"BLUE MOON", MAIS UMA PARCERIA ESPETACULAR DO ATOR ETHAN HAWKE COM O DIRETOR RICHARD LINKLATER (por Fábio Campos)
Tenho grande
admiração pelo diretor Richard Linklater, poucos diretores no cinema atual
conseguem escolher projetos tão interessantes e diversos.
Desde a trilogia
do "Antes", passando por "Boyhood", até "Nouvelle Vague" e "Blue Moon", ambos lançados
ano passado, Linklater faz cinema de primeira.
Num cinema cada
vez mais centrado em ação e efeitos visuais, onde os espectadores têm cada vez
mais dificuldade de manter a concentração, chega a ser heroico fazer um filme
totalmente focado em diálogos.
Já foi assim na
deliciosa trilogia do "Antes", acompanhamos por três filmes, através de diálogos,
o encanto, os dilemas, as virtudes, as fraquezas e decepções de possíveis
amantes em três diferentes fases da vida.
Em "Nouvelle Vague",
também lançado recentemente, acompanhamos as filmagens de "Acossado", de Godard, que
revolucionou o cinema da época, com recriações deliciosamente bem-feitas de
cenas icônicas do filme.
Em "Blue Moon", que
aqui recebeu o subtítulo de “Música e Solidão” e está estreando na HBO, estamos
por algumas horas confinados num bar, em tempo real, cercados de figuras
interessantíssimas.
Ethan Hawke,
merecidamente indicado ao Oscar, faz Lorenz Hart, que formou uma dupla de
sucesso com Richard Rodgers criando musicais icônicos na Broadway.
A dupla não podia
ser mais heterogênea, são talentosíssimos, mas, enquanto Hart é baixinho, com
uma calvície acentuada, alcoólatra e boêmio, Rodgers é bonito, disciplinado e,
cansado dos excessos do parceiro, está iniciando uma dupla com Oscar
Hammerstein que se transformará na dupla de maior sucesso da história dos
musicais.
Pouco antes do
final da sessão de estreia de Oklahoma, o primeiro musical da dupla que se
tornará famosa, Hart se encaminha para um bar, claramente incomodado com o que assistiu.
Apesar de claramente homossexual, Hart está aguardando sua paixão platônica, Elizabeth, a maravilhosa Margareth Qualley, e planeja se declarar nessa noite.
A partir daí, através dos diálogos deliciosos, o filme discute o alcoolismo, a decadência, o amor improvável e não correspondido, amizade, interesse, fama, sucesso e, claro, as tais “música e solidão” do subtítulo.
Lorenz Hart é uma
figura fascinante, talentoso, sabe que está decadente, sucumbindo ao vício, mas
luta desesperadamente para manter a relevância.
Sua paixão por
alguém bem mais jovem e totalmente improvável talvez seja a fantasia ideal para
alguém que sente a decadência, mas ainda acredita no seu talento e poder de
sedução. A relação entre os dois é, ao mesmo tempo, ingênua, cínica, cruel e
garante momentos emocionantes.
A relação entre Hart
e Rodgers e o ciúme do novo parceiro rendem ótimos momentos. Os diálogos
afiados com o bartender, Eddie, vivido por Bobby Cannavale, e um aspirante a
músico são outro ponto alto do filme.
"Blue Moon" é um grande filme, de um
cineasta que somente no ano passado conseguiu entregar dois filmes que passam
longe da mesmice do cinema atual.
PS: Esta não foi a primeira vez que Lorenz Hart foi alvo de uma cinebiografia. "Words and Music" (Minha Vida É Uma Canção), de 1948, com Mickey Rooney como Hart, foi um grande sucesso na época. Reprisa com frequência na programação do Canal TCM, que mantém todo o acervo clássico de musicais da Metro Goldwyn-Mayer.
Veja o trailer abaixo:
Fábio
Campos convive com filmes e música desde que nasceu, 52 anos atrás.
Seus
textos sobre cinema passam ao largo do vício da objetividade que norteia a
imensa maioria dos resenhistas.
Fábio
é colaborador de LEVA UM CASAQUINHO desde o começo, em 2015.



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