amiga num passeio pelo cemitério contíguo ao
velório. Centenas de gatos magros e sujos vagabundeavam por ali, nutrindo-se da
energia que ali devia abundar. De toda sorte, atado por um laço de
solidariedade à mão dela, preferi filosofar que uma história de amor só se
consolida quando o casal passeia junto num cemitério.
Meu gato preto fugiu, preferiu a
liberdade ao cárcere sombrio que é meu apartamento. A essa desgraça sucedeu uma
série de perdas (nem um pouco bem aceitas por mim) que culminou com a morte do
amigo cujo enterro eu prestigiava. Talvez estivesse triste pra mim e pras
pessoas presentes, mas a expressão do meu amigo, ora cadáver, era serena. Mais
expressiva que todas as que vi nos últimos três anos de sua agonia. Ante piadas
ou notícias tristes, ou leituras de poemas, sua reação era sempre uma nulidade
enigmática. Guardava a chave, no cofre do pensamento, sua impressão sobre tudo.
Não podia se comunicar, a doença lhe havia tirado todos os movimentos.
Meu amigo era um crítico famoso. Fui
um dos primeiros a saber de sua morte, não quis dar publicidade. Meia hora
depois as redes sociais fervilhando de homenagens póstumas, e eu calado. O
jornalista me liga, pedindo uma declaração de escritor local sobre a perda do
grande crítico, dei uma desculpa e silêncio. A noite que antecedeu a notícia da
morte, às seis da manhã, foi um Getsêmani. Eu estava em Porto, nada Alegre.
Sofri miseravelmente minhas perdas, inclusive a do gato preto, e confesso que
não fui muito digno no sofrimento. Às seis, quando ainda não dormia, veio a
notícia da morte do meu amigo. Às sete uma mensagem via WhatsApp, do porteiro
do prédio, que havia capturado o gato preto fujão. Voltei de noite.
Minha amiga me esperava de branco, um
jantar amoroso, a casa incensada, flores no vaso. Demos um abraço muito
demorado, comemos e nos amamos a noite inteira. Pela manhã ela me acompanhou ao
funeral.
Retomo o ponto inicial: o culto dos
membros da Universal, meu amigo com a mesma expressão neutra, que inclusive
manteve ao me ver entrar no velório. Fez um longo estágio para ser um cadáver,
agora estava livre, sua alma grande e culta flanava alhures, nas altas rodas
literárias talvez, deixou ali no corpo inerte aquele sorriso sereno.
Cansados do longo combate do amor,
havíamos acordado em cima da hora, de modo que chegamos em jejum. Do enterro,
convidei minha amiga pra um café na padaria, nosso ritual das manhãs. E aqui a
primeira revelação do dia:
Um bêbado engatava aquela que devia
ser a décima cerveja da manhã. Brincou comigo por eu pedir uma média, fui
educado, o que o fez pensar que ia esticar a conversa. Deixei-o falando só, no
meu característico mau humor. Insistiu com outros gracejos e acabou desistindo.
Gosto de ver minha amiga comer pão com
manteiga na chapa. Esta visão sentimental me fez dirigir uma despedida amigável
pro bêbado. Ele parou, solene, e proferiu a frase mais inusitada e pertinente
do mundo:
"Desculpe a minha inconveniência.
Na vida, ou se é um autor publicado, ou se é esquizofrênico. E eu sou
esquizofrênico."
"O senhor me conhece?"
"Não."
Vi que falava a um louco, e que os
loucos encontram razões estranhas nas suas falas.
Aconchegado no seio de minha amiga
rimos daquela revelação. Estávamos na fila do caixa. Segunda revelação: uma
senhorinha de cabelo azulado nos olhou e disse:
"Como o amor é lindo. São casados
há muito tempo?"
"Nos casamos esta noite." - respondi. E rimos todos, inclusive meu amigo Alfredo Monte, agora liberto da limitação de um corpo.
Germano Quaresma, ou Manoel Herzog,
nasceu em Santos, São Paulo, em 1964.
Criado na cidade de Cubatão,
trabalhou na indústria química
e formou-se em Direito.
Estreou na literatura em 1987
com os poemas de Brincadeira
Surrealista.
É autor dos romances
A Jaca do Cemitério É Mais Doce
(2017),
Dec(ad)ência (2016), O Evangelista
(2015)
e Companhia Brasileira de Alquimia
(2013),
além dos livros de poemas
6 Sonetos D’amor em Branco e Preto
(2016)
e A Comédia de Alissia Bloom (2014).



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